Arte espacial
Arte espacial é a expressão usada para definir um gênero artístico que busca representar as maravilhas do Universo. Porém, também pode incluir obras de arte que são feitas no espaço, em situações de gravidade zero dentro de espaço naves, estações espaciais ou voos parabólicos, assim como inclui também obras de arte feitas na Terra porém enviadas ao espaço, seja para orbitarem como satélites artificiais ou como parte de satélites maiores, ou para permanecerem em corpos celestes, como em Marte ou na Lua.
Considera-se que a arte astronômica é o aspecto da arte espacial dedicada a visualizar as maravilhas do espaço sideral. Uma das suas grandes ênfases é a compreensão do ambiente espacial como uma nova fronteira para a Humanidade. Outras obras retratam mundos alienígenas, extremos da matéria, como buracos negros, e conceitos decorrentes da inspiração derivada da astronomia. A arte astronômica, nas décadas de 1940 e 50, foi desbravada principalmente por Chesley Bonestell, cujas habilidades para resolver problemas de perspectiva, para pintar com o olho de um mestre de pinturas "matte", comuns ao cinema, criando assim uma impressão visual realista, e para procurar os maiores especialistas nos campos que fascinavam ele, eram formidáveis. Seu trabalho foi inspirador na era pós-guerra para que se pudesse pensar sobre viagens espaciais, que pareciam impossíveis antes do foguete V-2. Até hoje, vários artistas ajudam a trazer ideias de forma apresentável para a comunidade espacial, tanto retratando as ideias mais recentes sobre como sair da Terra quanto mostrando as maravilhas que nos aguardam lá fora.
O Segundo Simpósio sobre Viagem Espacial do Planetário Hayden, que aconteceu em Nova Iorque em 1952, resultou em uma série muito conhecida de artigos sobre voos espaciais, publicados na Revista Colliers e ilustrados por Bonestell e outros.
O cosmos pode servir como fonte para diversos tipos de inspirações visuais. Nossa crescente habilidade de reunir e propagar essas imagens se espalharam pela cultura de massa, principalmente nas últimas décadas. A chegada do ser humano na Lua, em 1969, foi um evento que desencadeou transformações culturais, tecnológicas, sociais e políticas que influenciaram a produção artística pelas décadas seguintes. Junto a isso, a fotografia também também se transformou em uma importante mídia para a arte espacial. A primeira fotografia da Lua foi por John Adams Whipple, que procurou a ajuda do astrônomo de Harvard William Cranch Bond. Usando o telescópio Great Refractor do observatório da Universidade, eles capturaram o corpo celeste em sua fase crescente em 14 de março de 1851. Séculos mais tarde, as fotografias tiradas por exploradores na Lua puderam compartilhar a experiência de estar em outro mundo. Mais tarde, fotografias da Lua continuariam a ter relevância para as artes, como é o caso do livro de artista Full Moon, com autoria do artista Michael Light, publicado em 1999. O livro questiona a supremacia estadounidense na exploração espacial e busca criticar sistemas sociais e políticos.
Imagem: Sebastián-Dario · BY-NC · Openverse
Os artistas de arte astronômica que buscam representar o cosmos muitas vezes trabalham em colaboração direta com cientistas e engenheiros espaciais para ajudá-los a visualizar e desenvolver seus conceitos científicos e tecnológicos. De certa forma, esse trabalho acaba tornando realidade o sonho da exploração espacial ou, pelo menos, o torna tangível. Outras formas de arte espacial pictórica levam o espectador a visões internas inspiradas direta ou indiretamente pelos frutos da visão em expansão da Humanidade. Alguns aspectos dessa arte prestam homenagem visual ao espaço sideral, ideias populares de vida em outros mundos, incluindo visões de visitas alienígenas, simbologia de sonhos, imagens psicodélicas e outras influências na arte visionária contemporânea. Com o passar dos anos e com a intensificação dos desenvolvimentos tecnológicos nessa área, os artistas podem experimentar, por exemplo, as condições de queda livre durante os voos realizados com a NASA, assim como com as agências espaciais russas e francesas e com o Zero Gravity Arts Consortium. Isso acarreta em novos métodos de expressões artísticas, revelados à medida que os artistas imaginam novas maneiras de utilizar ambientes de microgravidade para criar obras artísticas. Embora tais sonhos aguardem oportunidades substanciais, os primeiros esforços dos artistas para colocar peças de arte no espaço já foram realizados com pintura, holografia, móbiles de microgravidade, obras literárias flutuantes e escultura.
