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Sigmund Freud

Sigmund Freud foi um médico neurologista e importante psicanalista austríaco. Reconhecido como o fundador da psicanálise, tornou-se a figura mais influente da história da psicologia. A influência de Freud pode ser observada ainda em diversos outros campos do conhecimento e até mesmo na cultura popular, inclusive no uso cotidiano de palavras que se tornaram recorrentes, mas que surgiram a partir de suas teorias. Expressões como "neurose", "repressões", "projeções" popularizaram-se a partir de seus escritos.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 11/07/2026
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Biografia

Freud usou pseudônimos em seus estudos de caso. Alguns pacientes conhecidos por pseudônimos foram Cäcilie M. (Anna von Lieben); Dora (Ida Bauer, 1882–1945); Frau Emmy von N. (Fanny Moser); Fräulein Elisabeth von R. (Ilona Weiss); Fräulein Katharina (Aurelia Kronich); Fräulein Lucy R.; Little Hans (Herbert Graf, 1903–1973); Rat Man (Ernst Lanzer); Enos Fingy (Joshua Wild); e Wolf Man (Sergei Pankejeff). Outros pacientes famosos incluíam Príncipe Pedro Augusto do Brasil; H.D.; Emma Eckstein; Gustav Mahler, com quem Freud teve apenas uma consulta prolongada; Princess Marie Bonaparte; Edith Banfield Jackson; e Albert Hirst. Em 1917, Freud notou uma lesão dolorosa no palato, mas, após ela recuar, não procurou atendimento médico. Em fevereiro de 1923, o crescimento se espalhou, momento em que Freud o identificou como sendo leucoplasia ou epitelioma, causado por seu hábito de fumar. Relutante em abandonar o fumo, inicialmente manteve seus sintomas em segredo. Freud consultou posteriormente o dermatologista Maximilian Steiner, que lhe aconselhou a parar de fumar, minimizando as implicações da lesão. Pouco depois, Freud se encontrou com Felix Deutsch, que também relutou em dizer a Freud que o crescimento era cancerígeno. Ele também o descreveu como um caso de leucoplasia. Ambos disseram a Freud para abandonar o fumo, e Deutsch recomendou que ele procurasse tratamento cirúrgico. Freud foi tratado por Marcus Hajek, um otorrinolaringologista cuja competência ele já havia questionado. Hajek realizou uma cirurgia cosmética desnecessária no ambulatório de sua clínica. Freud sangrou durante e após a operação e pode ter escapado por pouco da morte. Em uma visita subsequente, Deutsch observou que seria necessária outra cirurgia, mas não informou a Freud que ele tinha câncer por receio de que Freud cometesse suicídio.

Infância e educação

Sigmund Freud cujo nome de nascimento era "Sigismund" (alterado em 1878), nasceu em uma família judia na cidade morávia de Freiberg, localizada no território do Império Austríaco (atualmente Příbor, na República Tcheca). Seus pais eram originários da Galícia, uma província histórica que abrange a atual Ucrânia Ocidental e o sudeste da Polônia. Seu pai, Jacob Freud (1815–1896), um comerciante de lã, teve dois filhos, Emanuel (1833–1914) e Philipp (1836–1911), de seu primeiro casamento. A família de Jacob era de judeus hassídicos e, embora tenha se afastado da tradição, ele ficou conhecido por seu estudo da Torá. Jacob casou-se pela terceira vez com Amalia Nathansohn, 20 anos mais jovem que ele, em uma cerimônia realizada pelo rabino Isaac Noah Mannheimer em 29 de julho de 1855.

Carreira inicial e casamento

Embora tenha se formado em 1881, Freud permaneceu no laboratório de Ernst Brücke, dando continuidade às suas pesquisas. No ano seguinte, durante uma visita à casa de sua irmã, conheceu Martha Bernays, por quem se apaixonou. Em 17 de junho de 1882, os dois ficaram noivos. Martha, cinco anos mais jovem que Freud, pertencia a uma família judaica ortodoxa, enquanto ele, descrente, tentou afastá-la de suas convicções religiosas. Freud também demonstrava uma visão austera sobre o papel de Martha no casamento: embora acreditasse que, no futuro, as mulheres conquistariam direitos até então negados, mantinha a perspectiva burguesa da época de que a esposa deveria se dedicar às tarefas domésticas e à família.

