Miguel (arcanjo)
Miguel ou Micael é um arcanjo nas doutrinas religiosas judaicas, cristãs e islâmicas. Os católicos, anglicanos, ortodoxos e luteranos se referem a ele como Arcanjo Miguel ou simplesmente São Miguel.
Do termo "Arcanjo"
Arcanjo tem duas raízes, "arch" e "angelos". O prefixo grego "arch" (ἀρχ) deriva de "arché" (ἀρχή) que se refere tanto a "começo, ponto de partida, princípio", como "suprema substância subjacente" ou "princípio supremo indemonstrável". A partir dessa raiz "arché" temos o antepositivo "arch", em português, com o sentido de "aquilo que está na frente, o que está no começo, na origem, ponto de partida de um entroncamento", sendo traduzido "acima", "superior" ou "mais importante" e "o que governa, que dirige, que comanda, que lidera" e ainda carregando consigo ideias de poder, autoridade, império e superioridade. Quanto ao grego "angelos" (άγγελος), vertido para "anjo", significa simplesmente "mensageiro".
Do termo "Miguel"
A tradução literal para o nome Miguel é "Aquele/Quem como Deus". Como no hebraico não existia sinais de pontuação, algumas palavras trariam consigo um significado inquisitivo. Por isso a partícula "Mi" que significa "quem" muitas vezes é traduzida sintaticamente como interrogação, ocorrendo em 350 textos do Antigo Testamento onde é mencionada. Dessa forma, o Talmude sugere uma interpretação inquisitiva para o nome Miguel, tendo a tradução contextual "Quem é como Deus?". ou "Quem é semelhante a Deus?". Este entendimento hoje não é compartilhado somente pela comunidade judaica, pois mais tarde foi incorporado pela cristandade em geral "para não colocar em causa a própria Escritura", tanto por católicos e protestantes e também por outras comunidades religiosas, como as testemunhas de Jeová e os islâmicos. Mas para as cosmovisões judaica, jeovista e muçulmana, o pressuposto de não haver nenhuma outra pessoa igual a Deus (Sl. 35:10; 89:8) é literal, implicando sugestivamente a resposta "Ninguém é Igual a Deus" num entendimento retórico.
Bíblia Hebraica
Na Bíblia Hebraica e, portanto, no Antigo Testamento, o profeta Daniel teve uma visão após um jejum (em Daniel 10:13–21), um anjo identifica Miguel como o protetor de Israel. O profeta se refere a Miguel como "um dos primeiros príncipes". Posteriormente, em Daniel 12:1, Daniel é informado sobre o papel de Miguel durante o "tempo de tribulação" que "nunca houve desde que existiu nação até aquele tempo" e que: Assim, embora as três referências a Miguel no Livro de Daniel sejam referentes ao mesmo indivíduo que age de forma similar nos três casos, o último se coloca no "fim dos tempos", enquanto os outros dois são na época contemporânea na Pérsia. Estas são as únicas referências ao arcanjo Miguel na Bíblia Hebraica.
Novo Testamento
O Apocalipse (Apocalipse 12:7–9) descreve uma guerra no céu na qual Miguel, sendo o mais forte, derrota Satã: Após o conflito, Satã foi atirado à terra juntamente com os anjos caídos de onde eles ainda tentam "desviar o caminho da humanidade". Em outro trecho, na Epístola de Judas (Judas 1:9), Miguel é referido especificamente como sendo o "arcanjo" quando ele novamente confronta Satã: Uma referência a esse "arcanjo" também aparece em I Tessalonicenses (I Tessalonicenses 4:16): Ora, se Judas escreveu sobre "o arcanjo", denotando assim claramente que Existe apenas 1 Líder, Jesus seria o "Arcanjo" que marca a Segunda Vinda de Cristo. Algumas pessoas interpretam que ele, Miguel, seja algum representante de Deus ou até mesmo o próprio Jesus Cristo quer literalmente quer simbolicamente, pois as referências sobre o que Jesus fará como líder do exército dos anjos de Deus, são semelhantes às do Arcanjo Miguel. O fato da Bíblia se referir a apenas um Arcanjo, e de que Jesus é mostrado como tendo voz de Arcanjo e não de "um Arcanjo" significa que são pontos definitivos para concluir quem seria o Arcanjo Miguel. O fato de fazer algo semelhante a Jesus Cristo, não define a identidade do Arcanjo Miguel. Mais de uma pessoa podem fazer os mesmos atos e não serem literalmente as mesmas. Mas não é o fato em questão já que o termo e título "o Arcanjo" se refere apenas a Miguel, mostrando assim que existe apenas um Arcanjo.
Nos apócrifos
No livro de Enoque Miguel é designado como o príncipe de Israel. No livro dos Jubileus, ele é retratado como o anjo que instruiu Moisés na Torá. Nos Manuscritos do Mar Morto é retratado lutando contra Beliel.
