Acordo de Quebec
O Acordo de Quebec foi um acordo secreto entre o Reino Unido e os Estados Unidos que delineava os termos para o desenvolvimento coordenado da ciência e engenharia relacionadas à energia nuclear e, especificamente, às armas nucleares. Foi assinado por Winston Churchill e Franklin D. Roosevelt em 19 de agosto de 1943, durante a Segunda Guerra Mundial, na Conferência de Quebec em Quebec, Quebec, Canadá.
Tube Alloys
O nêutron foi descoberto por James Chadwick no Laboratório Cavendish da Universidade de Cambridge em fevereiro de 1932. Em abril de 1932, seus colegas do Cavendish, John Cockcroft e Ernest Walton, dividiram átomos de lítio com prótons acelerados. Em dezembro de 1938, Otto Hahn e Fritz Strassmann, em seu laboratório em Berlim-Dahlem, bombardearam urânio com nêutrons desacelerados, e descobriram que bário havia sido produzido. Hahn escreveu ao seu colega Lise Meitner, que, juntamente com seu sobrinho Otto Frisch, explicou que o núcleo do urânio havia sido dividido. Por analogia com a divisão das células biológicas, eles nomearam o processo de "fissão".
Primeiros esforços americanos
A perspectiva de que a Alemanha desenvolvesse uma bomba atômica também era motivo de grande preocupação para os cientistas dos Estados Unidos, especialmente para aqueles refugiados da Alemanha Nazista e de outros países fascistas. Em julho de 1939, Leo Szilard e Albert Einstein haviam escrito uma carta alertando o Presidente dos Estados Unidos, Franklin D. Roosevelt, sobre o perigo. Em resposta, Roosevelt criou um Comitê Consultivo sobre Urânio em outubro de 1939, presidido por Lyman Briggs do National Bureau of Standards. As pesquisas concentraram-se na fissão lenta para a produção de energia, mas com crescente interesse na separação de isótopos. Em 12 de junho de 1940, Vannevar Bush, presidente da Instituição Carnegie de Washington, e Harry Hopkins, importante conselheiro do presidente, apresentaram ao Chefe de Estado uma proposta para a criação de um Comitê de Pesquisa de Defesa Nacional (NDRC) para coordenar pesquisas relacionadas à defesa. O NDRC foi formalmente criado em 27 de junho de 1940, com Bush como seu presidente. Ele incorporou o Comitê Consultivo sobre Urânio – que havia ultrapassado seu papel original e passava a dirigir as pesquisas – transformando-o no Comitê de Urânio do NDRC.
Roosevelt considerou tão importante a proposta de um projeto conjunto que determinou que a carta fosse entregue pessoalmente por Frederick L. Hovde, chefe da missão do NDRC em Londres, mas Churchill só respondeu em dezembro. Ele garantiu a Roosevelt sua disposição em colaborar e informou que Hovde já havia discutido o assunto com Sir John Anderson e Lord Cherwell (como passou a ser conhecido Frederick Lindemann). O Comitê MAUD já havia avaliado a colaboração com os EUA e concluído que, embora pavilhões pilotos para a separação de isótopos pudessem ser estabelecidos no Reino Unido, instalações de produção em larga escala teriam que ser construídas nos EUA. Os britânicos expressaram preocupação com a segurança do projeto americano; ironicamente, foi o projeto britânico que já havia sido infiltrado por espiões atômicos. John Cairncross entregou uma cópia do relatório do Comitê MAUD à União Soviética. Ainda que tais informações não tenham sido repassadas aos americanos, os britânicos temiam que, após a guerra, se os EUA adotassem o isolacionismo, como ocorreu após a Primeira Guerra Mundial, o Reino Unido tivesse que enfrentar sozinho a União Soviética. Assim, a oportunidade para um projeto conjunto foi perdida. A troca de informações entre britânicos e americanos continuou, porém, seus programas seguiram de forma separada.