Relação com Fliess

Durante o período formativo de seu trabalho, Freud passou a valorizar e depender do apoio intelectual e emocional de seu amigo Wilhelm Fliess, um especialista em otorrinolaringologia de Berlim, que conheceu pela primeira vez em 1887. Ambos se viam como isolados da corrente clínica e teórica dominante devido às suas ambições de desenvolver teorias radicais sobre a sexualidade. Fliess desenvolveu teorias bastante excêntricas sobre biorritmos e uma conexão nasogenital que hoje são consideradas pseudocientíficas. Ele compartilhava as opiniões de Freud sobre a importância de certos aspectos da sexualidade – masturbação, coitus interruptus e o uso de preservativos – na etiologia do que então se chamava "neuroses reais", principalmente neurastenia e certos sintomas de ansiedade manifestados fisicamente. Mantiveram uma extensa correspondência da qual Freud tirou as especulações de Fliess sobre a sexualidade infantil e a bissexualidade para elaborar e revisar suas próprias ideias. Sua primeira tentativa de uma teoria sistemática da mente, o Projeto para uma Psicologia Científica, foi desenvolvido como uma metapsicologia com Fliess como interlocutor. Contudo, os esforços de Freud para construir uma ponte entre a neurologia e a psicologia foram eventualmente abandonados após atingirem um impasse, como revelam suas cartas a Fliess, embora algumas ideias do Projeto tenham sido retomadas no capítulo final de A Interpretação dos Sonhos.

Desenvolvimento da psicanálise

Após estabelecer sua prática privada em Viena em 1886, Freud começou a utilizar a hipnose em seu trabalho clínico. Adotou a abordagem de seu amigo e colaborador, Josef Breuer, numa forma de hipnose diferente dos métodos franceses que estudara, na medida em que não utilizava a sugestão. O tratamento de uma paciente específica de Breuer foi transformador para a prática clínica de Freud. Descrita como Anna O., ela foi convidada a falar sobre seus sintomas enquanto estava sob hipnose (ela cunharia a expressão "cura pela fala"). Seus sintomas reduziram-se à medida que ela recuperava memórias de eventos traumáticos associados ao seu início. Os resultados inconsistentes do trabalho clínico inicial de Freud levaram-no, eventualmente, a abandonar a hipnose, concluindo que um alívio dos sintomas mais consistente e eficaz poderia ser alcançado encorajando os pacientes a falar livremente, sem censura ou inibição, sobre quaisquer ideias ou memórias que lhes ocorressem. Ele chamou esse procedimento de "livre associação". Em conjunto com isso, Freud descobriu que os sonhos dos pacientes poderiam ser analisados de forma frutífera para revelar a complexa estruturação do material inconsciente e para demonstrar a ação psíquica da repressão que, segundo ele, subjaz à formação dos sintomas. Em 1896, passou a usar o termo "psicanálise" para se referir a seu novo método clínico e às teorias que o fundamentavam.

Primeiros seguidores

Em 1902, Freud, finalmente, realizou sua longa ambição de ser nomeado professor universitário. O título de "professor extraordinarius" foi importante para Freud pelo reconhecimento e prestígio que conferia, não havendo salário ou obrigações de ensino vinculadas ao cargo (ele receberia o status aprimorado de "professor ordinarius" em 1920). Apesar do apoio da universidade, sua nomeação foi bloqueada em anos sucessivos pelas autoridades políticas, sendo garantida apenas com a intervenção de uma influente ex-paciente, a Baronesa Marie Ferstel, que (supostamente) teve que subornar o ministro da educação com uma pintura de valor. Freud continuou com sua série regular de palestras sobre seu trabalho que, desde meados da década de 1880 como docente da Universidade de Viena, ministrava para pequenos públicos todas as noites de sábado no auditório da clínica psiquiátrica da universidade. A partir do outono de 1902, vários médicos vienenses que demonstraram interesse pelo trabalho de Freud foram convidados a se reunir em seu apartamento todas as quartas-feiras à tarde para discutir questões relacionadas à psicologia e neuropatologia. O grupo ficou conhecido como a Sociedade Psicológica das Quartas-feiras e marcou o início do movimento psicanalítico.

