Pixinguinha
Alfredo da Rocha Vianna Filho, conhecido como Pixinguinha, foi um compositor, arranjador, maestro, professor, flautista e saxofonista brasileiro.
Juventude
Nascido no Rio de Janeiro em 4 de maio de 1897, Pixinguinha era filho de Raimunda Maria da Conceição e Alfredo da Rocha Vianna, funcionário dos Telégrafos e flautista amador, que fez parte de um grupo de burocratas e músicos que sistematizou e divulgou a linguagem do choro na virada do século XIX para o XX. Teve treze irmãos. O pai mantinha uma grande coleção de partituras de choro mais antigas, incluindo originais de Joaquim Antônio Callado, considerado o "patrono dos chorões", e organizava frequentes reuniões musicais em sua casa, das quais participavam músicos como Irineu de Almeida, o "Irineu Batina", Cândido Pereira da Silva, o "Candinho Trombone", Viriato Ferreira, Villa-Lobos e Joaquim Francisco dos Santos, o "Quincas Laranjeiras".
Oito Batutas
Em 1919, juntamente com seu irmão China, Donga, João Pernambuco e outros músicos proeminentes, remanescentes do Grupo do Caxangá, formou o grupo Oito Batutas, criado a pedido de Isaac Frankel, gerente do Cine Palais, para tocar na sala de espera do cinema e atrair público. Estreando em 7 de abril, a formação instrumental era a princípio bastante tradicional, dominada por uma seção rítmica de cordas dedilhadas: violões, cavaquinho e banjo, mais Pixinguinha na flauta e percussão manual. Apresentando-se no saguão do cinema Cine Palais, os Oito Batutas logo se tornaram uma atração mais popular do que os próprios filmes. Seu repertório era diversificado, abrangendo música folclórica do nordeste do Brasil, sambas, maxixes, valsas, polcas e "tangos brasileiros" (o termo "choro" ainda não estava estabelecido como gênero). O grupo apelou especialmente para os desejos nacionalistas dos brasileiros de classe alta que ansiavam por uma tradição musical exclusivamente brasileira, livre de influências estrangeiras. Os Oito Batutas se tornaram uma sensação, embora tenham gerado alguma polêmica, irritando parte da elite branca do Rio de Janeiro que não gostava de homens negros se apresentando em casas de espetáculos. Não eram todos negros, mas a presença de alguns foi o bastante. A despeito das críticas racistas, o grupo tocou na recepção para o rei Alberto I da Bélgica, foi admirado por personalidades como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Rui Barbosa, Irineu Marinho, Menotti del Picchia e Pinheiro Machado, e inspirou a criação de diversos conjuntos "sertanejos" ao longo da década de 1920, os quais, segundo Virgínia Bessa, "desempenharam papel importantíssimo na criação e divulgação da música nacional".
Orquestra Victor Brasileira
Em 1929 Pixinguinha foi contratado pela RCA Victor para reger a Orquestra Victor Brasileira e, durante sua gestão, aprimorou suas habilidades como arranjador. Era comum para os músicos de choro da época improvisar suas partes com base em uma partitura simples para piano, mas a crescente demanda por música de rádio com grandes conjuntos exigia partituras escritas para todos os instrumentos, e Pixinguinha era um dos poucos compositores populares com essa habilidade na época. Foi nesta função que criou algumas das suas composições mais famosas, que foram popularizadas por cantores conhecidos no período, como Francisco Alves e Mário Reis. Seu contrato dava uma remuneração substancial de 1,2 conto de réis, previa a gravação de seis músicas por ano e ainda preservava seus direitos autorais, embora a venda desses direitos usualmente fosse por preços irrisórios. Ao longo da década de 1930, além de escrever as partituras, Pixinguinha fazia novos arranjos para músicas já conhecidas, revestindo-as de sonoridades mais modernas que acompanhavam a evolução do gosto popular, e a receptividade do seu trabalho lhe valeu contratos com quase todas as gravadoras ativas no país, além de frequentemente atuar como maestro de várias orquestras e conjuntos. A própria RCA Victor mantinha mais três outras orquestras, cada uma destinada a um segmento específico, e Pixinguinha trabalhou com todas. A Orquestra Victor Brasileira se dedicava principalmente a valsas e canções lentas e a servir de acompanhamento para grandes cantores. A Orquestra Diabos do Céu tocava marchas carnavalescas e um repertório tradicional de música brasileira, composto de batuque, samba, frevo, choro, macumba, maracatu, maxixe, rumba, samba-canção, tarantela, toada e valsa. A Orquestra Típica Victor era principalmente para música instrumental, e o Grupo da Guarda Velha era carnavalesco. Em 1934 passou a trabalhar concomitantemente para a gravadora Columbia, liderando o conjunto Pixinguinha e sua Orquestra Columbia, acompanhando cantores famosos.
Regional de Benedito Lacerda
Em torno de 1942 abandonou a flauta em favor do saxofone, mas o motivo da mudança não é bem conhecido e já deu margem a muita especulação não comprovada. Pouco depois passou a integrar a banda do flautista Benedito Lacerda, onde assumiu o saxofone tenor como instrumento principal e continuou a compor músicas para o grupo. A banda de Lacerda era uma "regional", nome dado a bandas internas contratadas por emissoras de rádio para executar músicas e acompanhar cantores, muitas vezes ao vivo para uma plateia de estúdio. Ao longo da década de 1930 e 1940 as "regionais" proporcionaram emprego estável aos melhores músicos de choro da época e levaram à profissionalização da indústria fonográfica brasileira. Foi com a Regional de Benedito Lacerda que Pixinguinha iniciou outro período fértil de composições e gravações, gravando juntos 34 músicas entre 1946 e 1951 e ganhando um lugar entre os grupos mais populares do país, atuando em diversas rádios. Sua parceria com Lacerda é notável ainda pelo uso do contraponto nas composições e por documentar algumas de suas mais brilhantes performances no saxofone. Devido a problemas econômicos, e como as "regionais" caíram em desuso no final dos anos 1940, Pixinguinha teve que vender os direitos de suas composições para Benedito Lacerda, que por isso aparece como co-compositor de muitas das músicas de Pixinguinha, mesmo aquelas compostas enquanto Lacerda era um garoto. Nas gravações com Lacerda, Pixinguinha toca partes secundárias no saxofone, enquanto Lacerda toca flauta em músicas que Pixinguinha escreveu originalmente naquele instrumento.
Últimos anos
Em meados da década de 1950 foi promovido a professor público e passou a dar aulas de música nos colégios Vicente Licínio Cardoso e João Alfredo, onde também regeu a banda escolar. Em 1954 foi homenageado com o I Festival da Velha Guarda, em São Paulo, transmitido pela Rádio Record no dia do seu aniversário, com apresentação de Almirante e participação de grandes nomes. Em 1955 lançou o disco clássico Velha Guarda, com a participação de Donga, João da Baiana, Bide do Estácio, Almirante e outros, que foi um grande sucesso, levando à gravação de mais dois em menos de um ano: Carnaval da Velha Guarda e Festival da Velha Guarda. A mudança de gostos e a popularidade emergente do samba, do bolero, do jazz, de ritmos caribenhos e da bossa nova, levaram ao declínio do choro "regional", à medida que outros gêneros se tornaram dominantes no rádio. Essa inundação da audiência com música estrangeira acirrou o engajamento de diversos intelectuais e músicos na defesa das manifestações musicais entendidas como típicas do Brasil, e é quando se acentua a identificação de Pixinguinha com a tradição e o passado no imaginário coletivo. Pixinguinha passou a aparecer em público apenas em raras ocasiões, como nos programas de TV Noite de Choro produzidos por Jacob do Bandolim em 1955 e 1956.
