História da arquitetura
A História da arquitetura é uma disciplina académica, inserida no campo da História da Arte, que se dedica ao estudo sistemático da evolução das formas, estilos, técnicas e teorias da construção e do projeto arquitetónico, desde as suas origens pré-históricas até à atualidade. As suas bases teóricas no mundo ocidental consolidaram-se no Renascimento, através da dualidade entre a abordagem biográfica e contextual de Giorgio Vasari e o levantamento sistemático e empírico de Andrea Palladio, influenciando a formação interdisciplinar entre a história da arte e a prática arquitetónica. É uma ciência e disciplina cujo objeto de estudo é a análise do desenvolvimento funcional, construtivo e estético da arte da arquitetura no tempo e no espaço.
Na maioria dos casos (mas nem sempre), os períodos estudados pela História da Arquitetura correm paralelos aos da História da Arte, embora existam momentos em que as estéticas se sobreponham ou se confundam. Não raro, uma estética que é considerada vanguardista nas artes plásticas pode ainda não ter encontrado sua representação na arquitetura, e vice-versa. A história da arquitetura define-se, assim, como história da arte do disegno com todas as limitações que isso traz em relação ao enquadramento do objeto arquitetónico: o edifício isolado, desmembrado em planos e elementos ornamentais que dão suporte mais à análise estilística que a uma análise do espaço. A arquitetura é um registo contínuo da história da civilização, abrangendo uma vasta gama de materiais – dos tijolos de barro secos (adobe) aos modernos sistemas estruturais em concreto armado e ferro fundido – e escalas que vão das primitivas tumbas sagradas aos grandiosos arranha-céus contemporâneos. Assim como acontece com quase toda atividade humana, é difícil determinar um período histórico ou uma região e dizer que a arquitetura começou naquele momento. Contudo, o registo mais antigo de arquitetura está associado aos povoados pioneiros que surgiram no Levante e na Mesopotâmia (Oriente Médio) no sétimo milénio a.C. (cerca de 7000–6000 a.C.), quando as primeiras construções permanentes foram erguidas, Jericó (Levante) em que muradas e estruturas com indícios de ocupação remontam a cerca de 8000 a.C.; a Çatalhöyük (Anatólia, Turquia) - um grande assentamento urbano com arquitetura de tijolos de barro datada de cerca de 7500–5700 a.C. ou Çayönü (Turquia) onde foram encontrados alguns dos vestígios mais antigos de tijolos, datados de cerca de 7500 a.C. No Oriente Médio e na Ásia Central no sétimo milênio a.C. as primeiras residências foram construídas, usando tijolos de lama secados ao sol, conhecidos como tijolos crus — material que, ainda hoje, é um dos mais utilizados, principalmente em construções vernaculares. No entanto, no Japão surge a arquitetura mais antiga no Período Jōmon (que se estende aproximadamente de 10.000 a.C. a 300 a.C.). Este período é notável por ser um dos mais longos períodos neolíticos do mundo. Os primeiros vestígios de arquitetura de assentamento datam de cerca do 10º milénio a.C. (Período Jōmon Inicial), embora a arquitetura se consolide mais tarde. As habitações mais antigas eram as Tateanashiki Jūkyo (casas de poço), que consistiam em cabanas cavadas no chão. Um buraco era escavado e, sobre ele, eram levantados pilares e uma armação de telhado (geralmente cónica ou piramidal), cobertos com palha.
— Manuel Joaquim Moreira da Rocha, em História da Arquitetura – Perspetivas Temáticas, Porto, Empresa Gráfica, Lda, novembro de 2018 As primeiras grandes obras de arquitetura remontam à Antiguidade, mas é possível traçar as origens do pensamento arquitetônico em períodos pré-históricos, quando foram erguidas as primeiras construções humanas. A Arquitetura hitita representa uma das expressões mais singulares do Antigo Oriente Próximo, distinguindo-se pela adaptação monumental às condições geográficas adversas da Anatólia Central. No seu apogeu, durante o período imperial do século II milénio a.C., a capital Hattusa foi estrategicamente implantada sobre uma garganta rochosa, expandindo-se a partir da cidadela de Büyükkale. As defesas da cidade compreendiam um perímetro de cerca de seis quilómetros de muralhas duplas, assentes sobre uma subestrutura de Alvenaria ciclópica — composta por grandes blocos irregulares sem argamassa — e reforçadas por torres defensivas. Estes baluartes de pedra serviam de base para estruturas superiores em tijolo de barro e madeira, criando um sistema defensivo que incluía portas monumentais com arcos de mísulas, ladeadas por esculturas de leões e esfinges que anteciparam os modelos palacianos da Arquitetura assíria tardia.
