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Arquitetura gótica

A arquitetura gótica é um estilo arquitetónico que, precedida pela arquitetura românica e sucedida pela arquitetura renascentista, teve origem na primeira metade do século XII na Europa Ocidental, a partir da França do Norte e, mais particularmente, do centro dessa região — o domínio real delimitado pelos rios Sena, Marne, Aisne e Oise —, que se chamava a Francia propriamente dita e, mais tarde, Île-de-France. A partir desse núcleo, esta arte nova inundou toda a Europa cristã no século XIII, evoluindo a partir da arquitetura românica e continuando a desenvolver-se nalgumas regiões europeias até ao século XVI, sendo interrompida na Itália, logo no início do século XV, pela arte renascentista. O termo "gótico" foi, de resto, cunhado precisamente durante o Renascimento italiano por artistas e historiadores como Giorgio Vasari, que utilizavam a expressão de forma pejorativa para classificar a arte medieval como "bárbara" ou própria dos Godos.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 22/07/2026
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Nome

Os contemporâneos medievais caracterizavam o estilo em latim como opus Francigenum ("obra francesa" ou "obra dos Francos"), isto é, literalmente, uma «obra à maneira francesa», palavras usadas por Burkhard von Hall numa crónica escrita por volta de 1280/90 para se referir à nova construção da igreja da abadia de São Pedro em Wimpfen im Tal (iniciada em 1269), na Alemanha; como opus modernum ("obra moderna"); ou como novum opus ("obra nova"). Os falantes de italiano podiam designá-lo por maniera tedesca ("maneira alemã"). Por volta de 1500, contrapôs-se voluntariamente na Europa o gótico tardio ou flamejante, qualificado de «moderno», ao estilo italianizante, qualificado de «à antiga». A associação do termo "gótico" aos Godos resultou de interpretações posteriores desenvolvidas durante a Renascença, quando autores italianos empregaram a designação de forma pejorativa para caracterizar a arquitetura medieval como uma arte "bárbara", atribuindo-a simbolicamente aos povos germânicos responsáveis pela queda do Império Romano do Ocidente. Essa associação não implica, contudo, uma relação direta entre os godos históricos e o aparecimento do estilo arquitetónico, que surgiu posteriormente na França do século XII sob a designação contemporânea de opus Francigenum. O "gótico" já usado para designar a língua dos visigodos e ostrogodos, pertence ao ramo oriental das línguas germânicas, atestada em poucos documentos dos séculos III e IV, sendo a principal fonte conhecida os códices da Bíblia traduzidos pelo bispo Ulfilas. Além destes documentos, existem fragmentos de comentários bíblicos, calendários religiosos e inscrições rúnicas. A presença dos visigodos na Península Ibérica entre os séculos V e VIII contribuiu para a formação das línguas ibero-românicas através de fenómenos de superstrato linguístico. Apesar da progressiva romanização desse povo e da adoção do latim vulgar, permaneceram empréstimos lexicais, morfológicos, toponímicos e antroponímicos posteriormente incorporados ao português, galego e castelhano. A atribuição exata desses elementos apresenta dificuldades metodológicas, uma vez que diversos germanismos podem igualmente ter origem em outros grupos germânicos, como francos ou lombardos, além de muitos vocábulos serem apenas formas reconstruídas pelos estudos linguísticos.

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Contexto histórico

O estilo gótico foi criado por Suger, abade da St-Denis, conselheiro de dois reis da França: o Renascimento, para os mercadores de Florença, banqueiros dos reis da Europa

A Nova Europa medieval

O contexto que antecedeu o desenvolvimento da grande arquitetura medieval resultou da progressiva estabilização política, social e religiosa da Europa Ocidental entre os séculos X e XI. Após vários séculos marcados pelas invasões víquingues, magiares e sarracenas, bem como pelo enfraquecimento das estruturas herdadas do Império Romano do Ocidente, a Europa entrou num período de relativa estabilidade que favoreceu a consolidação do feudalismo, a expansão do cristianismo latino e a reorganização da sociedade medieval. Apesar dos receios milenaristas suscitados pela aproximação do ano 1000 e das interpretações do Apocalipse de São João Evangelista que anunciavam a iminência do Juízo Final e do «fim do mundo», tais previsões não se concretizaram. A continuidade da ordem cristã reforçou a autoridade moral da Igreja e favoreceu uma renovação religiosa que marcou profundamente a sociedade da Alta Idade Média.

O Mediterrâneo, as Cruzadas e as redes comerciais

As Cruzadas, iniciadas em 1095 por convocação do papa Urbano II, tiveram consequências que ultrapassaram o campo religioso e militar. O contato mais intenso entre o Ocidente latino e o Mediterrâneo oriental ampliou os intercâmbios culturais e comerciais, fortalecendo as redes mercantis europeias. As repúblicas marítimas italianas, como Veneza, Gênova e Pisa, através do porto de Constantinopla, expandiram significativamente as suas atividades comerciais durante esse período. Veneza, alicerçada nos dividendos da Quarta Cruzada, consolidou o domínio na Península Balcânica e fundou feitorias estratégicas, como a de Tana, junto aos mares Negro e de Azov, operando o lucrativo comércio de escravos da Transcaucásia e estabelecendo indústrias locais de seda e vidro. A frota veneziana — apelidada de "Soberana dos Mares" — operava através das chamadas galeras di mercato. O poder político em Veneza concentrava-se nas mãos de uma oligarquia de mercadores que controlava o Grande Conselho e elegia o governador, conhecido como o Doge; para salvaguardar essa estrutura e conter revoltas ou conspirações internas do resto da população, instituiu-se o Conselho dos Dez, um órgão assente num sistema de agentes secretos com prerrogativas de espionagem e eliminação física de dissidentes.

A Igreja e a sociedade medieval

A expansão económica e urbana da Baixa Idade Média ocorreu paralelamente a importantes crises institucionais da cristandade. A primeira delas foi o Grande Cisma do Oriente, em 1054, que formalizou a separação entre a Igreja Católica Romana e a Igreja Ortodoxa Oriental. Posteriormente, entre 1378 e 1417, o Cisma do Ocidente dividiu a própria Igreja Católica, com papas rivais estabelecidos em Roma e Avinhão, provocando uma grave crise de autoridade religiosa e política na Europa. Esta fragmentação do poder eclesiástico abalou o centralismo papal e transferiu parte da liderança e iniciativa eclesiástica para as instâncias e dioceses regionais. Nesse contexto, o patrocínio de igrejas, mosteiros e catedrais adquiriu uma dimensão simbólica ainda maior. Reis, bispos, corporações urbanas e membros da elite financiaram obras monumentais em demonstração à devoção religiosa, prestígio social e legitimidade institucional. Na transição do milénio, o panorama religioso foi marcado pelo franco desenvolvimento do Monaquismo, cujas ordens foram responsáveis pela atividade cultural, artística e pela uniformização estilística inicial da Europa. Os Beneditinos assumiram o pioneirismo através da construção de grandes igrejas abaciais, cujo impacto económico favoreceu o crescimento de cidades ao seu redor, convertendo-as em polos de comércio e aprendizagem.