Cristianismo primitivo
Miguel Gabriel Rafael Fanuel Uriel Jegudiel Salatiel Jeremiel Baraquiel Os primeiros cristãos consideravam alguns mártires - como São Jorge e São Teodoro - como patronos militares. Porém, a São Miguel, eles entregavam bem-estar dos doentes e foi como um curador que ele era venerado na Frígia (na moderna Turquia). O mais antigo e mais famoso santuário de São Miguel no antigo Oriente Próximo era associado com suas águas medicinais. Ele era chamado de Michaelion[carece de fontes?] e foi construído no início do século IV pelo imperador romano Constantino I em Calcedônia, no local de um templo anterior chamado Sosthenion. Uma pintura do Arcanjo Miguel matando uma serpente se tornou a principal no Michaelion após Constantino ter derrotado Licínio nas redondezas em 324, eventualmente tornando-a o padrão da iconografia de Miguel como um santo guerreiro, assassinando um dragão. O Michaelion tinha uma magnífica igreja e ela se tornou o modelo para centenas de outras igrejas no cristianismo oriental, que espalhou a devoção ao arcanjo.
Catolicismo
Os católicos romanos e os ortodoxos geralmente se referem a Miguel como "São Miguel", um título honorífico cuja origem não foi uma canonização. Ele é geralmente nas litanias cristãs como "São Miguel Arcanjo". Os ortodoxos adicionalmente o chamam de "Archistrategos" (veja estratego) ou "Comandante Supremo das Hostes Celestiais" Nos ensinamentos católicos, São Miguel tem quatro papéis principais. O primeiro é como comandante do Exército de Deus e o líder das forças celestes em seu triunfo sobre os hostes infernais. Ele é visto como um modelo angélico para as virtudes do "guerreiro espiritual", em guerra contra o mal, por vezes também visto como sendo a "batalha interna".
Protestantismo primitivo
Alguns dos primeiros acadêmicos protestantes identificaram Miguel com a pré-encarnação de Cristo, baseando sua visão parcialmente na justaposição de "criança" e arcanjo no capítulo 12 do Apocalipse e também nos atributos dados a ele por Daniel.
Testemunhas de Jeová
As Testemunhas de Jeová acreditam que há apenas um "arcanjo" no céu e na Bíblia. Eles ensinam que o Jesus de antes da ressurreição e após a ressurreição, e o Arcanjo Miguel são a mesma pessoa: "a evidência indica que o Filho de Deus era conhecido como Miguel antes de vir à Terra e é conhecido também por este nome após o seu retorno ao céu, onde ele agora está na forma do glorificado espírito Filho de Deus." Eles notam que o termo "arcanjo" na Bíblia só é usado no singular, jamais de forma clara no plural. Eles também afirmam que Miguel é o mesmo "Anjo do Senhor" que conduziu os israelitas no deserto. Sob este ponto de vista, o espírito que leva o nome de Miguel é chamado de "um dos principais príncipes", "o grande príncipe que tem o comando de seu [de Daniel] povo" e "o arcanjo" (Daniel 10:13, Daniel 12:1; Judas 1:9.
Adventistas do Sétimo Dia
Adventistas do Sétimo Dia acreditam que Miguel era um outro nome para o Verbo Divino (como em João 1:1) antes d'Ele ter se encarnado como "Jesus". Ele seria o Verbo, não criado, por conta de quem todas as coisas são criadas. O Verbo então se fez nascer encarnado como Jesus. Eles acreditam que o nome "Miguel" é importante para mostrar a sua verdadeira identidade, assim como Emanuel (que significa "Deus conosco"). Eles acreditam que o nome significa "aquele que é Deus" e que, como "Arcanjo" ou "comandante ou líder dos anjos", ele liderava os anjos e, por isso, a afirmação em Apocalipse 12:7–9 que identifica Jesus como sendo Miguel. Além disso, "Miguel" seria um dos muitos títulos associados ao Filho de Deus, a segunda pessoa da Divindade. E este ponto de vista não estaria de modo algum em conflito com a crença em sua Divindade Plena, pré-existência eterna e, também de maneira nenhuma, seria uma diminuição de Sua pessoa ou obra.
Mórmons
A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias acredita que Miguel é Adão, o Antigo de Dias (de Daniel 7), um príncipe e um patriarca da família humana e que Miguel ajudou Jehovah (a forma celeste de Jesus) na criação do mundo sob a direção de Deus Pai.