Pré-História
Os humanos e os seus antepassados têm vindo a criar vários tipos de abrigos há pelo menos centenas de milhares de anos, e a construção de abrigos pode ter estado presente no início da evolução dos hominídeos. Todos os grandes símios constroem "ninhos" para dormir, embora em diferentes frequências e graus de complexidade. Os chimpanzés constroem regularmente ninhos com ramos entrelaçados; estes variam consoante o clima (os ninhos têm uma cama mais espessa quando está frio e são construídos com suportes maiores e mais fortes em climas ventosos ou chuvosos). Os orangotangos constroem atualmente os ninhos mais complexos de entre todos os grandes primatas não humanos, com tetos, mantas, almofadas e "beliches".
Arquitetura no Antigo Oriente Próximo (AOP)
A arquitetura do Antigo Oriente Próximo define uma esfera cultural distinta que se estende geograficamente da Turquia moderna ao Afeganistão, do Mar Negro ao Iêmen e a Omã, abrangendo cronologicamente desde os primeiros registos escritos na Mesopotâmia e no Irã (final do quarto milênio a.C.) até meados do século VI a.C., tendo como estrutura comum a sequência arqueológica do Neolítico, Calcolítico, Idade do Bronze e Idade do Ferro. A arquitetura do AOP é abordada como uma categoria de monumentos que permite identificar noções sobre a esfera estética através do vocabulário que envolve "imagens, decoração, o ambiente construído e a experiência estética de forma mais ampla", onde textos sobre a construção de templos e palácios enfatizam a habilidade dos artistas e o valor intrínseco dos materiais. Reis neoassírios, como Senaqueribe, reivindicaram a "invenção de novas e complexas tecnologias" para o trabalho com materiais, enquanto investigações recentes reconhecem a presença crucial de policromia e douramento em relevos e estruturas arquitetónicas. O projeto de edifícios de grande escala exigia "equipes de artesãos trabalhando para alcançar um estilo homogéneo", e registos administrativos, como os de Esaradão, mencionam especialistas "aptos" identificados por consulta divina para completar o trabalho. Esta produção arquitetónica funcionava como uma forma de representação, definida como o ato de "tornar presente algo ausente ou visível algo oculto", onde a análise iconográfica busca conexões significativas entre os elementos que formam um tema lógico, refletindo a religião e a ideologia política do período, sendo o termo AOP uma rubrica operativa útil para a vitalidade de um domínio de pesquisa que coloca a arte mesopotâmica e egípcia em pé de igualdade com a clássica.
Arquitetura assíria
Antigo povo do Médio Oriente, oriundo do Norte da Mesopotâmia (posteriormente Curdistão), região montanhosa, de clima duro e solos pouco férteis, os Assírios surgiram em finais do III milénio a. C. como um pequeno reino governado por uma dinastia acadiana que terá tornado o país próspero. Distinguiram-se pela sua crueldade e qualidades guerreiras, para além de terem sido magníficos construtores de cidades e edifícios colossais, como o provam as ruínas das cidades de Assur, Nínive e Nimrud. As primeiras referências concretas - vestígios arqueológicos datáveis - são do século XIX a. C., quando se assinalam relações comerciais frequentes com outros povos, como os Hititas (povo da atual Turquia). Nos meados do II milénio, uma nova dinastia, os amorritas, domina os Assírios. Entre os séculos XIX e o XVIII a. C., conheceram uma época de intensa atividade comercial, entabulando relações com povos vizinhos, para além de aumentarem as suas conquistas e tentarem criar um estado centralizado e forte, imitando o sistema político babilónio.
Arquitetura babilónica
A arte e arquitetura babilónicas ganharam uma identidade própria com a I Dinastia de Babilónia (c. 1800 a. C.), herdando elementos sumérios e acádios, mas introduzindo novas convenções na representação do espaço e do corpo humano. Durante o período paleobabilónico, sob o reinado de Hamurábi, a arquitetura de cidades como Mari apresentava edifícios com cortis centrais e complexos sistemas de salas e corredores, utilizando preferencialmente tijolo cozido para pavimentação. O império babilónico atingiu o seu apogeu arquitetónico com o Império Neobabilónico (625-538 a. C.), especialmente sob Nabucodonosor II, que transformou a capital num complexo monumental protegido por muralhas duplas de 25 metros de largura, pontuadas por torres.
Arquitetura elamita
Os primeiros escavadores de Susa não se interessando verdadeiramente pelos vestígios arquitetónicos, que tinham de qualquer modo dificuldade em identificar devido à experiência limitada que possuíam das construções em tijolos crus, os monumentos principais do período elamita deste sítio desapareceram para sempre quando foram arrasados os níveis correspondentes a essa época, enquanto outros foram cobertos pelas construções aqueménidas, sobretudo pelo palácio real. As escavações tardias e mais convencionais de Susa apenas puderam revelar monumentos anteriores (a «alta terraço» do IV milénio a.C.), ou então residências do período paleo-elamita. O sítio de Tell-e Malyan/Anshan não revelou, por sua vez, quase nada além de restos de edifícios administrativos proto e médio-elamitas.
Após a queda do Vale do Indo, a arquitetura do sul da Ásia entrou no período dhármico, que viu o desenvolvimento de estilos arquitetônicos indianos antigos, que se desenvolveram ainda mais em várias formas únicas na Idade Média, juntamente com a combinação de estilos islâmicos e, mais tarde, outras tradições globais.
