Arquitetura do Renascimento
A arquitetura do Renascimento ou arquitetura Renascentista é a fase da arquitetura italiana que se desenvolveu de 1420 até meados do século XVI. A arquitetura deste período manifestou-se como uma atitude de contestação face à tradicional influência religiosa e ao obscurantismo medieval, estabelecendo uma rutura deliberada com a estética da arquitetura gótica e da arquitetura românica. À civilização cristã medieval contrapô-se uma ideologia antropocêntrica e humanista. Este ideal procurava fazer renascer e desenvolver de forma crítica as bases da cultura espiritual, material e arqueológica da antiguidade greco-latina, cujo élan foi impulsionado pela herança cultural trazida por eruditos após a queda de Constantinopla em 1453.
O estilo gótico foi criado por Suger, abade da St-Denis, conselheiro de dois reis da França: o Renascimento, para os mercadores de Florença, banqueiros dos reis da Europa No início do século XV, a Itália era dividida em cinco estados principais (Reino de Nápoles, Estado Pontifício, República de Florença, República de Veneza e Ducado de Milão), cercados por numerosos ducados e repúblicas menores (como o Ducado de Urbino, o Ducado de Mântua e a República de Siena). Florença, no século XV, consolidou o seu poder económico através de um dinamismo baseado numa inovadora organização produtiva industrial, mercantil e bancária. Com a afirmação definitiva da burguesia da cidade, passou-se de uma espécie de empresa familiar a uma empresa composta por numerosos funcionários, balconistas, correspondentes estrangeiros e viajantes. A família Medici, em particular, era proprietária de uma empresa com agentes em vários centros mercantis da Europa e tinha ligado o seu nome aos mais prestigiados cargos públicos da cidade: foi através do controlo das eleições, do sistema tributário e da criação de novas magistraturas atribuídas a homens de grande confiança que, nas primeiras décadas do século XV, Cosimo, o Velho lançou as bases sólidas do poder da Família Medici, tornando-se de facto senhor de Florença.
A história da arquitetura do Renascimento, como um todo, costuma ser dividida em três grandes períodos: Nos países "ao norte dos Alpes", períodos semelhantes na arquitetura foram desenvolvidos mais tarde, não antes do século XVI, e as inovações renascentistas foram enxertadas nas tradições românico-góticas já existentes. Daí o aparecimento de formas arquitetónicas mistas renascentistas-góticas e renascentistas-maneiristas.
O termo "Renascimento" já era utilizado pelos tratadistas da época para destacar a redescoberta da arquitetura romana, da qual vários vestígios mantiveram-se intactos no século XV. Os principais indicadores deste posicionamento foram a nova sensibilidade para com as formas do passado, não só da arquitetura romana, mas também da arquitetura paleocristã e do românico florentino, o renascimento das ordens clássicas, o uso de formas geométricas elementares para a definição de plantas, a busca por articulações ortogonais e simétricas, bem como o uso de proporção harmónica nas partes individuais do edifício. Em particular, uma característica comum entre a arquitetura renascentista e romana é o efeito produzido pela adaptação de massas simples baseadas em sistemas modulares de proporção, cujo módulo é definido pelo semidiâmetro das colunas. Além disso, o historiador da arte Bruno Zevi definiu o Renascimento como "uma reflexão matemática realizada sobre a métrica da arquitetura românica e arquitetura gótica", destacando a pesquisa, por parte dos arquitetos dos séculos XV e XVI, de uma métrica espacial baseada em relações matemáticas elementares. Ou seja, a grande conquista do Renascimento, em comparação com o passado, foi ter criado nos espaços interiores o que os gregos antigos criaram para o exterior dos seus templos, dando vida a ambientes regulados por leis que eram imediatamente percetíveis e facilmente mensuráveis pelo observador. O estudo da perspetiva de Filippo Brunelleschi certamente também teve um papel decisivo nisso; Brunelleschi introduziu uma visão interna totalizante, elevando a perspetiva a uma estrutura espacial global. A partir de Brunelleschi, “o verdadeiro espaço da arquitetura, aquele em que se penetra e se vive, é intencionalmente desenhado com vista a um resultado prospetivo”.
