Arnold Gehlen
Arnold Karl Franz Gehlen foi um filósofo e sociólogo alemão. Ao lado de Max Scheler e Helmuth Plessner, Gehlen é tido como um dos fundadores da moderna antropologia filosófica. Na década de 1960, foi visto como a contraparte conservadora de Theodor Adorno. Sua crítica cultural e especialmente sua teoria das instituições influenciaram os sociólogos Peter Berger, Thomas Luckmann, Niklas Luhmann, Helmut Schelsky, o historiador Reinhart Koselleck e os filósofos Hans Blumenberg e György Lukács.
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Seus pais eram o editor Max Gehlen e Margarete Gehlen. Em 1937, casou-se com Veronika Freiin von Wolff. Um de seus primos, Reinhart Gehlen, foi o primeiro chefe do serviço secreto da Alemanha Ocidental, o BND. Gehlen concluiu o ensino médio em 1923 no Thomas-Gymnasium de Leipzig. Depois de trabalhar algum tempo como vendedor de livros e bancário, estudou filosofia, filologia, história da arte, germanística e psicologia nas universidades de Leipzig e Colônia entre 1924 e 1927. Fez seu doutorado com Hans Driesch sobre o tema Zur Theorie der Setzung und des setzungshaften Wissens bei Driesch. Em 1930 conclui sua tese de livre-docência com o trabalho Wirklicher und unwirklicher Geist. Eine philosophische Untersuchung in der Methode absoluter Phänomenologie. De 1930 a 1934, Gehlen foi professor assistente de filosofia na Universidade de Leipzig. Em 1933, filiou-se ao NSDAP, e no ano seguinte torna-se membro da liga dos professores nacional-socialistas. Em novembro de 1933, tal como outros importantes pensadores alemães da época (entre eles Martin Heidegger, Hans-Georg Gadamer e Theodor Litt), foi signatário da famosa declaração de apoio dos professores universitários alemães a Adolf Hitler. Após a demissão de Paul Tillich por suas críticas ao regime, Gehlen ocupou seu posto na Universidade de Frankfurt, ainda na condição de substituto. Em 1934, depois de atuar algum tempo como assistente de Hans Freyer, foi nomeado professor de filosofia do Instituto de História Cultural e História Universal da Universidade de Leipzig, na cátedra que havia sido ocupada por seu mestre Driesch.
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Influências importantes de Gehlen foram os filósofos Hans Driesch, Nicolai Hartmann e Max Scheler. Gehlen também é considerado um dos mais importantes nomes da Escola de Leipzig (ao lado de Hans Freyer e Helmut Schelsky). Seus estudos de antropologia filosófica permanecem ainda hoje influentes, mais até que de seus antecessores Scheler e Helmuth Plessner. Em seu esforço de ultrapassar o antagonismo entre mente e corpo estabelecido por Descartes e repercutido pelas teorias que sustentam a existência de uma oposição ontológica e metodológica entre "ciências do espírito" e "ciências da natureza", a antropologia filosófica busca rearticular a cultura ao substrato biológico que lhe é subjacente, de forma a identificar os elementos definidores da conditio humana, isto é, constantes antropológicas verificáveis em todas as sociedades ao longo de todas as épocas da evolução da humanidade. Tal enfoque não se confunde, porém, com "biologismo", como fica evidente no fato de que dentre alguns dos principais nomes da antropologia filosófica estavam filósofos judeus alemães como Scheler, Plessner e Löwith.
Embora Gehlen se valha da imagen de Herder a respeito do "ser de carências", sua definição fundamental é a de que o ser humano é um ser de ação. Num nível mais primário, a ação corresponde aos atos necessários à transformação da natureza em benefício de nossa sobreviência. A evidente proximidade desse ponto de vista em relação ao de Karl Marx foi admitida por Gehlen, que assim se expressou numa carta de 1952 ao filósofo marxista Wolfgang Harich: Para Gehlen o ser humano se distingue dos animais porque, como já sublinhara Scheler, é "aberto para o mundo". Ele recebe estímulos do meio, mas não é determinado pelo meio. Enquanto o animal mantém uma relação altamente especializada e dependente com o quadro natural em que vive, o ser humano constrói para si uma "segunda natureza", a cultura. Esta se compõe de um complexo de instituições que, por sua vez, garantem ao ser humano uma "redução dos instintos".
Sociólogos de renome como Peter Berger, Thomas Luckmann, Wolf Lepenies e Anton Zijderveld demonstram clara influência da teoria da ação e da teoria das instituições de Gehlen. O filósofo Hans Blumenberg adotou pontos de vista de Gehlen em seus estudos sobre retórica e especialmente em seu Trabalho sobre o mito. Niklas Luhmann inspirou sua noção de "redução de complexidade do meio" no conceito de alívio/descarga (Entlastung). O projeto inconcluso de Reinhart Koselleck de escrever um grande estudo sobre iconologia política surgiu após sua leitura de Imagens de época. No Brasil, o crítico literário Luiz Costa Lima frequentemente menciona Gehlen em seus livros. Em 1956, ano em que passou a atuar junto ao Instituto para Pesquisa Social de Frankfurt, Jürgen Habermas publicou uma elogiosa resenha de Ser humano primitivo e civilização tardia no diário Frankfurter Allgemeine Zeitung. Depois de constatar as afinidades existentes entre Marx e Gehlen, Habermas reconhece a importância das categorias cunhadas pelo autor e afirma que