Budista Antiga
A arquitetura budista desenvolveu-se no subcontinente indiano durante os séculos IV e II a.C., e espalhou-se primeiro para a China e depois por toda a Ásia. Três tipos de estruturas estão associados à arquitetura religiosa do budismo primitivo: mosteiros (viharas), locais para venerar relíquias (estupas) e santuários ou salas de oração (chaityas, também chamados de chaitya grihas), que mais tarde passaram a ser chamados de templos em alguns lugares. O tipo de edifício budista mais icônico é a estupa, que consiste em uma estrutura em domo contendo relíquias, usada como local de meditação para comemorar Buda. O domo simbolizava o espaço infinito do céu.
Hindu antigo
Em todo o subcontinente indiano, o objetivo principal da atividade construtiva de tipo monumental era, e resta seguindo essa tradição, representar na sua forma concreta a consciência religiosa da sua gente, não importa qual fosse ou seja o meio para materializá-la: a rocha, o mattone (tijolo) ou a pedra. Isso explica por que, além do que resta da sua arquitetura, a Índia preservou uma grande quantidade de textos técnicos que se ocupam não apenas das regras arquitetónicas, mas também dos símbolos e rituais que fortemente as condicionam. A evolução da arquitetura tem início na bacia do Indo entre 2600 e 1900 a.C., com os grandes centros de Harappa, Mohenjo Daro e Kalibangan, caracterizados por um urbanismo e arquitetura padronizados, com edifícios de exterior simples e sem janelas que não deixavam transparecer a correspondência entre o interno e o externo.
Maru Gurjara
Este estilo de arquitetura do norte da Índia foi observado em locais de culto e congregação tanto do Hinduísmo quanto do Jainismo. Surgiu nos séculos XI a XIII sob o período da Dinastia Chaulukya (Solanki). Eventualmente, tornou-se mais popular entre as comunidades jainistas que o espalharam pela região e pelo mundo. Estas estruturas possuem características únicas como um grande número de projeções nas paredes externas com estátuas nitidamente esculpidas, e vários pináculos urushringa no shikhara principal.
Himalaia
O Himalaia é habitado por vários grupos de pessoas, incluindo os Paharis, sino-tibetanos, caxemires e muitos outros grupos. Sendo de diferentes origens religiosas e étnicas, a arquitetura também teve múltiplas influências. Considerando as dificuldades logísticas e o ritmo de vida mais lento no Himalaia, os artesãos tiveram tempo para fazer entalhes em madeira e pinturas intrincadas acompanhadas por trabalhos ornamentais em metal e esculturas em pedra que se refletem em edifícios religiosos, bem como cívicos e militares. Estes estilos existem em diferentes formas, do Tibete e Caxemira até Assam e Nagaland. Uma característica comum é observada nos telhados inclinados em camadas em templos, mesquitas e edifícios cívicos.
Dravídica
Este é um estilo arquitetônico que surgiu na parte sul do subcontinente indiano e no Sri Lanka. Estes incluem templos hindus com um estilo único que envolve uma torre piramidal mais curta sobre o garbhagriha ou santuário chamado vimana, onde o norte tem torres mais altas, geralmente curvando-se para dentro à medida que sobem, chamadas shikharas. Estes também incluem edifícios seculares que podem ou não ter telhados inclinados com base na região geográfica. No país Tamil, este estilo é influenciado pelo período Sangam, bem como pelos estilos das grandes dinastias que o governaram. Este estilo varia na região a oeste, em Kerala, que é influenciada por fatores geográficos como o comércio ocidental e as monções, que resultam em telhados inclinados. Mais ao norte, o estilo Karnata Dravida varia com base na diversidade de influências, muitas vezes transmitindo muito sobre as tendências artísticas dos governantes de doze dinastias diferentes.
Calinga
A antiga região de Calinga corresponde às atuais áreas da Índia Oriental de Odixa, Bengala Ocidental e o norte de Andhra Pradesh. A sua arquitetura atingiu o pico entre os séculos IX e XII sob o patrocínio da dinastia Somavamsi de Odixa. Luxuosamente esculpidos com centenas de figuras, os templos de Calinga geralmente apresentam formas repetitivas, como ferraduras. Dentro das muralhas protetoras do complexo do templo existem três edifícios principais com torres curvas distintas chamadas deul ou deula e salas de oração chamadas jagmohan.
A arquitetura tradicional da África Subsaariana é diversa, variando significativamente entre as regiões. Incluídos entre os tipos de casas tradicionais estão as cabanas, por vezes consistindo de um ou dois cômodos, bem como várias estruturas maiores e mais complexas.
