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Língua ainu

A língua ainu é uma língua isolada, falada pelo grupo étnico ainu da ilha de Hokkaido, no Japão. É a única língua não-japônica falada no país.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 19/07/2026
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Etimologia

O etnônimo ainu, ou aynu, significa "pessoa" ou "homem" na língua. O a palavra aynu itak (アイヌ イタク, em katakana), portanto, é formado por aynu e itak, que traduz para "língua" ou "palavra". Embora aynu seja o nome mais utilizado, alguns preferem o termo utari ("companheiros" ou "pessoas"), devido à conotação negativa com a palavra aynu no Japão.

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Distribuição

Além de Hokkaido, a língua ainu também era falado na região de Tohoku, nas Ilhas Curilas e na Ilha de Sacalina. Alguns pesquisadores acreditam que a língua também esteve presente na península de Kamchatka. Com o tempo, o uso da língua nesses territórios diminuiu, e os falantes passaram a se concentrar em Hokkaido. Em 2013, foi registrado que aproximadamente 70% da população ainu identificada vivia nas províncias de Hidaka e Iburi. Alguns ainus também vivem em outros países, como Estados Unidos.

Dialetos

Os dialetos ainu dividem-se em três principais grupos, conforme as regiões em que eram falados: as variantes faladas na ilha de Hokkaido, as faladas na Ilha de Sacalina, e as faladas nas Ilhas Curilas. Os dialetos de Sacalina e das Curilas são considerados extintos. As variedades ainda não possuem uma classificação bem definida. Alguns autores, como a linguista Anna Bugaeva, se referem ao idioma como parte de uma família linguística própria, onde os grupos citados são as respectivas subfamílias. Uma possível divisão de dialetos e subdialetos pode ser feita da seguinte forma: Os dialetos de Sacalina são mais similares com os de Hokkaido, e os das Curilas são bem diferentes dos outros dois grupos. As variedades de Sacalina e de Hokkaido geralmente não são mutuamente inteligíveis. Similar às vilas ainu, os dialetos seguem os cursos dos rios, estendendo-se de jusante a montante de bacias hidrográficas. Não há diferenças dialetais notáveis dentro das regiões, mas pode-se constatar alguma diferença até ao longo de um mesmo rio e entre vilas.

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História

As origens da língua ainu ainda são incertas. Alguns acreditam que o japonês e o ainu têm um ancestral em comum, porém isso não é comprovado. Sugere-se que ele tenha pertencido a uma família linguística maior no passado, sobrevivendo após ser disseminado para Hokkaido e outras regiões. Outra hipótese é que o ainu reduziu a diversidade linguística do arquipélago, absorvendo ou substituindo outras línguas à medida que adentrava o norte.

Origens

A língua ancestral do ainu é associada com a primeira onda migratória para o Japão, ocorrida há mais de 30 mil anos. Na segunda onda, há 3 mil anos atrás, agricultores de arroz que falavam japonês vieram da península coreana, movimento que continuou durante os períodos de Yayoi e Kofun. Com isso, todas as línguas da região foram substituídas, exceto o ainu. Por volta de 1000 EC, a língua se espalhou de Honshu para Hokkaido, seguindo em 1300 EC para as ilhas Curilas e em 1500-1600 EC para a Sacalina. O surgimento da língua no sul de Hokkaido se conecta com a cultura Satsumon, que posteriormente se expandiu para o nordeste e confrontou aqueles da cultura Okhotsk na região, supostos falantes da língua nivkhe. Até o final do século XIII, os Satsumon substituíram os Okhotsk, marcando o início da cultura ainu já documentada.

História documentada

Até o século XV, os ainus realizavam trocas com os japoneses, sem registro de conflitos. Contudo, em 1604, a ilha de Hokkaido, então chamada de Ezo, foi concedida ao clã Matsumae.O clã monopolizou as trocas com os ainus, e assim marca-se o início da colonização da região. Em 1807, após o xogunato Tokugawa tomar controle do norte de Hokkaido, os ainus foram incentivados a aprender o japonês. Em outubro de 1871, quatro decretos foram emitidos para a população ainu, sendo um deles incentivando o esforço para aprender a ler e escrever o japonês. Esses decretos visavam promover a japonização do povo, restringindo seus costumes e impondo normas culturais. Em 1872, uma escola provisória foi aberta no templo de Zōjō-ji, em Tóquio. Foram enviados 38 indivíduos ainu para lá, a fim de estudarem a língua japonesa e terem treinamento agrícola. Ao longo do projeto, alunos expressavam o desejo de voltar para seus locais de origem, resistindo à assimilação cultural. Por esse motivo, a escola foi posteriormente transferida para Sapporo, e os resultados da escola foram considerados "mal-sucedidos".

