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Acidente radiológico de Goiânia

O Acidente radiológico de Goiânia, amplamente conhecido como acidente com o césio-137, foi um grave episódio de contaminação por radioatividade ocorrido na cidade de Goiânia – Goiás, no Brasil. A contaminação teve início em 13 de setembro de 1987, quando um aparelho de radioterapia foi encontrado dentro de uma clínica abandonada.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 02/07/2026
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Fonte contaminadora

A contaminação em Goiânia originou-se de uma cápsula que continha cloreto de césio — um sal obtido a partir do radioisótopo 137 do elemento químico césio. A cápsula radioativa era parte de um equipamento radioterapêutico, dentro do qual se encontrava revestida por uma caixa protetora de aço e chumbo. Esta caixa protetora possuía uma janela feita de irídio, que permitia a passagem da radiação para o exterior. A caixa contendo a cápsula radioativa estava, por sua vez, posicionada num contentor giratório que dispunha de um colimador, que servia para direcionar o feixe radioativo, bem como para controlar a sua intensidade. Não se pôde conhecer ao certo o número de série da fonte radioativa, mas pensa-se que ela tenha sido produzida por volta de 1970 pelo Laboratório Nacional de Oak Ridge, nos Estados Unidos. O material radioativo dentro da cápsula totalizava 0,093 kg, e a sua radioatividade era, à época do acidente, de 50,9 TBq (= 1 375 Ci).

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Eventos

Origem do acidente

O Instituto Goiano de Radioterapia (IGR) era um instituto privado, localizado na Avenida Paranaíba, no centro de Goiânia. O equipamento que gerou a contaminação na cidade entrou em funcionamento em 1971, tendo sido desativado em 1985, quando o IGR deixou de operar no endereço mencionado. Com a mudança de localização, o equipamento de radioterapia foi abandonado no interior das antigas instalações. A maior parte das edificações pertencentes à clínica foi demolida, mas algumas salas — inclusive aquela em que se localizava o aparelho — foram mantidas em ruínas. Havia uma disputa judicial entre o Instituto Goiano de Radioterapia (IGR) e a Sociedade de São Vicente de Paula, que era dona do terreno e havia cedido o local com a condição de que o instituto realizasse, periodicamente e de maneira gratuita, exames radiológicos nos pacientes da Santa Casa de Misericórdia. Alegando que o IGR não estava cumprindo com o acordo, a sociedade ingressou com uma ação de despejo em 1984 e decidiu vender o terreno para o Instituto de Previdência e Assistência do Estado de Goiás (IPASGO).

Desmonte do equipamento radiológico

No estágio de abandono em que o prédio se encontrava, tomado pelo mato e sem portas e janelas, o equipamento foi encontrado por dois rapazes, Roberto dos Santos Alves e Wagner Mota Pereira, que pensaram haver algum valor de mercado após o desmonte e separação das peças. Em 13 de setembro, retiraram o aparelho da clínica, e já no dia seguinte sofreram sintomas de contaminação radioativa, acreditando que o mal-estar tinha sido apenas culpa da alimentação. Cinco dias depois, a peça foi vendida a um ferro-velho. Foi no ferro-velho de Devair Ferreira que a cápsula de césio foi aberta para o reaproveitamento do chumbo. O dono do ferro-velho expôs ao ambiente 19,26 g de cloreto de césio-137 (CsCl), um sal muito parecido com o sal de cozinha (NaCl), mas que emite um brilho azulado quando em local desprovido de luz. Devair ficou encantado com o pó que emitia um brilho azul no escuro. Ele mostrou a descoberta para sua esposa, Maria Gabriela, bem como o distribuiu para familiares e amigos. O irmão de Devair, Ivo Ferreira, levou um pouco de césio para sua filha, Leide das Neves, que tocou na substância e ingeriu as partículas do césio junto com um ovo cozido que sua mãe havia preparado para o jantar. Outro irmão de Devair também teve contato direto com a substância. Pelo fato de esse sal ser higroscópico, ou seja, absorver a umidade do ar, ele facilmente adere à roupa, à pele e aos utensílios, podendo contaminar os alimentos e o organismo internamente. Entre os dias 19 e 26 de setembro, Devair mostrou a cápsula a diversas pessoas que passaram pelo seu ferro-velho. No dia 23 de outubro, morreram Leide e Maria Gabriela. Devair Ferreira passou pelo tratamento de descontaminação no Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro, e morreu sete anos depois.

