Amarelo Manga
Amarelo Manga é um filme brasileiro de 2002, do gênero drama, dirigido por Cláudio Assis. Estrelado por Matheus Nachtergaele, Dira Paes, Chico Díaz, Jonas Bloch e Leona Cavalli, a obra retrata a vida de alguns moradores do centro histórico de Recife, guiados pelas suas paixões e frustrações do dia a dia. É o filme de estreia de Cláudio Assis como diretor e foi parcialmente inspirado em seu curta-metragem, Texas Hotel.
O filme começa com Lígia (Leona Cavalli), uma garçonete que está farta de sua rotina extenuante e que é forçada a recusar rotineiramente as propostas sexuais dos clientes do bar. Um dos homens que dá em cima de Lígia é Isaac (Jonas Bloch), um necrófilo que gosta de sodomizar cadáveres e beber seu sangue. Ele mora no Hotel Texas, onde Dunga (Matheus Nachtergaele), um gay, trabalha como faz-tudo. Dunga se sente atraído por Wellington (Chico Díaz), um açougueiro que entrega carnes no hotel. Wellington, porém, é casado com Kika (Dira Paes), uma mulher que se orgulha de ser cristã evangélica. No entanto, Wellington trai a esposa com uma mulher chamada Dayse (Magdale Alves). Dayse se cansa de ser amante de Wellington e conta a Dunga sobre o relacionamento. Dunga anonimamente revela a Kika que seu marido a está traindo, pensando que se ele pode destruir o casamento deles, ele e Wellington podem se tornar amantes. Kika encontra Wellington e Dayse juntos, os ataca e vai embora de vez. Wellington vai para o Hotel Texas em busca de consolo. Dunga quer levar Wellington para seu quarto, mas Wellington se desanima com o enterro do recém-falecido proprietário do hotel, Seu Bianor (Cosme Prezado Soares). Enquanto isso, Isaac é expulso do bar após tentar agarrar Lígia à força. Ele então é visto dirigindo seu carro e quando conhece Kika, ele a leva para seu apartamento e eles fazem sexo. No final do filme, Lígia é mostrada novamente reclamando de sua rotina. Segue-se uma montagem do cotidiano da cidade, terminando com a decisão de Kika de pintar o cabelo de amarelo manga, o mesmo tom que tanto atraiu Isaac para Lígia.
Escrevendo para o The New York Times, Stephen Holden interpretou a mensagem do filme da seguinte forma: "É assim que a metade inferior vive no Brasil e, por extensão, a humanidade em seu aspecto mais básico, vivendo sem as proteções cor-de-rosa que a riqueza oferece." Por tratar desse tipo de tema, o filme foi rotulado como "violento". Em resposta, Assis disse que "filma a vida como ela é". Jose Solis, do PopMatters, declarou que "apesar de sua aparência triste, o filme é uma celebração da vida". Assis tentou contrastar a violência retratada pelos filmes de ação de Hollywood com as "pequenas violências" que as pessoas enfrentam todos os dias, tornando-as "poéticas e violentas ao mesmo tempo". O personagem de Jonas Bloch atirando em cadáveres representa "um vício inofensivo e simbólico" da mesma forma que outros aspectos do filme "vem disso, dessa violência dentro de nós". Escrevendo no The New Yorker, Michael Sragow disse que: "O conteúdo humano... é o material da exploração artística." Domingas Person, da revista IstoÉ Gente, escreveu que a frase "o ser humano é estômago e sexo", dita pelo padre no filme, é um bom resumo do "espírito" do filme. Escrevendo para o Diário de Pernambuco, Luciana Veras declarou que o filme "fala dos excluídos que também almejam o mesmo que os personagens das novelas de Hollywood ou dos romances franceses: amor e felicidade". Assis criticou o fato de vários diretores gostarem de "glamourizar a pobreza" e, como tal, caracterizou seus personagens para mostrar o vício do povo. José Geraldo Couto, da Folha de S.Paulo, escreveu que o filme mostra que "os miseráveis não são queridos esperando a misericórdia dos outros, mas cheios de vida, dispostos a matar ou morrer para satisfazer seus desejos e instintos". Deborah Young, da Variety, opinou que a cor amarela manga representa tanto "a sombra ictérica de seus sonhos desfeitos" quanto seu senso de "inconformidade e sensação de vida".
