Alcuarismi
Maomé ibne Muça Alcuarismi, conhecido simplesmente como Alcuarismi, foi um matemático, astrônomo e geógrafo que trabalhou em Bagdá durante o Califado Abássida, no reinado do califa Almamune. Escreveu sobre aritmética, álgebra, astronomia e geografia, reunindo e desenvolvendo conhecimentos matemáticos de origem indiana, grega e do mundo islâmico.
Origem e identidade
Ibne Anadim vinculou Alcuarismi à Corásmia, na Ásia Central, enquanto Atabari transmitiu a forma al-Qutrubbullī, que pode remeter a Qutrubbul, perto de Bagdá. A diferença entre os dois testemunhos deixa sua origem geográfica incerta. George Saliba o considera de ascendência persa e observa que ele viveu e trabalhou em Bagdá, sem obra científica conhecida em persa. Seu nome, al-Khwārizmī, é uma nisba que remete a Khwarazm. Para explicar a forma transmitida por Atabari, Roshdi Rashed propôs que uma conjunção árabe teria desaparecido numa cópia antiga e que al-Majūsī al-Qutrubbullī se referiria a outra pessoa, não a Alcuarismi. A kunya não é transmitida de forma uniforme. Gerald Toomer usa Abū Jaʿfar Muḥammad ibn Mūsā al-Khwārizmī, أبو جعفر محمد بن موسى الخوارزمي, enquanto Frederic Rosen empregou Abū ʿAbd Allāh Muḥammad ibn Mūsā al-Khwārizmī, أبو عبد الله محمد بن موسى الخوارزمي, em sua edição de 1831. A forma Muḥammad ibn Mūsā al-Khwārizmī, محمد بن موسى الخوارزمي, evita escolher entre as duas kunyas.
Atuação em Bagdá e na corte abássida
Alcuarismi passou a maior parte, talvez toda, de sua carreira em Bagdá e manteve relações com a corte abássida, sobretudo durante o reinado de Almamune, de 813 a 833. Ibne Anadim o vinculou à Bayt al-Hikma, a biblioteca califal, mas não se sabe qual função ele exerceu ali. O Al-Jabr e o Zīj foram dedicados a Almamune. Alcuarismi pode ter participado de duas expedições científicas da corte, uma para medir a Terra e outra às regiões ao norte do Mar Cáspio. David A. King questionou sua participação na medição geodésica. Um relato menciona um "Muḥammad ibn Mūsā, o astrônomo" numa embaixada aos cazares no reinado de Aluatique. A identificação não é segura, pois uma versão acrescenta ibn Shākir, nome que pode remeter a um dos Banu Muça.
Na aritmética, Alcuarismi emprega a notação decimal posicional de origem indiana. Seus textos astronômicos preservados usam material indiano, sassânida e grego, e sua geografia parte de Ptolemeu, acrescentando muitos dados não ptolemaicos. Também escreveu sobre álgebra, calendários e instrumentos astronômicos. O Al-Jabr circulou em traduções e reelaborações em árabe, persa, turco otomano, latim e línguas vernáculas europeias.
Álgebra
Al-Jabr é a forma abreviada de الكتاب المختصر في حساب الجبر والمقابلة, al-Kitāb al-mukhtaṣar fī ḥisāb al-jabr wal-muqābala, título traduzido em inglês como The Compendious Book on Calculation by Completion and Balancing. O livro foi escrito em Bagdá durante o reinado de Almamune, entre 813 e 833, e dedicado ao califa. É um dos dois primeiros livros árabes de álgebra conhecidos, ao lado do tratado de Ibn Turk, escrito em Bagdá durante o mesmo reinado. A obra trata de equações de primeiro e segundo graus, mensuração de áreas e volumes, problemas comerciais e cálculos de herança na lei islâmica. A palavra álgebra deriva de al-jabr, parte do título do livro. Al-jabr pode designar a restauração de termos subtraídos, e al-muqābala pode designar o cancelamento de termos semelhantes. Jeffrey Oaks e Haitham Alkhateeb argumentam que, nos textos algébricos árabes, as duas palavras tinham uso mais flexível e podiam expressar o objetivo imediato de uma etapa do cálculo, sem funcionar como nomes rígidos de duas operações invariáveis.
Aritmética
O Kitāb al-ḥisāb al-hindī, "Livro do cálculo indiano", perdeu-se em árabe e é o mais antigo tratado árabe conhecido sobre os algarismos e o cálculo indianos. O texto tratava da formação dos números e de operações como adição, subtração, duplicação, divisão por dois, multiplicação, divisão, frações e extração de raiz quadrada no sistema decimal posicional. Também lhe é atribuído um Kitāb al-jamʿ wa-al-tafrīq, "Livro da adição e subtração". Julius Ruska considerou que esse título e Kitāb al-ḥisāb al-hindī poderiam designar a mesma obra, enquanto parte da bibliografia lê de outra forma a atribuição transmitida pelo Fihrist. Os algoritmos descritos no tratado eram adequados a uma tábua de pó, takht, superfície coberta por pó ou areia em que os algarismos podiam ser escritos, apagados e deslocados. Em 952/953, Al-Uqlidisi já apresentava métodos adaptados a tinta e papel e explicava as desvantagens da tábua de pó. Seu livro é o mais antigo texto árabe preservado sobre o cálculo indiano e também apresenta frações decimais.