África Ocidental
Em grande parte da África Ocidental, também são tradicionalmente encontradas casas retangulares com telhados de duas águas e pátios, às vezes consistindo de vários cômodos e pátios (por vezes decoradas com relevos em adobe, como entre os Ashanti de Gana, ou pilares esculpidos como entre os Iorubás da Nigéria, especialmente em palácios e moradias dos abastados). Além do tipo regular de habitação retangular com telhado pontiagudo, difundido na África Ocidental e em Madagascar, existem também outros tipos de casas: casas em colmeia feitas de um círculo de pedras encimado por um telhado abobadado, e a redonda, com um telhado em forma de cone. O primeiro tipo, que também existiu na América, é característico especialmente da África Austral. Estas eram usadas por grupos de língua banta no sul e partes da África Oriental, sendo feitas com lama, estacas, palha e esterco de vaca (casas retangulares eram mais comuns entre os povos de língua banta da grande região do Congo e África Central). A cabana redonda com telhado cônico é difundida especialmente no Sudão e na África Oriental, mas também está presente na Colômbia e na Nova Caledônia, bem como nas regiões do Sudão Ocidental e do Sahel na África Ocidental, onde por vezes são organizadas em complexos. Um estilo distinto de arquitetura tradicional em madeira existe entre os povos das savanas de Camarões, como o povo Bamileke.
Saariana
Na região ocidental do Sahel, a influência islâmica foi um fator importante para o desenvolvimento arquitetônico a partir das eras tardias do Império do Gana. Em Kumbi Saleh, os habitantes locais viviam em habitações em forma de cúpula na seção real da cidade, cercada por um grande recinto. Os comerciantes viviam em casas de pedra em uma seção que possuía 12 belas mesquitas, conforme descrito por al-Bakri, com uma centrada na Oração de sexta-feira. Diz-se que o rei possuía várias mansões, uma das quais tinha sessenta e seis pés de comprimento, quarenta e dois pés de largura, continha sete salas, tinha dois andares de altura e possuía uma escadaria; com as paredes e aposentos repletos de esculturas e pinturas.
Etíope
A Arquitetura da Etiópia (incluindo a atual Eritreia) expandiu-se a partir do estilo aksumita e incorporou novas tradições com a expansão do Estado etíope. Os estilos incorporaram mais madeira e estruturas mais arredondadas na arquitetura doméstica no centro e no sul do país, e estas influências estilísticas manifestaram-se na construção de igrejas e mosteiros. A estrutura mais conhecida do período Dʿmt (c. 800–400 a.C.) na região é a torre de vários andares do século VIII a.C. em Yeha, que se acredita ter sido a capital de Dʿmt. O templo foi construído por sabeus do atual Iémen durante a colonização sabeia da África e foi dedicado à divindade lunar sabeia, Almakah. Textos sabeus de Yeha mencionam a influência de clãs de Marib, que dedicaram seus bens a ʿAṯtar e Almakah.
A cultura chinesa e confucionista teve uma influência significativa na arte e na arquitetura da Sinosfera (principalmente Vietnã, Coreia, Japão).
China e Vietnã
O que é reconhecido hoje como cultura chinesa tem as suas raízes no período Neolítico (10.000–2000 a.C.), abrangendo os sítios arqueológicos de Yangshao e Longshan na China central, além da cultura Hongshan no nordeste, que manifestou aspetos fundamentais da cultura proto-chinesa. No Vietname, a arquitetura primitiva seguiu uma evolução paralela, influenciada pela cultura Dong Son, onde a habitação sobre estacas e os telhados de inclinação acentuada se tornaram marcas distintivas da adaptação ao clima tropical do Sudeste Asiático. Os sistemas de crenças nativos, que incluíam a adoração naturalista e o animismo, ditaram a organização espacial: plataformas ao ar livre (tan, ou altar) eram utilizadas para divindades da natureza, enquanto edifícios formais (miao, ou templo) eram destinados ao culto de heróis e ancestrais, estabelecendo uma busca constante pela harmonia entre o céu, a natureza e a humanidade.
Japão e Coreia
A arquitetura coreana, especialmente após o período Joseon, exibe influências das dinastias Ming e Qing. Tradicionalmente, a arquitetura japonesa era feita de madeira e fusuma (portas de correr) no lugar de paredes, permitindo que o espaço interno fosse alterado para atender a diferentes propósitos. A introdução do Budismo em meados do século VI, através do reino coreano vizinho de Baekje, iniciou a construção de templos de madeira em grande escala com ênfase na simplicidade, e grande parte da arquitetura foi importada da China e de outras culturas asiáticas. Ao final deste século, o Japão estava construindo mosteiros de estilo continental, notadamente o templo conhecido como Horyu-ji em Ikaruga. Em contraste com a arquitetura ocidental, as estruturas japonesas raramente usam pedra, exceto para elementos específicos, como fundações. As paredes são leves, finas, nunca sustentam carga e frequentemente são móveis.
Khmer
Do início do século IX ao início do século XV, os reis Khmer governaram um vasto império hindu-budista no Sudeste Asiático. Angkor, no atual Camboja, era sua capital, e a maioria de seus edifícios sobreviventes são templos de pedra voltados para o leste, muitos deles construídos em forma piramidal e escalonada, consistindo em cinco estruturas quadradas com torres, ou prasats, que representam o sagrado pico quíntuplo do Monte Meru das doutrinas hindu, jainista e budista. Como residências de deuses, os templos eram feitos de materiais duráveis, como arenito, tijolo ou laterita, uma substância semelhante à argila que endurece ao secar. A arquitetura Cham no Vietnã também segue um estilo semelhante.
