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A Grande Onda de Kanagawa

A Grande Onda de Kanagawa , mais conhecida simplesmente como A Onda é uma famosa xilogravura do mestre japonês Hokusai, especialista em ukiyo-e. Foi publicada em 1830 ou 1831 como a primeira pintura na série Trinta e seis vistas do monte Fuji, sendo a obra mais conhecida do artista. Nesta gravura observa-se uma enorme onda que ameaça um barco de pescadores, na província de Kanagawa, estando o monte Fuji visível ao fundo. Apesar da sua dimensão, esta onda pode não retratar um tsunami, mas uma onda normal criada pelo efeito do vento e das marés. Como os outros trabalhos da série, é retratada uma área em redor do monte Fuji, sob circunstâncias bem definidas.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 22/06/2026
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Contexto

A arte do ukiyo-e

O ukiyo-e (浮世絵; literalmente, "pinturas do mundo flutuante") é uma técnica de xilogravura japonesa, muito popular durante o período Edo da história do Japão. A técnica de gravura, a partir de pranchas de madeira, foi introduzida no Japão no século VIII procedente da China e foi empregue a partir desse momento nomeadamente na ilustração de textos budistas. A partir do século XVII, esta técnica foi usada para ilustrar poemas e romanceiros. Nesta época surgiu propriamente o estilo do ukiyo-e, o qual refletia a vida e interesses dos estratos mais baixos da sociedade: mercadores, artistas e ronins, que estavam desenvolvendo a sua própria arte e literatura em zonas urbanas como Edo (atual Tóquio), Osaca e Sakai, num movimento conhecido posteriormente como ukiyo, o mundo flutuante. Foi o romancista Assai Ryōi que, em 1661, definiu o movimento no seu livro Ukiyo-monogatari:

Katsushika Hokusai

Hokusai nasceu em 1760, em Katsushika, um distrito a leste de Edo (atual Tóquio), no Japão. Foi chamado Tokitarō, foi filho de um fazedor de espelhos do shōgun e, devido a que nunca foi reconhecido como herdeiro, é provável que a sua mãe fosse uma concubina. Hokusai começou a pintar aos 6 anos e aos 12 anos seu pai enviou-o a trabalhar em uma livraria. Aos 16 anos tornou-se aprendiz de gravador, atividade que desenvolveu durante 3 anos, ao mesmo tempo em que começou a fazer as suas próprias ilustrações. Aos 18 anos foi aceito como aprendiz do artista Katsukawa Shunshō, um dos maiores artistas de ukiyo-e do seu tempo. Após 1 ano com o seu mestre, este deu-lhe o nome de Shunrō, passando então a utilizá-lo na assinatura dos seus primeiros trabalhos no mesmo ano de 1779.

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Imagem

Descrição

Esta impressão é do tipo ukiyo-e, ou seja, em forma de paisagem e foi realizada com um tamanho ōban, de 25 cm de altura por 37 cm de largura. A paisagem é composta de três elementos: o mar agitado por uma tormenta, três barcos e uma montanha, imagem que se complementa com a assinatura, claramente visível na parte superior esquerda. A montanha ao fundo é o Monte Fuji, cujo cume nevado é evidente. O Fuji é a figura central da obra de meisho-e (representação de lugares famosos) Trinta e seis vistas do monte Fuji, que retrata o monte visto de diferentes ângulos. Cabe destacar-se que no Japão esta montanha foi considerada sagrada e símbolo de identidade nacional, além de a sua imagem ter sido usada na arte nacional devido a que é considerado como um símbolo de beleza.

Concepção da obra

Durante a etapa de composição da obra, Hokusai encontrava-se num momento de muitas dificuldades. Em 1826 tinha sérios problemas econômicos, em 1827 aparentemente teve um forte problema de saúde - provavelmente um infarto - ao ano seguinte faleceu a sua esposa e em 1829 teve de resgatar o seu neto de problemas econômicos, situação que o levou à pobreza. Apesar de em 1830 enviar seu neto ao campo com seu pai - filho adotivo de Hokusai -, as repercussões financeiras continuaram por vários anos, período durante o qual esteve trabalhando na série Trinta e seis vistas do monte Fuji. É talvez por estes problemas que o objetivo da série parece ser o de contrastar o sagrado monte Fuji com a vida secular.