Movimento psicanalítico inicial

Após a fundação da IPA em 1910, uma rede internacional de sociedades, institutos de formação e clínicas psicanalíticas se estabeleceu, e uma programação regular de Congressos bienais foi instituída após o fim da Primeira Guerra Mundial para coordenar suas atividades e como fórum para a apresentação de artigos sobre temas clínicos e teóricos. Abraham e Eitingon fundaram a Sociedade Psicanalítica de Berlim em 1910 e, posteriormente, o Instituto Psicanalítico de Berlim e a Policlínica em 1920. As inovações da Policlínica, como o tratamento gratuito e a análise infantil, e a padronização do treinamento psicanalítico pelo Instituto de Berlim, tiveram grande influência no movimento psicanalítico mais amplo. Em 1927, Ernst Simmel fundou o Sanatório do Schloss Tegel nos arredores de Berlim, o primeiro estabelecimento desse tipo a oferecer tratamento psicanalítico em um contexto institucional. Freud organizou um fundo para ajudar a financiar suas atividades, e seu filho, o arquiteto Ernst, foi contratado para reformar o edifício. Ele foi forçado a fechar em 1931 por razões econômicas.

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Teoria e conceitos

Outro elemento importante da psicanálise é a pouca intervenção do psicanalista, para que o paciente possa projetar seus pensamentos e sentimentos no psicanalista. Através deste processo, chamado de transferência, o paciente pode reconstruir e resolver conflitos reprimidos (causadores de sua doença), especialmente conflitos da infância com seus pais.

Fundamentos da terapia freudiana

O objetivo da terapia freudiana ou psicanálise é, relacionando conceitos cartesianos da mente e conceitos da hidráulica, mover (mediante a associação livre e a interpretação dos sonhos) os pensamentos e sentimentos reprimidos (explicados como uma forma de energia) através do consciente para permitir, ao sujeito, a catarse que provocaria a cura automática.

Pensamento e Linguagem

Em suas teorias, Freud afirma que os pensamentos humanos são desenvolvidos por processos diferenciados, relacionando tal ideia à de que o nosso cérebro trabalha essencialmente no campo da semântica, isto é, a mente desenvolve os pensamentos num sistema intrincado de linguagem baseada em imagens, as quais são meras representações de significados latentes. Em diversas obras, como "A Interpretação dos Sonhos", "A Psicopatologia da Vida Cotidiana" e "Os Chistes e suas Relações com o Inconsciente", Freud não só desenvolve sua teoria sobre o inconsciente da mente humana, como articula o conteúdo do inconsciente ao ato da fala, especialmente aos atos falhos. Para Freud, a consciência humana subdivide-se em três níveis: consciente, pré-consciente e inconsciente. O primeiro contém o material perceptível; o segundo, o material latente, mas passível de emergir à consciência com certa facilidade; e o terceiro contém o material de difícil acesso, isto é, o conteúdo mais profundo da mente, que está ligado aos instintos primitivos do homem.

Teoria da Representação

O fenômeno representacional psíquico está relacionado ao sistema nervoso humano. As representações, segundo Freud, são analógicas e imagéticas. Estas se inter-relacionam através de redes associativas. As redes associativas das representações são provenientes do processo fisiológico cerebral, que se baseia em uma rede de neurônios. Esse processo ocorre através de um mecanismo reflexo: a informação parte por uma rede associativa de neurônios até chegar à região motora e sensorial. Ela provoca então, modificações nas células centrais, causando a formação das representações. Enquanto elementos, as representações são originadas da percepção sensorial do indivíduo. São unidades mentais tanto de objetos, como de situações, sensações, relações.

