Almutadide
Abu Alabás Amade ibne Tala Almuafaque (em árabe: أبو العباس أحمد بن طلحة الموفق; romaniz.: Abū al-ʿAbbās Aḥmad ibn Ṭalḥa al-Muwaffaq; 853/4 ou 860/1 – 5 de abril de 902, mais conhecido por seu nome de reinado Almutadide ou Almutádide Bilá, foi o califa do Califado Abássida de 892 até sua morte em 902.
Primeiros anos
Almutadide nasceu Amade, filho de Talha, um dos filhos do califa Almotauaquil (r. 847–861), e uma escrava grega chamada Dirar (falecido em setembro de 891, enterrado em Rusafa). A data exata de seu nascimento é desconhecida; como é registrado como tendo trinta e oito ou trinta e um anos de idade na época de sua ascensão, nasceu por volta de 854 ou 861. Em 861, Almotauaquil foi assassinado por seus guardas turcos em conluio com seu filho mais velho, Almontacir (r. 861–862). Isso deu início a um período de turbulência interna, conhecido como "Anarquia em Samarra", decorrido na capital califal, que terminou em 870 com a ascensão ao trono do tio de Amade, Almutâmide (r. 870–892). O verdadeiro poder, no entanto, residiu na elite dos soldados escravos turcos (gulans) e no próprio pai de Amade, Talha, que, como principal comandante militar do califado, serviu como intermediário entre o governo califal e os turcos. Assumindo o nome honorífico Almuafaque no estilo dos califas, Talha logo se tornou o governante efetivo do califado, posição consolidada em 882 após a tentativa falha de Almutâmide de fugir ao Egito que levou ao seu confinamento em prisão domiciliar.
Campanhas contra zanjes e tulúnidas
Foi contra os zanjes que o futuro Almutadide - nesta época geralmente referido pelo seu cúnia de Abu Alabás - adquiriria a sua primeira experiência militar e estabeleceria os estreitos laços militares que caracterizariam o seu reinado. Almuafaque deu a seu filho uma educação militar desde cedo, e o jovem príncipe tornou-se um excelente cavaleiro e um comandante solícito, que demonstrava atenção pessoal ao estado de seus homens e cavalos. Uma década após a eclosão da revolta em 869, os zanjes conquistaram a maior parte do Iraque Inferior, incluindo as cidades de Baçorá e Uacite, e expandiram-se para o Cuzestão. Em 879, a morte do fundador do Estado Safárida, Iacube Açafar, permitiu ao governo abássida concentrar totalmente a sua atenção contra a rebelião zanje, e a nomeação de Abu Alabás para comandar em dezembro de 879 10 mil soldados marca o ponto de viragem da guerra. Na longa e difícil luta que se seguiu, que envolveu operações anfíbias nos pântanos da Mesopotâmia, Abu Alabás e seu próprio gulans - dos quais Ziraque Aturqui, de longa data, era o mais eminente - desempenharam o papel principal. Embora os exércitos abássidas eventualmente tenham aumentado com reforços, voluntários e desertores zanjes, foram os poucos, mas de elite, gulans que formaram a espinha dorsal do exército, ocupando suas posições de liderança e suportando o peso da batalha, muitas vezes sob o comando pessoal de Abu Alabás. Depois de anos apertando gradualmente o cerco em torno dos zanjes, em agosto de 883 as tropas abássidas invadiram sua capital, Almoctara, pondo fim à rebelião. Um relato detalhado da guerra por um ex-rebelde zanje, preservado na história escrita por Tabari, enfatiza o papel de Almuafaque e Abu Alabás como os heróis que, em defesa do Estado muçulmano em apuros, suprimiram o rebelião; a campanha bem-sucedida tornar-se-ia uma ferramenta importante no seu esforço de propaganda para legitimar a sua usurpação de facto do poder do califa.