A catedral

A partir do século XII, a eclosão gótica manifestou-se na catedral, igreja urbana por excelência, obra e expressão de toda a comunidade e verdadeiro símbolo do renascimento das cidades. A catedral afirmava-se como o edifício mais importante do espaço urbano, que além de representar a Urbe na Terra, constituía a concretização da ousadia técnica e empreendedora do Homem medieval, refletindo o esforço supremo de uma sociedade em busca de Deus, traduzindo simultaneamente a capacidade construtiva colocada ao serviço de Deus e o novo pensamento de uma Igreja empenhada em harmonizar a fé e o espírito racional, isto é, em reconciliar a doutrina cristã com o racionalismo clássico.

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Origens

Precursores normandos

A arquitetura românica e a arquitetura Normanda tiveram uma grande influência na arquitetura gótica. A planta da catedral gótica foi baseada na planta da antiga basílica romana, que foi adotada pela arquitetura românica. A forma da cruz latina, com uma nave e transepto, coro, deambulatório e capelas radiantes, provinha do modelo românico. As grandes arcadas das colunas que separam a nave central da nave dos corredores colaterais, o trifório sobre as grandes arcadas e as janelas altas nas paredes que permitiam a entrada de luz na nave também foram adaptadas do modelo românico. O portal com um tímpano cheio de esculturas era outra característica românica comum, assim como o uso do contraforte para sustentar as paredes do lado de fora. Os arquitetos góticos os aprimoraram adicionando o arcobotante, com arcos altos que ligavam os contrafortes às paredes superiores. No interior, a arquitetura românica usava a abóbada de canhão com um arco redondo para cobrir a nave e uma abóbada de aresta quando duas abóbadas se encontravam em ângulo reto. Essas abóbadas eram os ancestrais imediatos da abóbada em cruzaria gótica. O primeiro uso das abóbadas em cruzaria góticas para cobrir uma nave foi na catedral românica de Durham (1093-1104). A síntese normanda atingiu a sua expressão mais alta na Abadia de Jumièges (c. 1040–1067), que Cram descreve como «uma das construções mais impressionantes da história», isolada e quase sobrenatural na sua audácia, sem precursores conhecidos e ainda assim maior do que qualquer igreja desde Constantino. Nela ficaram fixados, para todo o período gótico, as proporções elevadas e monumentais, o magistral traçado do plano, o poderoso agrupamento de torres altas e o organismo final do trifório com arcadas e clerestório. Após Jumièges, as Abadias de Caen tornaram-se consequência natural deste impulso: a Abadia dos Homens tornou-se o modelo normativo para todas as catedrais francesas, enquanto a Abadia das Damas o foi para a ordem inglesa.

Protogótico (1130-1200)

— Otto von Simon, A catedral gótica. Origens da arquitetura gótica e o conceito medieval de ordem, Lisboa, Editorial Presença, 1991, pp. 27-40 Desde o final do século X, as igrejas ocidentais são construídas no típico estilo românico, em que o número e a amplitude das janelas são limitados e o interior é decorado por frescos de cores vivas. Entretanto, os historiadores de arte atuais, baseando-se na arqueologia da construção, tendem a diminuir a rutura entre os estilos românico e gótico, demonstrando que a herança clássica não foi completamente esquecida. A maestria precoce do vitral e a busca por luz já se intensificavam desde a arquitetura carolíngia e nas grandes igrejas normandas da segunda metade do século XI, cujos muros espessos eram rasgados no nível superior por largas aberturas. Temas decorativos figurativos ou fantásticos, típicos do românico, foram sendo progressivamente abandonados em favor de folhagens estilizadas e molduras geométricas mais sóbrias. O protogótico estende-se por cerca de meio século (1130-1180), durante o qual se elaboraram as soluções estruturais e formais, num necessidade de acolher grandes multidões de peregrinos em centros como a Catedral de Chartres e a Catedral de Cantuária exigiu a reorganização de espaços mais amplos e desimpedidos, impulsionando soluções de engenharia que otimizaram a circulação de fiéis. Esta transferência do impulso criativo da Normandia para os francos não foi imediata. Na segunda metade do século XI, as condições culturais que tinham tornado possível o florescimento normando cessaram na Normandia: após a morte de Guilherme, o Conquistador, o ducado mergulhou em tempos difíceis, e a condução do estilo até à sua conclusão lógica e suprema passou para outras mãos — as dos francos do antigo Domínio Real e as dos normandos transplantados para Inglaterra. Em França, o século XI tinha sido marcado por ineficiência régia, desenfreada tirania feudal, insubordinação episcopal ao controlo papal e anarquia generalizada. Cluny havia cumprido a sua missão imediata e começado a afastar-se dos seus elevados ideais, mas em 1075 São Roberto de Molesme fundou na Borgonha a primeira casa da Ordem Cisterciense, que desempenharia no século XII esse mesmo papel de reformador. Com o fim do século XI, as condições em França tornaram-se tais que a tocha caída das mãos do normando decadente pôde ser acolhida pelo franco em ascensão e levada adiante sem interrupção. Durante a primeira metade do século XII, o surto de vigor arquitectónico na Île-de-France é muito notável: Soissons, Amiens e Beauvais tornaram-se simultaneamente centros de actividade, e a abóbada nervurada faz a sua aparição ao mesmo tempo em muitos lugares. Numa primeira fase (c. 1100–1140), os construtores esforçaram-se por dominar a abóbada nervurada nos seus problemas mais simples: aprenderam a construí-la em plantas quadradas e retangulares e mesmo sobre as curvas complexas das naves laterais dos deambulatórios, mas as suas experiências foram sempre em pequena escala. Numa segunda fase (c. 1140–1180), o problema de abobadamento das grandes naves foi atacado; a evolução centra-se no desenvolvimento peculiar que o génio dos construtores franceses conferiu ao contraforte oculto e à abóbada sexpartida, ambos herdados da Normandia. Do ponto de vista estrutural, o protogótico caracterizou-se pelo uso generalizado da abóbada sexpartida, cobrindo dois tramos de nave sob a mesma armação de nervuras que se cruzavam num ponto central. Este sistema gerava um ritmo de suportes alternados — alternando pilares compostos fortes e colunas geminadas mais débeis —, visível em obras fundacionais como Sens e Notre-Dame de Paris. O deambulatório semicircular de Morienval (c. 1122), com a sua abóbada sustentada por nervuras curvas em planta, e a igreja de Saint-Étienne em Beauvais (c. 1130) são marcos valiosos neste desenvolvimento. A segunda tarefa dos construtores franceses foi simplificada pela introdução do arco ogival. As suas duas grandes virtudes são o impulso relativamente ligeiro em comparação com o arco de volta perfeita e as infinitas possibilidades de variação de altura. Quase coincidentemente com a aceitação do arco ogival surgiu o recurso do escoramento dos arcos longitudinais, como demonstrado nos arcos transversais de Bury (c. 1125). Poucos anos depois de Bury, foi construída a igreja de Saint-Germer-de-Fly, cuja data atribuída pelo Professor Moore é de cerca de 1130, um edifício quase tão surpreendente quanto Jumièges: se a data está correta, a igreja não possui protótipo, nem etapas promissoras de experimentação. As abóbadas do deambulatório e da abside têm arranque elevado e o pleno complemento de nervuras; os fustes são finamente articulados em toda a extensão; as dimensões são majestosas, as proporções justas e eficazes; e a terminação oriental apresenta uma abside perfeitamente desenvolvida com capelas rudimentares — uma cabeceira em potência. Os arcobotantes permanecem ainda ocultos sob o telhado do trifório e exteriormente o edifício não apresenta qualquer caráter gótico; mas o organismo gótico está praticamente completo.