Deixou uma obra vasta, cujo número ainda não foi bem computado, fala-se em geral em cerca de mil composições, ele próprio calculava ter composto cerca de duas mil, além de centenas de arranjos. Domingos Neto & Oliveira estimaram, somando composições e arranjos, cerca de quatro mil peças. Entre as mais conhecidas estão Um a zero, Segura ele, Lamentos, Sofres porque queres, Vou vivendo, Naquele tempo, Ingênuo (com Benedito Lacerda), Urubu, Rosa (com Otávio de Souza) e Página de dor (com Cândido das Neves), e sobretudo Carinhoso (com João de Barro), considerado um "hino popular" do Brasil, uma das músicas mais regravadas da história do cancioneiro nacional, e segundo Luciana Andrzejewski, especialista em história e memória social, é a mais lembrada canção brasileira de todos os tempos. Muitas obras suas se tornaram referências na música brasileira. Pixinguinha foi um caso raro entre os músicos populares de sua geração pela amplitude de suas atividades: compositor, instrumentista, arranjador, maestro e professor, além de ser um dos poucos que sabiam ler e escrever partituras. Atuou com destaque nas rádios, lutou pela profissionalização dos músicos, foi um grande divulgador da música brasileira, e ao contrário da impressão popular que o vincula principalmente ao choro, praticou quase todos os gêneros mais populares de seu tempo e os renovou através de sua inventividade, seus arranjos originais e sua absorção de influências do jazz e outros ritmos internacionais. Para Moreira Júnior & Borém, "a postura aberta de Pixinguinha em relação ao contato com outras culturas permitiu que ele absorvesse e incorporasse elementos que contribuíram na formação de seu estilo musical maduro e eclético". Seus arranjos têm chamado a atenção da crítica pela sua sofisticação, pelas suas qualidades inovadoras e pelo papel central que desempenharam na articulação de uma nova concepção para o arranjo brasileiro. Segundo seu biógrafo Sérgio Cabral, Pixinguinha "abrasileirou as orquestrações de forma tão nítida e radical que se pode dizer, sem qualquer medo de errar, que foi ele o grande pioneiro da orquestração para a música popular brasileira". Apesar da significativa bibliografia crítica que sua obra já suscitou, ainda há aspectos que precisam mais aprofundamento, como por exemplo a influência do contexto social em sua produção e as bases políticas e ideológicas dos conceitos sobre identidade brasileira e nacionalismo musical, aos quais sua fama permanece ligada, não há um catálogo crítico de suas obras, e o debate sobre a extensão da influência do jazz em sua produção ainda está aberto. Muitas peças permanecem inéditas.
Desde a década de 1930 uma grande rede de intelectuais, músicos, políticos, jornalistas, pesquisadores, representantes de instituições e espaços culturais influentes e outros agentes, se empenhou em monumentalizar a imagem de Pixinguinha, e com particular ênfase entre as décadas de 1960 e 1980, quando foram sacramentados a elevada opinião que geralmente dele se tem até hoje e seu lugar de um dos maiores protagonistas na consolidação da música popular brasileira, um esforço que exerceu um impacto decisivo na historiografia e na imaginação popular. Por outro lado, sua ascensão à categoria de ícone o tornou centro de narrativas superficiais, imprecisas, folclóricas, tendenciosas, distorcidas, controversas, sentimentais, ufanistas, ingênuas ou mal fundamentadas, chegando até a tonalidades místicas. Vinicius de Moraes disse que ele era um "santo humano"; Sérgio Cabral equiparou sua morte à de Cristo; Arnaldo Antunes disse que sua obra "não parece coisa feita por gente; parece o canto das coisas em si". Frequentemente é chamado de "São Pixinguinha".
Em 1956, ainda vivo, foi homenageado com o batismo da rua em que vivia com seu nome. Em 1958 recebeu o prêmio de Melhor Arranjador oferecido pelo Correio da Manhã e a Biblioteca Nacional. Em 1967 recebeu a Ordem do Comendador do Clube de Jazz e Bossa, e o diploma da Ordem do Mérito do Trabalho do governo federal. Foi homenageado pela escola de samba Portela, em 1974, com o enredo "O Mundo Melhor de Pixinguinha". Em 1977 a Funarte lançou o Projeto Pixinguinha, voltado para o fomento da música brasileira, através da promoção de shows e gravações, levando também à formação de um acervo de memória com documentos, gravações, depoimentos, fotos, vídeos e filmes. Em 1997, celebrando seu centenário, uma estátua foi erguida na Travessa do Ouvidor diante do Bar Gouveia, que frequentava. Em 4 de setembro de 2000 foi sancionada lei originada por iniciativa do bandolinista Hamilton de Holanda e seus alunos da Escola de Choro Raphael Rabello, criando o Dia Nacional do Choro, a ser comemorado no dia 23 de abril. A data foi escolhida como homenagem ao que se acreditava ser a data de nascimento de Pixinguinha. Em novembro de 2016, entretanto, foi descoberto que a verdadeira data de nascimento do compositor é 4 de maio de 1897, e não 23 de abril. Apesar disso, a data de comemoração do estilo musical consagrado pelo artista permaneceu inalterada.