Primeira arte criada no espaço
Considera-se que o primeiro artista ativo no espaço foi o astronauta russo Alexei Leonov, que produziu o que seria o primeiro desenho no espaço a bordo da Voskhod 2 em 1965, representando um nascer do sol orbital. Dois anos mais tarde, Leonov, junto com outro artista de arte espacial, Andrey Sokolov, criaram os primeiros selos com temática espacial da União Soviética. Em março de 1967, os selos foram lançados como parte da celebração do Dia do Cosmonauta (12 de abril), uma referência ao primeiro voo espacial tripulado, responsável por levar o soviético Yuri Gagarin ao espaço. Observações visuais foram registradas em desenhos, assim como deram corpo aos comentários de cosmonautas e astronautas anteriores sobre fenômenos difíceis de fotografar, como o brilho do ar, as cores do crepúsculo e os detalhes externos da coroa solar . Um artista capaz e observador pode registrar aspectos do Universo além das limitações de design de qualquer sistema de câmera em particular.
Primeiras pinturas a óleo lançadas no espaço sideral
A partir do lançamento do satélite Sputnik, em 1957, as experiências com arte no espaço lentamente começaram. Uma dessas experiências foi um experimento em conservação de arte, encabeçado pela Vertical Horizons, uma empresa dedicada ao aprimoramento da vida no espaço e liderada pelo psicólogo Howard Wishnow e pelo artista Ellery Kurtz, que se deu a bordo do ônibus espacial Columbia STS-61-C em 1986. Quatro pinturas a óleo originais de Kurtz foram transportadas em um dos contêineres da iniciativa da NASA chamada Get Away Special (GAS). O experimento foi projetado para testar materiais de arte orgânicos, como tintas à base de óleo, telas de linho, primers e materiais de ligação para degradação durante o voo espacial. Segundo o seu site, a " Vertical Horizons avaliou os materiais antes e depois do voo para saber como o ambiente espacial os afetou. O experimento formou uma base para o estudo futuro de métodos para transportar objetos de arte visual no espaço."
Arte em gravidade zero - em espaçonaves, estações espaciais e voos parabólicos
Entre os anos 70 e 80, outros trabalhos orbitaram a Terra: o artista russo Andrey Sokolov teria exposto suas obras a bordo da estação espacial soviética Mir. O colecionador Leo Bordreau afirma que Sokolov teve trabalhos que foram levados à órbita da Terra em março de 1971 a bordo da Soyuz 11, tornando as primeiras pinturas a guache a serem lançadas ao espaço. Já o físico Andrew LePage, citando o livro russo Star Way of Humanity (1989) afirma que a obra The Morning of the Take-Off (1978) de Sokolov teria sido a primeira ao ser mandada para a estação espacial Salyut 6 e que teria sido trazida de volta à Terra em 1978. Faltam fontes confiáveis. Vale ressaltar a importância das placas Pioneer na história da arte espacial. O projeto, encabeçado por Carl Sagan, contém um par de placas metálicas que foram colocadas nas sondas interplanetárias Pioneer 10 e Pioneer 11. Elas possuem uma mensagem pictórica feita com a intenção de ser, eventualmente, ser interceptada por vida extraterrestre. Lançadas em 1972 e 1973, as sondas tinham como destino final Jupiter, e foram as primeiras com a capacidade de sair do Sistema Solar.