Teoria do processo de pensamento

Segundo Freud, o processo de pensamento é a ativação ou inibição dos complexos de sensações associadas que tornam, possível, o fenômeno representacional psíquico, o que se dá através da energia que flui no sistema nervoso pelos sistemas de neurônios. Podemos distinguir, neste processamento, um nível primário e um secundário. Associado ao inconsciente, o processamento primário do pensamento é aquele que dirige ações imediatas ou reflexas, sendo associado, assim, ao prazer, ao emocional do indivíduo e ao fenômeno de arco reflexo. Nele, a energia presente no aparelho mental flui livremente pelas representações, do polo do estímulo ao da resposta.

Divisão do Inconsciente

Freud procurou uma explicação à forma de operar do inconsciente, propondo uma estrutura particular. No primeiro tópico, recorre à imagem do iceberg em que o consciente corresponde à parte clara, e o inconsciente corresponde à parte não visível, ou seja, à parte submersa do iceberg. De sua teoria, ele estava preocupado em estudar o que levava à formação dos sintomas psicossomáticos (principalmente a histeria, por isso apenas os conceitos de inconsciente, pré-consciente e consciente eram suficientes). Quando sua preocupação se virou para a forma como se dava o processo da repressão, passou a adotar os conceitos de id, ego e superego: Freud estava especialmente interessado na dinâmica destas três partes da mente. Argumentou que essa relação é influenciada por fatores ou energias inatas, que chamou de pulsões. Descreveu duas pulsões antagónicas: Eros, uma pulsão sexual com tendência à preservação da vida, e Tânato, a pulsão da morte, que levaria à segregação de tudo o que é vivo, à destruição. Ambas as pulsões não agem de forma isolada, estão sempre trabalhando em conjunto. Como no exemplo de se alimentar, embora haja pulsão de vida presente, afinal a finalidade de se alimentar é a manutenção da vida, existe também a pulsão de morte presente, pois é necessário que se destrua o alimento antes de ingeri-lo, e aí está presente um elemento agressivo, de segregação.

Libido

O conceito de libido desempenha um papel central na psicanálise. Nos primeiros trabalhos de Freud, a libido é definida como o impulso vital de autopreservação da espécie, e compreende tanto a energia sexual no sentido estrito, quanto o fenômeno da pulsão do desejo e do prazer. Mais tarde, ele adota uma visão mais geralista de que o impulso de autopreservação tem origem libidinosa, confrontando a libido com a pulsão de morte. Freud também acreditava que a libido amadurecia nos indivíduos por meio da troca de seu objeto (ou objetivo). Argumentava que os humanos nascem "polimorficamente perversos", no sentido de que uma grande variedade de objetos possam ser uma fonte de prazer, sem ter a pretensão de se chegar à finalidade última, ou seja, o ato sexual. O desenvolvimento psicossexual ocorreria em etapas, de acordo com a área na qual a libido está mais concentrada: a etapa oral (exemplificada pelo prazer dos bebês ao chupar a chupeta, que não tem nenhuma função vital, mas apenas a de proporcionar prazer); a etapa anal (exemplificada pelo prazer das crianças ao controlar sua defecação); e logo a etapa fálica (que é demonstrada pela manipulação dos órgãos genitais).

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Freud e a neurologia

É menos conhecido o interesse de Freud pela neurologia. No início de sua carreira, investigou a paralisia cerebral. Publicou numerosos artigos médicos neste campo. Também mostrou que a doença existia muito antes de outros pesquisadores de seu tempo terem notícia dela e de a estudarem. Também sugeriu que era errado que esta doença, segundo descrito por William Little (cirurgião ortopédico britânico), tivesse, como causa, uma falta de oxigênio durante o nascimento. Ao invés disso, Freud afirmou que as complicações no parto eram somente um sintoma do problema. Somente na década de 1980, suas especulações foram confirmadas por pesquisadores modernos. Nas últimas décadas o modelo estrutural de Freud tem sido validado pelas pesquisas que buscam correlacionar a neurociência e a psicanálise. Os dados que verificam as descrições de Freud da segunda tópica confirmam seu lugar na neurofisiologia hoje e permanecem abertos à discussão para melhor compreensão da mente humana.

