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Nelson Mandela

Nelson Rolihlahla Mandela foi um advogado, líder rebelde e presidente da África do Sul de 1994 a 1999, considerado como o mais importante líder da África Subsaariana, vencedor do Prêmio Nobel da Paz de 1993, e pai da moderna nação sul-africana, onde é normalmente referido como Madiba ou "Tata" ("Pai").

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 20/07/2026
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Contexto histórico

Ao longo do tempo, ocorreu a interiorização sul-africana dos bôeres (descendentes de colonizadores holandeses, franceses e alemães), entrando inevitavelmente em choque com os diversos grupos negros bantos, a quem chamavam de cafre (infiel, em árabe) — povos xhosa, zulus, tswanas, ngunis e sothos, que habitavam a região. A partir de 1795, chegaram os ingleses e passaram a dominar cada vez mais áreas, até que a descoberta de ouro e diamantes os levou ao inevitável choque com os bôeres, na disputa pelas riquezas minerais. No começo do século XX, a África do Sul era uma colônia britânica, resultado do Tratado de Vereeniging, que pusera fim à Guerra dos Bôeres (1899-1902); nela eram reconhecidos o inglês e o holandês como idiomas oficiais (o africâner só seria reconhecido após 1925), a metrópole incentivara a imigração de chineses e indianos, marginalizando ainda mais a população negra. Em 1906, ocorreu a Rebelião de Bambata, na Província de Natal, com a morte de cerca de 4 mil zulus. Em 1910, foi aprovada a Lei de União, no qual a Colônia do Cabo, Natal, Transvaal e o Estado Livre de Orange compuseram, a então chamada, União Sul-Africana, na qual os africânderes gozavam relativa autonomia administrativa; os, então denominados, territórios de Basotolândia (atual Lesoto), Bechuanalândia (atual Botsuana), Suazilândia e Rodésia (atual Zimbábue) permaneceram sob domínio britânico.

Contexto étnico e geográfico

A nação Xhosa situa-se no interior do Transkei, entre Cabo e Natal; no século XIX, foi denominada "reserva nativa", após as guerras entre os ingleses e os povos naturais do lugar; Mandela fazia parte do povo Thembu, e do clã dos Madiba. Sobre sua aldeia natal escreveu, na autobiografia, que "era um lugar distante, um pequeno distrito afastado do mundo dos grandes eventos, onde a vida corria da mesma forma como há centenas de anos".[nota 2] Na África do Sul, até sua libertação, em 1990, Mandela viveu em três das províncias em que se divide o país: Nasceu Nelson Mandela na atual província sul-africana de Cabo Leste, numa vila chamada Mvezo, no Transkei. Passou parte da infância na vila de Qunu (a mesma onde construiu uma casa, depois de liberto). Viveu, a partir dos nove anos, na vila real de Mqhekezweni e depois em Engcobo e Fort Beaufort, onde concluiu os estudos secundários; mudou-se, finalmente, para Alice (Porto Elizabeth), onde ingressa na faculdade.

Contexto familiar

Mandela era um dos treze filhos de Nkosi Mphakanyiswa Gadla Mandela com Nosekeni Fanny, a terceira esposa de seu pai. Na sua casa moravam também muitos outros meninos, e dependentes da família. Seus pais eram analfabetos. Muito influenciaram o jovem Mandela seu primo Alexander Mandela e sua sobrinha, que apesar disto era bem mais velha que ele, Phathiwe Rhanugu, que certamente foram os primeiros de seu clã a se tornarem professores. Tão popular quanto o regente Jongintaba, seu tio, era o reverendo Matyolo, da Igreja Metodista — no plano espiritual sendo mesmo superior àquele, ambos exercendo fascínio pelo poder e respeito que tinham, não somente entre os próprios negros como também com aos brancos.

