ARPANET
A Advanced Research Projects Agency Network foi uma rede de computadores construída em 1969 para transmissão de dados militares sigilosos e interligação dos departamentos de pesquisa nos Estados Unidos, inicialmente financiada pela então Agência de Projetos de Pesquisa Avançada do Departamento de Defesa dos Estados Unidos.
Historicamente, as comunicações de voz e dados baseavam-se em métodos de comutação de circuitos, como exemplificado na rede telefónica tradicional, em que a cada chamada telefônica é atribuída uma ligação específica, de ponta a ponta, entre as duas estações de comunicação. Essas estações podem ser telefones ou computadores. A linha temporariamente dedicada tipicamente compreende muitas linhas intermediárias que são montadas em uma cadeia que vai da estação de origem até a estação de destino. Com a comutação de pacotes, uma rede pode compartilhar uma única ligação para comunicação entre vários pares de receptores e transmissores. As primeiras ideias para uma rede de computadores destinada a permitir comunicações gerais entre usuários foram formuladas pelo cientista de computação Joseph Carl Licklider da BBN Technologies, em abril de 1963, em discurso do conceito da "Rede Intergalática de Computadores". Essas ideias abrangiam muitas das características da Internet contemporânea. Em outubro de 1963, Licklider foi nomeado chefe dos programas de Ciências Comportamentais e Comando da Agência para Projetos de Pesquisa Avançada (ARPA) do Departamento de Defesa. Ele convenceu Ivan Sutherland e Bob Taylor de que esse conceito de rede era muito importante e merecia desenvolvimento, embora o mesmo tenha saído da ARPA antes de qualquer contrato ser designado para desenvolvimento.
Criação
Bob Taylor convenceu o diretor da ARPA, Charles Herzfeld, a financiar um projeto de rede em fevereiro de 1966, e Herzfeld transferiu um milhão de dólares de um programa de defesa de mísseis balísticos para o orçamento de Taylor. Taylor contratou Larry Roberts como gerente de programa no Gabinete de Técnicas de Processamento de Informação em janeiro de 1967, para trabalhar na ARPANET. Em abril de 1967, Roberts realizou uma sessão de designs sobre padrões técnicos. Foram discutidos os padrões iniciais para identificação e autenticação de usuários, transmissão de caracteres, verificação de erros e procedimentos de retransmissão. Na reunião, Wesley Clark propôs que minicomputadores chamados Processadores de Mensagens de Interface (IMPs) deveriam ser usados para fazer interface com a rede, em vez dos grandes mainframes que seriam os nós da ARPANET.
Metas de design
Em A Brief History of the Internet (em português: Uma Breve História da Internet), a Internet Society nega que a ARPANET tenha sido projetada para sobreviver a um ataque nuclear: "Foi a partir do estudo da RAND que o falso boato começou, alegando que a ARPANET estava de alguma forma relacionada à construção de uma rede resistente à guerra nuclear. Isso nunca foi verdade, mas foi um aspecto do estudo anterior sobre comunicação segura. O trabalho posterior sobre interligação de redes enfatizou a robustez e a capacidade de sobrevivência, incluindo a capacidade de suportar perdas de grandes porções das redes subjacentes." O estudo da RAND Corporation foi conduzido por Paul Baran e foi o primeiro a construir um modelo teórico para comunicação usando comutação de pacotes. Em uma entrevista, ele confirmou que, embora a ARPANET não compartilhasse exatamente o objetivo de seu projeto, seu trabalho contribuiu muito para o desenvolvimento da mesma. Atas tomadas por Elmer Shapiro, do SRI International, na reunião de 9 a 10 de outubro de 1967 da ARPANET, indicam que uma versão do método de roteamento de Baran e a sugestão de usar um tamanho fixo de pacote deveriam ser empregados. De acordo com Stephen J. Lukasik, que como Diretor da DARPA (1967-1974) foi "a pessoa que assinou a maioria dos cheques para o desenvolvimento da ARPANET":
Expansão e regras
Em março de 1970, a ARPANET chegou à Costa Leste dos Estados Unidos, quando um IMP da BBN em Cambridge, Massachusetts, estava conectado à rede. A partir de então, a mesma cresceu: 9 IMPs em junho 1970 e 13 até dezembro, depois 18 em setembro de 1971 (quando a rede contava com 23 universidades e servidores do governo); 29 IMPs em agosto de 1972 e 40 em setembro de 1973. Em junho de 1974 haviam 46 e, em julho de 1975, a rede contava com 57 IMPs. Em 1981, o número era de 213 computadores hospedeiros, com outro se conectando a cada vinte dias. Em 1973, uma ligação de satélite transatlântico ligou a Árvore Sísmica Norueguesa (NORSAR) à ARPANET, tornando a Noruega o primeiro lugar fora do território americano a ser conectado à rede. Mais ou menos na mesma época, um circuito terrestre adicionou um IMP de Londres.