Gótico Clássico (1190-1240)

A Catedral de Chartres é considerada o edifício-chave na afirmação do gótico maduro, tornando-se de imediato um verdadeiro modelo para as catedrais coevas. A estrutura românica original foi destruída por um incêndio a 10 de junho de 1194 e reconstruída segundo o novo gosto que se propagava pela Île-de-France. Chartres era, por outro lado, uma rica sede episcopal, cuja catedral albergava a túnica que se acreditava ter sido usada pela Maria no nascimento de Jesus. O culto mariano era particularmente forte e desempenhava um papel importante na economia da cidade: o bispo e o seu cabido organizavam anualmente quatro feiras por ocasião das quatro principais festividades marianas (Natividade, Anunciação, Purificação e Assunção).

Gótico Radiante (1240–1370)

O estilo Gótico Radiante (rayonnant ou cintilante) acompanhou o fortalecimento da monarquia capetiana a partir de 1230. Nos refinados ambientes da corte, consolidou-se o gosto por edifícios requintados, caraterizados por uma profusão de decorações esculpidas, pinturas e iluminação colorida. Abandonaram-se as massas poderosas do período anterior em favor de uma maior verticalização e de uma divisão mais equilibrada dos espaços. O termo radiante deriva do desenho radial que se pode observar nas grandes rosáceas das catedrais, descrevendo a tendência para o uso de linhas radiais na traceria ou reticulado, visível nas aberturas de tal modo que as paredes ficam praticamente todas envidraçadas.

Gótico Flamejante (c. 1375 – meados do século XVI)

O Gótico Flamejante (do francês flamboyant, literalmente «em forma de chama») é uma forma de arquitetura gótica tardia que se desenvolveu na Europa durante a Baixa Idade Média e o Renascimento, aproximadamente entre 1375 e meados do século XVI. Carateriza-se por curvas duplas e contracurvas que formam padrões em forma de chama no trabalho de traceria, que dá nome ao estilo; pela multiplicação dos elementos decorativos das nervuras das abóbadas e pelo uso ornamental dos arcos. As nervuras da traceria flamejante distinguem-se pelas suas formas fluidas, sinuosas e ondulantes, influenciadas pela traceria curvilínea dos estilos góticos precedentes. Arcos quebrados e frontões muito altos e estreitos, especialmente os arcos em querena ou arco conopial (arc en accolade ou ogee), são frequentes nos edifícios deste estilo, acompanhados de janelas intrincadamente decoradas, lobuladas ou dentilhadas, pináculos de pedra e abundante escultura floral. Observa-se também um aumento do número de nervuras nas abóbadas de cruzaria, que evoluíram para sistemas complexos de terceletes e liernes, reduzindo gradualmente a sua função estrutural primária em favor de um efeito decorativo mais elaborado. Em grande parte da Europa, os estilos góticos tardios substituíram o anterior Gótico Radiante e outras variantes iniciais. Apesar da exuberância da decoração exterior, o desenho estrutural do interior das igrejas deste período manteve-se conservador, consistindo normalmente numa continuidade e repetição espacial do estilo radiante que já se encontrava consolidado há muito tempo.

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Evolução estrutural

A arquitetura gótica é conhecida, sobretudo, por estar associada às grandes catedrais e a outros estabelecimentos eclesiásticos construídos a partir do início do período medieval, época em que exerceu grande influência por toda a Europa. Durante o período gótico — séculos XII a XV —, o poder religioso procurou traduzir a sua importância nas estruturas de igrejas, catedrais e abadias através da grandiosidade dimensional característica desta arquitetura. A arquitetura gótica representa uma transformação do edifício românico, marcada por maior rigor no traçado. Completa-se com a integração espacial e formal dos diferentes espaços e com a perda da independência que antes caracterizava as partes da igreja românica. A verticalidade passa a dominar todo o edifício: a nave torna-se mais curta e o cruzeiro tende a deslocar-se para a posição central no eixo longitudinal. O coro é ampliado, explora-se a abóbada de cruzaria com integração geométrica dos elementos da planta, e o exterior perde todo o caráter maciço.

Planta

A planta da catedral gótica baseia-se no modelo da antiga basílica romana — simultaneamente mercado público e tribunal —, que servira já de base à planta da catedral românica. A catedral tem a forma de uma cruz latina. A entrada situa-se tradicionalmente no extremo oeste, possui três portais decorados com escultura, conta geralmente com uma rosácea e é ladeada por duas torres. A nave longa, onde a congregação assistia às cerimónias, ocupa o extremo oeste e é normalmente separada das naves laterais por fileiras de pilares que sustentam o telhado. Estes pilares apresentam, por vezes, arcos torais que se prolongam nos colunelos, interrompidos em altura por mísulas, criando um ritmo periódico modular. Entre os contrafortes encontram-se, normalmente, pequenas capelas que reforçam o apoio das paredes.

