Akira Kurosawa
Akira Kurosawa ; nascido em Ōimachi, Ōmori, Shinagawa, Tóquio, Japão, em 23 de março de 1910 — falecido em Setagaya, Tóquio, Japão, em 6 de setembro de 1998) foi um cineasta, produtor, roteirista, montador, escritor e pintor japonês, considerado um dos mais importantes do século XX. Seus filmes influenciaram todas as gerações de diretores posteriores a ele.
Quando o contrato de exclusividade de Kurosawa com a Toho terminou em 1966, o diretor, que estava com 56 anos, estava pensando seriamente em mudanças. Observando o estado problemático em que se encontrava a indústria cinematográfica doméstica, e já tendo recebido dezenas de ofertas do exterior, a ideia de trabalhar fora do Japão o atraiu como nunca antes. Para seu primeiro projeto no exterior, Kurosawa escolheu uma história baseada em um artigo da revista Life. O thriller de ação da Embassy Pictures, a ser filmado em inglês e chamado de Runaway Train, seria o seu primeiro filme a cores. No entanto, a barreira linguística se provou ser um grande problema, e a versão em inglês do roteiro sequer chegou a ser finalizada na época que as filmagens deveriam começar, no outono de 1966. As filmagens, que requeriam neve, foram mudadas para o outono de 1967, e então canceladas em 1968. Quase vinte anos depois, outro estrangeiro trabalhando em Hollywood, Andrei Konchalovsky, iria finalmente fazer Runaway Train, embora a partir de um roteiro totalmente diferente do de Kurosawa.
Juventude
Akira, o mais novo de oito filhos de Shima e Isamu Kurosawa, nasceu num subúrbio de Tóquio em 23 de março de 1910. Shima Kurosawa tinha 40 anos de idade na época do nascimento de Akira, e Isamu, 45. Cresceu numa família com três irmãos mais velhos e quatro irmãs mais velhas. De seus três irmãos mais velhos, um morreu antes de Akira nascer e um já estava crescido e fora do lar. Uma das suas quatro irmãs mais velhas também havia deixado a casa para formar a sua própria família antes de Kurosawa nascer. A irmã que nascera logo antes de Kurosawa, a quem ele chamava de "Pequena Grande Irmã", também morreu repentinamente após uma curta doença quando ele tinha 10 anos de idade.
Diretor em treinamento (1935–1941)
Em 1935 o novo estúdio de filmes Photo Chemical Laboratories, conhecido como P.C.L. (que mais tarde se tornaria um grande estúdio, o Toho), aconselhado por diretores assistentes. Apesar de ele não ter demonstrado anteriormente qualquer interesse em filmes como uma profissão, Kurosawa apresentou o ensaio exigido, que pedia aos candidatos para discutir as deficiências fundamentais dos filmes japoneses e encontrar maneiras de corrigi-las. Sua visão, meio zombeteira, era que se as deficiências eram fundamentais, então não havia jeito de corrigi-las. O ensaio de Kurosawa rendeu-lhe um convite para fazer os exames de acompanhamento, sendo que o diretor Kajiro Yamamoto, que estava entre os examinadores, gostou de Kurosawa e insistiu para que o estúdio o contratasse. Com 25 anos de idade, Kurosawa foi contratado pela P.C.L. em fevereiro de 1936.
Filmes de Guerra e seu casamento (1942–1945)
Nos dois anos seguintes ao lançamento de Uma, em 1941, Kurosawa procurou por uma história que ele poderia usar para sua carreira de diretor deslanchar. No fim de 1942, cerca de um ano depois do começo da guerra entre Japão e Estados Unidos, o romancista Tsuneo Tomita publicou um romance de judô inspirado em Miyamoto Musashi chamado Sanshiro Sugata, cujos anúncios intrigaram Kurosawa. Ele comprou o livro no dia de sua publicação, leu-o de uma vez e imediatamente pediu para o estúdio Toho garantir os direitos para o filme. O instinto inicial de Kurosawa provou estar correto, visto que, depois de alguns dias, três outros grandes estúdios japoneses também se ofereceram para comprar os direitos. A Toho venceu e Kurosawa começou a pré-produção em sua estreia como diretor.