O palácio
A ascensão da burguesia florentina favoreceu mudanças importantes no tecido urbano da cidade: as numerosas casas-torre que surgiram no tecido urbano foram substituídas pelos palácios dos comerciantes, aos quais foi confiada a tarefa de conciliar as necessidades de vida dos habitantes com a renovação da face urbana das cidades, aproximando-as, ao mesmo tempo, dos protótipos da antiguidade. Porém, ao contrário de alguns templos, no século XV nenhum palácio antigo se manteve intacto, tanto que o conhecimento das plantas era contrastado pela falta de modelos relativos à articulação das fachadas. Nem mesmo Vitruvius e os demais autores da época romana deram indicações precisas, concentrando a sua atenção sobretudo na disposição em planta e não na elevação.
A vila
Nas residências de campo, a centralização retorna, ao mesmo tempo, como um princípio fundamental. Leon Battista Alberti, no tratado De re aedificatoria, dedica um volume às "casas senhoriais", que se baseiam no modelo da villa de Plínio, o Jovem: a disposição das divisões principais, onde o vestíbulo, a sala de estar e a zona de jantar abrem-se para um espaço central (átrio), e a sala de jantar de inverno recupera o calor ao mesmo tempo que tem vista para o jardim. Atribuível a esta tipologia está a villa Medicea di Poggio a Caiano (por volta de 1470). Construída segundo o projeto de Giuliano da Sangallo no final do século XV, constitui um dos principais exemplares do início do Renascimento. O edifício distribui-se por dois pisos sobre um amplo terraço, com uma lógia encimada por um frontão clássico, que antecipa as soluções palladianas do século seguinte; os espaços internos distribuem-se em cruz em torno do hall central, de planta retangular e fechado por abóbada de berço, com quatro apartamentos de três ou quatro quartos que se desenvolvem entre os cantos do edifício e os espaços principais.
A biblioteca
O Renascimento foi a época decisiva para o nascimento das bibliotecas no sentido moderno do termo. A difusão dos estudos do humanismo e a invenção da serigrafia favoreceram o nascimento de diversas bibliotecas cívicas e o desenvolvimento de bibliotecas eclesiásticas: destacam-se a Viscontea-Sforzesca preservada no castelo de Pavia, a Malatestiana de Cesena, a Estense em Ferrara (posteriormente transferida para Modena), a Laurenziana de Florença, a Marciana de Veneza, bem como a Biblioteca Apostólica Vaticana. A solução de três naves com abóbada, adotada para a Biblioteca Malatestiana de Cesena e para a do São Marcos em Florença, tornou-se um modelo para a posterior construção de renomadas bibliotecas monásticas italianas: por exemplo, as do convento de Santa Maria delle Grazie em Milão (1469), da São Domingo em Perugia (1474) e do Mosteiro beneditino de São João em Parma (1523). O sucesso desta forma continuou até ao momento em que a evolução dos cânones renascentistas impôs, nas primeiras décadas do século XVI, uma solução capaz de favorecer a unidade do espaço e a difusão uniforme da iluminação, com a consequente renúncia à divisão em naves, como é o caso da Biblioteca Laurentiana, construída por Miguel Ângelo.
O teatro
O humanismo, com a difusão dos textos clássicos latinos e a fundação das academias, determinou, no final do século XV, o renascimento do teatro. Inicialmente, as apresentações aconteciam em locais privados como jardins, pátios de conventos e salões de palácios decorados; a cena era temporária e caracterizada principalmente por cortinas que se abriam e fechavam durante as entradas e saídas dos atores. Ao longo do século seguinte, começaram a ser construídas instalações estáveis para conter os cenários, como é o caso da Lógia do Falconeto em Pádua. No final do século XVI, no Teatro Olímpico de Andrea Palladio, a maquete da antiga cavea fundiu-se com a cenografia renascentista, mas a sua influência limitou-se a alguns outros edifícios, como o Teatro all'Antica de Sabbioneta, de Vincenzo Scamozzi, ou o posterior Teatro Farnese de Parma.