A arquitetura e o urbanismo praticados pelos gregos e romanos distinguiram-se das civilizações do Egito e da Babilónia pelo papel central conferido à vida cívica. Nestas culturas, a cidade tornou-se o elemento primordial da organização política e social: os gregos estruturaram-se em cidades-estado independentes e o Império Romano expandiu-se a partir de um único núcleo urbano original. Enquanto nas civilizações orientais anteriores os assuntos religiosos eram a base e a manutenção da ordem despótica estabelecida, no período clássico o mistério religioso ultrapassou os limites fechados do templo-palácio para se tornar um assunto público dos cidadãos. Este fenómeno deu origem ao conceito de política, termo intrinsecamente ligado à ideia de polis (cidade). Diferindo dos povos precedentes, que desenvolveram essencialmente arquiteturas militares, religiosas e residenciais para a elite, os gregos e romanos criaram espaços específicos para a manifestação da cidadania e para os afazeres quotidianos. A ágora grega definia-se como um vasto espaço público livre destinado a assembleias, rodeado por templos, mercados e edifícios administrativos, como o Bouleuterion. Este espaço tornou-se o símbolo de uma visão de mundo centrada no respeito pelos interesses comuns e no incentivo ao debate entre cidadãos, substituindo a antiga ordem autocrática. Os romanos herdaram e expandiram este conceito através do Fórum, integrando o comércio, a justiça e a religião num centro cívico unificado que servia de coração à vida imperial.
Arquitetura grega
A arquitetura e o planeamento urbano na Antiguidade Clássica assinalam uma transição fundamental de modelos centrados no poder religioso e despótico (como no Egito e na Mesopotâmia) para um sistema focado na participação cívica e na racionalidade humanista, cujas raízes se encontram nas civilizações Egeias. A arquitetura grega manifestou-se como uma "escultura abstrata inserida na paisagem" e a expressão material da pólis. Apesar da separação espacial da pólis entre cidade alta e cidade baixa, ambas formavam a mesma cidade, que tinha um funcionamento único, sem zonas fechadas ou independentes dentro das muralhas. Surgindo no século VII a.C., rapidamente se tornou uma arte relativamente conservadora, dedicada a refinar e aperfeiçoar um número cada vez maior de tipos de edifícios públicos e, posteriormente, privados. O Estado, que representava os interesses gerais da comunidade, aadministrava diretamente as áreas públicas e intervinha nas áreas sagradas e particulares, sendo fundamentais para a pólis o Pritaneu, o Buleutério e a Ágora. Muitos desses edifícios eram feitos de pedra, preferencialmente calcário (abundante nas áreas habitadas e colonizadas pelos gregos), cujas imperfeições eram cobertas com uma camada de estuque. Edifícios de mármore eram comuns apenas perto de grandes pedreiras: em Atenas, Paros, Naxos e, mais tarde, em Pérgamo, Éfeso e outras cidades costeiras da Ásia Menor. Portas e telhados eram de madeira, e as telhas geralmente eram de terracota. Esta tradição construtiva evoluiu para ordens independentes que os romanos posteriormente desenvolveriam plenamente, sendo os templos as obras mais nobres, desenhados com extrema simplicidade de esquema geral, mas executados com uma maestria de proporção e detalhe jamais superada em períodos subsequentes.
Celta
A arquitetura celta, no sentido mais amplo, refere-se aos estilos e estruturas associados aos povos celtas que outrora habitaram uma grande parte da Europa, incluindo partes das modernas França, Alemanha, Ilhas Britânicas e além. Esta arquitetura é difícil de definir estritamente porque os celtas, pertencentes ao tronco linguístico e étnico ariano originário da Ásia Central, não possuíam um estilo arquitetónico unificado entre as diferentes regiões que ocuparam em suas vagas sucessivas de migração para o oeste. No entanto, características gerais são compartilhadas em estruturas da Europa central que fornecem insights sobre a cultura material e as formas arquitetónicas celtas. Muitas destas estruturas, particularmente nos períodos iniciais, eram feitas de madeira e terra, materiais que não sobreviveram tão bem quanto a pedra. Os celtas frequentemente construíam casas e assentamentos redondos, com cabanas circulares sendo as estruturas residenciais mais comuns, utilizando paredes de pau-a-pique (wattle and daub) e telhados de colmo. Estas formas curvilíneas e as técnicas de construção em pedra seca, como o uso de mísulas (corbeling) para criar cúpulas através da sobreposição horizontal de pedras — sem a utilização do princípio do arco verdadeiro radial — sugerem uma continuidade cultural que remonta a protótipos arcaicos do Mediterrâneo, como as tumbas tholos de Micenas, e do Oriente Próximo.