Astronomia
O Zīj as-Sindhind, زيج السند هند, era um manual de tabelas astronômicas dedicado a Almamune. Outros zījes árabes do tipo Sindhind, baseados em traduções de manuais astronômicos indianos, já circulavam antes de Alcuarismi. O astrônomo Ibne Aladami caracterizou o livro como um resumo preparado a partir de um manual anterior de Alfazari. Nenhuma cópia do Zīj original chegou até nós. Os textos transmitidos em latim e hebraico pertencem a revisões, comentários e compilações. Por volta do ano 1000, Maslama Almajeriti revisou as tabelas em Al-Andalus, e seu aluno Ibn al-Saffār provavelmente prosseguiu o trabalho editorial. Essa revisão foi traduzida ao latim no século XII, provavelmente por Adelardo de Bath. A forma transmitida reúne regras de cálculo e tabelas astronômicas, mas nem todo elemento preservado pode ser atribuído sem ressalva ao texto original de Alcuarismi.
Geografia
O Kitāb Ṣūrat al-Arḍ, كتاب صورة الأرض, reúne listas de longitudes e latitudes de cidades, montanhas, mares, ilhas, regiões e rios. A obra usa a Geografia de Ptolemeu, mas a organização do material e muitas coordenadas e formas geográficas diferem do texto ptolemaico. Não se trata de uma simples tradução. Há um manuscrito árabe do Kitāb Ṣūrat al-Arḍ na Biblioteca Nacional e Universitária de Estrasburgo, sob a cota 4247. Não é conhecida uma tradução latina medieval da obra. A Geografia permaneceu desconhecida na Europa até o fim do século XIX, embora alguns de seus dados tenham chegado ao Ocidente por listas de coordenadas incorporadas a tabelas astronômicas.
Outros escritos
O Al-Fihrist menciona um Kitāb al-Taʾrīkh, كتاب التأريخ, livro de anais de Alcuarismi. O texto não chegou diretamente até nós, mas foi citado por outros historiadores. Elias de Nísibis reuniu a maior parte dos trechos conhecidos e preservou citações em sua crônica.
Transmissão medieval
A partir do século XII, traduções e adaptações latinas puseram partes da aritmética e da álgebra de Alcuarismi em circulação na Europa. Nos primeiros algorismi latinos, o cálculo decimal é escrito com nove algarismos e zero, enquanto as traduções do Al-Jabr levam seus procedimentos algébricos por outra via. Os textos latinos foram retrabalhados durante a transmissão e não formam uma sequência de cópias literais do original árabe. Em Portugal, o Tratado da Pratica d'Arismetica, de Gaspar Nicolas, publicado em 1519, foi o primeiro tratado de aritmética prática de autor português impresso no país. O livro ensina cálculo com números indo-arábicos e regras voltadas ao comércio, séculos depois da circulação dos primeiros algorismi latinos.
Do algorismo ao algoritmo
O latim medieval algorismus, formado a partir de latinizações do nome de Alcuarismi, passou a designar o cálculo com a notação indo-arábica. A forma que deu origem a algoritmo passou a nomear um conjunto de regras ou passos para resolver um problema, sem se limitar ao cálculo decimal medieval. Em português, algarismo conserva outro descendente do nome de Alcuarismi.
Historiografia e comemorações
No século XX, Solomon Gandz e Carl Boyer usaram a expressão "pai da álgebra" para Alcuarismi. O Al-Jabr e o tratado de Ibn Turk são os primeiros livros árabes de álgebra conhecidos, mas isso não permite concluir que a prática algébrica tenha começado com qualquer um dos dois autores. As comemorações soviéticas do 1.200º aniversário de Alcuarismi, combinadas com campanhas de alfabetização em programação, aproximaram seu nome da história dos algoritmos ensinada no século XX. Textos e comemorações de ciência da computação também passaram a associar seu nome à origem do termo. O sentido de "algoritmo" usado na ciência da computação não corresponde diretamente aos procedimentos aritméticos do século IX.
Homenagens
Em 1973, a União Astronômica Internacional aprovou o nome Al-Khwarizmi para uma cratera de 56,25 km de diâmetro na face oculta da Lua. Dois asteroides do cinturão principal também receberam formas de seu nome, 13498 Al Chwarizmi, descoberto em 1986, e 11156 Al-Khwarismi, descoberto em 1997. A União Soviética emitiu em 1983 um selo postal por ocasião dos aproximadamente 1.200 anos de seu nascimento. O Prêmio Internacional Khwarizmi, criado no Irã em 1987 e organizado pela Organização Iraniana de Pesquisa em Ciência e Tecnologia, recebeu seu nome e é concedido a trabalhos em ciência, tecnologia e inovação. A Universidade Complutense de Madrid instalou em 2020 um busto de Alcuarismi, obra do escultor usbeque Zhasvant Annazarov, na Praça das Ciências do campus. A escultura foi doada pela embaixada do Usbequistão na Espanha e pela Real Liga Naval Espanhola. Em 2025, o governo do Usbequistão criou a Universidade Al-Khwarizmi em Urguenche, dedicada principalmente a áreas como matemática, informática, inteligência artificial e engenharia.
Na arte e no audiovisual
Em 2021, o Centro de Arte Contemporânea de Tasquente apresentou a exposição Dixit Algorizmi, dedicada às relações entre a obra de Alcuarismi, a história dos algoritmos e seu uso no mundo digital. A mostra reuniu trabalhos de artistas, músicos, cineastas, arquitetos e designers. Alcuarismi aparece como personagem no filme de animação Time Hoppers: The Silk Road, lançado nos cinemas em 2026. A história acompanha quatro crianças que viajam no tempo pela Rota da Seda e encontram personagens da ciência e da cultura do mundo islâmico medieval, entre eles Alcuarismi, Alhazen e Maryam al-Asturlabi.