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Infância e adolescência

Recebe o nome de Rolihlahla Dalibhunga Mandela (em Xhosa: [xoˈliːɬaɬa manˈdeːla]); seu primeiro nome significa, em xhosa, algo como "agitador" — o que pode ser considerado profético — já que a expressão quer dizer, no idioma natal zulu: "aquele que ergue o galho de uma árvore".[nota 3] A educação inicial que recebera era, sobretudo, oral e aprendia não de modo sistemático, mas perguntando aos mais velhos. Desta forma cresceu observando os costumes, os tabus, os rituais. Aos cinco anos de idade começou a seguir outros meninos nas lidas do campo, longe dos pais, cuidando do gado. Naqueles tempos, após o jantar, era costume ter a mãe ou uma das tias a narrar velhas histórias, mitos, fábulas ancestrais. Ouvia então contarem de reis lendários e heróis, como Dingane, Bambata ou Makana. Em 1925, passa a frequentar a escola primária existente na vila próxima de Qunu. É lá que recebe o nome "Nelson", em homenagem ao Almirante Horatio Nelson, dado por sua professora chamada Mdingane, atendendo ao costume de dar nomes ingleses a todas as crianças que frequentavam a escola; esta consistia num único cômodo, com teto de zinco e chão de terra.

Ritual de circuncisão

A circuncisão era um rito de passagem dos jovens Tembu, e contava com a presença do próprio regente Jongintaba. Mandela tinha dezesseis anos de idade quando o Regente decidiu que já era a hora de ele e Justice passarem pelo ritual. Em janeiro de 1934, num isolado vale às margens do rio Mbashe, num grupo com outros 25 rapazes, membros da elite tribal, Mandela foi levado para a cerimônia pública de circuncisão, realizada pelo especialista neste rito, intitulado ingcibi, usando uma assegai — lança com ponta de ferro. Nos dias antes do ritual, os jovens brincavam, conversavam entre si; na noite que antecedeu à cerimônia as mulheres das aldeias vizinhas apareceram para cantar e tocar, enquanto os jovens a ser iniciados dançavam.

Término da formação elementar

Mandela sempre estudou em escolas wesleyanas: Essa era uma instituição antiga e altamente conceituada na Thembulândia, pertencente à mais antiga missão wesleyana do lugar. Para a ocasião o Regente mandou sacrificar uma ovelha, na véspera de sua ida ao colégio, e houve canto e dança para comemorar. No dia seguinte o Regente levou-o até o colégio onde advertiu-lhe a tratar com respeito ao diretor, que gozava de consideração junto aos chefes locais. Foi então apresentado ao diretor Harris, que declarou tomaria providências para que o jovem trabalhasse no jardim, já que o trabalho manual após as aulas era obrigatório; estendeu a mão a Mandela que, com certo temor, tocou na mão de um branco pela primeira vez em sua vida.

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Experiência universitária e fuga para Joanesburgo

Fundada em 1916, Fort Hare foi a primeira universidade da África do Sul a ministrar cursos para negros. Lá os professores repetiam aos alunos: "Agora que vocês estão na 'Fort Hare', serão líderes de seu povo." E, realmente, muitos de seus alunos saíam de lá para um emprego, com renda garantida e alguma influência; apesar disto, não se ensinava como enfrentar o preconceito, a opressão racial. Era uma instituição pequena e quando Mandela lá ingressou, em 1939, tinha somente 150 alunos. Era dirigida pelo escocês Alexander Kerr; apesar de preparar os futuros chefes tribais, acabou se tornando uma incubadora de líderes revolucionários. Para que pudesse frequentar a faculdade, o rei Jongintaba mandou-lhe fazer um terno, o primeiro que teve. Ali fez muitos amigos com quem mais tarde formaria o núcleo de comando do Congresso Nacional Africano, a exemplo de Oliver Tambo. Foi, ainda, ali que travou contato com a cultura clássica ocidental; chegou a interpretar John Wilkes Booth, assassino de Abraham Lincoln, numa peça lá encenada. Certa vez descobriu que um de seus amigos não havia feito a circuncisão e chegou a reagir "até mesmo com repulsa"; só mais tarde foi que venceu o preconceito juvenil, a aceitar os outros como iguais e não julgá-los segundo seus próprios costumes.