Projeto Sojourner 2020 a bordo da Estação Espacial Internacional
Em 2020, o projeto Sojourner2020, parte da Iniciativa de Exploração Espacial do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), selecionou nove artistas para desenvolver projetos de arte a bordo da Estação Espacial Internacional. O Sojourner2020 tinha uma unidade de tamanho 1,5U, 100 mm x 100 mm x 152,4 mm e foi lançado em órbita baixa da Terra entre 7 de março e 7 de abril desse ano, durante a pandemia de COVID-19. Sua particularidade é que apresentava uma estrutura telescópica de três camadas, capaz de criar três “gravidades” diferentes: gravidade zero, gravidade lunar e gravidade marciana. Cada camada da estrutura girava independentemente, de modo a criar diferentes ambientes. A camada superior permaneceu imóvel na ausência de peso, enquanto as camadas intermediária e inferior giravam em velocidades diferentes para produzir acelerações centrípetas que imitavam a gravidade lunar e a gravidade marciana, respectivamente. Cada camada carregava 6 bolsos que continham os projetos. Cada bolso, por sua vez, era um recipiente com 10mm de diâmetro e 12mm de profundidade. Mesmo com essa escala limitada, os artistas propuseram e realizaram obras de arte em uma variedade de mídias diferentes: era possível encontrar esculturas com pedra esculpidas, como fez Erin Genia, experimentos com pigmentos líquidos, realizados por Andrea Ling e Levi Cai, esculturas feitas de remédios de reposição hormonal, por Adriana Knouf, e até organismos vivos, como diatomáceas marinhas do gênero Phaeodactylum Tricornutum, realizado por Luis Guzmán.
Cápsula do Tempo de DNA no Espaço
Em 2024, Amy Karle criou Ecos do Vale da Existência, uma obra de arte interativa que envolve os participantes para considerarem os ecos duradouros de seus remanescentes biológicos e digitais no tempo e espaço. A obra reflete a biometria dos visitantes e o rastreamento corporal, espelhando a pessoa em uma forma digital. Os participantes têm a oportunidade de contribuir com textos e amostras de DNA, que são posteriormente convertidos em pó e encapsulados em um polímero. As imagens, textos e formas de DNA compõem uma cápsula do tempo enviada à lua em 2026 pela LifeShip e pela SpaceX.
Obras de arte lançadas ao espaço através de satélites - ArtSat
Além das obras de arte que ocuparam espaços como espaçonaves, ônibus espaciais, ou que foram realizadas para serem deixadas em corpos celestes, como na Lua ou em Marte, há também aquelas que foram feitas para utilizar o espaço sideral. São obras que ocupam o céu, como a obra O Contorno da Presença, do artista mexicano Nahum. Outras, são em si mesmas satélites artificiais, também chamadas de ArtSat, ou arte de satélites. Esse é o caso da obra Refletor Orbital, de Trevor Paglen, lançado em 2018, e de Enoch, de Tavares Strachan, lançado nesse mesmo ano. O primeiro satélite puramente artístico foi lançado somente em 2014. O projeto ARTSAT-1 Invader da Universidade de Tóquio enviou dados espaciais para a Terra que foram usados em instalações de arte e criação de música.
Imagem: alvazer · BY · Openverse
Associação Internacional de Artistas Astronômicos
A principal organização e única guilda no mundo dedicada à criação de arte espacial é a Associação Internacional de Artistas Astronômicos (IAAA). Enquanto uma organização não-governamental e sem fins lucrativos, a IAAA tem mais de 120 membros e tem como objetivo implementar e participar de projetos de arte astronômica e espacial, promover a educação sobre arte astronômica e fomentar a cooperação internacional em trabalhos artísticos inspirados na exploração do Universo. Os membros da IAAA criam arte espacial em todas as suas inúmeras formas desde a sua fundação em 1982. Ou seja, expressam-se através da pintura tradicional, de obras digitais, esculturas em 3D e de obras em gravidade zero. Numerosas capas de livros e revistas, efeitos de filmes e imagens artísticas que ilustram as mais recentes descobertas astronômicas são feitas por membros da IAAA.