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Inovações de Freud

Freud foi inovador. Simultaneamente, desenvolveu uma teoria da mente e da conduta humana, e uma técnica terapêutica para ajudar pessoas afetadas psiquicamente. Alguns de seus seguidores afirmam estar influenciados por um, mas não pelo outro campo. Provavelmente a contribuição mais significativa que Freud fez ao pensamento moderno é a de tentar dar, ao conceito de inconsciente, um status científico (não compartilhado por várias áreas da ciência e da psicologia). Seus conceitos de inconsciente, desejos inconscientes e repressão foram revolucionários; propõem uma mente dividida em camadas ou níveis, dominada em certa medida por vontades primitivas que estão escondidas sob a consciência e que se manifestam nos lapsos e nos sonhos. Em sua obra mais conhecida, A Interpretação dos Sonhos, Freud explica o argumento para postular o novo modelo do inconsciente e desenvolve um método para conseguir o acesso ao mesmo, tomando elementos de suas experiências prévias com as técnicas de hipnose.

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Controvérsias e debates

A descoberta do alcaloide planta da coca é contemporânea da pesquisa de Freud, que busca utilizá-lo para a cura psíquica. Em 1884, os laboratórios da Merck confiaram a Freud a tarefa de realizar experimentos com a substância. Antes de criar a psicanálise, Freud estudou este produto e pensou que poderia emprestar-lhe todos os tipos de indicações médicas ― especialmente no tratamento da neurastenia. Ele foi um dos primeiros a usar e a propor o uso da cocaína como um estimulante, bem como analgésico. Escreveu vários artigos sobre as qualidades antidepressivas do "medicamento" e foi influenciado por seu amigo e confidente Wilhelm Fliess, que recomendou a cocaína para o tratamento da "neurose nasal reflexa". Fliess operou Freud e o nariz de vários pacientes de Freud que ele acreditava estarem sofrendo do transtorno, incluindo Emma Eckstein, cuja cirurgia foi desastrosa. Freud trabalhou nas propriedades anestésicas da cocaína com dois colegas, Carl Köller e Leopold Königstein, já em 1884. No entanto, ele não tem tempo para testar seu poder narcótico e precisa ficar longe de Viena. Seus colegas continuaram os experimentos, principalmente no contexto da cirurgia ocular, e acabaram apresentando sua descoberta à Sociedade Médica de Viena sem mencionar o papel precursor de Freud. Ele continuou sua pesquisa entre 1884 e 1887, com vários textos sobre o assunto, incluindo «Sobre a coca".

A questão da homossexualidade

Freud gradualmente desiste de fazer da homossexualidade uma disposição biológica ou um resultado cultural, mas sim a assimila a uma escolha psíquica inconsciente. Em 1905, em Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, ele falou de "inversão", Mas, em 1910, em Uma Recordação de Infância de Leonardo da Vinci, ele renuncia a este termo para escolher o de "homossexualidade". Em uma carta de 1919 escrita para a mãe de um jovem paciente, Freud explica: "a homossexualidade não é uma vantagem, mas também não é motivo para se envergonhar, não é um vício nem uma degradação e também não pode ser classificada como doença." Contudo, em toda a obra de Freud, existem várias teorias e questionamentos sobre o surgimento da homossexualidade no sujeito: a homossexualidade adulta é apresentada ora como imatura pelo bloqueio da libido na fase anal, ora como um retraimento narcísico ou mesmo como uma identificação com a mãe. Freud de fato afirmou certa vez que a homossexualidade resulta de uma "interrupção do desenvolvimento sexual". Então ele por fim conclui que a homossexualidade é uma escolha de objeto inconsciente.