Tecnologia
O suporte para circuitos inter-IMP de até 230,4 kbit/s foi adicionado em 1970, embora considerações de custo e poder de processamento significassem que essa capacidade não era usada ativamente. Em 1971 deu-se início ao uso do Honeywell 316 não robusto (e, portanto, significativamente mais leve) como um IMP. Também pode ser configurado como um Processador de Interface Terminal (TIP), que fornece suporte ao servidor para até 63 terminais seriais ASCII, através de um controlador de várias linhas no lugar de um dos computadores hospedeiros. O 316 apresentou um maior grau de integração do que o 516, o que o tornou menos dispendioso e mais fácil de manter. O 316 foi configurado com 40 kB de memória principal para um TIP. O tamanho da memória principal foi aumentado posteriormente, para 32 kB para os IMPs e 56 kB para os TIPs, em 1973.
O ponto de partida para a comunicação entre hospedeiros da ARPANET em 1969 foi o protocolo de 1822, que definiu a transmissão de mensagens para um IMP. O formato de mensagem foi projetado para funcionar sem ambiguidade e com uma ampla variedade de arquiteturas de computadores. Uma mensagem de 1822 consistia, basicamente, em um tipo de mensagem, endereço numérico de computador e campo de dados. Para enviar uma mensagem de dados para outro, o computador de transmissão formatava a mensagem contendo o endereço do destinatário e, após a mensagem ser enviada, transmitia a mesma pela interface de hardware do 1822. O IMP então entregou a mensagem ao seu endereço de destino, estando ele conectado localmente ou a outro IMP. Quando a mensagem era entregue ao hospedeiro de destino, o IMP de recebimento transmitia uma confirmação de pronto para a próxima mensagem (RFNM) para o de envio. Ao contrário dos modernos datagramas da Internet, a ARPANET foi projetada para transmitir mensagens 1822 de forma confiável e para informar o computador quando ele perde uma mensagem; o IP contemporâneo não é confiável, enquanto o TCP é. No entanto, o protocolo de 1822 mostrou-se inadequado para lidar com várias conexões entre diferentes aplicativos. Esse problema foi resolvido com o Programa de Controle de Rede (NCP), que forneceu um método padrão para estabelecer ligações de comunicação bidirecionais confiáveis, controlados por fluxo, entre diferentes processos em diferentes computadores.
Aplicativos de rede
O NCP forneceu um conjunto padrão de serviços de rede que podem ser compartilhados por vários aplicativos em execução em um único computador. Isso levou à evolução dos protocolos de aplicativos que operavam, mais ou menos, independentemente do serviço de rede subjacente e permitiam avanços independentes nos protocolos. Em 1971, Ray Tomlinson, da BBN, enviou o primeiro e-mail de rede (RFC 524 e 561). Em 1973, os correios eletrônicos constituía 75% do tráfego da ARPANET. Em 1973, a especificação do Protocolo de Transferência de Arquivos (FTP) foi definida (RFC 354) e implementada, permitindo a transferência de arquivos pela ARPANET. As especificações da Rede de Protocolo de Voz (NVP) foram definidas em 1977 (RFC 741), então implementadas, mas, devido a deficiências técnicas, as chamadas de conferência pela ARPANET nunca funcionaram bem; o contemporâneo Voz sobre IP (VoIP) estava a décadas de distância.
Proteção
O algoritmo hash Purh Polynomial foi desenvolvido para a ARPANET para proteger senhas em 1971, a pedido de Larry Roberts, chefe da ARPA na época. Ele calculou um polinômio de grau 224 + 17, modulo de 64 bits e p = 264 − 59. O algoritmo foi usado posteriormente pela DEC para senhas no sistema operacional VMS e ainda está sendo usado para esse propósito.
A ARPANET é bastante citada na cultura popular, principalmente em séries, onde tratam a história da Internet. O artista de música eletrônica Gerald Donald, um dos membros do Drexciya, tornou-se conhecido como "Arpanet". O seu álbum de 2002, Wireless Internet, apresenta comentários sobre a expansão da rede via comunicação sem fio e possui uma canção sobre a NTT DoCoMo. A net também é referenciada em Computer Networks: The Heralds of Resource Sharing, um documentário de 30 minutos apresentando Fernando Corbató, Joseph Licklider, Lawrence Roberts, Robert Kahn, William Sutherland, Richard Watson, Donald Davies e entre outros. O episódio "Scenario", de fevereiro de 1985, da comédia televisiva norte-americana Benson (6ª temporada, episódio 20), foi a primeira incidência de um popular programa de TV fazendo referência direta à Internet ou seus progenitores. A série de televisão de 1993, The X-Files, fala sobre a rede em um episódio da 5ª temporada, intitulado "Unusual Suspects". John Fitzgerald Byers oferece ajuda a Susan Modeski invadindo a ARPANET para obter informações confidenciais. Thomas Pynchon menciona a ARPANET em seu romance de 2009, Inherent Vice, que se passa em Los Angeles em 1970, e em seu romance de 2013, Bleeding Edge.