Desde a publicação, em 1991, da quase totalidade dos textos descobertos no deserto da Judeia, comumente conhecidos como os manuscritos do Mar Morto, que o estudo acerca da angeologia judaica sectária e extrabíblica teve um grande desenvolvimento. Nestes textos, numa perspectiva que viria a ser recuperada pelos movimentos gnósticos do Século I, Miguel é apresentado como a figura celestial de Melquisedeque exaltado, elevado aos céus. É similarmente referido como o "príncipe da luz", conforme 11Q13, que dará combate ao "príncipe das trevas", Satã, Belial ou Melkireshah (o príncipe das profundezas da Terra). Este confronto dar-se-á aquando da grande batalha celeste que antecederá o fim dos tempos e a nova vinda do fundador da comunidade essênia, o "Mestre da Justiça", como Messias escatológico. Neste contexto, e numa descrição profundamente ambivalente, em 4Q529 e 6Q23 o triunfo definitivo da paz não lhe é atribuído, conforme alguns depreendem de Judas 1:9, acima transcrito, onde Miguel recusa a função de juiz escatológico, mas apenas é o seu arqui-estratega. Miguel recusa inclusive o título de "Senhor" e de "Salvador", ao mesmo tempo que, segundo 4Q246, aguarda que, tal como o seu modelo histórico apresentado neste texto, Antíoco Epifânio, se possa autoproclamar "um deus" e ser adorado como deus, tal como aquele em Daniel 11,36-37.
Festas
Nas Igrejas Católica, Anglicana e Luterana, a festa do Arcanjo Miguel ocorre em 29 de setembro (no calendário ocidental), quando também se comemoram os arcanjos Gabriel e Rafael. Na Inglaterra medieval este dia era chamado de "Festa de São Miguel e todos os anjos". Na Igreja Ortodoxa, a principal festa de São Miguel é em 8 de novembro (21 de novembro na maior parte das denominações ortodoxas, que ainda usam o calendário juliano), quando ele é homenageado com o resto dos "Poderes não encarnados do Céu" (os anjos) como sendo seu "comandante supremo". O "Milagre de São Miguel em Chonae" é comemorado em 6 de setembro.
Patronatos e ordens
No cristianismo medieval, Miguel, juntamente com São Jorge, se tornaram santos patronos da cavalaria medieval e é hoje considerado como o santo patrono dos oficiais de polícia e militares. No século XV, Jean Molinet glorificou o ato de guerra do arcanjo como o "primeiro feito de cavalaria e habilidade de cavaleiro que jamais fora realizado". Assim, Miguel se tornou o patrono natural da primeira ordem de cavalaria da França, a Ordem de São Miguel, de 1469. No sistema de honras britânico, uma ordem de cavalaria fundada em 1818 também foi batizada em homenagem aos dois santos guerreiros, a Ordem de São Miguel e São Jorge. A Ordem de Miguel, o Valente é a mais alta condecoração militar na Romênia.
Judaísmo
Há uma lenda que parece ser de origem judaica e adotada pelos coptas, segundo a qual Miguel foi primeiro enviado por Deus para trazer Nabucodonosor (c. 600 a.C.) contra Jerusalém, e que Miguel foi posteriormente muito ativo em libertando sua nação do cativeiro babilônico. Segundo o midrash Genesis Rabbah, Miguel salvou Hananiah e seus companheiros da fornalha Fiery. Miguel era ativo na época de Ester: "Quanto mais Hamã acusava Israel na terra, mais Miguel defendia Israel no céu". Foi Miguel quem lembrou Assueroque que ele era devedor de Mardoqueu; e há uma lenda que Miguel apareceu ao sumo sacerdote Hircanus, prometendo-lhe assistência. Segundo as Lendas dos judeus, o arcanjo Miguel era o chefe de um bando de anjos que questionou a decisão de Deus de criar o homem na terra. Todo o bando de anjos, exceto Miguel, foi então consumido pelo fogo.
Cristianismo
A Igreja Ortodoxa celebra o Milagre em Chonae em 6 de setembro. A lenda piedosa que cerca o evento afirma que João, o Apóstolo, ao pregar nas proximidades, predisse o aparecimento de Miguel em Cheretopa, perto do Lago Salda, onde uma primavera de cura apareceu logo após o Apóstolo ter saído; em gratidão pela cura de sua filha, um peregrino construiu uma igreja no local. Pagãos locais, que são descritos como ciumentos do poder curativo da primavera e da igreja, tentam afogar a igreja redirecionando o rio, mas o Arcanjo, "à semelhança de uma coluna de fogo", dividiu a rocha. abrir uma nova cama para o riacho, direcionando o fluxo para longe da igreja. Supõe-se que a lenda tenha sido anterior aos eventos reais, mas os textos dos séculos V e VII que se referem ao milagre de Chonae formaram a base de paradigmas específicos para "aproximar-se adequadamente" de intermediários angelicais para orações mais eficazes na cultura cristã.