Arquitetura romana
A arquitetura romana constitui uma síntese criativa de duas tradições importadas distintas: a Etrusca e a Grega. Nos séculos VI e V a.C., os Romanos adotaram o modelo Etrusco, nomeadamente no que concerne ao templo (caracterizado pelo pódio elevado, pórtico profundo, ordem toscana e ausência de frisos) - diferente da tradição grega, que se fundamentava no sistema arquitravado (ou trilítico) — onde o suporte era garantido pela resistência mecânica do mármore à flexão. Este desenvolvimento foi impulsionado pelo uso extensivo do arco de volta inteira, da abóbada de berço e do concreto romano (Opus caementicium), que permitiram vãos maiores e estruturas mais duradouras que o sistema trilítico grego. Nas construções os romanos sistematizaram o uso do arco e abóbada, um exemplo é o sistema de arcada e coluna adossada, onde o arco faz o trabalho estrutural e a "ordem" (colunas e entablamento) é "aplicada" ou adossada à frente da estrutura.[b] A viabilidade técnica dessas estruturas monumentais dependia do "cimbre", armações de madeira temporárias que sustentavam as aduelas até a colocação da pedra de fecho, permitindo a distribuição lateral das cargas para robustos contrafortes. A evolução tipológica para o entretenimento de massas gerou o Anfiteatro, uma estrutura autoportante que utilizava sistemas de galerias e "vomitoria" para o fluxo rápido de público, e o Circo, destinado a corridas de quadrigas, exemplificando a escala monumental da urbe. A cimalha, que na Grécia Antiga coroava a cornija, deixou de funcionar como caleira, e o friso passou a ser talhado nos mesmos blocos de pedra que a arquitrave. Os romanos revitalizaram o modelo da Domus e absorveram a "mestria" etrusca em engenharia, fundamental para o desenvolvimento de infraestruturas como pontes, aquedutos e complexos sistemas de esgoto. A infraestrutura romana, como os aquedutos construídos com precisão de declividade e sistemas de sifão invertido para atravessar vales, definiu o primeiro padrão moderno de saúde pública urbana através do castellum aquae, que distribuía água priorizando fontes públicas e termas. Este pragmatismo técnico, herdado dos Etruscos, permitiu que a arquitetura romana se focasse na utilidade pública e na gestão urbana, diferenciando-se da natureza essencialmente escultural da tradição grega.
A arquitetura das civilizações complexas da Mesoamérica representa uma tradição de mais de três milênios de inovação contínua, onde o ambiente construído servia como uma manifestação física do cosmos e do poder teocrático. A compreensão desta arte foi aprofundada por pesquisas baseadas em hieróglifos, símbolos e no contexto de distribuição de estilos, além de novas técnicas de datação de artefatos como o carbono-14 e a termoluminescência. Mais de 3.000 anos antes do contato europeu, sociedades como os Olmecas, Maias e Astecas estabeleceram centros urbanos onde a orientação das estruturas não era meramente estética, mas ditada por alinhamentos astronómicos rigorosos e pelas direções cardeais. A civilização olmeca, a mais antiga da Mesoamérica (1250 a.C.), fundou centros sagrados em regiões baixas tropicais, como San Lorenzo e La Venta, caracterizados por túmulos de terra, praças e esculturas colossais de basalto que chegavam a 3 metros de altura. Na civilização maia, essa trajetória arquitetónica estendeu-se por vários milénios, apresentando marcos significativos no período Pré-Clássico Terminal e no Clássico (250–900 d.C.). Baseando-se em tradições mesoamericanas gerais, os Maias utilizaram proporções geométricas e esculturas intrincadas para construir desde habitações simples até templos monumentais, como os observados em Palenque, Tikal e Uxmal.
A Idade Média no Ocidente europeu, balizada entre a queda de Roma e o século XV, caracteriza-se por uma transição do declínio urbano e económico da Alta Idade Média para o apogeu da estrutura feudal e a posterior afirmação das nações. Após as invasões germânicas, a sociedade ruralizou-se sob a égide do senhorialismo e da Igreja Católica, que, através da Regra de S. Bento e da preservação da cultura latina nos mosteiros, tornou-se a instituição central da civilização medieval. Entre os séculos X e XIII, o sistema de vassalagem consolidou o poder da aristocracia guerreira face à fragmentação de impérios como o Carolíngio, enquanto a Reforma Gregoriana e as Cruzadas elevaram o Papado a um papel de "farol" político e moral. Este equilíbrio alterou-se com o renascimento das cidades e o surgimento da burguesia mercantil, que impulsionou a economia monetária e a criação das Universidades, permitindo a redescoberta da filosofia clássica. O período final, marcado pela Peste Negra, pela Guerra dos Cem Anos e por cismas religiosos, enfraqueceu o feudalismo e a hegemonia eclesiástica, dando lugar ao espírito nacionalista e a inovações como a prensa de Gutenberg, que pavimentaram o caminho para a Idade Moderna.