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A Liga Jovem e primeiro casamento

No ano de 1944, Mandela casou-se com Evelyn Mase, uma jovem parente de Walter Sisulu. Com ela viria a ter quatro filhos: uma menina chamada Makaziwe, morta aos nove meses de idade — e outra, que também recebeu o mesmo nome, apelidada Maki, e dois garotos: Madiba Thembekile (Thembi) e Makgatho (Kgatho). Em 1946, tiveram o primeiro filho, Thembi; em 1947 nasce a primeira filha, Makaziwe, que morre aos 9 meses de idade; o casal teria ainda mais dois filhos, na década seguinte. Essa união duraria 12 anos, mas terminaria de forma bastante traumática para as duas famílias. Junto a Sisulu, Oliver Tambo e outros, ainda em 1944, criam a Liga Juvenil do CNA, com sigla em inglês ANCYL. Tencionam mudar a postura subserviente do partido face aos brancos e lançam o manifesto "Um homem, um voto" — onde denunciam que 2 milhões de brancos dominam a 8 milhões de negros, além de deterem 87% do território. Em 1948, foi eleito secretário nacional da ANCYL e executivo nacional do CNA, pelo Transvaal.

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Na linha de frente contra o apartheid

No ano de 1949, o governo aprova o regime legal segregacionista, que dá o nome de apartheid. Em 1951, Mandela é eleito presidente da ANCYL e, no ano seguinte, presidente do CNA na província de Transvaal, o que o coloca como vice-presidente nacional da instituição. Neste período, é secretário do Johannesburg International Club, um dos poucos lugares em que se podiam reunir pessoas de várias nacionalidades; ali se encontra com atores americanos, como Canada Lee e Sidney Poitier. O cargo de secretário foi em seguida ocupada pelo inglês Gordon Goose, casado com uma judia, Ursula, que era deficiente visual, tornando-se grandes amigos de Mandela; certa feita, por impedimento do esposo, Mandela foi buscá-la no trabalho e, por conta da cegueira, ela deu-lhe o braço — um negro com uma mulher branca, fato que despertou a ira dos brancos, que o hostilizaram. No ano de 1950, novas leis segregacionistas são impostas pelo governo, numa ação que levou à tomada de terras de negros, mestiços e indianos; em um claro exemplo desta ação, mais de cinquenta mil negros moravam em Sophiatown, em Joanesburgo, e foram todos desalojados em 1953.

Divórcio, novo casamento; o Julgamento por Traição

Seu empenho na luta resulta no fim de seu casamento com Evelyn, ainda em 1955, era completamente avessa à política e se queixava da falta de tempo do marido para a casa e os filhos (Makaziwe nascera dois anos antes); o divórcio ocorre no ano seguinte. Apesar de separados de fato, continuaram a morar juntos numa casa pequena, em Soweto; ela tornara-se testemunha de Jeová e passava grande parte do tempo a ler a Bíblia; seu filho Madiba certa vez questionara por que não passava as noites em casa, e Mandela respondera que milhões de crianças precisavam dele, no país; o sucesso que tinha na causa, não ocorria em casa. Mais tarde ela deu entrevistas à imprensa branca, a qual distorceu os reais motivos da separação, segundo o próprio Mandela.

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Mandela empunha a “Lança de uma Nação”

O Umkhonto we Sizwe — "Lança de uma Nação" — também conhecido pela sigla "MK", foi criado em 1961 como braço armado do CNA, tendo Mandela como primeiro comandante em chefe. Era a resposta do movimento ao Massacre de Sharpeville, no entendimento de que o apartheid não mais poderia ser combatido com a não violência. Segundo o próprio Mandela a instituição não poderia ser o começo de um militarismo; a organização deveria ser uma força militar totalmente subordinada a um órgão político central. O treinamento militar seria paralelo ao político, de forma a ficar bem definido que a revolução servia para tomar o poder, e não para habilitar atiradores. O líder passa a ostentar uma barba, ao estilo do guerrilheiro Ernesto Che Guevara, a vestir uniforme camuflado e dá início à campanha armada. Vivendo na clandestinidade, evita ser encontrado; seu esconderijo ficava próximo à casa de Gordon Goose e Ursula, e por diversas vezes Mandela visitava-os, à noite.

