Ana Comnena
Ana Comnena, frequentemente chamada na forma latinizada Anna Comnena, foi uma historiadora grega do Império Bizantino. Ela é a autora da A Alexíada, uma obra que narra o reinado de seu pai, o imperador bizantino Aleixo I Comneno. Sua mãe foi Irene Ducena.
Primeiros anos
Ana nasceu em 1º de dezembro de 1083, filha de Aleixo I Komnenos e Irene Ducena. Seu pai tornou-se imperador em 1081, depois de depor o então governante do Império Bizantino, Nicéforo III Botaniates. Já sua mãe, Irene Ducena, pertencia à influente família imperial dos Ducas. Na Alexíada, Ana destaca o grande carinho que tinha pelos pais ao descrever sua relação com Aleixo e Irene. Ela era a mais velha de sete filhos; seus irmãos mais novos eram, em ordem, Maria, João II, Andrônico, Isaac, Eudócia e Teodora. Ana nasceu na Câmara da Porfira, localizada no palácio imperial de Constantinopla. Por isso era considerada uma porfirogênita, termo usado para designar filhos de imperadores nascidos durante o reinado de seus pais, dentro do palácio. Esse título reforçava seu alto status imperial. Na Alexíada, a própria Ana menciona esse fato ao afirmar que foi “nascida e criada na púrpura”, expressão associada à realeza. Segundo o relato dela mesma, sua mãe teria pedido que ela esperasse para nascer até que seu pai retornasse da guerra. De acordo com essa história, Ana teria obedecido e só nasceu quando Alexios voltou para casa.
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Ana foi educada em história, matemática, ciência e filosofia grega. Por sua erudição, foi reconhecida pelo acadêmico medieval Nicetas Coniates, que escreveu que Ana "era devota fervorosa da filosofia, a rainha de todas as ciências e versada em todos os campos". A historiadora moderna Carolyn L. Connor afirma que "educação é central para a auto-definição de Ana". A concepção de Ana sobre sua própria educação aparece no seu testamento, que agradece aos pais por terem permitido que ela a obtivesse. Este testamento contrasta com um discurso funerário sobre Ana proferido pelo contemporâneo Jorge Tornício no qual ele afirma que ela foi obrigada a ler poesia antiga - como a "Odisseia" de Homero - em segredo por que seus pais não aprovavam a forma como ela lidava com o politeísmo e outras "coisas perigosas", "danosas" para os homens e "excessivamente insidiosas" para as mulheres. Tornício segue afirmando que Ana "abraçava a fragilidade de sua alma" e estudava a poesia "tomando cuidado para não ser descoberta pelos pais".
Ana conta que, nos primeiros anos de sua infância, ela foi criada pela antiga imperatriz Maria da Alânia, que era mãe do primeiro noivo de Ana, Constantino Ducas, cujo pai era o imperador Miguel VII Ducas. Era costume da época que as noivas fossem educadas por suas futuras sogras. Não havendo um filho varão para herdar o trono, Constantino foi proclamado coimperador, mas, em 1087, nasceria o filho aguardado, o futuro João II Comneno. Constantino abandonou as suas pretensões imperiais e morreu pouco depois. Em 1097, Ana casou-se aos 14 anos com outro nobre, o césar Nicéforo Briénio, estadista, general e historiador, filho de uma família aristocrática, os Briênios, que contestara o trono antes da ascensão de Aleixo. O pai deste, Nicéforo Briênio, foi um general vencido por Aleixo, e assim este provavelmente pretendia apaziguar os seus rivais e obter consenso sob a sua coroa. Segundo Ana, tratou-se de um casamento político e não por amor, mas tornar-se-ia numa união de sucesso durante quarenta anos, da qual nasceram quatro filhos:
Ana se mostrou muito capaz não apenas no nível intelectual, mas também em assuntos práticos. Seu pai a encarregou de um grande hospital e orfanato que havia construído para que ela administrasse em Constantinopla. Diz-se que o hospital tinha leitos para 10 000 pacientes e orfãos.[carece de fontes?] Ana ensinava medicina ali e em outros estabelecimentos similares e era considerada uma especialista em gota. Ana tratou do pai em seus últimos anos.
Em 1087, nasceu o irmão de Ana, o João II Comneno. Anos depois do nascimento, em 1092, o jovem foi apontado como coimperador. De acordo com Nicetas Coniates, o imperador Aleixo - pai de Ana - favorecia João enquanto que, por outro lado, Irene Ducena, "usou de toda a sua influência no lado de [Ana]" e "tentou continuamente" persuadir o imperador a apontar Nicéforo Briênio, o marido de Ana, também como imperador. Por volta de 1112, Aleixo caiu doente de reumatismo e não conseguia se mexer. Por isso, ele entregou o governo do império à esposa, que entregou a administração a Nicéforo. Com o imperador padecendo em seu leito de morte, João, de acordo com Coniates, sorrateiramente tomou-lhe o anel imperial durante um abraço, "como se estivesse sofrendo". Em 1118, Aleixo Comneno morreu e o clero de Santa Sofia aclamou João como imperador em seguida. De acordo com Dion C. Smythe, Ana "se sentiu traída" pois "deveria ter herdado". De fato, de acordo com a "Alexíada", ela teria sido presenteada com "uma coroa e o diadema imperial" logo ao nascer. O "principal objetivo" de Ana ao contar os eventos na "Alexíada", de acordo com Vlada Stankovic, era "afirmar seu próprio direito" ao trono e sua "precedência sobre seu irmão João".
Em reclusão, Ana encarregou-se da escola do mosteiro e só se tornaria monja no seu leito de morte. Durante a sua vida dedicou-se a estudar filosofia e história e reuniu-se com intelectuais eminentes, entre os quais os dedicados aos estudos aristotélicos. Os seus conhecimentos e inteligência ficaram demonstrados nos poucos trabalhos da sua autoria. Entre outros assuntos, era versada em filosofia, literatura, gramática, teologia, astronomia e medicina. Através de pequenos erros na "Alexíada", pode-se concluir que citava Homero e a Bíblia de memória. Os seus contemporâneos, como o bispo,Jorge Tornício de Éfeso, viam Ana como uma pessoa que atingira "o cume máximo da sabedoria, tanto secular como divina". Como historiador, ao morrer em 1137, Nicéforo Briênio deixou incompleto um ensaio que intitulara de "Material para a História, centrado no reinado de Aleixo I Comneno. Aos 55 anos de idade, Ana decidiu concluir a obra, passando a intitulá-la "A Alexíada", a história da da carreira política do seu pai Aleixo de 1069 até à sua morte em 1118. Concluída em 1148, esta história é atualmente uma das principais fontes sobre a história política do Império Bizantino no final do século XI e início do século XII, tendo sido escrita em grego em 15 volumes.
A data exata da morte de Ana Comnena é desconhecida. Através de A Alexíada, conclui-se que ainda estava viva em 1148. Na obra, ela também transparece seu estado emocional, escrevendo que ninguém podia vê-la, mas muitos a odiavam, o que significa que ela detestava sua posição de isolamento da sociedade forçado pelo exílio que lhe fora imposto.