A igreja
No início do Renascimento, a predileção pelas formas geométricas elementares e pela harmonia entre as partes levou ao conceito de igrejas de planta central, em que se antepunha o ideal estético e simbólico à funcionalidade. A partir de 1420, Filippo Brunelleschi construiu a cúpula da Catedral florentina, o maior organismo em planta central desde a época do Panteão; vários edifícios centralizados remontam ao mesmo arquiteto, como a Velha Sacristia, a capela Pazzi e a Rotunda de Santa Maria dos Anjos. Na esteira de Brunelleschi, inúmeras igrejas de cruz grega foram erguidas, como a basílica de Santa Maria delle Carceri em Prato, de Giuliano da Sangallo (1486), bem como alguns desenhos de Leonardo da Vinci, que tiveram considerável influência no pensamento arquitetónico do século XVI e, em particular, no de Bramante.
A cidade
No Renascimento, o planeamento urbano assumiu um caráter científico-teórico, procurando unir as necessidades humanas, as necessidades defensivas, a estética, o simbolismo e o nobre centralismo. Na base das experiências de planeamento urbano do século XV está a metodologia estabelecida por Leon Battista Alberti no tratado De re aedificatoria. Para Alberti, a cidade constituía um objeto complexo, cuja construção não podia ser equiparada à de edifícios individuais, uma vez que era profundamente condicionada pelas características e limitações do meio envolvente. Assim, as muralhas urbanas deveriam adaptar-se à diversidade dos lugares, enquanto as ruas principais, largas e retilíneas nas grandes cidades, poderiam assumir traçados curvilíneos nos centros urbanos de menor dimensão. Em contraste, os espaços públicos eram concebidas por Alberti como obras arquitetónicas autónomas, dotadas de uma aparência unitária, com praças delimitadas por galerias e pórticos. No fundo, Alberti conseguiu uma mediação entre as cidades medievais e renascentistas, ou seja, integrando os novos organismos nos núcleos urbanos preexistentes; uma influência encontrada em cidades pequenas, como Pienza e Urbino, mas menos nas grandes cidades, como Roma ou Milão, onde as iniciativas renascentistas quebraram a coerência dos antigos núcleos, mas abrindo caminho para transformações importantes.
No Renascimento, com a redescoberta do único tratado de arquitetura que permaneceu intacto desde a antiguidade, o De architectura de Marcus Vitruvius Pollio, difundiu-se amplamente a atitude de expressar de forma mais completa as teorias e conhecimento prático da arte da construção. Diretamente ligado ao modelo vitruviano está o De re aedificatoria, tratado que Leon Battista Alberti publicou em latim em meados do século XV. A obra tomou a divisão em dez livros do texto clássico, bem como a maior parte dos temas, porém abordando-os de forma mais racional; ao incorporar plenamente a teoria das ordens arquitetónicas, Alberti submeteu as afirmações de Vitrúvio a uma comparação com os edifícios da antiguidade ainda sobreviventes, analisando os princípios que deram origem a certos preceitos. Depois de Alberti, Filarete compôs um tratado manuscrito em vinte e cinco volumes, no qual as concepções arquitetónicas não foram expostas de forma sistemática, mas em tom episódico e narrativo, a partir da descrição da fundação da cidade de Sforzinda, a primeira cidade ideal totalmente teorizada do Renascimento. Outras ideias originais encontram-se no tratado de Francesco di Giorgio Martini, no qual têm grande importância as pesquisas relativas aos princípios inovadores da arte da fortificação, denominada fortificação à moderna.
