Anekantavada
Anekāntavāda é uma das mais importantes e fundamentais doutrinas do jainismo. Refere-se aos princípios do pluralismo e da multiplicidade de pontos de vista, em que a verdade e a realidade são entendidos de forma diferente consoante a perspectiva, e que nenhum ponto de vista consegue abranger toda a verdade.
A origem etimológica do termo anekāntavāda vem da combinação de duas palavras sanscritas: anekānta ("multiplicidade" ou "variedade") e vāda ("escola de pensamento"). A palavra anekānta, por sua vez, é uma combinação do prefixo de negação an, eka ("um"), e anta ("atributo"). Deste modo, anekānta significa "not of solitary attribute". A doutrina jainista tem por base uma forte ênfase em ratnatraya (as três pedras preciosas do jainismo: visão, conhecimento e conduta), ou seja, razão e lógica. De acordo com os jainistas, o princípio principal deve ser sempre lógico e nenhum princípio pode ser desprovido de lógica e razão. Assim, os textos jainistas são caracterizados por uma exortação sobre todos os assuntos, sejam eles construtivos ou obstrutivos, inferenciais ou analíticos, instrutivos ou destrutivos.
Doutrinas jainistas da relatividade
A Anekāntavāda é uma das três doutrinas do jainismo sobre a relatividade utilizada na lógica e na razão. As outras duas são: Estes conceitos filosóficos jainistas tiveram uma influência significativa na antiga filosofia indiana, em particular nas áreas do cepticismo e da relatividade. A Syādvāda é a teoria da predicação condicionada, a qual dá valor a anekānta recomendando que o epíteto Syād seja colocado no início de cada frase ou expressão. Syādvāda não é apenas uma extensão da ontologia de anekānta, mas um sistema separado de lógica capaz de manter por si próprio. A raiz etimológica sânscrita do termo syād é "talvez" ou "possivelmente", mas no contexto de syādvāda, quer dizer "de alguma forma" ou "de uma perspectiva". Como a realidade é complexa, não existe uma única proposição que expresse, de uma forma completa, a realidade. Assim, o termo "syāt" deve ser colocado sempre antes de cada proposição dando-lhe um ponto de vista condicional e, desse modo, retirando qualquer dogmatismo na frase. Como o termo assegura que cada frase ou afirmação é expressa de sete proposições ou pontos de vista condicionais e relativos diferentes, syādvāda é conhecido como saptibhaṅgīnāya ou teoria das sete predicações condicionadas. Estas sete proposições, também conhecidas como saptabhangi, são:
Sincretismo de realidades mutáveis e imutáveis
A época de Mahāvīra e de Buda foi um período de discussões intelectuais, em particular sobre a natureza da realidade e do eu. O pensamento upanixade postulou a realidade imutável e absoluta de Brâman e Ātman e defendeu a ideia de que a mudança é uma mera ilusão. A teoria avançada pelos budistas negava a realidade da permanência do fenómeno condicionado, aceitando apenas a interdependência e a não-permanência. De acordo com o esquema conceptual vedāntin (upanixadíco), os budistas estavam errados ao negarem a permanência e o absolutismo; e, de acordo com o esquema conceptual budista, os vedāntinos estavam equivocados ao negarem a realidade da não-permanência. As duas posições eram contraditórias e mutuamente exclusivas dos seus pontos de vista. Os jainistas conseguiram integrar as duas posições intransigentes com a anekāntavāda. De uma perspectiva a um nível mais alto e inclusivo, tornado possível pela ontologia e pela epistemologia da anekāntavāda e da syādvāda, os jainistas não veem aqueles pontos de vista como contraditórios ou mutuamente exclusivos; em vez disso, são vistos como ekantika ou apenas parcialmente verdadeiros. O alargado espaço de visão dos jainistas consegue abarcar ambas as perspectivas Vedānta as quais, de acordo com o janinísmo, "reconhecem a substância mas não o processo", e com o budismo, o qual "reconhece o processo mas não a substância". Por outro lado, o jainismo dá atenção, de igual forma, à substância (dravya) e ao processo (paryaya).
Parábola dos homens cegos e do elefante
Os antigos textos jainistas costumam explicar os conceitos daanekāntvāda e syādvāda através da parábola dos homens cegos e do elefante (Andhgajanyāyah), que aborda natureza múltipla da verdade. Um grupo de homens cegos soube que um estranho animal, chamado elefante, tinha sido levado até à cidade, mas nenhum deles conhecia a sua forma. Cheios de curiosidade, disseram: "Temos que o examinar através do toque". Assim, foram à sua procura, e quando o encontraram começaram a tocar-lhe. O primeiro deles, cuja mão tocou no tronco, disse: "Este ser é como um tubo de drenagem". Para outro dos cegos, que tocou na orelha do elefante, pareceu-lhe um tipo de leque. Um outro, que mexeu nas pernas, afirmou: "A forma do elefante parece um pilar". E aquele que colocou a sua mão no seu dorso, disse: "De facto, este elefante parece um trono". Como se pode ver, cada um deste homens percepcionou um aspecto verdadeiro ao examinar o elefante. Nenhum deles ficou longe da verdadeira descrição do animal. No entanto, eles ficaram aquém de perceber plenamente a verdadeira aparência do elefante.
O princípio da anekāntavāda é a base da origem de muitos conceitos filosóficos jainistas. O desenvolvimento da anekāntavāda também motivou o desenvolvimento das dialécticas da syādvāda (pontos de vista condicionados), saptibhaṅgī (as sete afirmações condicionadas), e nayavāda (pontos de vista parciais).
Origens
As origens daanekāntavāda vêm dos ensinamentos de Mahāvīra, o qual a utilizou de forma eficaz para demonstrar a relatividade da verdade e da realidade. Tomando um ponto de vista relativista, diz-se que Mahāvīra terá explicado a natureza da alma simultaneamente permanente - do ponto de vista da substância inerente -, e temporária - do ponto de vista das duas formas e variedades. A importância e antiguidade da anekāntavāda são, também, demonstradas pelo facto de que ela formou o contexto Astinasti Pravāda, a quarta parte da desaparecida Purva, que continha os ensinamentos Tīrthaṇkaras, anterior à Mahāvīra. O indólogo alemão Hermann Jacobi acredita que a Mahāvīra utilizou, eficazmente, as dialécticas da anekāntavāda para refutar o agnosticismo de Sañjaya Belaṭṭhaputta. O Sutrakritanga, o segundocânone mais antigo do Jainísmo, contém as primeiras referências à syādvāda e saptibhaṅgī. Segundo o Sūtrakritanga, Mahāvīra aconselhou os seus discípulos a utilizar a syādvāda para transmitir os seus ensinamentos:


