Aparições de Cimbres
Aparições de Cimbres são o conjunto de aparições marianas ocorridas em 1936 e 1937 no distrito de Cimbres, pertencente ao município pernambucano de Pesqueira, Brasil.
Cimbres, distante alguns quilômetros da sede do município de Pesqueira, era, à época, uma comunidade pobre, habitada em sua quase totalidade pelo indígenas Xucurus, que cultivavam a terra e praticavam o extrativismo vegetal para subsistência. Toda a região era palco de intensos conflitos entre a população local e grupos de cangaceiros, alguns dos quais se destacavam pela extrema violência por que agiam, não sendo raros os relatos de assassinatos e estupros praticados pelos integrantes dessas organizações. Neste contexto, inúmeras famílias (em especial aquelas com filhas adolescentes, temerosas de que as meninas fossem alvo de violação sexual) refugiavam-se nas caatingas próximas, não sendo incomuns que permanecessem escondidas por dias a fio, até que seu retorno à casa pudesse ser feito com segurança. Uma das famílias a usar deste artifício foi a de Maria da Luz Teixeira, a qual, durante o mês de maio de 1936, permaneceu refugiada em uma mata próxima ao lugar das aparições por alguns dias. A matriarca da família, Dona Auta Monteiro Teixeira, não pudera ir esconder-se, por estar em avançado estado de gravidez, em dias de dar à luz. De fato, pouco após a saída da família para refúgio na caatinga, Auta começou a sentir as contrações do parto, e, sozinha, concebeu a um menino, que chamou Lígio.
Segundo crê-se, a Virgem Maria teria aparecido a duas videntes, Maria da Luz (que, posteriormente, adotou o nome Adélia por ocasião de sua entrada na vida religiosa) e Maria da Conceição, que, à época dos fatos, eram adolescentes pobres e de pouca instrução. Estes eventos tornaram-se célebres pelo rigor com os quais foram apurados pelo Padre Joseph Kehrle (a comunicação era escrita em latim e alemão e transmitida por crianças analfabetas), bem como pelo conteúdo da mensagem que a Virgem Maria teria transmitido às videntes, permitindo o apoio ao Integralismo e alertando-as acerca da iminência do flagelo do comunismo, com o qual o Brasil seria mortalmente castigado. Foram feitas dezenas de perguntas, entre elas: «Sou a Mãe da Graça e venho avisar ao povo que se aproximam três grandes castigos.» Que é necessário fazer para desviar os castigos? Que significa o sangue que corre das vossas mãos?
Interpretação
O monge beneditino brasileiro, Dom Rafael Maria Francisco da Silva, autor de um livro sobre as aparições, destaca as diretrizes cristãs do Integralismo e que este surgiu em um ambiente católico, defendendo o combate ao comunismo. E por saber dos muitos elementos positivos desta doutrina, Nossa Senhora permitiu o apoio à ela. O general brasileiro Sérgio Avellar Coutinho lembra que, um ano antes da aparição, a Insurreição Comunista Brasileira de 1935 já havia ocorrido. Um artigo de revista lembra que o líder da teologia da libertação, o cearense apelidado de arcebispo vermelho, Hélder Câmara, atuou em Recife, de modo que uma aparição sobre o perigo do comunismo no Brasil tem uma forte razão para acontecer em Pernambuco.
Embora tenham, a princípio, sido encaradas com descrédito por autoridades eclesiais, as aparições tornaram-se paulatinamente aceitas como dignas de fé pela igreja, que reconheceu, em 2021, o caráter sobrenatural dos eventos ocorridos em Cimbres. Paralelamente, foi instaurado o processo de beatificação de uma das videntes, Irmã Adélia, o que corrobora a anuência da igreja com a devoção à Virgem Maria sobre a designação de Nossa Senhora da Graça de Cimbres.
Originalmente restrita à região circunvizinha à cidade de Pesqueira, de onde afluíam a maioria dos peregrinos do santuário que lá se ergueu, a mensagem das aparições tem, em tempos modernos, sido difundida por todo o Brasil, em especial por iniciativa de padres como Padre Paulo Ricardo, do escritor Olavo de Carvalho, da atriz Cássia Kis, da historiadora Ana Lígia Lira, bem como da sobrinha-neta de irmã Adélia, a engenheira Auta Maria Monteiro de Carvalho, através de seu livro O Encontro – Nossa Senhora e Irmã Adélia. A autora Ana Lígia Lira, no seu livro sobre as aparições de Nossa Senhora das Graças em Cimbres, Pernambuco, após ter entrevistado fontes primárias e consultado arquivos pessoais dos envolvidos nas aparições, traz ao público a transcrição completa do diário pessoal do Frei Estevão Rottger, um dos religiosos mais envolvidos no processo de verificação e aprovação das aparições. Nossa Senhora das Graças começou a aparecer em Cimbres em agosto de 1936 por cerca de quarenta vezes. Sua mensagem era clara: "aproximavam-se tempos sérios" e, o povo brasileiro deveria rezar e fazer penitências.
A região de Cimbres, palco das aparições de que trata esse artigo, possui uma prolífica história de devoções marianas e acontecimentos tidos como sobrenaturais associados à Virgem Maria. Estando no interior do território dos índios Xucuru, o povoamento da vila está intimamente relacionado ao aldeamento das comunidades indígenas do local por iniciativa dos padres oratorianos, ainda em inícios do século XVII. Segundo a tradição, moradores da região teriam encontrado uma imagem de Nossa Senhora sobre um tronco de árvore, num lugar remoto e de difícil acesso, tendo-a retirado do local e levado à presença dos padres da vila, que a tomaram para si. Conforme relatos da época, ao acordarem, os padres não puderam encontrar a imagem que lhes havia sido trazida, e passaram a procurá-la, suspeitando que alguém a pudesse ter roubado. Após buscas, encontraram-na no exato tronco onde havia sido achada no dia anterior, e, mais uma vez, a levaram consigo. No dia seguinte, a estátua havia novamente sumido, e, desta vez, os padres rumaram diretamente ao tronco do dia anterior, onde, uma vez mais, a encontraram.
O lugar das aparições é agora um popular destino turístico.