História da documentação

Durante o período Edo, o xogunato Tokugawa fechou o Japão para o exterior em um movimento conhecido como Sakoku, e o Cristianismo foi banido de 1614 até 1871. Ainda assim, o primeiro registro da língua ainu foi feito por um missionário jesuíta Italiano, chamado Girolamo de Angelis. Ele foi enviado ao Japão em 1602 e 1621, registrando um total de 54 palavras na língua. É possível que o documento não seja um trabalho original, correspondendo a uma cópia de outro material escrito em kana japonês. Outro importante documento foi o chamado Ezo kotoba, escrito por um sacerdote chamado Kūnen, que viajou por Hokkaido em 1704. Têm um total de 456 entradas, sendo o documento mais antigo com tamanho considerável.

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Fonologia

Consoantes

A língua ainu possui 12 fonemas consonantais, apresentados na seguinte tabela: A oclusiva glotal /ʔ/ ocorre no início de sílabas que começam por vogal, assim tendo um comportamento previsível. Por esse e outros motivos, há discordância quanto ao seu status fonético. Ainda assim, tratá-la como um fonema simplifica a descrição da estrutura silábica e explica contextos em que sua ocorrência não é previsível. Por isso, alguns autores a incluem no inventário fonológico do ainu. Ao final de sílabas, os fonemas /p/, /t/ e /k/ têm soltura não audível nos dialetos de Hokkaido, realizados como [p̚], [t̚] e [k̚], respectivamente. Já na maioria dos dialetos de Sacalina, eles correspondem a /s/ após a vogal /i/, ou /h/ após qualquer outra vogal, como em:

Vogais

O inventário vocálico do ainu inclui cinco vogais (/a/, /i/, /u/, /e/ e /o/). Nos dialetos de Sacalina, também encontram-se variantes longas de cada vogal. Entre consoantes desvozeadas, as vogais /i/, /u/ e /e/ frequentemente sofrem desvozeamento, como em: Alguns autores propõem a existência de ditongos no ainu. Todavia, a segunda vogal é frequentemente tratada como uma semivogal (/w/ ou /j/) ao invés de uma vogal.

Fonotática

O padrão silábico do ainu segue a forma CV(C), onde C é uma consoante e V é uma vogal. Portanto, existem dois tipos de sílabas: CV e CVC. Apesar de não existirem sílabas que começam com vogais, elas podem ocorrer na fala de algumas pessoas através da omissão da oclusiva glotal. Nos dialetos de Sacalina, devido à presença de vogais longas, a formação de sílabas CVV também é possível. Existem restrições na formação de sílabas: Nos dialetos do sul de Hokkaido, as combinações ti, wi, ʔuw e ʔiy nunca ocorrem dentro de uma mesma sílaba, e as combinações wu e yi ocorrem apenas em encontros de morfemas. Em palavras com dois ou mais morfemas, yi e wu podem ocorrer como parte de um processo de ressilabificação, como em awun mimtar "entrada de uma casa". Todas as consoantes podem aparecer antes de uma vogal, mas algumas não podem estar após. Os fonemas que não aparecem após vogais são /ʔ/, /ʨ/, e /h/ nos dialetos de Hokkaido e das Curilas, ou /ʔ/, /ʨ/, /p/, /t/, k/, e /r/ na maioria dos de Sacalina. Diversos processos de assimilação e dissimilação também ocorrem, presentes no limite de sílabas e palavras.

Prosódia

No ainu, a marcação de sílaba tônica depende do peso silábico, aparecendo na primeira ou na segunda sílaba. Nas variantes de Hokkaido, essa marcação serve para diferenciar algumas palavras, como ocorre em nísap "repentino" e nisáp "canela (parte do corpo)". As regras são como descritas a seguir: Nos dialetos de Hokkaido, algumas palavras não seguem as regras descritas. Nos dialetos de Sacalina, tais exceções correspondem a palavras com vogais longas, como visto nos exemplos: Essa tonicidade irregular também é observada em alguns empréstimos do japonês, como a palavra káne "metal/dinheiro".