Churchill abordou o assunto com Roosevelt quando se encontraram na Conferência de Washington em 25 de maio de 1943. Naquela tarde, foi agendada uma reunião entre Cherwell e Bush, no escritório de Hopkins na Casa Branca, com este último observando. Ambos expuseram suas posições, e Cherwell explicou que o interesse britânico no pós-guerra era possuir armas nucleares, e não aproveitar oportunidades comerciais. Hopkins reportou a Roosevelt, e Churchill e Roosevelt concordaram que a troca de informações deveria ser revista e que o projeto da bomba atômica seria conjunto. Hopkins enviou a Churchill um telegrama confirmando isso em 17 de junho, mas a política americana não se alterou, em grande parte porque Roosevelt não informou Bush em seu próximo encontro, ocorrido em 24 de junho. Bush estava em Londres em 15 de julho de 1943 para participar de uma reunião do Comitê Anti-Submarinos do Gabinete de Guerra britânico. Sir Stafford Cripps o levou a ver Churchill, que disse a Bush que o Presidente havia dado sua palavra de honra quanto à cooperação plena e que estava indignado com os entraves causados pelos burocratas americanos. Bush sugeriu tratar o assunto com Stimson, que também se encontrava em Londres. Churchill fez isso em 17 de julho, e Stimson prometeu submeter o caso a Roosevelt. Em 20 de julho, Roosevelt enviou uma carta a Bush com a instrução de "renovar, de forma inclusiva, a troca completa com o Governo Britânico a respeito do Tube Alloys", mas, como Bush estava em Londres, só tomou conhecimento da carta dez dias depois. Stimson, Bush e o assistente especial de Stimson, Harvey Bundy, reuniram-se com Churchill, Cherwell e Anderson na 10 Downing Street em Londres, em 22 de julho; nenhum deles sabia que Roosevelt já havia tomado sua decisão.
Um processo rápido de elaboração do texto foi necessário, pois Roosevelt, Churchill e seus assessores políticos e militares reuniram-se na Conferência do Quadrante na Cidadela de Quebec em 17 de agosto, sob a organização do Primeiro-Ministro do Canadá, Mackenzie King. A maioria das discussões versou sobre a invasão da França. Embora o Acordo de Quebec fosse bilateral – o Canadá não o havia assinado – os britânicos consideraram que a contribuição canadense para o Tube Alloys era suficientemente relevante para exigir representação de alto nível. Assim, King foi solicitado a nomear um membro canadense para o Comitê de Política Combinada, e escolheu C. D. Howe, o Ministro de Munições e Abastecimento do Canadá. Os membros americanos seriam Stimson, Bush e Conant, enquanto os representantes britânicos seriam o Marechal Sir John Dill e o Coronel J. J. Llewellin. Em 19 de agosto, Roosevelt e Churchill assinaram o Acordo de Quebec, digitado em quatro páginas de papel timbrado da Cidadela, e intitulado formalmente "Artigos do Acordo que Regem a Colaboração entre as Autoridades dos EUA e do Reino Unido na Questão dos Tube Alloys". O Reino Unido e os EUA concordaram que "é vital para nossa segurança comum na presente Guerra levar o projeto Tube Alloys à fruição o mais rapidamente possível", e que isso seria melhor alcançado por meio da união de seus recursos. O Acordo de Quebec estipulava que:
Mesmo antes de o Acordo de Quebec ser assinado, Akers já havia enviado um telegrama para Londres com instruções de que Chadwick, Peierls, Oliphant e Simon deveriam partir imediatamente para a América do Norte. Eles chegaram em 19 de agosto, dia da assinatura, esperando poder dialogar com cientistas americanos, mas não conseguiram. Duas semanas se passaram antes que os oficiais americanos tomassem conhecimento do conteúdo do Acordo de Quebec. Bush disse a Akers que sua ação foi prematura e que o Comitê de Política Combinada precisaria primeiro concordar com as regras para o emprego de cientistas britânicos. Sem tarefas a realizar, os cientistas retornaram ao Reino Unido. Groves informou o OSRD do S-1 Executive Committee, que substituíra o Comitê S-1 em 19 de junho de 1942, em uma reunião especial realizada em 10 de setembro de 1943. O texto do Acordo de Quebec era, em partes, vago e continha brechas que Groves podia explorar para impor a compartimentalização. As negociações sobre os termos da troca técnica se prolongaram até dezembro de 1943. Os novos procedimentos entraram em vigor em 14 de dezembro, com a aprovação do Comitê de Política Militar (que regia o Projeto Manhattan) e do Comitê de Política Combinada. Nessa época, os cientistas britânicos já haviam iniciado trabalhos nos Estados Unidos.