Viagem pela África: o "Pimpinela Negro"

Em 1962 Mandela vai a Londres, onde adquire livros sobre guerra e guerrilha,[nota 5] e junta-se a Oliver Tambo; ambos têm encontros com vários políticos e, dali, percorrem vários países africanos; na Libéria, em 25 de abril, encontra-se com o Presidente Wlliam Vacanarat Shadrach Tubman, que se compromete a ajudar a causa; vai à Nigéria, a Botsuana (onde pela primeira vez se viu em meio ao ambiente selvagem africano, com leões rugindo do lado de fora do rondavel em que dormia), à Etiópia. Em Adis Abeba tem aulas de “demolição”, com o tenente Befekadu; lá se encontra com o imperador Haile Selassie, figura que muito o impressionou pela pompa de chefe de estado, como também por sua posição face aos brancos; “Mas ver brancos fazendo mesuras a um monarca negro foi muito interessante”, declarou.

Prisão e julgamento

Em 5 de agosto de 1962, a polícia capturou Mandela junto com seu colega ativista Cecil Williams perto de Howick. Muitos membros do MK suspeitaram que as autoridades haviam sido informadas sobre o paradeiro de Mandela, embora o próprio Mandela não desse crédito a essas ideias. Nos últimos anos, Donald Rickard, um ex-diplomata americano, revelou que a CIA, que temia que Mandela se associasse com os comunistas, havia informado a polícia sul-africana de sua localização. Preso na prisão de Marshall Square, em Joanesburgo, Mandela foi acusado de incitar greves de trabalhadores e de deixar o país sem permissão. Representando-se com Joe Slovo, seu colega do CNA, como assessor legal, Mandela pretendia usar o julgamento para demonstrar "a oposição moral do CNA ao racismo" enquanto os simpatizantes demonstravam fora do tribunal. Transferido para Pretória, onde Winnie poderia visitá-lo, começou a estudar por correspondência para um Bacharelado em Direito pela Universidade de Londres. Sua audiência começou em outubro, mas ele interrompeu o processo usando um kaross tradicional, recusando-se a chamar qualquer testemunha e transformando seu argumento de mitigação em um discurso político. Considerado culpado, foi condenado a cinco anos de prisão; ao sair do tribunal, os partidários cantaram o hino do CNA, "Nkosi Sikelel iAfrika".

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Prisão

Ilha Robben: 1964-1982

Mandela e seus coacusados foram transferidos de Pretoria para a prisão na Ilha Robben, permanecendo lá pelos próximos 18 anos. Isolado de prisioneiros não-políticos na Seção B, Mandela, com o número 466/64, ocupava uma cela de concreto úmida medindo 2,4 m por 2 m, com um tapete de palha onde dormir. Agredidos verbal e fisicamente por vários carcereiros brancos, os prisioneiros da Rivonia Trial passaram seus dias quebrando pedras no cascalho, até serem transferidos em janeiro de 1965 para trabalhar em uma pedreira. Mandela foi inicialmente proibido de usar óculos escuros, e o brilho das pedras de calcário fez com que sua visão ficasse permanentemente danificada. À noite, estudava em seu bacharelado, que estava obtendo da Universidade de Londres através de um curso por correspondência com Wolsey Hall, Oxford, mas os jornais eram proibidos, e foi transferido para uma cela solitária várias vezes pela posse de recortes de notícias contrabandeados. Foi inicialmente classificado como o menor grau de prisioneiro, Classe D, o que significa que lhe era permitida uma visita e uma carta a cada seis meses, apesar de todas as cartas serem pesadamente censuradas.

Prisão de Pollsmor: 1982-1988

Em abril de 1982, Mandela foi transferido para a Prisão Pollsmoor, uma prisão de segurança máxima, em Tokai, na Cidade do Cabo, juntamente com os altos líderes do CNA, Walter Sisulu, Andrew Mlangeni, Ahmed Kathrada e Raymond Mhlaba; eles acreditavam que estavam sendo isolados para remover sua influência sobre os ativistas mais jovens da Ilha Robben. As condições em Pollsmoor eram melhores que na Ilha Robben, embora Mandela perdesse a camaradagem e a paisagem da ilha. Dando-se bem com o oficial comandante de Pollsmoor, o brigadeiro Munro, Mandela foi autorizado a criar um jardim no terraço; também leu vorazmente e correspondeu amplamente, agora eram permitidas 52 cartas por ano. Foi nomeado patrono da Frente Multirracial Unida Democrática, fundada para combater as reformas implementadas pelo presidente sul-africano P. W. Botha. O governo do Partido Nacional de Botha havia permitido que cidadãos de cor e indianos votassem em seus próprios parlamentos, que tinham controle sobre educação, saúde e moradia, mas negros africanos foram excluídos do sistema; como Mandela, a frente viu isso como uma tentativa de dividir o movimento antiapartheid nas linhas raciais.