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Ortografia

Os falantes da língua ainu utilizam dois sistemas de escrita principais: um baseado no alfabeto latino, e outro baseado no kana japonês. Em especial, o katakana é o sistema mais utilizado pelos ainus, e o hiragana foi usado apenas durante o período Edo. O alfabeto cirílico também foi utilizado, porém apenas pesquisadores russos faziam uso dele.

Alfabeto latino

A língua utiliza uma versão adaptada do alfabeto latino original, tendo apenas 16 letras, além de um apóstrofo ⟨'⟩ para representar a oclusiva glotal /ʔ/. Entretanto, ela é comumente omitida devido ao seu comportamento fonológico previsível. Além desses grafemas, existem dois outros símbolos que podem ser utilizados na escrita: o ⟨=⟩ ou ⟨-⟩, que serve para separar radicais e afixos, e o ⟨@⟩, para marcar sufixos de pessoa. Também utiliza-se o acento agudo ⟨´⟩ para marcar sílabas tônicas em algumas palavras. A seguir, pode-se ver todos os caracteres do alfabeto, junto da sua pronúncia fonética e uma aproximação no português: O alfabeto latino, apesar de ser ensinado no Japão, não é um sistema de escrita muito familiar para a grande parte de seus habitantes. Por isso, os ainus que utilizam-no são, em sua maioria, aqueles já expostos à cultura ocidental. Embora seu uso seja criticado por alguns falantes, esse sistema é o mais prático de se usar nos meios digitais.

Katakana

O katakana ainu é uma versão adaptada do silabário japonês, utilizando todos os grafemas e diacríticos, além de outros símbolos especiais. Nesse sistema, a oclusiva glotal não é representada. A seguir, está uma parte do sistema katakana ainu, junto da pronúncia de cada grafema e uma aproximação em português: Além dos grafemas já existentes no katakana tradicional, alguns caracteres adicionais foram criados, pois certos padrões silábicos não tinham como ser representados. O símbolo ⟨ク⟩ serve como exemplo, correspondendo a consoante /k/ ao final de palavras, como em hok/ホク "comprar". Essa escrita modificada já é utilizada desde 1891, tendo mais de 10 caracteres "pequenos" para a escrita de certos sons. Apesar de algumas publicações escrevem dessa forma, o processamento digital de textos com esse sistema se torna mais difícil, e certas tecnologias não permitem que alguns grafemas especiais sejam utilizados.

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Gramática

Na língua ainu, as palavras podem pertencer a 7 classes gramaticais distintas: substantivos, verbos, advérbios, interjeições, verbos auxiliares, adjuntos adnominais e partículas. Os adjetivos não são uma classe separada, pois sintaticamente se comportam como verbos intransitivos. Ainda, os pronomes são considerados um subgrupo dos substantivos, e não um grupo distinto.

Pronomes

O ainu possui quatro tipos de pronomes pessoais: pronomes de primeira pessoa, segunda pessoa, terceira pessoa, e pessoa indefinida ou quarta pessoa. A pessoa indefinida também possui outros usos, como indicar a primeira pessoa inclusiva e marcar a segunda pessoa no honorífico. Todos possuem os morfemas an (singular) ou oka/okay (plural) como raiz, verbos intransitivos que significam "ser/existir". Em alguns dialetos, essa raiz pode ser substituída por utar "pessoas" ou sinuma. Esses pronomes comumente são omitidos e, quando presentes, servem para dar ênfase ou introduzir um novo referente no discurso. Os pronomes pessoais são considerados um tipo de substantivo. Entretanto, diferente dos substantivos comuns, eles não podem ser o núcleo de uma frase nominal com modificadores. Portanto, frases como húci eani (lit. "avó você") ou Suzuko káni (lit. "Suzuko eu") são gramaticalmente incorretas.

