Arte abstrata
A arte abstrata ou abstracionismo é geralmente entendido como uma forma de arte que não representa objetos próprios da nossa realidade concreta exterior. Ao invés disso, usa as relações formais entre cores, linhas e superfícies para compor a realidade da obra, de uma maneira "não representacional". Surge a partir das experiências das vanguardas europeias, que recusam a herança renascentista das academias de arte, em outras palavras, a estética greco-romana. A expressão também pode ser usada para se referir especificamente à arte produzida no início do século XX por determinados movimentos e escolas que genericamente encaixam-se na arte moderna.
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O abstracionismo lírico, abstracionismo expressivo ou ainda abstracionismo informal inspirava-se no instinto, no inconsciente e na intuição para construir uma arte imaginária ligada a uma "necessidade interior". Foi influenciado pelo expressionismo, mais propriamente pelo movimento O Cavaleiro Azul. As formas orgânicas e as cores vibrantes são patentes nessa vertente. O artista russo radicado na Alemanha Wassily Kandinsky inaugura o abstracionismo no Ocidente com sua Primeira Aquarela Abstrata, de 1910. Kandinsky advoga o uso de formas abstratas como meio de atingir uma transcendência não através das formas reconhecíveis da realidade observável, como faz a arte tradicional acadêmica, mas através dos elementos puros da arte visual, como as linhas, as cores, as formas geométricas - o círculo, o quadrado, o triângulo - os pontos, etc. O artista faz analogias com a composição musical, que é uma arte abstrata por definição, para atingir a abstração na arte visual. Por isso, seus quadros são os primeiros a possuírem títulos que remetem à música - composição, ritmo, etc.
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O abstracionismo geométrico, ao contrário do abstracionismo lírico, foca na racionalização que depende da análise intelectual e científica. Foi influenciado pelo cubismo e pelo futurismo.
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Arte pré-histórica
Muito da arte das culturas iniciais - sinais e marcas em cerâmica e tecidos, inscrições e pinturas em rochas - usou formas simples, geométricas e lineares que poderiam ter um propósito decorativo ou simbólico. É nesse nível de linguagem visual que a arte abstrata se comunica. Se pode apreciar a beleza da caligrafia chinesa ou da caligrafia islâmica sem ser capaz de lê-la.
Arte oriental
Na pintura chinesa, a abstração pode ser encontrada desde o pintor da dinastia Tang Wang Mo (王墨), que se acredita ter inventado o estilo de pintura da tinta esparramada. Embora nenhuma de suas pinturas tenha sido preservada, seu estilo é claramente visto em algumas pinturas da dinastia Sung. O pintor zen Liang Kai (梁楷, c. 1140–1210) aplicou o estilo à pintura figurativa em sua obra "Imortal em tinta esparramada", na qual a representação acurada é sacrificada para enfatizar a espontaneidade ligada à mente não racional do iluminado. Um pintor da dinastia Sung tardia chamado Yu Jian, adepto do budismo tiantai, criou uma série de paisagens de tinta esparramada que inspirariam muitos pintores zens japoneses. Suas pinturas mostram montanhas com densa névoa nas quais o formato dos objetos é dificilmente visível e extremamente simplificado. Esse tipo de pintura foi continuado por Sesshū Tōyō nos seus últimos anos.
Século XIX
O patrocínio da Igreja Católica diminuiu, e o patrocínio privado passou a sustentar os artistas. Três movimentos artísticos que contribuíram para o desenvolvimento da arte abstrata foram o romantismo, o impressionismo e o expressionismo. A independência artística dos artistas avançou durante o século XIX. Pode ser discernido um "interesse objetivo no que é visto" nas pinturas de John Constable, William Turner, Jean-Baptiste Camille Corot e, a partir deles, nas pinturas dos impressionistas, que continuaram as pinturas en plein air da escola de Barbizon. Os primeiros indícios de uma nova arte foram dadas por James McNeill Whistler, que, em sua pintura "Noturno em preto e dourado - o foguete cadente" (1872), colocou maior ênfase na sensação visual do que na representação de objetos.
Século XX
O pós-impressionismo, como praticado por Paul Gauguin, Georges Seurat, Vincent van Gogh e Paul Cézanne, teve um enorme impacto na arte do século XX e levou ao advento da abstração do século XX. A herança de pintores como Van Gogh, Cézanne, Gauguin e Seurat foi essencial para o desenvolvimento da arte moderna. No começo do século XX, Henri Matisse e vários outros jovens artistas, incluindo os pré-cubistas Georges Braque, André Derain, Raoul Dufy e Maurice de Vlaminck, revolucionaram o mundo artístico de Paris com pinturas de paisagens e figuras "selvagens", multicoloridas e expressivas que os críticos chamaram de fovismo. Com seu expressivo uso da cor e seu desenho livre e imaginativo, Henri Matisse chega muito perto da abstração pura em "Janela francesa em Collioure" (1914), "Vista de Nossa Senhora" (1914) e "A cortina amarela" (1915). A linguagem crua da cor desenvolvida pelos fauves influenciou diretamente outro pioneiro da abstração, Wassily Kandinsky.
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Uma explicação sócio-histórica que foi oferecida para a crescente prevalência do abstrato na arte moderna - uma explicação ligada ao nome de Theodor W. Adorno - é que tal abstração é uma resposta a, e um reflexo de, uma crescente abstração das relações sociais na sociedade industrial. Fredric Jameson, de modo similar, vê a abstração modernista como uma função do poder abstrato do dinheiro, igualando todas as coisas em função do seu valor de troca. O conteúdo social da arte abstrata é, então, precisamente, a natureza abstrata da existência social - formalidades legais, impersonalização burocrática, informação/poder - no mundo da modernidade tardia. Pós-junguianos, em contraste, veriam as teorias quânticas, com sua desintegração das ideias convencionais sobre forma e matéria, como marcando o divórcio entre o concreto e o abstrato na arte moderna.
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Conforme a arte visual se torna mais abstrata, ela adquire algumas características da músicaː passa a ser uma forma artística que usa elementos abstratos de som e divisões de tempo. Wassily Kandinsky, que também era músico amador, foi inspirado pela possibilidade de marcas e cor associativa "ressoando na alma". Essa ideia havia sido apresentada por Charles Baudelaireː a de que os nossos sentidos respondem a variados estímulos e, num nível estético mais profundo, eles estão interconectados. Próximo a isso, existe a ideia de que a arte possui uma dimensão espiritual e pode transcender a experiência cotidiana, alcançando um plano espiritual. A Sociedade Teosófica popularizou a sabedoria antiga de livros sagrados da Índia e China nos primeiros anos do século XX. Neste contexto, Piet Mondrian, Wassily Kandinsky, Hilma af Klint e outros artistas que trabalhavam no sentido de um "estado sem objetos" se interessaram pelo oculto como uma forma de criar um objeto "interno". Os formatos universais e atemporais encontrados na geometria (círculo, quadrado e retângulo) se tornaram elementos espaciais na arte abstrata; eles são, como a cor, sistemas fundamentais que existem sob a realidade visível.