O arco ogival e a abóbada em cruzaria

A tipologia das abóbadas varia de país para país, e as suas formas dependem do método de conceção e construção adotado. O estilo gótico evoluiu a partir do românico tardio e, no século XIII, as estruturas tornaram-se progressivamente mais leves. Multiplicam-se as ogivas da abóbada com o recurso a terciarões e liernes, que fragmentam a superfície das abóbadas até aos limites permitidos pela técnica. Surgem abóbadas hexapartidas e sexpartidas, já não limitadas aos quatro painéis definidores dos tramos, e que apresentam um arco intermédio a dividir ao meio os arcos formeiros do tramo; as abóbadas estreladas e as abóbadas em leque podem considerar-se o culminar da arte construtiva gótica. O terciarão surgiu pela primeira vez nas abóbadas do coro da Catedral de Lincoln, no final do século XII, depois na Catedral de Worcester em 1224 e, em seguida, no transepto sul da Catedral de Lichfield.

Colunas e pilares

Na arquitetura gótica francesa inicial, os capitéis das colunas seguiam o modelo das colunas romanas da ordem coríntia, com folhas finamente esculpidas; foram utilizados no deambulatório da igreja abacial de Saint-Denis e, segundo o seu construtor, o abade Suger, inspiraram-se nas colunas que este observara nas antigas termas de Roma. Mais tarde, foram empregues em Sens, em Notre-Dame de Paris e em Cantuária, na Inglaterra. Nas igrejas góticas iniciais, com abóbadas de cruzaria sexpartidas, as colunas da nave alternavam com pilares mais maciços, que sustentavam as abóbadas. Com a introdução da abóbada nervurada quadripartida, todos os pilares ou colunas da nave puderam adotar o mesmo desenho. No período do Gótico Pleno, surgiu uma nova forma, composta por um núcleo central rodeado de várias colunas delgadas adossadas, ou colunetas, que subiam até às abóbadas. Estas colunas agrupadas — ou pilares fasciculados — foram usadas em Chartres, Amiens, Reims, Bourges, na Abadia de Westminster e na Catedral de Salisbury. Outra variante é a coluna quadrilobada, em forma de trevo, formada por quatro colunas adossadas. Na Inglaterra, os pilares fasciculados eram habitualmente ornamentados com anéis de pedra, e também com colunas de folhas esculpidas.

Arcobotantes

O arcobotante, concebido para sustentar as paredes por meio de arcos ligados a contrafortes exteriores, em formas simples, já existiam desde a época romana, mas os construtores góticos elevaram o seu uso a uma arte refinada, equilibrando o impulso do teto interior com o contraimpulso dos contrafortes. As primeiras catedrais góticas — incluindo Saint-Denis e Notre-Dame nas suas fases iniciais — ainda não possuíam arcobotantes: as suas paredes eram apoiadas por pesados pilares de pedra (botaréus) colocados diretamente contra elas. O tramo[d] era sustentado pelas nervuras das abóbadas, alinhadas com as colunas inferiores. Para evitar a necessidade de espessar as paredes ou de robustos contrafortes — solução típica do período românico —, os arquitetos medievais criaram um novo tipo de contraforte, mais esbelto e elegante, composto por dois elementos: o botaréu, elemento vertical adossado às paredes exteriores das naves laterais, que geralmente diminuía de espessura com a altura; e os arcobotantes propriamente ditos — espécie de meios-arcos construídos sobre as coberturas das naves laterais, que transferiam as cargas dos telhados para os botaréus, normalmente coroados por pináculos ou agulhas.

Vitrais e iluminação

— [Inscrição numa das portas de bronze da Abadia de Saint-Denis, por ordem do abade Suger (c. 1081–1151)] Ricardo da Costa e Tainah Neves, «A contemplação anagógica na Abadia de Saint-Denis (séc. XII)» in Mirabilia 20, 2015, p. 28. (Texto adaptado) O aumento da quantidade de luz no interior era um objetivo primordial dos fundadores do movimento gótico. O abade Suger descreveu o novo tipo de arquitetura que criara na cabeceira da Saint-Denis: "um anel circular de capelas, em virtude do qual toda a igreja brilharia com a luz maravilhosa e ininterrupta de janelas sumamente luminosas, que perspassam a beleza interior." Historiadores como Viollet-le-Duc, Focillon, Aubert e Max Dvořák consideram-na uma das características mais universais do estilo gótico. Elemento central desta nova estética, o vitral transformava a luz natural num caleidoscópio de cores e significados, criando ambientes propícios à introspeção e à elevação espiritual. Cada janela colorida não era apenas um recurso decorativo, mas também um meio de transmitir histórias sagradas e conceitos religiosos, históricos e sociais, funcionando como linguagem visual destinada à instrução dos fiéis e à simbolização da presença divina.

Pórticos e tímpanos

As entradas da catedral assumem caráter monumental em todas as fachadas — a principal, de portal triplo, e as do transepto. Os portais são talhados num corpo saliente da fachada e ladeados por torres sineiras, que conferem maior verticalidade ao conjunto, podendo igualmente estar adossadas ao transepto. Estas torres rematavam em telhados cónicos ou em agulhas rendilhadas, prolongando-se em pináculos e flechas que acentuam os elementos verticais da construção. Também no exterior se concentrava a abundante decoração escultórica, contrastando com a maior sobriedade do interior. As antigas catedrais góticas têm, tradicionalmente, a entrada principal no extremo oeste da igreja, em frente ao coro. Os tímpanos dos pórticos abocinados góticos constituem um dos espaços mais importantes para a expressão da escultura monumental medieval, funcionando simultaneamente como instrumento de catequese visual e de afirmação doutrinal junto dos fiéis, com temas como Cristo em Majestade (Maiestas Domini); Coroação da Virgem; Dormição ou Assunção da Virgem; Infância de Cristo (Anunciação, Natividade, Adoração dos Magos); Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo; vida de santos padroeiros locais; ou o Juízo Final. A composição dos tímpanos góticos tende a organizar-se de forma hierárquica, centrada na figura principal da representação — geralmente Cristo ou a Virgem —, embora a disposição das figuras varie consoante o tema iconográfico e o programa escultórico de cada portal. Na Catedral de Amiens e na Catedral de Notre-Dame de Paris, a composição segue uma estrutura hierárquica e axial, dominada pela figura de Cristo em Majestade, sentado em trono ao centro como juiz supremo da humanidade. Em torno de Cristo distribuem-se anjos, santos e intercessores, reforçando a dimensão escatológica da cena. A composição estabelece ainda uma clara oposição simbólica entre os destinos da alma após a morte: à direita de Cristo desenvolve-se o espaço harmonioso e ordenado dos eleitos, associado ao Paraíso e à salvação eterna; à sua esquerda, o domínio dos condenados, marcado pela presença de monstros, demónios e cenas de sofrimento que evocam o Inferno. Esta dualidade espacial traduz visualmente a separação entre o Bem e o Mal, entre a recompensa e o castigo.