Verbos

Os verbos em ainu não são conjugados em tempo, e portanto usa-se a mesma forma para qualquer período. É preciso inferir o tempo das ações a partir do contexto, ou ele pode ser expresso com outras palavras caso necessário. Isso é visto nos exemplos: Os modos são indicados de várias formas, seja através de partículas ou de verbos auxiliares. Entretanto, essa indicação é opcional, e nem sempre ocorre. Em relação ao aspecto verbal gramatical, O ainu não possui marcadores com tal objetivo, mas tem algumas formas de expressá-lo opcionalmente. Alguns deles são expressos através da construção "verbo-conjunção-verbo suplementar", onde o segundo verbo é o que informa o significado aspectual. Alguns exemplos aparecem na seguinte tabela, onde são apresentados alguns aspectos no idioma e suas formações:

Substantivos

No ainu, os substantivos não declinam em gênero, número ou caso. Existem duas categorias principais: substantivos comuns e substantivos locativos. Pronomes e substantivos próprios são considerados tipos especiais de substantivos comuns na língua. O ainu possui oito casos gramaticais obrigatórios, sendo esses: locativo, alativo, ablativo, prolativo, comitativo, comparativo, instrumental e translativo. O locativo se torna opcional quando um marcador de posição é parte do adjunto. Todos os casos são marcados por posposições, indicadas na tabela a seguir: Ao indicar a posse de algo, o ainu diferencia entre substantivos inalienáveis (que têm vínculo com o possuidor, como partes do corpo e relações de parentesco), e alienáveis (que não têm vínculo inerente com o possuidor). Os inalienáveis, por serem obrigatoriamente possuídos, são marcados por afixos pronominais de sujeito transitivo, e quase sempre pelo sufixo de posse -hV antes de vogais, ou -V(hV) antes de consoantes. V representa uma vogal qualquer, e sua escolha depende da raiz da palavra: geralmente, V é igual à última vogal do substantivo marcado, como em ku-sik-ihi "meu olho", ou em e-nupe-he "suas lágrimas". Caso a palavra termine em /w/ ou /y/, V se torna /e/, como em k-ay-ehe "minha flecha". Existem exceções para essas regras, como as palavras:

Sentenças

A ordem básica dos constituintes no ainu é SOV, isto é, sujeito-objeto-verbo. A língua apresenta grande flexibilidade na ordem do sujeito e do objeto, especialmente em frases com dois objetos. Todavia, o verbo sempre vem ao final de frases, e apenas partículas podem ser inseridas após ele. O tópico principal das frases e outros assuntos considerados importantes podem vir antes do sujeito, como ocorre em petru otta patek okay pe aynu cise ne a wa ... "as casas ainu ficavam apenas ao longo de rios, e...". O alinhamento do ainu é flexível, e varia de acordo com a pessoa: No ainu, a negação é feita com a inserção da palavra somo antes de sintagmas verbais, como em wenpuri a-kor wa ka somo ne "não é porque nós temos características ruins...". Outras palavras podem substituir somo dependendo do dialeto, como sien (Obihiro e Tokachi), hen-ne (Shizunai), han-n-ah (Sacalina), nepe (Curilas), dentre outras.

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Vocabulário

Literatura oral

A língua ainu possui uma das literaturas orais mais bem documentadas de todas as línguas em risco, sendo um patrimônio cultural bem abundante no idioma. A seguir, é apresentado parte da transcrição de um uepeker, um conto do folclore ainu, intitulado "Pananpe Escapa das Mãos do Demônio (Pananpe Escapes from the Demon's Hands, em inglês)". Ele conta a história de um homem que foi pego por um demônio, mas conseguiu fugir usando uma bola de lã e uma agulha, e tornou-se rico por causa dos objetos.

Vocabulário básico

A seguir, alguns termos básicos do vocabulário ainu e suas respectivas traduções para o português:

Numeração

No ainu de Hokkaido, utiliza-se a base 10 e a base 20 para formar os seus numerais cardinais. Os números de 6 a 9 são formados a partir de sua distância até o 10. Para números entre 11 e 19 e entre 21 e 29, a formação é feita através da adição a 10 e 20, respectivamente, marcada pelo verbo ikasma "estar em excesso". Os múltiplos de 20 são formados através da multiplicação, e dezenas não múltiplas de 20 utilizam da adição com o prefixo e-. Números maiores que 30 que não sejam dezenas são formados a partir da adição com ikasma, então o número 76, por exemplo, é expresso por iwan-pe ikasma wan pe e-ine-hot no dialeto de Saru. Os numerais não são muito diferentes entre os dialetos de Hokkaido.

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Fontes consultadas

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