Em setembro de 1944, realizou-se em Quebec uma segunda conferência de guerra, conhecida como a Conferência do Octógono. Após uma série de vitórias dos Aliados, os planos passaram a se concentrar no período pós-guerra. Posteriormente, Roosevelt e Churchill passaram algum tempo juntos na propriedade de Roosevelt, o Springwood estate, em Hyde Park, New York. Discutiram a colaboração pós-guerra em matéria de armas nucleares e, em 19 de setembro, assinaram o Aide-mémoire de Hyde Park, detalhando o acordo resultante das discussões. A maior parte do documento versa sobre as ideias de Bohr a respeito do controle internacional, mas também previa que "a colaboração plena entre os Estados Unidos e o Governo Britânico no desenvolvimento do Tube Alloys para fins militares e comerciais deve continuar após a derrota do Japão, salvo se for encerrada por acordo conjunto." Dos assessores de Roosevelt, apenas Hopkins e o Almirante William D. Leahy sabiam deste acordo secreto de guerra; Leahy, possivelmente por nunca ter acreditado no sucesso da bomba atômica – e, por isso, talvez não tenha prestado a devida atenção – lembrava-se de forma confusa do que fora dito. Quando Wilson levantou o Aide-mémoire de Hyde Park em uma reunião do Comitê de Política Combinada, em junho de 1945, a cópia americana não pôde ser localizada. Os britânicos enviaram a Stimson uma fotocópia em 18 de julho. Mesmo assim, Groves questionou a autenticidade do documento até que, muitos anos depois, a cópia americana fosse encontrada entre os arquivos do Vice-Almirante Wilson Brown, Jr., adido naval de Roosevelt, aparentemente arquivada erroneamente nos papéis de Hyde Park por alguém que não sabia o que era o Tube Alloys e que supunha tratar-se de algo relacionado a canhões navais ou tubos de caldeira.
Truman, que sucedeu Roosevelt após sua morte em 12 de abril de 1945, Clement Attlee, que substituiu Churchill como primeiro-ministro em julho de 1945, Anderson e o Secretário de Estado dos Estados Unidos James F. Byrnes conversaram durante um cruzeiro pelo Rio Potomac, e concordaram em revisar o Acordo de Quebec, visando substituí-lo por uma forma mais flexível de cooperação em assuntos nucleares entre os três governos. Groves, o Secretário da Guerra, Robert P. Patterson e o assessor de Patterson, George L. Harrison, reuniram-se com uma delegação britânica composta por Anderson, Wilson, Malcolm MacDonald, o Alto Comissário do Reino Unido no Canadá, Roger Makins da Embaixada Britânica em Washington, e Denis Rickett, assistente de Anderson, em 15 de novembro de 1945, para elaborar um comunicado. Ficou acordado em manter o Comitê de Política Combinada. A exigência do Acordo de Quebec de "consentimento mútuo" para o uso de armas nucleares foi substituída por "consulta prévia", e ficou estabelecido que haveria "cooperação plena e efetiva no campo da energia atômica"; porém, no Memorando de Intenções mais extenso, assinado por Groves e Anderson, tal cooperação restringia-se ao "campo da pesquisa científica básica". Patterson levou o comunicado para a Casa Branca, onde Truman e Attlee o assinaram em 16 de novembro de 1945. Um rascunho do acordo foi aprovado pelo Comitê de Política Combinada em 4 de dezembro de 1945 como base para a revogação do Acordo de Quebec.