Cultura e natureza

Para Freud, cultura (Kultur) designa o conjunto de instituições que distanciam o indivíduo do estado animal. A natureza, portanto, corresponde às emoções, instintos, impulsos e necessidades. O ser humano está constantemente lutando contra sua natureza instintiva e seus impulsos, que ele tenta conter para viver em sociedade, caso contrário, o egoísmo universal traria o caos. No entanto, Freud opera uma confusão constante em seus escritos entre civilização de um lado e cultura de outro. Quanto mais alto o nível da sociedade, maiores são os sacrifícios de seus indivíduos. Ao impor acima de tudo a frustração sexual, a civilização tem um efeito direto na gênese das neuroses individuais. O texto de 1929, O Mal-Estar na Civilização apoia a tese de que a cultura é a principal causa de neurose e disfunção psíquica. Pelas regras claras que lhe impõe, a cultura protege o indivíduo, mesmo que requeira renúncias instintivas consequentes. Essas restrições podem explicar por que existe uma raiva e rejeição―muitas vezes inconscientes―em relação à cultura. Em troca, a cultura oferece uma compensação pelas restrições e sacrifícios que impõe, por meio do consumo, do entretenimento, do patriotismo ou da religião.

Freud e a filogênese

Apoiando-se nas teses de Charles Darwin, em 1912, em Totem e Tabu, Freud explica que a origem da humanidade está baseada na fantasia de uma "horda primeva" na qual o assassinato primitivo do pai ocorre como o ato fundador da sociedade. Os homens viviam em hordas gregárias, sob o domínio de um homem todo-poderoso, que se apropriava das mulheres do grupo e excluía os demais homens. Estes últimos então cometem o assassinato de "Pai primevo", parricídio que explica o tabu do incesto como elemento constitutivo das sociedades. Em O Mal-Estar na Civilização, Freud divide a evolução da humanidade em três fases: uma fase animista caracterizada por um narcisismo primário e totemismo primeiro, depois uma fase religiosa marcada pela neurose coletiva e finalmente uma fase científica em que predomina a sublimação. Esta concepção de herança filogenética foi criticada por antropólogos e historiadores e invalidada pela biologia. Segundo Plon e Roudinesco, para Freud é apenas uma questão de "hipóteses que ele considera bem como de 'fantasias'" Florian Houssier indica que "seja qual for o grau de validade que alguém confere a ela (fantasia ou crença), nós a consideramos [filogenia] como um núcleo de hipóteses tanto mais decisivo quanto Freud a aproxima e incessantemente a vincula à ontogênese e a suas potenciais confirmações clínicas. [...] as preocupações de Freud, em encontrar na filogênese o ponto de partida para a escolha da neurose e em confirmar por uma história de origens a hipótese do complexo de Édipo constituem de fato um eixo teórico-clínico importante".

Freud e a religião

Dizendo "incrédulo", "judeu sem Deus", Freud é crítico da religião. Ateu convicto, ele estimava que o ser humano perde mais do que ganha com a fuga que ela propõe. Em seu primeiro escrito sobre religião, Atos Obsessivos e Exercícios Religiosos, publicado em 1907, ele explica que o cerimonial litúrgico envolve necessariamente "atos obsessivos". Ele fala consequentemente de "cerimonial neurótico". Segundo ele, a "repressão, a renúncia a certas pulsões instintivas parecem assim estar na base da formação da religião". Quanto ao vínculo que a prática psicanalítica mantém com a religião, e em uma carta ao pastor Oskar Pfister de 9 de janeiro de 1909, Freud diz que "em si mesma, a psicanálise não é mais religiosa do que irreligiosa. É um instrumento sem partido que pode ser usado ​​por religiosos e leigos, desde que unicamente a serviço dos seres sofredores".