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Gótico Inglês

O Gótico Inglês (English Gothic) é um estilo arquitetónico que floresceu na Inglaterra desde o final do século XII até meados do século XVII. A partir da segunda metade do século XII, o estilo gótico da Île-de-France difundiu-se na Inglaterra, onde se desenvolveu segundo características próprias. O estilo foi importado muito cedo para o país, em parte devido à estreita ligação com o Ducado da Normandia, que até 1204 ainda era governado pelos reis da Inglaterra. Embora o país já utilizasse abóbadas ogivais no final do século XI, como na Catedral de Durham, as construções eram massivas e de caráter essencialmente românico. Muitas das características góticas evoluíram naturalmente da arquitetura românica (frequentemente conhecida na Inglaterra como arquitetura normanda). Assim como no continente, as características definidoras da arquitetura gótica são os arcos apontados (ogivais), as abóbadas em cruzaria, os contrafortes e o uso extensivo de vitrais. Combinados, estes elementos permitiram a criação de edifícios de altura e grandiosidade inéditas, preenchidos pela luz de grandes janelas.

Primeiro Gótico Inglês

O primeiro período foi dominante de 1180 a 1275. O Gótico foi introduzido a partir da França, onde os vários elementos tinham sido usados juntos pela primeira vez no coro da Abadia de Saint-Denis, a norte de Paris, concluída em 1144. Outras influências vieram da Île-de-France, onde a primeira catedral gótica francesa, a Catedral de Sens, fora erguida entre 1140 e 1160. Em setembro de 1174, um incêndio destruiu quase por completo o coro românico da Catedral de Cantuária. O prestígio da igreja era enorme por ser a sede do primaz de Inglaterra e de um importante mosteiro beneditino, servindo de centro ao culto de São Tomás Becket, assassinado na própria catedral em 1170. Para a sua reconstrução, decidiu-se seguir a nova moda arquitetónica que naqueles anos se estava a difundir na Île-de-France, mas o mestre francês chamado para este efeito, Guilherme de Sens, não conseguiu convencer os monges a eliminar totalmente os vestígios do coro normando. Assim, edificou-se sobre a cripta preexistente uma nova estrutura gótica, inspirada nas catedrais de Laon e de Notre-Dame de Paris. A nova construção apresenta um alçado de três pisos com abóbadas de ogivas sexpartidas que assentam sobre semicolunas de mármore negro de Purbeck polido, em redor das quais se desenvolve um deambulatório semicircular. Guilherme adicionou vários toques originais, incluindo um pavimento de mármore colorido e colunas duplas nas arcadas. A desmaterialização da parede e a substituição da coluna monolítica pelo feixe de colunas delgadas, conhecidas como colunas fasciculadas, permitem que o olhar percorra o edifício sem interrupções, do pavimento ao fecho da abóbada, numa continuidade de linhas que expressa a clareza e o ordenamento racional do pensamento medieval.

Gótico Decorado ou Ornado

O influxo do gótico cortese proveniente da França e introduzido com a intervenção na Abadia de Westminster é visível nas catedrais de Hereford, Lichfield, no Angel Choir de Lincoln, acrescentado entre 1256 e 1280, na sala do capítulo e no claustro de Salisbury. Por volta de 1290, atinge a sua plena maturidade o estilo ornato, também conhecido como estilo curvilíneo (Curvilinear Style). Um dos primeiros exemplos reside no uso das curvas duplas que caraterizam a decoração das Doze Cruzes de Eleonora, erguidas entre 1291 e 1294 por Eduardo I para assinalar o percurso fúnebre da rainha Eleonora de Castília desde o Lincolnshire até Westminster. Estas exibem na base uma rica decoração floral feita de curvas duplas, que reelaboram os modelos florais típicos do gótico radiante francês.

Gótico Perpendicular (Perpendicular Style)

Além do gótico ornado, a introdução do estilo radiante na Abadia de Westminster levou à difusão em Inglaterra de uma segunda tendência: o Perpendicular Style, ou gótico perpendicular. O nome deriva do facto de as estruturas decorativas estarem organizadas segundo um esquema estritamente retilíneo voltado para o alto. O primeiro exemplo do gótico perpendicular é a Capela de Santo Estêvão em Westminster, construída por vontade de Eduardo I, da qual hoje sobrevive apenas a cripta pesadamente modificada. A realização conheceu três fases: 1292–1297, 1320–1326 e 1330–1348. Aqui, Michele de Canterbury e o seu filho Tommaso, que lhe sucedeu em 1323, tinham recuperado e desenvolvido elementos do gótico cortese, reelaborando-os segundo o estilo perpendicular. Esta tendência prosseguiria na antiga Catedral de São Paulo em Londres, e em particular na sala do capítulo do claustro, desenhada por William Ramsey e hoje destruída, onde era visível o primeiro exemplo de traforo perpendicular retilíneo e o primeiro arco de quatro centros.

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Arquitetura Civil

À semelhança do gótico francês, também neste caso a apresentação se encerra com uma breve referência à arquitetura civil inglesa do período. Os primeiros exemplos de edifícios não religiosos em estilo gótico podem ser considerados os castelos que Eduardo I mandou construir no final do século XIII, após a conquista do País de Gales. No geral, nota-se um forte sentido de simetria, como no Castelo de Harlech ou na planificação urbana da cidade de New Winchelsea. A residência de campanha em Acton do bispo Burnell, chanceler de Eduardo I, apresenta-se como um bloco retangular com uma torre de planta quadrada em cada ângulo. Em sentido inverso a esta aspiração de harmonia geométrica, o Castelo de Stokesay fixou uma disposição assimétrica das suas várias partes, convertendo-se num modelo para a posterior arquitetura civil medieval inglesa. O núcleo central de todos os edifícios civis da época era a hall, o salão onde os habitantes consumavam as refeições em comum. No século XV, a mesa senhorial mudou-se para um ambiente mais íntimo, denominado great chamber ou solar, habitualmente situado no primeiro andar. Sempre no século XV, difundiu-se a preferência pelo uso de torres já sem função militar, mas como elementos decorativos e estéticos. O exemplo mais célebre desta tipologia é o Westminster Hall, em Londres, cuja estrutura remonta a 1097–1099 mas cuja cobertura atual — um dos maiores telhados medievais sem apoio interno da Europa — foi reconstruída entre 1393 e 1401 por ordem de Ricardo II, segundo projeto do mestre carpinteiro Hugh Herland. O telhado, do tipo hammerbeam (viga de martelo), distribui o peso da cobertura através de consolas de madeira entalhada sem recurso a colunas centrais, vencendo um vão de cerca de 20,7 metros — solução amplamente citada como um dos expoentes máximos da carpintaria gótica inglesa.