Expressão do artista

Na obra Hokusai reúne e ensambla diversos temas que aprecia particularmente. O monte Fuji é representado como um ponto azul com branco, que lembra a onda do primeiro plano. A imagem é tecida a partir de curvas: a superfície da água é a ampliação das curvas do interior das ondas. As curvas da espuma da grande onda geram outras curvas que se dividem em muitas ondas pequenas que repetem a imagem da onda mãe. Esta decomposição em fractais pode ser considerada como uma representação do infinito. Os rostos dos pescadores são manchas brancas que fazem eco das gotas de espuma que se projetam da onda. De um enfoque puramente subjetivo, a onda geralmente é descrita como a produzida por um tsunami ou uma onda gigante, mas é também descrita como uma onda monstruosa ou fantasmagórica, como um esqueleto branco que ameaça os pescadores com as suas "garras" de espuma. Esta visão fantástica da obra recorda que Hokusai era mestre da fantasia japonesa, como o demonstram os fantasmas que desenhou no seu Hokusai manga. De fato, um exame da onda do lado esquerdo mostra muitas mais "garras" prontas para apresar os pescadores que se encontram detrás da faixa de espuma branca. A partir de 1831 e 1832, Hokusai começou a abordar os temas sobrenaturais de um modo mais explícito na série Hyaku monogotari, "Conto de cem [fantasmas]".

Sentido da leitura

Se bem que a língua japonesa é lida verticalmente, é importante salientar que é lida da direita para a esquerda. Esta diferença causa que a primeira impressão do quadro de um japonês não ser a mesma que para um ocidental. Para um ocidental, a imagem pode dar a impressão dos pescadores se dirigirem para o lado direito, ou seja, provenientes da península de Izu. Os pescadores são apanhados pela onda ou talvez tentam fugir dela. Para o observador japonês, os barcos procedem da direita da imagem, dirigindo-se para a esquerda, isto é, em sentido contrário à onda. Os pescadores estão frente às costas de Kanagawa regressando de Edo, seguramente após ter vendido o peixe. Em lugar de fugirem da onda têm de seguir por essa rota e encará-la com toda a sua violência. Da perspectiva de um japonês, de direita a esquerda, a imagem é mais forte, tornando a ameaça da onda mais evidente.

Influência ocidental na obra

Na pintura tradicional japonesa e na do Extremo Oriente em geral, os objetos não eram desenhados em perspectiva, senão, assim como no antigo Egito, o tamanho dos objetos ou das personagens não depende nem da sua proximidade nem da sua distância, mas da importância do sujeito dentro do contexto. Em uma paisagem na qual as personagens aparecem com maiores dimensões, pode-se entender que são o verdadeiro sujeito da imagem, enquanto árvores e montanhas circundantes são reduzidos, isto com a intenção de que não açambarquem a atenção das personagens principais. O conceito de linha de fuga não existia. A perspectiva, usada nas pinturas ocidentais a partir dos trabalhos de Paolo Uccello e Piero della Francesca, chegou ao Japão no século XVIII através de gravuras trazidas pelos comerciantes ocidentais (especialmente holandeses) que desembarcavam a Nagasaki. As primeiras tentativas de copiar o uso da perspectiva ocidental foram levados a cabo por Okumura Masanobu e especialmente por Utagawa Toyoharu, quem até mesmo por volta de 1750 realizou algumas gravuras nas quais representava em perspectiva os canais de Veneza ou as ruínas da antiga Roma. Graças à obra de Toyoharu, a xilogravura japonesa de paisagens veio sumamente influenciada, evoluindo com os trabalhos de Hiroshige —estudante indireto de Toyoharu através de Toyohiro— e de Hokusai. Hokusai familiarizou-se com a perspectiva ocidental desde a década de 1790 mediante as pesquisas de Shiba Kōkan, de cujo ensino se beneficiou. Entre 1805 e 1810 publicou uma série intitulada Espelho de imagens holandesas - Oito vistas de Edo.