Prisão de Victor Verster: 1988-1990

Recuperando-se da tuberculose exacerbada pelas condições úmidas em sua cela, em dezembro de 1988, Mandela foi transferido para a prisão de Victor Verster, uma prisão agrícola de segurança mínima, próxima a Paarl. Estava alojado no relativo conforto da casa de um carcereiro com um cozinheiro pessoal, e usava o seu tempo para terminar seus estudos em direito. Enquanto esteve lá, recebeu muitos visitantes e organizou comunicações secretas com Oliver Tambo, exilado do ANC. Em 1989, Botha sofreu um derrame; embora ele mantivesse a presidência, deixou o cargo de líder do Partido Nacional, sendo substituído por F. W. de Klerk. Em uma jogada surpresa, Botha convidou Mandela para uma reunião durante o chá em julho de 1989, um convite que Mandela considerou genial. Botha foi substituído como presidente por De Klerk seis semanas depois; o novo presidente acreditava que o apartheid era insustentável e libertou vários prisioneiros do CNA. Após a queda do Muro de Berlim, em novembro de 1989, De Klerk convocou seu gabinete para debater a legalização do CNA e a libertação de Mandela. Embora alguns se opusessem profundamente a seus planos, de Klerk se reuniu com Mandela em dezembro para discutir a situação, uma reunião que ambos consideraram amigável, antes de legalizar todos os partidos políticos anteriormente proibidos em fevereiro de 1990 e anunciar a libertação incondicional de Mandela. Pouco tempo depois, pela primeira vez em 20 anos, fotografias de Mandela foram autorizadas a serem publicadas na África do Sul.

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A refundação da África do Sul

A eleição de Mandela foi um marco divisório na história do país, que saiu do regime draconiano para a democracia plena, elegendo o primeiro governante negro; seu governo seria para reconciliar oprimidos e opressores, uns com os outros e consigo mesmos. Na vida particular Winnie acabou expondo seus erros e, apesar da complacência de Mandela com sua infidelidade, se recusara a abandonar o namorado. O casal separara-se de fato desde abril de 1992, "por motivos pessoais", segundo Mandela declarou então; ainda naquele ano Winnie fora julgada pela morte de um rapaz[nota 6] e pelo desvio de verbas do time de futebol que dirigia.[nota 7] Numa entrevista à revista Essence Winnie chegou a declarar que tinha um "marido desertor",[nota 8] e a matéria que então se fez aventou-se que tinha um romance com o advogado Dali Mpofu. Já durante 1993 e também nos anos seguintes Mandela cortejava Graça Machel, de modo secreto, pois seu divórcio somente ocorreria em 1996. Mandela encontrara-se com ela em três ocasiões, e se apresentara discreta e educada; foi somente em Maputo, onde foi Ministra da Educação e Cultura por catorze anos que ele a viu de modo diferente: firme, competente e impositiva.

Tensão pré-eleitoral

Os dias que antecederam o pleito presidencial no final de 1993 eram bastante tensos. Por um lado, grupos de extrema direita representavam ameaça constante e, por outro, no seio do próprio CNA, setores questionavam a autoridade de Mandela para conduzir o país. Foi neste contexto que o comunista Chris Hani, chefe do MK, procurava acirrar os ânimos. Uma guerra racial parecia iminente. No dia 10 de abril Mandela estava em visita à sua terra natal no Transkei quando recebeu a notícia do assassinato de Hani. Tudo levava a crer que os ânimos, já exaltados, explodissem em revoltas. Mandela, e não o presidente de Klerk, foi à televisão naquela noite, pedir calma à nação.

Mandela durante a presidência

Dando seguimento à proposta de proporcionar a transição para a democracia multirracial, o governo Mandela teve sua maior realização na criação da Comissão da Verdade e Reconciliação — encarregada de apurar, mas não punir, os fatos ocorridos durante o apartheid; também empenhou-se em assegurar à minoria branca um futuro no país. Para simbolizar os novos tempos adota um novo hino nacional, que mescla o hino do CNA (Nkosi Sikolele Africa - Deus bendiga a África) com o africâner (Die Stein); também uma nova bandeira é criada, unindo os símbolos das duas instituições anteriores: a bandeira oficial dos brancos, em vigor desde 1928 passou a incorporar as cores da bandeira do CNA — plasmando assim a união de todos os povos da nova nação que surgia — aprovados pela nova Constituição interina.