Palácios

O estilo gótico foi também utilizado em residências reais e papais. Para o Palais de la Cité, a Sainte-Chapelle, a Conciergerie, o Palácio dos Papas em Avinhão, o Palácio Ducal de Veneza e o Palácio dos Reis de Navarra em Olite, já discutidos na secção "Arquitetura Civil", ver acima; o Castelo de Vincennes, residência real erguida a partir de uma antiga fortaleza, é tratado na secção "Arquitetura Militar". O Palácio do Louvre constitui um caso à parte, pela sua transição peculiar de fortaleza a residência. Foi originalmente construído por Filipe II de França a partir de 1190 para abrigar os arquivos e tesouros do rei, e recebeu mata-cães e outras características de uma fortaleza gótica. No entanto, logo se tornou obsoleto com o desenvolvimento da artilharia e, no século XV, foi remodelado para se tornar um palácio residencial confortável. Embora as muralhas externas tenham mantido a sua aparência militar original, o castelo em si, com uma profusão de flechas, torres, pináculos, arcos e empenas, tornou-se um símbolo visível da realeza e da aristocracia. O estilo foi copiado em castelos e outras residências aristocráticas em toda a França e em outras partes da Europa.

Abadias e Mosteiros

Enquanto as catedrais eram as estruturas mais proeminentes no estilo gótico, as características góticas também foram utilizadas em muitos mosteiros em toda a Europa. Exemplos proeminentes foram construídos pelos beneditinos na Inglaterra, França e Normandia. Eles eram os construtores da Abadia de Saint-Denis e da Abadia de Saint-Remi na França. Mais tarde, os projetos beneditinos (construções e reformas) incluem a Abadia de Saint-Ouen, a Abadia La Chaise-Dieu de Rouen e o Coro do Monte Saint-Michel na França. Os exemplos ingleses são a Abadia de Westminster (originalmente construída como uma igreja monástica de ordem beneditina) e a reconstrução da igreja beneditina em Cantuária. Os cistercienses espalharam o estilo no extremo leste e sul da Polônia e da Hungria. Ordens menores como os Cartuxos e os Premonstratenses também construíram cerca de 200 igrejas, geralmente próximas das cidades. Os Franciscanos e Dominicanos também realizaram uma transição para o gótico nos séculos XIII e XIV. A Ordem Teutônica, uma ordem militar, espalhou a arte gótica na Pomerânia, na Prússia Oriental e na região do Báltico.

Arquitetura Militar

Na Idade Média, os métodos construtivos da arquitetura militar medieval eram idênticos aos das obras religiosas e civis, partilhando os mesmos arquitetos e detalhes ornamentais, como as abóbadas internas e os perfis de mísulas. Até ao final do século XII, o progresso da arquitetura militar acompanhou o da monástica, transformando-se radicalmente no século XIII sob a inspiração das fortificações bizantinas observadas pelos cruzados na Síria, como o Krak dos Cavaleiros. Esta influência oriental introduziu no Ocidente a adoção da dupla cintura de muralhas (onde a linha interna, mais alta, dominava a exterior), o talude na base dos paramentos (que triplicava a espessura da parede contra sismos e trabalhos de sapa) e a substituição gradual dos cadafalsos de madeira por matacães de pedra salientes, que eliminavam o risco de incêndio. Estes novos métodos góticos de fortificação, baseados na regularidade e em princípios bem definidos, foram aplicados por São Luís e Filipe, o Ousado na expansão da Cidadela de Carcassonne e na fundação de Aigues-Mortes. Enquanto os arquitetos franceses privilegiavam as torres redondas, com teto cónico ou, popularmente na época, de bonnet (capuz), por exporem melhor os sapadores ao tiro das cortinas vizinhas, as torres quadradas (de influência italiana) eram vistas como mais vulneráveis, pois os seus ângulos ofereciam proteção aos atacantes.

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Difusão da arquitetura gótica na Europa

No final do século XII, a Europa apresentava-se fragmentada numa multiplicidade de reinos e cidades-estado. A região correspondente às atuais Alemanha, sul da Dinamarca, Países Baixos, Bélgica, Luxemburgo, Suíça, Áustria, Eslováquia, Chéquia e a maior parte do norte da Itália integrava nominalmente o Sacro Império Romano-Germânico, sob forte autonomia dos senhores locais. Em paralelo, territórios como França, Dinamarca, Polónia, Hungria, Portugal, Escócia, Castela, Aragão, Navarra, Sicília e Chipre operavam como reinos independentes. Neste cenário, destacou-se o Império Angevino, governado pela Dinastia Plantageneta, que detinha o controlo da Inglaterra. A proximidade histórica e política fez com que a Inglaterra fosse uma das primeiras regiões a adotar a nova arquitetura gótica de origem francesa, logo na segunda metade do século XII, após a ascensão de Henrique II ao trono inglês em 1154.

Gótico alemão

Houve uma desconfiança inicial nos países de língua alemã em relação ao novo estilo proveniente da França. Desde a época de Carlos Magno, e depois sob os Otões e os Hohenstaufen, os mestres construtores das regiões ocidentais do Império — e em particolare na bacia do Reno entre Basileia e Colónia — tinham desenvolvido um estilo arquitetónico original de forte matriz românica. A transição foi lenta e, inicialmente, foram realizados edifícios que fundiam características do gótico com elementos ainda tipicamente românicos. Exemplos desta fase são o coro da catedral de Magdeburgo (1208) e a igreja colegiada de São Jorge em Limburgo do Lahn (1211-35).

Gótico de tijolos

Nas regiões mais a norte, nas cidades hanseáticas e bálticas (como na Alemanha Setentrional e na Polónia), a falta de pedreiras para a extração de rochas naturais levou à criação de um estilo gótico particular baseado no tijolo, chamado Backsteingotik (gótico de tijolos). Os construtores da época conseguiram conjugar o emprego deste material mais pobre com a elevação e a leveza próprias do gótico francês, simplificando as suas formas sem renunciar à sumptuosidade. Os principais exemplos deste estilo incluem a Igreja de Santa Maria em Lubeque (1250-1350), a Igreja de Santa Maria em Gdansk (1379–1502), a Basílica de Santa Maria em Cracóvia (1290–1365) e o Castelo de Malbork (século XIII). Não se limitaram apenas à arquitetura religiosa: foram lançados planos urbanísticos inteiros segundo o estilo gótico das regiões hanseáticas, com a construção de edifícios civis e públicos, como a famosa porta Holstentor em Lubeque, e estruturas em Chorin, Prenzlau e Stralsund.