Influência na arte ocidental

Tão somente 4 anos depois da morte de Hokusai, o comodoro Matthew C. Perry chegou à baía de Edo e obrigou o Japão a terminar com o seu período de seclusão, conhecido como sakoku, de modo que a arte japonês chegou à Europa. A visão artística do Extremo Oriente era totalmente nova e rompia com as convenções em pintura da época. Assim surgiu o japonismo. Entre os principais artistas que influíram os europeus estavam Hokusai, Hiroshige e Utamaro. As primeiras exibições de arte japonesa decorreram na França, onde pequenos grupos de interessados -entre os que se destacam os irmãos Goncourt- exibiam as obras adquiridas em Paris. As Trinta e seis vistas do monte Fuji foram uma importante fonte de inspiração para os artistas europeus e japoneses do século XIX. Personalidades como Vincent van Gogh, Claude Monet, Edgar Degas, Auguste Renoir, Camille Pissarro, Gustav Klimt, Giuseppe De Nittis e Mary Cassatt contaram com gravuras da série.

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Exemplares no mundo

No mundo existem várias cópias deste trabalho. O Museu Metropolitano de Arte de Nova Iorque, o Museu Britânico em Londres, a coleção de Claude Monet em Giverny, França, a Galeria Sackler, o Museu Guimet e a Biblioteca Nacional de França são alguns dos lugares nos quais se conta com alguma das cópias para a sua exposição. Algumas coleções privadas também contam com alguma cópia, como no caso da coleção Gale, nos Estados Unidos. Foram os grandes colecionadores privados do século XIX os que deram nascimento às coleções de xilogravuras nos museus. Por exemplo, a cópia que se encontra no Museu Metropolitano provém da antiga coleção de Henry Osborne Havemeyer, exemplar que foi donado pela senhora Havemeyer em 1929. Do mesmo jeito, o exemplar da Biblioteca Nacional de França foi adquirido em 1888 da coleção de Samuel Bing. Quanto à cópia do Museu Guimet, esta provém do legado de Raymond Koechlin e encontra-se no museu desde 1932.

Diferenças entre as versões

Ao ser a série um grande sucesso, fez que se continuassem fazendo cópias até as pranchas ficarem com um desgaste importante. É provável que das pranchas originais fossem feitas ao redor de 5000 cópias. É possível determinar o grau de dano que tinham as pranchas ao momento de impressão de uma cópia determinada graças à análise de dois pontos característicos. O primeiro deles encontra-se logo detrás do barco da direita que aparece na imagem. Em casos de impressões com pranchas gastas, a linha não aparece contínua. O segundo ponto está no lado esquerdo do requadro da assinatura, no qual as linhas que o formam devem aparecer contínuas. Outro aspecto a considerar é o estado de conservação das impressões, o qual pode ser observado facilmente de acordo à pigmentação do céu na parte superior. Gravuras com um bom grau de conservação, como é o caso da cópia que está no Museu Metropolitano, conservam a cor autêntica, na qual se observa um contraste marcado com as nuvens. Dado que muitas reproduções se perderam ao longo da história em guerras, tremores, incêndios e demais desastres naturais, existem poucas cópias com um bom estado de conservação e elaborados com as beiras das pranchas ainda afiadas.

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Na cultura popular

Devido à sua enorme popularidade e ao fato de a obra estar no domínio público, são numerosas as reproduções feitas de A grande onda de Kanagawa usadas em publicidade, arte ou objetos cotidianos. A seguir indicam-se as mais destacadas:

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Médios de comunicação

A grande onda foi motivo de programas especiais e documentários. Em francês está La menace suspendue: La Vague, documentário de 29 minutos de duração de 2000. Em inglês a BBC transmitiu um programa especial a 17 de abril de 2004 como parte da série Private Life Of A Masterpiece, além de a xilogravura ter sido escolhida para ser parte da série A History of the World in 100 Objects, que será produzida com o Museu Britânico. O quadro será o objeto número 93 e estará na emissão de 4 de setembro de 2010.

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Fontes consultadas

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