Arquitetura bizantina
A primeira arquitetura bizantina, embora inicialmente determinada pela planta basílical longitudinal desenvolvida em Itália, favoreceu precocemente o uso extensivo de grandes cúpulas e abóbadas de alvenaria. Esta transição representou uma rutura nítida com as tradições tardo-antigas, estabelecendo um verdadeiro "cisma" arquitetónico entre o Ocidente, que permaneceria fiel ao modelo basilical romano, e o Oriente grego, que se inclinou para estruturas de planimetria centralizada. Os arquitetos bizantinos construíram muralhas, palácios, hipódromos, pontes, aquedutos e igrejas. Projetaram diversos tipos de igrejas, incluindo a basílica (o tipo mais difundido e o que atingiu o maior desenvolvimento). Após o período inicial, a planta mais comum passou a ser a de cruz inscrita com cinco cúpulas, também encontrada em Moscovo, Novgorod ou Kiev, bem como na Roménia, Bulgária, Sérvia, Macedónia do Norte e Albânia. Através de modificações e adaptações de inspiração local, o estilo bizantino tornou-se a principal fonte de inspiração para os estilos arquitetónicos de todos os países da Igreja Ortodoxa. Por exemplo, na Roménia, o Estilo Brâncovenesc baseia-se fortemente na arquitetura bizantina, embora apresente características romenas individuais.
Arquitetura da Arménia
Desde o início da formação das relações feudais, a arquitetura e o planeamento urbano da Arménia entraram numa nova etapa histórica. As antigas cidades arménias sofreram um declínio económico; apenas Artashat e Tigranocerta mantiveram a sua importância, enquanto a relevância de cidades como Dvin e Karin (Erzurum) aumentou. A construção da cidade de Arshakavan pelo rei da Grande Arménia, Arshak II, não foi totalmente concluída devido à instabilidade do período. O Cristianismo deu vida a uma nova arquitetura de edifícios religiosos, que foi inicialmente alimentada pelas tradições da arquitetura antiga e clássica. As igrejas dos séculos IV e V são principalmente basílicas, como as de Kasakh, Ashtarak, Akhts e Yeghvard. Algumas basílicas da arquitetura arménia pertencem ao chamado tipo ocidental de igrejas basilical. Destas, as mais famosas são as igrejas de Tekor, Yererouk, Dvin e o Mosteiro de Tsitsernavank. A basílica de Yererouk, de três naves, ergue-se sobre um estilóbato de seis degraus, presumivelmente construída no local de um templo pré-cristão anterior. Outros exemplos incluem as basílicas de Karnut, Yeghvard, Garni, Zovuni, Tsaghkavank, Dvin, Talin, Tanaat, Jarjaris e Lernakert.
Arquitetura carolíngia e otoniana
A arte carolíngia (751–887) e a sua sucessora otoniana (919–1024) constituem os eventos mais significativos entre o declínio da Antiguidade Tardia e o período românico, representando, na historiografia da Enciclopedia dell' Arte Medievale, a primeira cultura plenamente comum à área europeia e o núcleo central da Alta Idade Média. Este fenómeno é definido como uma árvore da civilização medieval que brotou da união estratégica entre o reino franco e o papado, operando uma síntese onde a tradição romana deixou de ser um resíduo para se tornar uma componente ativa de uma nova unidade ocidental. A arquitetura carolíngia é o reflexo direto da Renovatio Romani Imperii, um programa de reforma estruturado por decretos como a Epistola de litteris colendis (784-785) e a Admonitio generalis (789), que visavam a unificação espiritual e cultural através do livro e da liturgia. A arquitetura servia como representação da soberania: em Aquisgrão e Paderborn, o trono imperial com base de seis degraus evocava deliberadamente o modelo salomónico, fundindo a ideologia imperial com a tipologia régia do Antigo Testamento. Historiograficamente, enquanto autores como Dehio (1919) viram nesta arte uma missão de concentrar componentes étnicas, a pesquisa de Focillon (1938) descreveu-a como a transição da barbárie amorfa para uma barbárie organizada, onde a vontade artística consciente (Hauttmann, 1929) preparava o caminho para o Românico, superando o isolamento das linguagens merovíngias e longobardas através de uma nova ordem das partes em vista do todo conforme analisado por Steinen (1959).
