Guerra dos Trinta Anos
Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) é a denominação genérica de uma série de guerras que diversas nações europeias travaram entre si a partir de 1618, especialmente na Alemanha, por motivos variados: rivalidades religiosas, dinásticas, territoriais e comerciais. Foi um dos maiores e mais destrutivos conflitos da história, deixando um saldo de mais de oito milhões de mortos, sendo a maioria da Europa Central.
A Paz de Augsburgo (1555), assinada por Carlos V, Sacro Imperador Romano, confirmou o resultado da Dieta de Speyer (1526), encerrando a guerra entre luteranos e católicos alemães e estabelecendo que: Embora a Paz de Augsburgo tenha criado um fim temporário às hostilidades, ela não resolveu o conflito religioso subjacente, que foi tornado ainda mais complexo pela propagação do calvinismo em toda a Alemanha nos anos seguintes. Isso acrescentou uma terceira grande fé à região, mas sua posição não foi reconhecida de forma alguma pelos termos de Augsburg, nos quais apenas o catolicismo e o luteranismo eram partes. Os governantes das nações vizinhas ao Sacro Império Romano também contribuíram para a eclosão da Guerra dos Trinta Anos: O Sacro Império Romano era uma coleção fragmentada de estados amplamente independentes (uma fragmentação que a Paz da Vestfália solidificaria). A posição do Sacro Imperador Romano era principalmente titular, mas os imperadores da Casa de Habsburgo também governavam diretamente uma grande parte do território imperial (terras do arquiduque da Áustria e do Reino da Boêmia), bem como partes do Reino da Hungria. O domínio austríaco era, portanto, uma grande potência européia, governando mais de oito milhões de súditos.
O conflito se concentrou principalmente entre o Sacro Império Romano-Germânico, católico e dominado pela casa de Habsburgo, e um vasto conjunto de cidades e principados alemães protestantes, apoiados primeiro pelas principais potências anticatólicas, o Império Sueco e os Países Baixos, e depois também pela França católica, em mais um capítulo das antigas rivalidades entre os franceses e os Habsburgos. Esta guerra devastadora, talvez uma das mais ferozes na História da Europa, pode dividir-se em quatro períodos distintos, caracterizados pelos soberanos que, sucessivamente, lutaram contra o imperador, sustentáculo dos católicos.
Período Palatino-Boêmio (1618-1624)
De início, as tropas protestantes, comandadas pelo conde Henrique Matias von Thurn, tiveram algum sucesso; assim, a rebelião alastrou-se a outras partes dos domínios do império. Durante algum tempo, a cidade católica de Viena, a capital dos Habsburgos, foi ameaçada (1619) pelas tropas da União Evangélica. Nesse ano, a coroa de Fernando foi entregue pelos boêmios a Frederico V, chefe da União Evangélica e eleitor (um dos governadores que elegiam o imperador germânico) do Palatinado (ou Pfalz, região histórica da Alemanha, no vale do Reno). Algumas secções regionais desta União retiraram-se do conflito, pois Frederico era um calvinista, grupo com quem mantinham fortes divergências.
Período dinamarquês (1624-1629)
Na segunda fase da guerra, o conflito assumiu um carácter internacional numa altura em que os Estados germânicos protestantes buscavam ajuda no exterior contra os católicos. Países como a Inglaterra (anglicana) e a França (católica) estavam receosos do poder dos Habsburgos, mas estas duas nações, na altura aliadas contra a Espanha, não intervieram de imediato porque se debatiam com problemas internos. O único apoio surgiu do Norte, majoritariamente luterano. O imperador, orgulhoso do seu triunfo, pretendia obrigar os protestantes a devolver os bens eclesiásticos, que haviam sido secularizados. Os rebeldes pediram ajuda ao rei da Dinamarca e Noruega, Cristiano IV, protestante e príncipe do Império, pois possuía o ducado de Holstein (na atual Alemanha). Em 1625, Cristiano IV renovou a guerra contra os imperialistas católicos como líder de uma coligação contra os Habsburgos organizada pelos neerlandeses. Esta intervenção, porém, não assentava em motivações desinteressadas; os seus objetivos radicavam mais em ambições territoriais (para compensar a perda das províncias bálticas para a Suécia) e na vontade de acabar com o domínio dos Habsburgos no ducado dinamarquês de Holstein (fronteira norte da Alemanha).
Período sueco (1630-1635)
Na fase sueca, a seguinte, o cardeal e estadista francês, Richelieu, o implacável ministro de Luís XIII, pai de Luís XIV, estava preocupado com o sucesso dos Habsburgos. A França estava desorganizada internamente, sem condições para intervir diretamente na guerra. Assim, decidiu o cardeal aliciar para a tarefa o monarca sueco Gustavo II Adolfo, denominado "rei da neve", prometendo-lhe determinadas concessões e ajuda financeira. Gustavo Adolfo, que encerrara uma guerra de quatro anos com a Polônia, era um luterano, que já tinha sido contactado pelos povos protestantes do norte. Nestas circunstâncias, concordou em entrar no conflito pois perspectivava concretizar as suas ambições hegemônicas no Báltico. Dotado de superiores qualidades militares, colocou-se a frente de um exército bem instruído na tática dos fogos, formado principalmente de camponeses suecos e pequeno número de mercenários. A disciplina era severa e a pilhagem, proibida.
