Albatroz
Os albatrozes, incluindo os piaus, da família biológica dos diomedeídeos (Diomedeidae), são aves marinhas de grandes dimensões que, em conjunto com os procelarídeos, painhos e petréis-mergulhadores, formam a ordem dos Procellariiformes ou Tubinares. Distribuem-se por quase toda a extensão do Oceano Antártico e norte do Oceano Pacífico. Os albatrozes estão entre as aves voadoras de maiores dimensões. Os grandes albatrozes, do género Diomedea têm a maior envergadura de asa de qualquer espécie não-extinta. Os albatrozes são geralmente distribuídos em quatro géneros, ainda que haja desacordo quanto ao número de espécies. Das 21 espécies de albatroz reconhecidas pela União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN), 19 estão ameaçadas de extinção.
Taxonomia e evolução
O número de albatrozes varia, consoante o autor, entre 13 e 24 espécies (incluindo os do género Phoebetria, ou piaus, que, para efeitos deste artigo, e de acordo com a nomenclatura internacional, serão considerados como "albatrozes"). Este é um assunto ainda em debate, ainda que o número mais aceite seja o de 21 espécies em 4 géneros: Diomedea (grandes albatrozes), Thalassarche (designados em inglês como mollymawks), Phoebastria (albatrozes do Pacífico Norte), e Phoebetria (os piaus). Os albatrozes do Pacífico Norte são considerados como um táxon-irmão dos grandes albatrozes, enquanto que os piaus se consideram como sendo mais próximos dos albatrozes do género Thalassarche.
Morfologia e voo
Os albatrozes constituem um grupo de aves de grande a muito grande porte, sendo os maiores dos Procellariiformes. O bico é grande, forte e aguçado nas extremidades, com a mandíbula superior a terminar num grande gancho, de forma a facilitar a captura de presas de corpo liso e rápido. O bico é composto de várias placas córneas (ranfotecas) distintas e, lateralmente, apresenta duas narinas tubulosas na forma de dois tubos que acompanham as faces laterais do bico, por onde fazem excreção de sal (e que davam o antigo nome da ordem: Tubinares). As narinas tubulosas de todos os albatrozes dispõem-se ao longo dos dois lados do bico, ao contrário dos outros Procellariiformes, em que os tubos apenas se dispõem no topo do bico. Estes tubos permitem, ainda, que os albatrozes tenham um sentido do olfacto especialmente desenvolvido, o que é raro entre as aves. Como os outros Procellariiformes, usam esta sua capacidade olfactiva enquanto procuram alimento. As patas não têm dedo oposto na parte posterior e os três dedos anteriores estão totalmente unidos por uma membrana interdigital, que lhes permite nadar, bem como pousar e decolar, deslizando sobre a água. As patas são particularmente fortes, tendo em conta que entre os Procellariiformes, apenas eles e os petréis-gigantes conseguem andar com eficiência em terra.
Distribuição geográfica
A maior parte dos albatrozes distribuem-se no hemisfério sul, desde a Antártida até à Austrália, África do Sul e América do Sul. As excepções incluem as quatro espécies do Pacífico Norte, sendo três exclusivamente desta região, do Hawaii ao Japão, Califórnia e Alasca; e uma, o albatroz-das-galápagos, que procria nas Ilhas Galápagos, mas que se alimenta nas costas sul americanas. A dependência em relação ao vento, necessário ao voo, justifica a confinação a latitudes elevadas, já que estas aves não têm capacidade para efectuar voo auto-sustentado, de modo com que tenham extrema dificuldade para conseguir cruzar a zona de convergência intertropical. A única excepção, o albatroz-das-galápagos, é capaz de viver em águas equatoriais em volta das Ilhas Galápagos devido às águas frias da Corrente de Humboldt e ventos daí resultantes.
Alimentação
A dieta dos albatrozes é dominada por cefalópodes, peixes e crustáceos, ainda que procedam à captura de cadáveres — incluindo restos de comida lançados de navios, que seguem por muito tempo — e à recolha de zooplâncton. Note-se que para um grande número de espécies só se conhece a dieta seguida durante o período de procriação, altura em que os albatrozes voltam regularmente a terra, tornando o seu estudo possível. A importância de cada um dos tipos de alimento referidos varia muito de espécie para espécie, e mesmo de população para população. Enquanto que alguns baseiam a sua alimentação em lulas, outros preferem krill ou peixe. Das duas espécies de albatroz encontradas no Hawaii, uma, o albatroz-patinegro, prefere peixe, enquanto que o albatroz-de-laysan captura essencialmente lulas.