Filippo Brunelleschi
O ponto de viragem, que marca a transição da arquitetura gótica para a arquitetura renascentista, coincide com a construção da cúpula do Duomo de Florença, inicialmente executada em estilo tardo-românico. No entanto, a obra não pode ser considerada verdadeiramente renascentista, uma vez que na base da sua concepção estão muitos daqueles princípios de construção herdados do século anterior. A cúpula, de planta octogonal, deveria ter completado a catedral florentina, cuja reconstrução havia começado em 1296 sob Arnolfo di Cambio; no entanto, a impossibilidade de dispor de cimbres robustos e vigas de madeira capazes de suportar o enorme peso da abóbada durante a fase de construção, impediu durante muito tempo a conclusão da obra. Filippo Brunelleschi, que se formou como ourives e trabalhou como escultor, começou a se interessar pela questão desde 1404, quando foi chamado pela primeira vez a refletir sobre o canteiro de obras da catedral, mas foi só a partir de 1417 que dedicou grande parte dos seus estudos à resolução do problema.
Leon Battista Alberti
Alberti, quase trinta anos mais novo que Filippo Brunelleschi, nasceu em Génova numa família florentina no exílio; humanista e profundo conhecedor do latim, foi para Florença, onde conheceu os mais importantes artistas do início do Renascimento, como o próprio Brunelleschi, Donatello e Masaccio, o que lhe conferiu conhecimento para poder escrever um tratado sobre pintura. Estudou Vitruvius e as antigas ruínas romanas; este conhecimento levou-o a iniciar, por volta de 1443, o seu próprio tratado de arquitectura: o De re aedificatoria. Não é de estranhar, portanto, que a elevação do palácio Rucellai surja da observação dos edifícios romanos, com três ordens de semipilares encostadas à parede que propõem uma sucessão semelhante à do Coliseu, mas de acordo com um uso não clássico: o rés-do-chão tem pilastras tuscanas, o primeiro andar tem pilastras coríntias ao invés da ordem jónica, enquanto os do andar superior ainda são do tipo coríntio, mais simples e corretos.
A difusão do Renascimento em Urbino, Ferrara, Nápoles, Veneza, Milão
Se a linha florentina foi um elemento fulcral da arquitetura italiana, Urbino ainda representava um milagre de elevada civilidade arquitetónica; milagre resultante da intuição de Federico da Montefeltro, que assumiu o poder em 1444, após a conspiração que causou a morte do seu meio-irmão. Em Urbino a família Montefeltro possuía um palácio no topo da colina e um castelo mais a norte, à beira dum precipício. Por volta de 1455 Federico adquiriu o terreno entre as duas propriedades e iniciou a construção de um edifício de três andares, com configuração arquitetónica simples (o palazzetto della Jole). Alguns anos depois confiou a Luciano Laurana o projecto de expansão, com a criação de um organismo complexo, que se estende para a cidade e, no lado oposto, dotado de uma excepcional fachada aberta para o campo, com uma série de lógias sobrepostas flanqueadas por duas colunas cilíndricas.
Bramante em Roma
Se o primeiro Renascimento era fundamentalmente toscano, o Renascimento pleno tornou-se essencialmente romano graças ao trabalho de Bramante e Raphael, que foram os maiores expoentes do Classicismo. Bramante, o mais velho, chegou a Roma vindo de Milão em 1499, quando tinha mais de cinquenta anos. Longe dos gostos da corte lombarda e influenciado pelos antigos vestígios da cidade, o seu estilo assumiu um carácter mais austero, evidente já nas suas primeiras obras: o claustro de Santa Maria della Pace e sobretudo a Igreja de São Pedro em Montorio. O claustro, embora decorra do seu projeto para o pátio de Sant'Ambrogio de Milão, está estruturado em dois níveis: no térreo apresenta uma ordem de pilastras no estilo jónico que suporta um entablamento com friso contínuo, com uma concatenação de arcos redondos fixados em aletas, que remetem ao teatro de Marcelo. No segundo nível, porém, existem pilares tratados como pilastras em pseudo ordem coríntia, com a inserção de colunas livres, da mesma ordem, que dobram em altura os arcos subjacentes.