Período francês (1635-1648)
Esse período foi assim chamado porque Richelieu, após ter apoiado secretamente os adversários da casa de Áustria (Habsburgos), interveio diretamente contra ela, combatendo também a Espanha (aliada da Áustria que apoiava de forma decisiva o imperador). O absoluto ministro de Luís XIII, embora interessado no aniquilamento da Casa da Áustria, não pretendia intervir diretamente no conflito por ser o imperador austríaco defensor do catolicismo, mas as vitórias imperiais e a possibilidade da consolidação do poder dos Habsburgos o levaram a lutar ao lado dos protestantes do Império Sueco, Países Baixos e principados alemães. Os assuntos religiosos não eram então os mais importantes, neste novo período iniciado em 19 de maio de 1635, com a declaração de guerra da França à Espanha, o outro grande domínio Habsburgo na Europa, além da Áustria e regiões dependentes na Europa Central. A guerra converteu-se, portanto, num conflito pela hegemonia entre os Habsburgo e a França. Desse jeito, o conflito foi ampliado para quase todo o continente.
O papel da França
O papel da protagonista principal durante a Guerra dos Trinta Anos coube à França. No apogeu do conflito, o país chegou a contar com um exército de 100 mil homens e a firmar aliança com as Províncias Unidas, a Suécia, os príncipes alemães contrários à paz, a Confederação Helvética e alguns Estados italianos. Na organização estratégica de todos esses movimentos estava Armand Jean du Plessis, o cardeal de Richelieu (1585-1642), descrito por seus contemporâneos como uma figura mais próxima à Coroa do que do papa.
A Paz de Vestfália foi negociada durante três anos pelos representantes dos católicos e protestantes, reunidos em Münster (onde tinha precedência a França católica) e em Osnabrück (onde tinha precedência a Suécia protestante). As conversações de paz, iniciadas em 1644 em Münster e Osnabrück, envolviam o fim da Guerra dos Oitenta Anos entre Espanha e Países Baixos e da guerra dos trinta anos na Alemanha. O tratado de paz entre Espanha e Países Baixos foi assinado em 30 de janeiro de 1648; em 24 de outubro do mesmo ano foi assinado o tratado de paz entre o Sacro Império Romano-Germânico, os outros príncipes alemães, a França e o Império Sueco. Os tratados concluídos nessas duas cidades da Vestfália foram depois reunidos no Ato Geral de Vestfália em Münster em 24 de outubro de 1648. A assinatura da paz ratificou as cláusulas do Tratado de Augsburgo de 25 de setembro de 1555, incluindo o calvinismo, garantindo a protestantes e católicos a liberdade de culto. Assim, o mapa religioso da Europa ficaria imóvel, uma vez que a eventual conversão dos soberanos não acarretaria mudanças religiosas nos respectivos domínios. Ao mesmo tempo, não só o equilíbrio de poderes no continente europeu se viu alterado - com a Espanha a ceder a posição dominante à França - como também certas fronteiras foram redefinidas.
Com o fim definitivo do poder do Sacro Império Romano-Germânico, as pequenas nações germânicas estavam arrasadas economicamente. A guerra havia sido cruel em demasia com seus participantes em especial a região alemã que havia sido o principal campo de batalha; a civilização europeia havia chegado a um dos seus níveis mais baixos na questão cívica e humana. Era o início da hegemonia francesa na Europa e do declínio do poder dos Habsburgos. Os Estados onde hoje se encontra a Alemanha foram os que arcaram com o ônus da guerra, saíram derrotados, arruinados e devastados dos trinta anos de guerra. Os principais campos de batalhas dos intermitentes conflitos foram as cidades e principados que hoje formam a Alemanha, estes sofreram danos graves em suas cidades e campos. Muitos dos combatentes eram mercenários que tinham na pilhagem sua principal forma de pagamento. Assim, tomavam à força, onde paravam ou por onde passavam, os suprimentos necessários a sua manutenção e lucro, numa estratégia predatória que levou à destruição completa de inúmeras comunidades; depois da guerra, esses mercenários se tornaram ladrões e continuavam a assaltar as pessoas e roubar o que havia restado da guerra. Hoje estima-se que a população das cidades e principados da região alemã caiu pela metade depois da guerra; A destruição tomou tamanha proporção que vilas e cidades pequenas simplesmente deixaram de existir. Os Estados e Principados alemães levariam em torno de duzentos anos para se recuperarem da Guerra dos Trinta Anos.