Antes da Amarelo Manga, Cláudio Assis trabalhou como diretor de produção no filme Baile Perfumado, de 1996, e como diretor de três curtas-metragens. Um deles, o Texas Hotel, serviu de inspiração para Amarelo Manga. Alessandro Giannini, de O Estado de S. Paulo, disse que o Texas Hotel é "uma espécie de 'teste privilegiado' de Amarelo Manga", enquanto Ken Fox do TV Guide descreveu o Amarelo Manga como uma "versão expandida" do Hotel Texas. Couto escreveu que a "série gratuita de aberrações" apresentada no Texas Hotel se transformou em uma "narrativa articulada e cheia de significado". O custo de produção foi de R$ 450 mil. Assis ficou feliz com isso, lembrando que os filmes brasileiros custavam em média R$ 3 milhões na época. As filmagens ocorreram nos subúrbios das cidades de Recife e Olinda, ambas no estado de Pernambuco. Foi filmado com câmeras 35 mm trazidas de São Paulo e Rio de Janeiro, e as filmagens ocorreram em cinco semanas entre setembro e outubro de 2001.
A estreia de Amarelo Manga foi realizada no Festival do Rio em 4 de outubro de 2002, enquanto foi lançado nos cinemas nacionais em 15 de agosto de 2003. Apesar de receber elogios da crítica de cinema, foi recebido moderadamente pelo público brasileiro. Amarelo Manga arrecadou R$ 769.750,00, com uma audiência de 129.021 pessoas nas dezesseis salas brasileiras em que foi exibido, representando a décima segunda maior audiência de um filme nacional em 2003.
Resposta da crítica
As críticas especializadas em geral foram bastante elogiosas ao filme, mas ressaltaram que muitos poderiam se chocar com muitas das imagens do filme, cuja estética brutal é apresentada em contraste com imagens corriqueiras do Recife. No IMDb, o filme tem nota 6,7, baseada em 1934 avaliações de usuários. Os personagens, as atuações dos atores e a trilha sonora foram elogiados por Person e Veras, com Veras observando que as caracterizações do filme evitavam estereótipos. A cinematografia do filme foi elogiada por Person e Veras assim como por Marcelo Hessel do Omelete e Alcino Leite Netto da Folha de S.Paulo, com Netto avaliando que a imagem não era "decorativa" nem "sobressalente", mas uma parte do filme. A representação do filme sobre a vida real no Brasil foi elogiada por Hessel e Veras, com ambos comentando que Cidade de Deus é "cosmetizada" se comparada com Amarelo Manga, e Hessel afirmando que o filme é "um testemunho de valor documental e sociológico ". A crítica de cinema do website CinePOP Andrea Don declarou que é um filme que os espectadores amariam ou odiariam, concluindo que "você não sairá da sala do cinema da mesma forma que entrou". Em 2015, foi reconhecido pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema como o 86º melhor filme brasileiro de todos os tempos no Top 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos.
Mídia Caseira
O filme foi lançado em DVD no Brasil pela Califórnia Filmes em 2004, enquanto nos Estados Unidos foi lançado pela First Run Features em parceria com a Global Film Initiative na série "Global Lens 2004/2003" em 2005, e relançado em "The Best of Global Lens: Brazil" em 2011.
Prêmios e indicações
No 35º Festival de Brasília, Amarelo Manga foi eleito o Melhor Filme pelo júri oficial, pelo júri popular e pela crítica; também recebeu os prêmios de Melhor Fotografia, Melhor Edição, Melhor Elenco e Melhor Ator para Chico Díaz. Assis ganhou o prêmio de Melhor Filme de Estreia no 25º Festival de Cinema de Havana, onde o filme também ganhou o prêmio de Melhor Fotografia. Também ganhou o prêmio de Melhor Fotografia no 7° Festival de Cinema Brasileiro de Miami. Amarelo Manga venceu em todas as categorias de longa-metragem do 13º Cine Ceará – Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Fotografia, Melhor Roteiro, Melhor Direção de Arte, Melhor Trilha Sonora, Melhor Ator para Matheus Nachtergaele e Melhor Atriz para Dira Paes – e também recebeu um prêmio especial por seu figurino. Embora indicado em 13 categorias no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro de 2004, venceu apenas na categoria de Melhor Fotografia. No 53º Festival Internacional de Cinema de Berlim, ganhou o prêmio de Melhor Filme na seção Fórum, e recebeu o Grande Prêmio no 15º Festival de Cinema da América Latina de Toulouse. Também foi indicado ao Prêmio Ariel de Melhor Filme Ibero-Americano.
Trilha sonora feita por Jorge Du Peixe em conjunto com Lúcio Maia, gravada pela YB Music.