Rafael
Raffaello Sanzio nasceu em Urbino em 1483 e recebeu formação artística na oficina de Perugino. Pintor, ainda antes de ser arquitecto, nos últimos anos da sua curta vida dedicou-se também ao desenho de alguns edifícios, de uma capela e de uma villa, substituindo Bramante no estaleiro da Basílica no Vaticano. A capela Chigi na Santa Maria del Popolo é uma pequena variação do núcleo central de São Pedro e também se refere à Sant' Eligio degli Orefici, embora com uma riqueza muito maior. Do lado de fora a cúpula lembra a Igreja de São Bernardino de Francesco di Giorgio Martini: um cilindro coberto por um cone, de linhas limpas, no qual janelas simples ganham vida.
O Maneirismo é geralmente considerado pelos historiadores como a terceira fase do renascentismo, precedido pelo Humanismo florentino e pelo Classicismo Romano; porém, se as duas primeiras fases são distintas entre si, o mesmo não se pode dizer entre o Classicismo e o Maneirismo, que coexistiram desde o início do século XVI. Basta dizer que quando os maiores expoentes do Classicismo, Raffaello e Bramante, trabalharam na igreja de Sant'Eligio degli Orefici, em 1509, um dos principais arquitetos do Maneirismo, Baldassarre Peruzzi, construiu a villa Farnesina. O “modo”, que já na literatura artística do quattrocento indicava o estilo de cada artista individual, tornou-se no século XVI um termo para designar a relação entre norma e exceção, ou seja, a busca contínua de variações no tema clássico. A rejeição do equilíbrio e da harmonia clássica, através do contraste entre norma e exceção, natureza e artifício, símbolo e subsímbolo, representam de facto as principais características do Maneirismo. No Maneirismo as leis elementares da construção são subvertidas - a carga parece não ter peso, enquanto o suporte é privado da sua função de suportar; a arquitetura maneirista subverte a lógica espacial: a fuga da perspectiva não termina num ponto focal — como ocorreria mais tarde no dinamismo barroco — mas 'termina no nada', criando organismos verticais de equilíbrio 'oscilante'. Do ponto de vista decorativo, a junção entre Classicismo e Maneirismo é representada pelo fenómeno do grotesco, pinturas centradas em representações fantásticas da época romana, que foram redescobertas durante algumas escavações arqueológicas na Domus Aurea, tornando-se fonte de inspiração para o aparato ornamental de numerosos edifícios, influenciando inclusive a arquitetura (palazzo Zuccari em Roma, parco dei Mostri em Bomarzo entre outros).
Giulio Romano
Com a morte de Raphael ficou claro que o seu estilo estava prestes a entrar numa nova fase, caracterizada por maior riqueza e liberdade de expressão, destacada no Palazzo Branconio dell'Aquila e na capela Chigi. O seu aluno Giulio Romano, o primeiro grande artista nascido em Roma muitos séculos depois, teve a tarefa de completar os afrescos do Vaticano e as pinturas da villa Madama. Em 1524, com cerca de 25 anos, deixou Roma para se colocar a serviço dos Gonzaga, senhores de Mântua, onde cuidou da construção do palazzo Te. O palácio foi concebido como uma villa suburbana: um edifício de planta quadrada, vazio no centro, com um grande jardim a nascente. A utilização das muralhas romanas, o uso da serliana, as aberturas encimadas por silhares em leque e até a disposição planimétrica são todos elementos retirados do código clássico, mas o carácter rústico das fachadas, a diferenciação dos alçados e a notável profundidade dos pórticos articulados em colunas agregados em grupos tetrastilos, enquadram-se na esfera das exceções e projetam o Palazzo Te no contexto do maneirismo.