Primeiras obras pós-guerra (1946–1950)
Com o fim da Guerra, Kurosawa, absorvendo os ideais democráticos da ocupação, buscou fazer filmes que iriam estabelecer um respeito renovado pelo indivíduo e sua consciência. Como o cinema norte-americano em ascensão absoluta, Akira teve de adaptar seus temas, chegou a declarar: "Os americanos são bem firmes nisso.... se quer ter um sucesso acima deles, seja como eles". O primeiro desses filmes Waga seishun ni kuinashi (1946) (Sem arrependimentos de nossa juventude), inspirado pelo Incidente Takigawa e o caso de espionagem do período pré-guerra de Hotsumi Ozaki, ambos de 1933, criticava o regime do Japão pré-guerra por sua opressão política. Atipicamente para esse diretor, a personagem principal é uma mulher, Yukie (Setsuko Hara), nascida em uma família de classe média-alta, que questionava seus valores em uma época de crise política. O roteiro original teve de ser quase todo reescrito e, devido ao seu tema controverso (e porque a protagonista era uma mulher), a obra completa dividiu a crítica, mas, no entanto, ele conseguiu ganhar a aprovação do público, que transformou o título do filme ("Sem arrependimentos de...") em um bordão do pós-guerra.
Reconhecimento internacional (1950–1958)
Após terminar Shubun, Kurosawa foi abordado pelos Estúdios Daiei, que pediu ao diretor para fazer outro filme para eles. Kurosawa pegou um roteiro de um jovem roteirista aspirante, Shinobu Hashimoto (Eles mais tarde fariam nove filmes juntos). Era baseado no conto experimental Dentro de um Bosque, de Ryunosuke Akutagawa, que conta o assassinato de um samurai e o estupro de sua esposa de vários pontos de vistas diferentes e conflitantes. O diretor viu potencial no roteiro e, com a ajuda de Hashimoto, melhorou e expandiu e então entregou para a Daiei, que ficou feliz em aceitar o projeto dado o seu baixo custo. As filmagens de Rashomon começaram em 7 de julho de 1950 e, após extensivos trabalhos em locações nas florestas primitivas de Nara, foram concluídas em 17 de agosto. Apenas uma semana foi gasta com a pós-produção, prejudicada por um incêndio no estúdio, e o filme concluído estreou no Teatro Imperial de Tóquio em 25 de agosto, passando a ser exibido em rede nacional no dia seguinte. O filme recebeu críticas mornas, com muitos críticos perplexos pelo seu tema e tratamento único, mas foi, no entanto, um sucesso financeiro moderado para a Daiei.
Nascimento de uma companhia e o fim de uma era (1959-1965)
A partir de Rashomon, as produções de Kurosawa foram gradativamente tendo maior alcance assim como o orçamento disponível para o diretor. Os Estúdios Toho, preocupado com esse desenvolvimento, sugeriu que ele poderia ajudar financeiramente com suas obras, além de diminuir as perdas potenciais do estúdio, ao mesmo tempo que lhe permitia mais liberdade artística como coprodutor. Kurosawa concordou e a Companhia de Produção Kurosawa foi fundada em abril de 1959, com a Toho como maior acionista. Apesar de agora ele estar arriscando seu próprio dinheiro, Kurosawa escolheu uma história mais diretamente ligada às elites econômicas e políticas japonesas que seus trabalhos anteriores. Homem Mau Dorme bem, baseado em um roteiro do sobrinho de Kurosawa, Mike Inoue, é um drama de vingança sobre um jovem que sobe na hierarquia de uma empresa japonesa corrupta com a intenção de expor o homem responsável pela morte de seu pai. Seu tema se mostrou atual: enquanto o filme estava em produção, demonstrações em massa ocorreram contra o novo Tratado de Segurança EUA-Japão, que era visto por muitos japoneses, principalmente os jovens, como uma ameaça à democracia do país pois dava muito poder às corporações e aos políticos. O filme estreou em setembro de 1960 com uma reação positiva da crítica e um sucesso modesto de bilheteria. A sequência de abertura de 25 minutos, mostrando a recepção de um casamento corporativo interrompido por repórteres e policiais (que prendem um executivo por corrupção), é considerado por muitos como uma das cenas mais habilmente executadas por Kurosawa, mas o restante do filme é muitas vezes considerado desapontante, por comparação. O filme também foi criticado por empregar o herói Kurosawano convencional para combater um mal social que não pode ser resolvido pelas ações do indivíduo, apesar de corajoso e astuto.


