Abolição do Califado
O Califado Otomano, o último califado amplamente reconhecido do mundo, foi abolido em 3 de março de 1924 por decreto da Grande Assembleia Nacional da Turquia. O processo foi uma das Reformas de Atatürk após a substituição do Império Otomano pela República da Turquia. Abdul Mejide II foi deposto como o último califa otomano.
No final do século XIX, o sultão otomano Abdulamide II lançou seu programa pan-islâmico em uma tentativa de proteger o Império Otomano de ataques e desmembramentos ocidentais e de esmagar a oposição democrática interna. Ele enviou um emissário, Jamāl al-Dīn al-Afghānī, para a Índia Britânica no final do século XIX. A causa do monarca otomano evocou paixão religiosa e simpatia entre os muçulmanos indianos. Um grande número de líderes religiosos muçulmanos começou a trabalhar para espalhar a conscientização e desenvolver a participação muçulmana em nome do califado; destes, Maulana Mehmud Hasan tentou organizar uma guerra nacional de independência contra o Raj Britânico com o apoio do Império Otomano.
Após a derrota otomana na Primeira Guerra Mundial, o sultão otomano, sob a direção dos Aliados, tentou suprimir os movimentos nacionalistas e obteve uma fatwa oficial do Shaykh al-Islām declarando que eles eram anti-islâmicos. Mas os nacionalistas ganharam força e começaram a contar com amplo apoio. Muitos sentiam que a nação estava pronta para a revolução. Em um esforço para neutralizar essa ameaça, o sultão concordou em realizar eleições, com a esperança de apaziguar e cooptar os nacionalistas. Para sua consternação, os grupos nacionalistas venceram as urnas, levando as Potências Aliadas a dissolver a Assembleia Geral do Império Otomano em abril de 1920. No final da Guerra da Independência da Turquia, a Grande Assembleia Nacional do Movimento Nacional Turco votou pela separação do califado do sultanato e aboliu este último em 1 de novembro de 1922. Inicialmente, a Assembleia Nacional parecia disposta a permitir um lugar para o califado no novo regime, e Mustafa Kemal não ousou abolir o califado de uma vez, pois ele ainda contava com um grau considerável de apoio do povo comum. O califado foi simbolicamente investido na Casa de Osmã. Em 19 de novembro de 1922, o príncipe herdeiro Abdul Mejide II foi eleito califa pela Assembleia Nacional Turca em Ancara. Ele se estabeleceu em Istambul (na época Constantinopla) em 24 de novembro de 1922. Mas a posição tinha sido despojada de qualquer autoridade, e o reinado puramente cerimonial de Abdul Mejide seria de curta duração.
Em Março de 1924, Muhammad al-Jizawi, Reitor da prestigiosa Universidade Al-Azhar do Cairo, em resposta directa ao colapso e à questão da pregação num tal ambiente, formulou uma resolução: Considerando que o Califado no Islão implica o controlo geral dos assuntos espirituais e temporais do Islão; Considerando que o Governo turco privou o califa Abdul Mejide dos seus poderes temporais, desqualificando-o assim para se tornar califa no sentido exigido pelo Islão; visto que em princípio o Califa está destinado a ser o representante do Profeta, salvaguardando tudo o que diz respeito ao Islão, o que significa necessariamente que o Califa deve ser sujeito de respeito, veneração e obediência; e que o califa Abdul Mejide já não possui essas qualificações e nem sequer tem o poder de viver na sua terra natal; agora, portanto, foi decidido convocar uma conferência islâmica na qual todas as nações muçulmanas estarão representadas, a fim de considerar quem deve ser nomeado califa....
Com o fracasso do mundo muçulmano em chegar a um consenso sobre o estabelecimento de um novo Califado, a instituição do Califado entrou em um período de dormência. No Egito, o debate centrou-se num livro controverso de Ali Abdel Raziq que defendia um governo secular e era contra um califado. Hoje em dia, existem dois quadros de coordenação pan-islâmica: a Liga Mundial Muçulmana e a Organização para a Cooperação Islâmica, ambas fundadas na década de 1960. O grupo mais ativo que existe para restabelecer o califado é o Hizb ut-Tahrir, fundado em 1953 como uma organização política na então Jerusalém controlada pela Jordânia por Taqiuddin al-Nabhani, um estudioso islâmico e juiz do tribunal de apelações de Haifa. Esta organização espalhou-se por mais de 50 países e cresceu até atingir um número de membros estimado entre "dezenas de milhares" e "cerca de um milhão". Organizações islâmicas como o Estado Islâmico Federado da Anatólia (com sede na Alemanha, 1994-2001) e o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (1999-presente, declaração de califado em 2014) declararam que tinham restabelecido o Califado, embora estas alegações tenham recebido pouco reconhecimento por parte de outros muçulmanos.