Exposição à radiação

Poucas horas após a exposição ao material radioativo, os afetados começaram a desenvolver sintomas: náuseas, seguidas de tonturas, com vômitos e diarreias. Alarmados, os familiares dos contaminados foram inicialmente a drogarias procurar auxílio, alguns procuraram postos de saúde e foram encaminhados para hospitais.

Demora na detecção

Os profissionais de saúde, observando os sintomas, pensaram se tratar de algum tipo de doença contagiosa desconhecida, medicando os doentes em conformidade com os sintomas descritos. Maria Gabriela desconfiou que aquele pó que emitia um brilho azul era o responsável pelos sintomas que ocorriam na sua família. Ela e um empregado do ferro-velho levaram a cápsula de césio para a Vigilância Sanitária, onde ainda permaneceu durante dois dias abandonada sobre uma cadeira. Durante a entrevista com médicos, a esposa do dono do ferro-velho relatou para a junta médica que os vômitos e diarreia se iniciaram depois que seu marido desmontou aquele "aparelho estranho".

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Consequências

Após o acidente, moradores buscaram vender suas moradias e deixar o local. Entretanto, seus imóveis tiveram o valor reduzido pelo medo da população da existência de radiação no ar. Além da desvalorização dos imóveis, por muito tempo a população local sofreu discriminação devido ao medo de que a radiação fosse contagiosa, dificultando o acesso aos serviços, educação e viagens. Houve também uma queda significativa de estabelecimentos comerciais na região.

Vítimas fatais

A Associação das Vítimas do Césio 137 afirma que até o ano de 2012, quando o acidente completou 25 anos, cerca de 104 pessoas morreram nos anos seguintes pela contaminação, decorrente de câncer e outros problemas, e cerca de 1 600 tenham sido afetadas diretamente.

Contaminação

Após trinta anos do desastre radioativo, as várias pessoas contaminadas pela radioatividade reclamam por não estarem recebendo os medicamentos, que, segundo leis instituídas, deveriam ser distribuídos pelo governo. E muitas pessoas contaminadas ainda vivem nas redondezas da região do acidente, entre as Ruas 57, Avenida Paranaíba, Rua 74, Rua 80, Rua 70 e Avenida Goiás; essas pessoas não oferecem, contudo, mais nenhum risco de contaminação à população. Em uma casa em que o césio foi distribuído, a residente, esposa do comerciante vizinho à Devair, jogou o elemento radioativo no vaso sanitário e, em seguida, deu descarga. O imóvel ficou conhecido como "casa da fossa". Entretanto, a Saneago alegou que a casa não possuía fossa, sendo construída com cisterna, para a população não pensar que a água da cidade estaria hipoteticamente contaminada.

Revitalização da região

Somente no final dos anos 90, a região começou a passar uma imagem menos "assustadora" para os novos inquilinos, através de ações do município e do governo estadual para a revitalização da região, revalorizando as casas que estavam nas imediações do acidente. Em questão de poucos anos, o valor das casas da região central já era entre duas a três vezes maior do que na época do acidente. No início de 2006, a prefeitura de Goiânia resolveu revitalizar o antigo Mercado Popular, sendo reinaugurado em novembro de 2006 com a edição 2007 da Casa Cor Goiás, com a presença de autoridades municipais e estaduais. Em fevereiro de 2007, o Mercado Popular passou a ser um ponto turístico da cidade, por possuir uma feira gastronômica todas as sextas-feiras à noite, sempre acompanhada de música ao vivo.

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Repercussão

O acidente foi descrito em vários documentários internacionais, além de filmes, programas de televisão, canções, artigos acadêmicos, teses, dissertações e livros. O acidente radioativo é mencionado no premiado curta-metragem Ilha das Flores, escrito e dirigido por Jorge Furtado. Em 1990, Roberto Pires dirigiu o filme Césio 137 - O Pesadelo de Goiânia, que faz uma dramatização do acidente. Em seu álbum de 1992, Amor y control, Rubén Blades dedicou a canção "El Cilindro" à tragédia de Goiânia. Um episódio do programa Linha Direta, exibido em 2007, relembrou o acidente radioativo com Césio-137 em Goiânia. Em março de 2026, a Netflix lançou a série Emergência Radioativa baseada nesse caso.

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Fontes consultadas

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