Baldassarre Peruzzi
Baldassarre Peruzzi, nascido em 1481, formou-se em Siena como pintor e mudou-se para Roma no início do século XVI. Embora os seus desenhos estejam preservados em vários museus da Itália, a sua figura permanece um tanto misteriosa e ele costuma ser lembrado como assistente de Bramante. Entre 1509 e 1511, na margem direita do Tibre, construiu a villa Farnesina para o banqueiro Agostino Chigi. Embora a norma prevaleça sobre a exceção, a villa pode ser considerada um ponto de partida da arquitetura maneirista. O edifício tem planta em “U”, com duas alas que encerram uma parte central na qual, no piso inferior, existe um pórtico constituído por cinco arcos de volta perfeita. A articulação da fachada, adornada com pilastras e cantarias angulares, ainda é clássica, mas o friso ricamente decorado, que se estende até ao topo do edifício, já evidencia uma mudança de gostos.
Miguel Ângelo
O grande acontecimento da arquitetura do século XVI é representado por Michelangelo Buonarroti. Nascido em 1475, ainda adolescente foi aprendiz de um pintor e, ao ingressar no círculo de Lorenzo de' Medici, aprendeu escultura com Bertoldo. A sua primeira intervenção no domínio da arquitetura remonta a 1518-1520, com o fechamento das arcadas da lógia do Palazzo Medici, em Florença, através da inserção das janelas ajoelhadas; em Florença, mas poucos anos antes ele também se interessou pela fachada da basílica de São Lourenço; o projecto São Lourenço, traduzido exclusivamente numa maquete de madeira, já enunciava a visão de uma arquitectura pensada em termos plásticos, com uma fachada concebida como "contentor" para um grande número de esculturas.
Vignola
O arquiteto mais sensível de Roma na segunda metade do século XVI foi Jacopo Barozzi da Vignola. Emiliano, formado como pintor, reforçou a sua autoridade no campo da arquitetura com a publicação de um tratado que teve sucesso imediato. Iniciou a sua atividade como arquiteto em Bolonha, onde se situa o Palazzo Bocchi, no qual confluem o Palazzo Te e a gramática de Antonio da Sangallo, o jovem. Em Roma, trabalhou no estaleiro da Villa Giulia, mas a presença de Vasari e de Ammannati limitou o trabalho do emiliano: caraterística do edifício é o contraste entre o exterior, com as suas formas regulares, e o interior, aberto para o jardim, com o seu elegante hemiciclo, lógia e ninfeu.
Sanmicheli e Sansovino
Michele Sanmicheli e Jacopo Sansovino exerceram grande influência no Vêneto e no norte da Itália. Sanmicheli, de Verona, provavelmente esteve em Roma como assistente de Antonio da Sangallo, o Jovem, depois mudou-se para Orvieto e trabalhou na catedral de Montefiascone, para retornar à sua cidade natal logo após 1527 e desenvolver uma longa carreira como arquiteto militar da República de Veneza. Neste contexto construiu, por exemplo, as portas monumentais da cidade de Verona, incluindo a Porta Nuova e a Porta Palio, ambas caracterizadas por uma cobertura em bossagem impenetrável, com chaves pesadas sobre as pequenas aberturas. As suas contribuições no campo militar marcaram o seu estilo arquitetónico, como é o caso dos projetos para os três palácios de Verona, nos quais Sanmicheli parece expressar a força da arquitetura dos bastões e das fortalezas. O Palazzo Pompei, atribuível à década de trinta, é uma referência clara ao Palazzo Caprini, mas com algumas exceções que visam acentuar, no patamar inferior, os cheios sobre os vazios: o térreo tem aberturas menores em relação ao modelo de Bramante, enquanto no primeiro andar Sanmicheli substituiu as janelas por uma lógia de grande força expressiva.