Críticas

Dentro do CNA existia a percepção que o governo Mandela foi uma oportunidade perdida para se proceder a uma maior distribuição de renda; Mandela estaria mais preocupado com a "reconciliação" do que com reformas. Em 2010 Winnie, que havia tido seus delitos expostos em 1997 na Comissão da Verdade dirigida por Desmond Tutu, atacou Mandela, dizendo que ele não foi o único que sofreu (durante o apartheid): "ele foi para a prisão como um jovem revolucionário, e olha como saiu"[nota 11] e que o ex-marido decepcionara os negros sul-africanos, mantendo-os na pobreza e fazendo os brancos ainda mais ricos, desdenhando o fato de ter ido receber o Nobel de mãos dadas com de Klerk. Concluiu, dizendo que Mandela hoje é uma corporação, destinada a sair mundo afora para arrecadar dinheiro.

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Aposentadoria e saúde

Quando deixou a presidência, Mandela declarou que iria partir para uma tranquila aposentadoria. Em 2001 a próstata voltou a lhe dar problemas, desta feita sendo diagnosticado um câncer; tem início o tratamento. No ano seguinte, ao ver a forma equivocada pela qual seu sucessor, Mbeki, tratava o avanço da epidemia de AIDS no país, deixa a tranquilidade da vida familiar para se manifestar publicamente, contrariando o presidente, que se negava a distribuir os remédios antivirais por não aceitar uma ligação entre o vírus HIV e a doença. Mandela chegou a declarar publicamente que tivera três parentes vítimas da AIDS, e abraçou publicamente Zackie Achmat, portador e ativista pelos direitos dos soropositivos. Em 2002, com a iminência da Invasão do Iraque, Mandela resolveu agir e tentou, sem sucesso, contatar o presidente estadunidense George W. Bush, mesmo recorrendo à intercessão de seu pai, ou dos assessores Condoleezza Rice ou Colin Powell; a partir de então passou a criticar as pretensões dos Estados Unidos em se tornarem "polícia do mundo", e o primeiro-ministro britânico Tony Blair de ter-se transformado num Ministro do Exterior dos Estados Unidos. Numa outra frente, também procurou contatar o ditador Saddam Hussein, mas este se encontrava sem querer revelar sua localização; apesar disto, Mandela criticou o ditador iraquiano, minimizando o embaraço com os dois países.

A tragédia familiar durante o Mundial de Futebol de 2010

A realização da primeira Copa do Mundo de futebol no continente africano criou uma grande expectativa da aparição do nonagenário Mandela na cerimônia de abertura do evento, como o grande anfitrião do país-sede. A imprensa mundial, cobrindo em peso o evento, teria no líder e na festa a imagem que selaria de forma definitiva o surgimento da nova era na África do Sul, e o esquecimento dos tempos difíceis. A Seleção, apelidada de “Bafana-Bafana” pelos torcedores, há alguns anos vinha sendo treinada pelos treinadores brasileiros Joel Santana e Carlos Alberto Parreira, e deixara a condição de equipe frágil para alimentar a esperança de classificar-se para as fases seguintes do torneio, depois de jogar a partida de abertura contra o México, no mesmo Soccer City, o estádio onde Mandela fizera seu principal discurso após a libertação.

Internações em 2013, disputas familiares

Após ter sido internado por 18 dias em dezembro de 2012 com problemas pulmonares, Mandela retornou ao hospital, em Pretória, no dia 27 de março de 2013, com o mesmo problema, gerando grande ansiedade entre os sul-africanos, a tal ponto que o próprio presidente, Jacob Zuma, foi a público pedir calma à população. Uma constatação comum é de que seu legado de igualdade e fim da violência racial foi deturpado pelos sucessores na presidência, gerando corrupção no governo e aumento da violência urbana. Em 2011 seu neto mais velho, Mandla, havia transferido para a aldeia natal do avô — Mvezo — os restos mortais de seu pai, Makgatho, e de dois tios (Thembekile e Makaziwe), sepultados originalmente na vila de Qunu, onde vive Mandela. Sua intenção era atrair turistas para lá, pois é líder tribal e tem ali seu local de morada. A ação foi contestada por dezessete membros da família que, entrando na justiça, obtiveram uma sentença que determinava o traslado dos corpos de volta a Qunu, decisão mantida em tribunais superiores em 3 de julho de 2013.