Freud em face do antissemitismo

O antissemitismo não pesa de uma maneira igual na vida de Freud, e isso de acordo com as mudanças políticas na Áustria e Alemanha do início do século XX. O sentimento antissemita teve um papel decisivo no final de sua vida, quando teve que fugir da Áustria em face da ameaça nazista. Antes da Primeira Guerra Mundial, como Yerushalmi aponta, "Gostaria de salientar que sua consciência do fenômeno precedeu sua entrada na Universidade de Viena, ou o fim do Burgerminister liberal e a ascensão do antissemitismo político". A partir de 1917, a censura de artigos antissemitas em jornais tornou-se menos rígida e tornou-se comum ver judeus chamados de "aproveitadores de guerra". Foi em 1918 que o antissemitismo atingiu seu auge, os judeus se tornando explicitamente os bodes expiatórios de todos os infortúnios que se abateram sobre a Áustria. Em 1933, as obras de Freud foram queimadas pelos nazistas, que viram nelas uma "ciência judia" (segundo a fórmula do partido nazista) contrária ao "espírito alemão": "Na Alemanha de 1933, depois que as obras de Freud foram queimadas, ficou evidente que o regime liderado pelos nazistas, recém-chegados ao poder, não deixava espaço para a psicanálise". Com a anexação da Áustria pela Alemanha, muitos psicanalistas tiveram que interromper sua prática ou emigrar quando não foram mortos ou enviados para campos de concentração por serem judeus. A segregação desenvolveu-se pela primeira vez na Hungria, especialmente sob o regime de Miklós Horthy. Então, se espalhou para a Alemanha já na década de 1920 e para a Áustria. A partir de então, a maioria dos que sobreviveram emigrou para os Estados Unidos (bem como para o Reino Unido, França, América do Sul, Max Eitingon entretanto foi para o exílio na Palestina).

Sobre o judaísmo e o sionismo

Élisabeth Roudinesco, em artigo de 2004 em que estuda uma "carta inédita de Freud sobre o sionismo e a questão dos lugares santos" evoca a posição de Freud que se recusa, nesta carta, a apoiar publicamente a causa sionista na Palestina e o acesso dos judeus ao Muro das Lamentações, como lhe havia pedido em 1930 Chaim Koffler, membro vienense do Keren Ha Yesod. Ela lembra neste artigo que o "judaicidade" de Freud, que, segundo ela, ele "jamais renegou", era uma "identidade de judeu sem deus, de judeu vienense assimilado―e de cultura alemã". Esta carta, considerada desfavorável à causa sionista, não foi tornada pública e permaneceu inédita, embora, como lembra Elisabeth Roudinesco, Freud tivesse "muitas vezes a oportunidade de expressar sobre o sionismo, sobre a Palestina e sobre os lugares sagrados uma opinião idêntica à dirigida ao Keren Ha Yesod". Além disso, no mesmo dia, ele enviou uma carta a Albert Einstein, na qual desenvolveu as mesmas ideias de "empatia a respeito do sionismo" do qual "ele jamais compartilhará o ideal" e de "desconfiança na criação de um estado judeu na Palestina".

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Críticas

Dissidências e cismas

As principais disputas levaram, durante o desenvolvimento do movimento psicanalítico, a grandes cisões, primeiro a de Alfred Adler (que então fundou a psicologia individual), depois a de Carl Gustav Jung, iniciador da psicologia analítica. Os pontos de divergência teórica são numerosos, ligados à libido, ao complexo de Édipo ou mesmo à importância da sexualidade no psiquismo. Essas controvérsias começaram nos anos 1907 e 1911. Chamados de "apóstatas" por Freud, Adler, o primeiro, então Jung, se opõem à concepção da libido como essencialmente de origem sexual e que eles veem antes como uma "pulsão de vida" em sentido geral. Freud teme acima de tudo que os dissidentes sequestrem a teoria e a prática psicanalíticas. Paul-Laurent Assoun sublinha, de fato, que ambos afirmam querer colocar a psicanálise na direção certa e salvá-la do culto da personalidade formado em torno de Freud. A competição entre as várias escolas, principalmente entre o círculo vienense e a escola de Zurique de Jung, foi o golpe mais duro para o jovem movimento psicanalítico, e isso a partir de 1913, com a deserção de Jung. As outras divergências internas dizem respeito, por exemplo, à precocidade do Superego descrita por Melanie Klein ou Donald Winnicott, com quem, ao se libertar da herança freudiana integrando suas contribuições, inicia o pós-freudismo. A oposição com Wilhelm Reich relaciona-se essencialmente com diferenças fundamentais relativas à prática do tratamento psicanalítico, em particular no que diz respeito à regra de abstinência.