Andrea Palladio
Andrea Palladio é provavelmente o arquiteto mais elegante do final do renascimento. Nascido em Pádua em 1508, passou toda a sua vida adulta em Vicenza e nos territórios circundantes, construindo um grande número de vilas e palácios num estilo altamente pessoal, baseado na utilização de um rico repertório clássico que ofuscou a autoridade romana no campo arquitetónico. Publicou o tratado Os quatro livros de arquitetura (1570), no qual, ao lado de ilustrações que reproduzem as ordens clássicas e edifícios antigos, incluiu boa parte das suas próprias obras, que adquiriram elevada notoriedade, especialmente na Inglaterra. Ele era essencialmente um classicista Bramantesco; visitou Roma diversas vezes estudando arquitetura antiga, mas também foi influenciado por Michelangelo Buonarroti.
A difusão desta arquitetura não era uma mera adoção de cânones arquitetónicos, mas uma renovatio que se fundava no conhecimento direto das ruínas gregas e bizantinas que ainda marcavam profundamente as terras do antigo Império Romano do Oriente, o resultado de um novo élan de valorização do saber. Segundo Cesare Vasoli, a arquitetura renascentista italiana difundiu a ideia de uma continuidade ininterrupta com o mundo clássico, utilizando cidades como Aquileia (chamada de Secunda Roma) e Ravena como modelos de autoridade. Esta visão serviu de contraponto ao contexto continental onde, no resto da Europa, o Renascimento manifestou-se predominantemente na sua variante maneirista. A invenção da tipografia por Gutenberg (c. 1440-1450) foi o motor decisivo para a difusão das normas clássicas. Esta circulação de tratados promoveu o desprezo pelo estilo gótico, então rotulado como "bárbaro", em favor de uma "reinvenção das formas" assente em temas clássicos interpretados sob uma perspetiva humanista e naturalista.
Espanha
Em Espanha, a arquitetura renascentista foi introduzida graças às trocas com a Itália meridional, onde os espanhóis se estabeleceram. Um dos primeiros exemplos encontra-se no Hospital Real de Santiago de Compostela, iniciado em 1501 por Enrique Egas, que pela sua planta cruciforme se refere ao Ospedale Maggiore de Filarete.. A fachada do Alcáçar de Toledo (1537-1573), desenhada por Alonso de Covarrubias, apresenta influências italianas limitadas ao aparato decorativo. Por outro ladoo, o pátio original, reconstruído após a destruição infligida pela guerra civil espanhola, apresentava uma articulação a dois níveis semelhantes ao do Palazzo della Cancelleria..
Portugal
A ascenção ao trono do Mestre de Avis marca o início de uma nova época em Portugal. Intensificaram-se os contactos com a Europa, o que proporcionou a Portugal receber as maiores influências dos diversos centros renascentistas, como era o caso da Itália e da Flandres, que viriam a contribuir para a consolidação dos ideais renascentistas do país. Para além disso, o contacto com as civilizações de África e do Oriente levou à importação de numerosos objetos de cerâmica, têxteis e mobiliário, de madeiras preciosas, marfim ou seda que, por sua vez, levaram ao surgimento de novas formas artísticas resultantes dos intercâmbios culturais entre a Europa, a África e o Oriente, através dos portugueses. Aqui aparece como forma ornamental associada à arquitetura da última fase do gótico.
França
O Renascimento na França começou no final da Guerra dos Cem Anos e da queda de Constantinopla em 1453. Os diferentes estilos surgem mais tarde e são tradicionalmente divididos em quatro partes. A primeira distingue-se pelo estilo Luís XII (cerca de 1495-1530) formando a transição entre o estilo gótico e o Renascimento. Este primeiro estilo, no entanto, enfraqueceu a partir de 1515, especialmente no Vale do Loire, onde a plena aceitação do Renascimento italiano se fez sentir mais rapidamente. Tal como na Itália, destacam-se três fases até ao início do século XVII, um Primeiro e um Segundo Renascimento Francês terminando com o Maneirismo. O fim da Guerra dos Cem Anos marcou o estabelecimento do poder real no Vale do Loire e o início da construção dos primeiros castelos residenciais. Carlos VII e Luís XI ordenaram ou favoreceram a construção dos primeiros castelos do Loire; assim, a partir de 1453, o edifício principal do castelo de Montsoreau foi construído por João II de Chambes. Se o Italianismo existe há muito tempo na França com Petrarca e na literatura, Jean Fouquet na pintura ou Laurana na arquitetura, em Marselha são sobretudo as guerras italianas de Carlos VIII e Luís XII que colocaram a França frente ao renascimento das artes em voga na Itália. Se a arte gótica não morreu de imediato, com a chegada dos primeiros artistas italianos ao Amboise, em 1495, mostrou, ainda assim, sinais de decadência. Apesar de algumas grandes obras bem sucedidas, na primeira metade de século XVI, o processo de transição do estilo Luís XII impõe pouco a pouco as formas do Primeiro Renascimento. A partir dos anos 1515, as formas da arquitetura gótica foram gradualmente diluídas no decoro italiano.