Suábia e Boémia

Na Suábia e na Boémia, a difusão do gótico está ligada ao trabalho dos Parler, uma dinastia de mestres de obras que construíram uma vasta rede de relações profissionais. Originalmente, o termo 'parler' indicava o primeiro ajudante do mestre de obras (magister operis), e apenas a partir do século XIV se tornou o apelido da família. O patriarca foi Heinrich I, o Velho, cujos descendentes estenderam a sua influência artística por grande parte da Boémia, na área germano-austríaca, chegando até ao Brabante e à Flandres. Nos seus trabalhos reconhecem-se elementos recorrentes na disposição dos espaços e na conformação das abóbadas complexas, o que justifica o termo Parlergotik.

Flandres, Brabante e Países Baixos

Na Idade Média, a atual Bélgica e os Países Baixos faziam parte da esfera de influência artística da diocese de Colónia e da França. É, no entanto, na arquitetura civil e pública que o gótico desta região atingiu o seu apogeu. A partir do final do século XIII, a área da Flandres e do Brabante esteve no centro de uma riquíssima rede comercial e têxtil. A opulência da burguesia favoreceu o desenvolvimento da vida cívica, que se manifestou em edifícios grandiosos decorados em cantaria: as hallen (grandes mercados e armazéns de mercadorias) e os palácios municipais (câmaras). Para simbolizar o poder secular frente ao religioso, estes edifícios civis foram dotados de altivos campanários ('beffrois'), assemelhando-se em escala às grandes catedrais.

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Gótico do Sul Europeu

Itália

O gótico chegou tarde a Itália e não encontrou condições para se enraizar profundamente, devido à tradição clássica fortemente presente na península. O estilo gótico italiano foi profundamente influenciado pela geopolítica das suas cidades-estado e pelos materiais disponíveis nas diferentes regiões: o mármore estava disponível em grandes quantidades na Toscana, sendo generosamente utilizado no revestimento das superfícies, enquanto a sua escassez na Lombardia induziu o uso sistemático e autónomo do tijolo. Muitos dos elementos arquitetónicos transalpinos foram rejeitados ou profundamente subvertidos, refletindo opções arquitetónicas associadas às tradições urbanas italianas e ao distanciamento em relação ao modelo da catedral da Île-de-France.

Espanha

A intensa atividade arquitetónica em Espanha manteve-se firme até ao final da Idade Média. De entre as catedrais planeadas no início do século XV, a mais majestosa é a catedral de Sevilha (1401), desenhada com uma planta de cinco naves e capelas embutidas diretamente nos contrafortes exteriores. As abóbadas elevam-se até ao nível das frestas superiores em estilo flamejante, onde se situa a secção do clerestório. Em 1469, o país alcançou a unificação política em resultado do casamento entre Fernando de Aragão e Isabel de Castela; em 1492, seguiu-se a anexação do Reino de Granada, até então o último domínio muçulmano, e em 1512 foi conquistado o Reino de Navarra. No século XVI, a Espanha converter-se-ia na potência hegemónica da Europa, consolidada com a coroação de Carlos V (Carlos I de Espanha) como imperador do Sacro Império. Nos finais do século dezoito difundiu-se, assim, um novo estilo denominado isabelino, no qual se fundem as características do gótico flamejante com elementos de filiação mudéjar e os primeiros influxos renascentistas.

Reino de Castela

Na Península Ibérica, os elementos do gótico francês foram introduzidos pelos cistercienses na segunda metade do século XII. Os primeiros exemplos foram os mosteiros de Veruela, Poblet e Santas Creus. Muito cedo se aplicaram as abóbadas de ogivas no interior de edifícios de matriz ainda plenamente românica, como no Pórtico da Glória da Catedral de Santiago de Compostela ou na catedral de Zamora, esta que viria a influenciar também a Colegiata de Santa María la Mayor, em Toro. O estilo gótico na Península Ibérica apresenta variações surpreendentemente diferentes das do resto da Europa, fruto de um período de transição em que o final do românico alternava com raras expressões do gótico puro.

Catalunha, Baleares e Valência

O desenvolvimento arquitetónico nesta região é indissociável da sua realidade política, social e territorial. A monarquia, consolidada a partir da época de Raimundo Berengário IV e da união com o Reino de Aragão, determinou as diretrizes da arquitetura eclesiástica e aliou-se à burguesia urbana e à aristocracia mercantil, impulsionando o crescimento institucional e o urbanismo das cidades. Durante a primeira metade do século XIII, verificou-se uma estagnação das formas românicas e a manutenção de contactos com a Itália e o Languedoc (Tolosa), especialmente nos centros secundários da Catalunya Vella. Contudo, sob o reinado de Jaime I (1213-1276), que redefiniu a política catalã com a conquista de Maiorca e Valência, o panorama alterou-se profundamente:

Portugal

Uma arquitetura religiosa verdadeiramente portuguesa surgiu apenas no período românico, sobretudo na região noroeste, já liberta do domínio muçulmano. Inicialmente inspirada no estilo cluniacense primitivo, com nave única e teto de madeira, desenvolveu-se posteriormente em grandes edifícios de três naves com tetos abobadados (como as catedrais de Braga, Porto, Coimbra, Lamego, Lisboa e Évora, do século XII), decorados com motivos inspirados na arquitetura bizantina e visigótica. A arquitetura gótica foi introduzida em Portugal no final do século XII, afirmando-se progressivamente ao longo dos séculos seguintes no contexto da consolidação do reino e da expansão da Igreja Católica, servindo também como uma necessidade de afirmação da independência do território. As primeiras manifestações do estilo no país ficaram muito aquém da escala das grandes catedrais europeias contemporâneas: tratava-se de uma sociedade sem os recursos necessários para erguer torres e remates verticais tão ambiciosos, optando-se antes por volumes mais contidos e discretos. Entre os historiadores há também discordância quanto à própria natureza desta transição estilística: o investigador Pedro Dias defende que o gótico deve ser tratado como uma linguagem autónoma face ao românico, e não como um simples desdobramento deste, posição contestada por quem sublinha que as duas correntes coexistiram e se influenciaram mutuamente ao longo do período de transição, havendo por isso quem prefira falar de continuidade em vez de rutura. Os primeiros a introduzir o estilo foram os monges cistercienses, que adotaram um modelo austero e despojado, assente em ritmos modulares e abóbadas de canhão quebrado, visíveis na edificação da sua Abadia de Alcobaça (iniciada em 1178, fundada em 1152 por D. Afonso Henriques e habitada a partir de 1222). Fundada para a Ordem de Cister, constitui a primeira grande edificação inteiramente gótica do país. O claustro da Sé Velha de Coimbra corresponde igualmente a esta primeira fase. Contudo, a transição do românico para o gótico ocorreu lentamente, persistindo numerosas igrejas de caráter românico-gótico durante os séculos XIII e XIV. Com a ascensão das ordens monásticas e cavalheirescas (cluniacenses, cistercienses, templários, hospitalários, cavaleiros de Cristo), floresceram numerosos complexos arquitetónicos com elementos estilísticos de transição, destacando-se o Mosteiro de Alcobaça, o Mosteiro de Almoster perto de Santarém (1289), o Mosteiro de Odivelas (1295-1305) e o Mosteiro de Santa Clara de Vila do Conde perto do Porto (fundado em 1318). Santarém afirmou-se como o principal centro desta arquitetura de transição, reunindo, além do já referido Mosteiro de Almoster, templos como a igreja de Santa Cruz e a igreja de Santa Clara. Na região de Coimbra destaca-se a igreja do Convento de Santa Clara, obra atribuída ao arquiteto Domingos Domingues, que se distingue de construções contemporâneas por possuir cobertura inteiramente abobadada, ao contrário do habitual teto de madeira das igrejas mendicantes. Mais a norte, no concelho do Porto, o mesmo período de transição está patente na igreja do Mosteiro de Leça do Balio e, já no interior, na igreja do Mosteiro de Cete, em Paredes, ainda marcada por uma espacialidade e luminosidade essencialmente românicas apesar de já apresentar arcos apontados e capitéis de motivos vegetalistas. Merecem também menção, deste mesmo período, a cabeceira da igreja de Vera Cruz de Marmelar, no Alentejo, e a cabeceira da Sé de Lisboa. A adoção das novas soluções estruturais do gótico foi impulsionada por influências provenientes da costa ocidental francesa. Relações comerciais e dinásticas — como as estabelecidas com a Casa de Évreux — trouxeram modelos arquitetónicos que ligavam Portugal, as Astúrias e outras regiões peninsulares ao sudoeste de França. Os materiais empregados nesta fase eram os disponíveis regionalmente: o granito nortenho, o calcário macio na região de Coimbra e a pedra-lioz em Lisboa. Apenas no século XIV o gótico se afirmou plenamente, sobretudo com o estabelecimento das ordens mendicantes — franciscanos, agostinhos, carmelitas e dominicanos —, cujos conventos viabilizaram a ocupação e assistência espiritual das populações nos centros urbanos afetados pelas guerras. O gótico português desenvolveu-se de forma relativamente sóbria e adaptada às condições locais, sendo frequentemente aplicado em igrejas de menor dimensão do que as grandes catedrais europeias. As igrejas mendicantes portuguesas caracterizavam-se geralmente pela existência de três naves cobertas em madeira, sem abóbadas na nave principal, clerestórios sobre as arcadas centrais e transeptos salientes com três a cinco capelas de cabeceira abobadadas em pedra. Entre os principais exemplos encontram-se os conventos de São Francisco de Santarém, São Francisco do Porto, São Francisco de Estremoz, São Domingos de Évora e o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha em Coimbra.

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Materiais

A disponibilidade local de materiais afetou a construção e o estilo. Na França, o calcário estava prontamente disponível em vários graus, sendo o calcário branco extremamente fino de Caen o preferido para a decoração escultórica. A Inglaterra tinha o calcário grosso e o arenito vermelho, além do mármore verde escuro Purbeck, que era frequentemente usado para funções arquitetônicas características. No norte da Alemanha, na Holanda, no norte da Polônia, na Dinamarca e nos Países Bálticos, pedras de construção local não estavam disponíveis, mas havia uma forte tradição de construção em tijolo. O estilo resultante, Brick Gothic (Gótico de tijolos) — também chamado de Gotyk ceglany na Polônia e Backsteingotik na Alemanha e Escandinávia — também estão associados à Liga Hanseática. Na Itália, a pedra era usada para fortificações, então o tijolo era o preferido para outros edifícios. Devido aos extensos e variados depósitos de mármore, muitas construções foram revestidas em mármore ou foram deixadas com fachada não decorada para que isso pudesse ser alcançado em uma data posterior. A disponibilidade de madeira também influenciou o estilo da arquitetura, prevalecendo os edifícios de madeira na Escandinávia. Disponibilidade de métodos de construção do telhado emadeirado refletiram em toda a Europa. Pensa-se que os magníficos telhados de vigas de madeira da Inglaterra foram concebidos como uma resposta direta à falta de madeira temperada longa no final do período medieval, quando as florestas foram dizimadas não apenas pela construção de vastos telhados, mas também pela construção de navios.

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O fim do predomínio do gótico

A partir de meados do século XV, o estilo gótico perdeu gradualmente sua predominância na Europa. Ele nunca havia sido popular na Itália e, em meados do século XV, os italianos, recorrendo às ruínas da Roma antiga, retornaram aos modelos clássicos. A cúpula da Catedral de Florença (1420–1436), de Filippo Brunelleschi, inspirada no Panteão de Roma, foi um dos primeiros marcos do Renascimento, mas também empregou tecnologia gótica; a camada externa da cúpula era sustentada por uma estrutura de vinte e quatro nervuras. No século XVI, à medida que a arquitetura renascentista vinda da Itália começava a aparecer na França e em outros países da Europa, o estilo gótico passou a ser descrito como ultrapassado, feio e até bárbaro, por autores como já mencionado Giorgio Vasari. No século XVII, Molière também ridicularizou o estilo gótico no poema de 1669 La Gloire: “[...] o gosto insípido da ornamentação gótica, essas monstruosidades odiosas de uma época ignorante, produzidas pelos torrentes da barbárie [...]” Os estilos dominantes na Europa passaram a ser, sucessivamente, a arquitetura renascentista italiana, a arquitetura barroca e o grande classicismo do estilo Luís XIV.

Gótico na América Colonial

Há arquitetura gótica tardia em algumas das mais antigas igrejas cristãs construídas nas Américas. Alguns exemplos que podem ser mencionados incluem a Catedral da Basílica de Santa María la Menor, em Santo Domingo, construída entre 1514 e 1541; o edifício é principalmente gótico e é a catedral mais antiga das Américas. A Catedral Metropolitana da Cidade do México começou a ser construída em 1573, e retém elementos góticos como as duas abóbadas da sacristia e as abóbadas que cobrem a sala capitular. Outro exemplo é o convento franciscano de San Gabriel em Cholula, região metropolitana de Puebla, México, onde o exterior e o interior são parcialmente góticos, embora a torre seja barroca, e foi construída entre as décadas de 1540 e 1550. No campo da arquitetura gótica civil, um exemplo notável é o Palácio de Cortés em Cuernavaca, México, construído entre 1523-1528, o qual é a mais antiga estrutura civil da era colonial conservada nas Américas continentais. O palácio tem um estilo que combina gótico e mudéjar.

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