Reprodução
Os albatrozes são aves marítimas coloniais, que nidificam geralmente em ilhas isoladas. Em territórios de carácter mais continental, encontram-se em promontórios com boa acessibilidade para o mar em praticamente todas as direcções, como na Península de Otago em Dunedin, na Nova Zelândia. As colónias variam desde agregados muito densos, típicas dos albatrozes do género Thalassarche, como nas colónias de albatrozes-de-sobrancelha (nas Malvinas têm uma densidade média de 70 ninhos/100 m²), até grupos menores e com ninhos individuais mais espaçados, típicos dos piaus e dos grandes albatrozes. Todas as colónias de albatrozes situam-se em ilhas que, em termos históricos, se apresentavam livres de mamíferos. Os albatrozes são muito filopátricos, o que significa que geralmente voltam para a sua colónia natal para procriar. Esta tendência é tão forte que um estudo sobre albatrozes-de-laysan demonstrou que a distância média entre o local de eclosão do ovo e o local onde a ave estabelece o seu próprio território é de 22 m.
Etimologia
O nome albatroz deriva do árabe al-câdous ou al-ġaţţās (um pelicano; que significa, literalmente, "o mergulhador"), que foi adoptado para o inglês pelo termo português alcatraz (ou "ganso-patola") — o mesmo que deu origem à famosa prisão da Ilha de Alcatraz. O Dicionário de Oxford comenta que a palavra alcatraz foi originalmente aplicado às fragatas; a modificação para albatroz foi provavelmente influenciada pelo termo latino albus, que significa "branco", em contraste com as fragatas que são negras. A palavra portuguesa albatroz é de origem inglesa. [carece de fontes?] Estas aves foram ainda conhecidas pelo termo em inglês Goonie birds ou Gooney birds, especialmente para se referir aos albatrozes do Pacífico Norte. No hemisfério sul, o nome mollymawk é ainda muito utilizado em algumas áreas geográficas, sendo uma corruptela de malle-mugge, um nome neerlandês para o fulmar-glacial. O nome da família, Diomedea, dado por Lineu faz referência à mítica metamorfose dos companheiros do guerreiro grego Diomedes em aves.
Albatrozes na cultura
Em "O Dicionário Khazar", Milorad Pávitch diz que "só os albatrozes se exprimem, em toda parte, com a mesma linguagem", o que caracteriza bem o seu estatuto de "mais lendária das aves". Um albatroz é o motivo principal da Balada do Velho Marinheiro de Samuel Taylor Coleridge, onde um albatroz é feito cativo. É também a metáfora do poeta maldito num poema de Charles Baudelaire. Foi no poema de Coleridge que o uso do albatroz como metáfora teve a sua origem: diz-se, em língua inglesa, que alguém com um fardo que se apresenta como um obstáculo para a consecução dos seus objectivos tem "um albatroz em torno do pescoço" (an albatross around their neck), que não é mais que o castigo infligido, no poema, ao marinheiro que matou o albatroz. Um cartoon no "The Economist", por Kevin Kallaugher apresentava, por exemplo, Tony Blair disfarçado de pomba da paz, fazendo referência às suas diligências para a paz no Médio Oriente, mas com um albatroz (a Guerra no Iraque) acorrentado ao pescoço Devido ao poema de Coleridge tornou-se vulgar pensar que os marinheiros consideravam de mau augúrio maltratar ou matar albatrozes, o que pouco correspondia à verdade, já que os matavam frequentemente por diversão ou ódio, ainda que permanecesse a superstição de que eram a encarnação de marinheiros mortos naufragados. [carece de fontes?]
Perigos ambientais e conservação
Apesar do seu estatuto lendário, os albatrozes têm sido particularmente dizimados directa ou indirectamente pelo ser humano. Os primeiros encontros de albatrozes e Indígenas Polinésios e Aleútes resultou na sua caça e, por vezes, na sua total extirpação de algumas ilhas, como na Ilha de Páscoa. Quando se ocorreu a Era das Grandes Navegações, começaram também a caçar albatrozes, "pescando-os" a partir dos barcos para serem comidos ou, simplesmente, disparavam contra eles por diversão. Este género de desporto tornou-se particularmente popular aquando da colonização da Austrália e só começou a decair quando os navios se tornaram demasiado rápidos para permitir qualquer tipo de pesca ou caça e vários regulamentos de segurança começaram a proibir a descarga de armas. No século XIX, as colónias de albatrozes, e particularmente as do Pacífico Norte, começaram a ser pilhadas pelo comércio de penas de albatroz, levando praticamente à extinção do albatroz-de-cauda-curta. De facto, a pele e as penas de albatroz podem ser utilizadas para a produção de mantas e outros artefactos conhecidos como manufacturas de "carneiro-de-cabo".
Actualmente é praticamente unânime que a família esteja dividida em quatro géneros. O número de espécies continua a ser polémico e não é definitivo. A IUCN e a BirdLife International entre outras organizações reconhecem a taxonomia interina de 21 espécies não extintas, enquanto que outras autoridades mantêm as tradicionais 14 espécies, havendo mesmo um estudo que propõe a sua redução para 13: As espécies dos géneros Thalassarche e Phoebastria são por vezes colocadas no género Diomedea: por exemplo, em vez de Thalassarche melanophris poderá aparecer Diomedea melanophris.