Morte

No dia 5 de dezembro de 2013 o presidente sul-africano Jacob Zuma anunciou a morte do seu antecessor: "A nação perde seu maior líder", completando: "Ainda que soubéssemos que esse dia iria chegar, nada pode diminuir nosso sentimento de perda profunda"; declarando luto nacional e anunciando que o funeral deve ocorrer na capital, Joanesburgo, no sábado — dia 7 de dezembro, com as honras de Estado. No anúncio presidencial, feito pela televisão, Zuma acentuou o papel de Mandela para seu país: "Ele está agora a descansar. Ele está agora em paz. A nossa nação perdeu o seu maior filho. O nosso povo perdeu um pai". Na página oficial de Mandela, na rede social Facebook, foi colocada uma mensagem sua, de 1996, em várias línguas — inclusive o português, dizendo: "A morte é inevitável. Quando um homem fez o que considera seu dever para com seu povo e seu país, pode descansar em paz. Acredito ter feito esse esforço, e é por isso, então, que dormirei pela eternidade".

Funeral

Após o anúncio da morte do líder, uma multidão se aglomerou diante da porta de sua casa em Joanesburgo, bem como diante de sua antiga residência em Soweto. Já no dia 6 os bancos do país fecharam suas portas em sinal de luto, e o arcebispo emérito Desmond Tutu o homenageava em cerimônia religiosa. De acordo com as tradições Xhosa, um membro masculino deve permanecer ao lado do corpo durante o funeral; este papel coube ao neto mais velho, Mandla Mandela. A cerimônia religiosa foi efetuada no antigo Soccer City, celebrada no dia 10 de dezembro. Durante os pronunciamentos de chefes de Estado e autoridades visitantes, a exemplo do Presidente estadunidense Barack Obama e do Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, foi usado um falso intérprete da língua de sinais — fato este que causou constrangimento ao CNA e ao governo sul-africano também na segurança, pois o indivíduo apresentava um histórico criminal.

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Post-mortem

Após sua morte, documentos secretos revelados por Israel davam conta de que o serviço secreto daquele país — Mossad — teria fornecido treinamento paramilitar a Mandela, em 1962 na Etiópia; a revelação teria como objetivo minimizar o apoio que a África do Sul dá aos palestinos, uma vez que o país judeu apoiou durante muitos anos o regime segregacionista: durante um período da década de 1960 Israel simpatizara com os movimentos antiapartheid. Ainda durante as cerimônias fúnebres sua família protagonizou vários episódios das disputas que haviam se iniciado mesmo antes de sua morte: o neto mais velho Mandela teria sido expulso da fazenda onde o avô fora inumado; a filha Makaziwe teria mudado as fechaduras da residência do pai, ao se instalar ali uma semana após sua morte; água e luz do lugar foram desligados mais tarde; o acesso à fazenda onde está sepultado é disputado com fervor por seus herdeiros. Na mesma semana sua morte o advogado e amigo íntimo de Mandela, George Bizos anunciara que o seu testamento, "um documento sagrado", seria aberto apenas no momento oportuno.

Testamento

O patrimônio de Mandela, avaliado em 46 milhões de rands (quatro milhões de dólares ou três milhões de euros), a ser distribuído consoante seu testamento, foi revelado na segunda-feira 3 de fevereiro de 2014, através de uma leitura pública, sobre o qual havia expectativas de que viesse a gerar mais disputas familiares (cujo núcleo de filhos, netos e bisnetos integram 30 pessoas). O testamento foi elaborado em 2004, havendo recebido dois aditamentos (em 2005 e 2008); em suas 40 páginas Mandela dividiu seus bens (exclusive os direitos autorais dos livros), e manifestou especial interesse nos valores que defendeu: a educação, a unidade do país e reconciliação, e o desejo de união familiar.

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Fontes consultadas

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