Sobre Freud e as Freud Wars

Por muito tempo, a maioria das obras sobre Freud referia-se quase exclusivamente à biografia de Ernest Jones, criticada por seus aspectos hagiográficos. Após os estudos críticos de Pierre Janet, Karl Popper seguiu uma nova pesquisa histórica iniciada por Henri Ellenberger, seguida por outros autores mais críticos, tais como as obras de Mikkel Borch-Jacobsen ou Jacques Van Rillaer ou Jacques Bénesteau. Uma coleção muito grande de escritos originais e cartas freudianas pode ser encontrada na Sigmund Freud Collection da Biblioteca do Congresso em Washington. Durante sua vida, Freud teve que enfrentar críticas. Contemporâneos, como Karl Kraus e Egon Friedell, fizeram várias críticas; Kraus desafia a interpretação sexual psicanalítica na literatura, enquanto Friedell qualifica a psicanálise como "pseudo-religião judaica" e "seita".

Críticas teóricas

Na França, a crítica teórica é representada por uma obra coletiva e multidisciplinar, Le Livre noir de la psychanalyse (2005), conjunto de artigos publicados sob a direção de Catherine Meyer, e que reflete várias décadas de crítica a Freud. Muitos dos pontos críticos são discutidos, desde a natureza científica da psicanálise até a personalidade de Freud, incluindo contradições, a suspeita de fabricação de casos psicopatológicos e falsas curas. Com base em estudos epidemiológicos, segundo esses autores, destaca-se a baixa eficácia terapêutica do método psicanalítico em relação a outras técnicas psicoterapêuticas, como as terapias cognitivo-comportamentais. Este trabalho despertou reações em vários círculos psiquiátricos, terapêuticos e psicanalíticos, relançando assim conflitos de interesse subjacentes. Em resposta a essas críticas, a psicanalista Élisabeth Roudinesco editou um livro chamado Pourquoi si de haine?: anatomie du Livre noir de la psychanalyse (2005). Outros psicanalistas e psiquiatras criticaram o trabalho.

Críticas religiosas e políticas

Em 1952, o papa Pio XII deu um discurso para os participantes do V° Congresso Internacional de psicoterapia e psicologia clínica que reconhecia a psicanálise, mas relativiza o poder descritivo dos seus conceitos. Assim, se a psicanálise descreve o que acontece na alma, ela não pode pretender descrever e explicar o que é a alma no entanto. Antes da Revolução de 1917, a Rússia era o país onde Freud foi mais traduzido. Após a tomada do poder pelos bolcheviques, houve conexões entre o pensamento de Freud e o de Karl Marx. No entanto, posteriormente, "quando Trotsky, que era muito favorável à psicanálise, foi condenado ao exílio em 1927, a psicanálise foi associada ao trotskismo e oficialmente proibida", explica Eli Zaretsky. Em 1949, Guy Leclerc publicou em L'Humanité o artigo "La psychanalyse, idéologie de basse police et d'espionnage", no qual considera a psicanálise uma ciência burguesa destinada a escravizar multidões. A partir de então, depois de ter aceitado sua importância com o freudo-marxismo, o Partido Comunista Francês inicia sua campanha contra a psicanálise, e mais amplamente contra a psicanálise na França.

Críticas epistemológicas

Parte da crítica a Freud diz respeito à questão da cientificidade de suas teorias. Ludwig Wittgenstein, por exemplo, disse: "Freud prestou um péssimo serviço com suas fantásticas pseudoexplicações. Qualquer burro agora tem essas imagens à mão para explicar, graças a elas, fenômenos patológicos". O filósofo Michel Haar (Introduction à la psychanalyse. Analyse critique, 1973) e os cognitivistas Marc Jeannerod e Nicolas Georgieff fornecem uma visão geral dessas críticas que assumem a epistemologia. Os críticos de Freud, em seu tempo e hoje, na verdade, às vezes questionam a cientificidade de sua abordagem, sua metodologia (em particular o pequeno número de casos, ou a interpretação literária), seu aspecto altamente especulativo também, sua inconsistência teórica, a ausência de validação experimental ou estudos clínicos rigorosos (controlados e reproduzíveis), manipulação de dados e resultados clínicos e terapêuticos.

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Pacientes de Freud

Esta é uma lista parcial de pacientes cujos estudos de caso foram publicados por Freud.

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Fontes consultadas

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