Europa Central e Oriental
Em comparação com Espanha e França, no resto da Europa a situação parece decididamente mais confusa, também devido à Reforma Protestante, que constituiu um obstáculo aos intercâmbios culturais com a Itália. No entanto, destacam-se os primeiros exemplos da arquitetura italiana: a capela construída na Catedral de Nossa Senhora e Santo Adalberto de Esztergom (1507, destruída) e o Palácio das Facetas em Moscovo. Depois, há uma série de edifícios construídos por arquitetos italianos, ou diretamente influenciados pela arquitetura italiana: a capela da família Fugger (1509-1518) em Augusta, a capela de Sigismondo em Cracóvia de Bartolomeo Berecci (1516-1533), o Stadtresidenz em Landshut (a partir de 1536) e a residência da Rainha Anna em Praga (iniciada em 1533).
Ilhas Britânicas
Tal como outras regiões da Europa continental, no século XVI a Inglaterra também estava afastada da Itália, mas mesmo em Inglaterra existiu pelo menos um exemplo antigo ao estilo italiano: o túmulo de Henrique VII, feito por Pietro Torrigiano. A construção do túmulo decorreu entre 1512 e 1518 no interior da Capela gótica especialmente construída no terreno da Abadia de Westminster, originando um evidente contraste estilístico. Tal como noutros lugares, a influência italiana em Inglaterra limitou-se ao aparato decorativo durante muito tempo. O palácio real de Nonsuch (destruído) representou talvez o primeiro edifício do Renascimento inglês: apesar das formas distantes do gosto italiano, a rica decoração antiga deve certamente ter representado um modelo para outros edifícios subsequentes, como Hampton Court, em que se verifica uma tentativa emblemática de acrescentar um tecto em caixotões. Mesmo na última metade do século XVI, a Inglaterra mostrou-se incapaz de incorporar plenamente o estilo renascentista, como evidenciado por uma série de grandes casas de campo (Longleat House, o Wollaton Hall e o Hardwick Hall) muito distante do equilíbrio e das proporções dos edifícios italianos contemporâneos.
Rússia
Grão-Príncipe Ivan III convidou vários arquitetos italianos e assim introduziu o Renascimento na Rússia. O estilo renascentista misturou-se com a tradição local. Em 1475-1479, o arquiteto bolonhês Aristotele Fioravanti supervisionou a construção da Catedral da Dormição, localizada no Kremlin de Moscovo. Fioravanti introduziu o racionalismo renascentista italiano na harmonia estrutural da planta de acordo com regras geométricas, resultando no abandono da igreja com inscrição em cruz que tinha sido o projeto base das igrejas moscovitas e rus por séculos. Esta nova harmonia estrutural está presente na citada Catedral da Dormição. Em 1485, Ivan III encomendou o arquiteto Aloisio da Milano com a construção do Palácio Terem no Kremlin e com a construção de várias torres defensivas para a muralha do Kremlin. Mandou também construir o Palácio Facetado para o Kremlin em 1492, sob a direção dos arquitetos italianos Marco Ruffo e Pietro Antonio Solari. Em 1505-1509, Ivan III. doze igrejas foram construídas por Aleviz Novyi, incluindo a Catedral do Arcanjo.