Arquitetura islâmica medieval
A arquitetura e a arte islâmicas medievais, abrangendo do século VII ao século XIV, representam uma das expressões mais vitais do Islã e geograficamente mais extensas da história da arte. Originada da síntese cultural no Oriente Médio e consolidada através da expansão (Hégira, 622), o estilo manifesta-se em estruturas tipicamente urbanas (mesquita, bazar, banho público), traduzindo uma cosmovisão religiosa e metafísica. A arte moçárabe constitui um capítulo específico e crucial dessa história, refletindo a adaptação de formas islâmicas no território cristão da Península Ibérica. O nascimento da arquitetura islâmica contrasta fortemente com o espírito de construção monumental da época. A cultura árabe original, especialmente a dos beduínos, não possuía conhecimento arquitetônico e considerava a edificação uma vaidade. O próprio Profeta Maomé vivia em uma casa humilde de barro em Medina (622 d.C.). Após sua morte, este local sagrado foi transformado gradualmente na mesquita entre 707 e 709, estabelecendo o primeiro protótipo da casa de culto islâmica a partir de um modelo funcional e despretensioso. A necessidade de criar edifícios monumentais capazes de competir com as construções clássicas, cristãs e iranianas surgiu para o Islã apenas no final do século VII. Após a consolidação das conquistas e a urbanização das massas beduínas, a primeira dinastia nacional, os Omíadas, sentiu a urgência de manifestar externamente o triunfo do Islã sobre os impérios mais civilizados. Essa necessidade imperial impulsionou o desenvolvimento arquitetônico. A transferência da capital de Medina para Damasco (Síria) pelos Omíadas foi um ato de grande significado artístico e histórico. A mudança enfraqueceu a hegemonia árabe e promoveu um encontro frutífero de culturas na Síria, um território que já possuía uma herança helenístico-romana e semítica, com influências bizantinas e sassânidas. Essa convergência cultural pavimentou o caminho para a síntese artística que o Islã realizaria entre a arte da Antiguidade Tardia e a arte oriental.
Arquitetura gótica
O estilo gótico surge essencialmente na Ilha de França e na Alta Picardia, com os primeiros edifícios "protogóticos" a nascerem na região de Paris. A principal hipótese para explicar o nascimento nestas regiões é o facto de estarem, na época, povoadas por monumentos paleocristãos, nomeadamente catedrais de paredes finas, estruturadas em madeira e perfuradas por numerosas aberturas. Estas regiões já estariam, portanto, preparadas para as escolhas técnicas e estéticas do gótico. Além disso, assistem à ascensão dos Capetianos e à consolidação do Estado que, à medida que anexa os feudos, impõe a renovação destes edifícios como símbolo do poder real. Finalmente, estas áreas situam-se na fronteira de regiões dinâmicas ao nível das invenções arquitetónicas: a Borgonha (invenção do arco quebrado e dos arcobotantes na Abadia de Cluny) e a abóbada de cruzaria de ogivas do mundo anglo-normando (Catedral de Durham, Abadia de Lessay). Sendo um local de passagem e de intercâmbio, a Ilha de França e a futura Picardia permitiriam aos primeiros mestres góticos sintetizar todas estas influências.
Arquitetura mourisca
Em Córdova, Abderramão I construiu a Grande Mesquita de Córdova em 785. Foi expandida várias vezes até ao século X e, após a Reconquista, foi convertida numa catedral católica. As suas principais características incluem um salão hipostilo com colunas de mármore que sustentam arcos de ferradura, um mihrab em arco de ferradura, cúpulas nervuradas, um pátio (sahn) com jardins e um minarete (mais tarde convertido em torre sineira).(17–21, 61–79) Abderramão III, no auge do seu poder, iniciou a construção de Madinat al-Zahra, uma luxuosa cidade-palácio para servir como nova capital. (51–58) Os Omíadas também reconstruíram a ponte da era romana sobre o rio Guadalquivir em Córdova, enquanto os Almóadas mais tarde adicionaram a Torre de Calahorra à ponte. (39, 45, 101, 137) A Mesquita Bab al-Mardum (mais tarde convertida em igreja) em Toledo é um exemplo bem preservado de uma pequena mesquita de bairro construída no final do período do Califado. (p79)
A arquitetura contemporânea, consolidada na transição para o século XXI, representa uma profunda metamorfose na forma como o espaço edificado é concebido e executado, distanciando-se das doutrinas rígidas do Modernismo para abraçar um paradigma de pluralismo e integração tecnológica total. Esta mudança é marcada por aquilo que o teórico Franco Purini define como uma "aceleração líquida", onde a arquitetura deixa de ser meramente funcional para se tornar um dos mais potentes mass media da sociedade global, capaz de emocionar sem necessariamente recorrer à monumentalidade clássica, mas sim através de uma liberdade criativa que traduz as necessidades, a interatividade e a fluidez dos valores da sociedade atual. Ao contrário de estilos historicamente bem definidos, como o gótico ou o barroco, a arquitetura contemporânea não segue um conjunto rígido de regras; ela é essencialmente plural, dinâmica e aberta à experimentação, valorizando a originalidade, a funcionalidade e o diálogo constante com o entorno através da incorporação de novas tecnologias e materiais inovadores como o vidro de alto desempenho, o concreto aparente e a madeira engenheirada. Enquanto o movimento moderno se fundamentava na padronização e na máxima de que "a forma segue a função", a prática atual caracteriza-se por uma consciência sistémica que integra o edifício no seu ciclo de vida completo, influenciada por movimentos como o Metabolismo japonês, que via o edifício como um organismo vivo em constante mutação através de megasestruturas modulares, e a Arquitetura biónica, que busca na natureza a eficiência das formas biológicas, fractais e orgânicas para encontrar justificações estéticas e económicas na vanguarda do design.