Prisão e ascensão ao trono
Durante este período, as relações entre Abu Alabás e seu pai deterioraram-se, embora a razão não seja clara. Já em 884, os gulans de Abu Alabás se rebelaram em Baguedade contra o vizir de Almuafaque, Saíde ibne Maclade, possivelmente por causa de salários não pagos. Eventualmente, em 889, Abu Alabás foi preso e colocado na prisão por ordem de seu pai, onde permaneceu apesar das manifestações dos gulans leais a ele. Aparentemente, permaneceu preso até maio de 891, quando Almuafaque retornou a Baguedade após dois anos em Jibal. Almuafaque, que sofria de gota, estava claramente à beira da morte; o vizir Ismail ibne Bulbul e o comandante da cidade de Baguedade, Abu Alçacre, chamaram Almutâmide e seus filhos, incluindo o herdeiro aparente Almufauade, à cidade, na esperança de explorar a situação para seus próprios propósitos. Esta tentativa de marginalizar Abu Alabás falhou devido à sua popularidade entre os soldados e o povo comum. Ele foi libertado para visitar o leito de morte de seu pai e pôde assumir imediatamente o poder quando Almuafaque morreu em 2 de junho. A turba de Baguedade saqueou as casas de seus oponentes e ibne Bulbul foi demitido e jogado na prisão, onde morreu devido a maus-tratos depois de alguns meses. Destinos semelhantes aguardavam qualquer um dos apoiadores de ibne Bulbul que fossem capturados pelos agentes de Abu Alabás.
Reinado
O orientalista Harold Bowen descreveu Almutadide na sua ascensão da seguinte forma: Assim como seu pai, o poder de Almutadide repousava em suas relações próximas com os militares. Como escreveu o historiador Hugh N. Kennedy, "chegou ao trono, essencialmente, como um usurpador [...] não por qualquer direito legal, mas por causa do apoio de seu gulans, que garantiu não apenas que ele se tornasse califa, mas também que seus rivais no exército fossem humilhados e dissolvidos". Assim, não surpreendentemente, as atividades militares consumiam seu interesse, especialmente porque geralmente liderava seu exército pessoalmente em campanha. Isso garantiu sua reputação como um califa-guerreiro e campeão da fé islâmica gazi); como comenta o historiador Michael Bonner, "[o] papel de 'califa gazi', inventado por Harune Arraxide e aprimorado por Almotácime, agora tinha seu maior desempenho, na campanha incansável de Almutadide". Desde o início de seu reinado, o novo califa se propôs a reverter a fragmentação do Califado Abássida, uma meta à qual trabalhou com uma mistura de força e diplomacia. Embora um militante ativo e entusiasmado, também era "um diplomata habilidoso, sempre preparado para fazer concessões com aqueles que eram poderosos demais para derrotar", de acordo com Kennedy.
Morte e legado
Almutadide morreu no Palácio Haçani em 5 de abril de 902, aos 40 ou 47 anos. Havia rumores de que ele havia sido envenenado, mas é mais provável que o rigor de suas campanhas, aliado à sua vida dissoluta, tenha debilitado gravemente sua saúde. Durante sua enfermidade final, recusou-se a seguir os conselhos de seus médicos e chegou até a matar um deles a pontapés. Ele deixou quatro filhos e várias filhas. De seus filhos, três — Almoctafi, Almoctadir e Alcair — governariam sucessivamente como califas, e apenas um, Harune, não se tornou califa. Almutadide foi o primeiro califa abássida a ser sepultado dentro da cidade de Baguedade. Como seus filhos depois dele, foi enterrado no antigo Palácio Taírida na parte ocidental da cidade, que agora era usado pelos califas como residência secundária.
A única esposa de Almutadide foi Catre Anada. Seus filhos eram descendentes de concubinas, como Jijaque, uma escrava de origem turca que foi mãe de Almoctafi, a grega Xagabe — que anteriormente pertencera a uma filha de Maomé ibne Abedalá ibne Tair, o governador taírida de Baguedade entre 851 e 867 — e que foi mãe do califa Almoctadir, Fitna, mãe do califa Alcair, e Dastambuai, que provavelmente foi mãe do filho de Almutadide, Harune, que morreu em 967. Almutadide também teve uma filha chamada Maimuna, que morreu em 921.


