Artes liberais
Artes liberais é o termo que define uma metodologia de ensino, organizada na Idade Média, cujo conceito foi herdado da antiguidade clássica. Contemporaneamente, o conceito de artes liberais denota a formação multidisciplinar visando a formação plena, sem necessariamente ser profissionalizante.
O conceito de arte dado por Aristóteles, "a capacidade de produzir com raciocínio reto", ou ainda, "uma disposição suscetível de criação acompanhada de razão verdadeira", é capaz de fornecer alguns elementos acerca do conceito de artes liberais que os homens da Antiguidade e da Idade Média tinham.[carece de fontes?] Entre os romanos, Cícero e Sêneca, idealizaram a educação liberal que, para os latinos era fundada principalmente na retórica. As artes liberais eram consideradas as disciplinas próprias para a formação de um homem livre, desligadas de toda preocupação profissional, mundana ou utilitária. Contrapõem-se às artes mecânicas ou seja, às disciplinas não diretamente relacionadas a interesses imateriais, metafísicos e filosóficos, mas estritamente técnicos (voltados à produção de utilidades que sirvam às necessidade cotidianas do homem). Mediante o domínio das artes liberais, o homem seria capaz de produzir obras e ideias com poder de elevar o espírito humano para além dos interesses puramente materiais, rumo a um entendimento racional e livre da verdade.
Embora a expressão e o conceito de artes liberais tenha se originado na antiguidade, foi nas universidades medievais que adquiriu seu alcance e significado de Studium Generale. A partir de Marciano Capela no século VI d.C. convencionou-se enumerá-las em sete artes liberais. No início da Idade Média, a educação liberal servia para preparar o clero e para a educação cortesã. Foi assim na reforma proposta por Alcuíno na Renascença carolíngia. Com o advento das universidades a partir do século XII, as artes liberais ganharam um aspecto propedêutico, servindo de iniciação aos graus superiores.
As sete artes liberais
Tradicionalmente, as sete artes liberais englobam, desde a Idade Média, dois grupos de disciplinas: o trivium, com as artes retórica, lógica (dialéctica) e gramática; o quadrivium, com música, aritmética, geometria e astronomia. O trivium concentra o estudo do texto literário por meio de três ferramentas de linguagem pertinentes à mente. O quadrivium engloba o ensino por meio de quatro ferramentas relacionadas à matéria e à quantidade. Etimologicamente, trivium significa "o cruzamento e articulação de três ramos ou caminhos" Esse grupo de disciplinas incluía a lógica (ou dialéctica), a gramática e a retórica. As artes do trivium teriam como objetivo desenvolver a expressão da linguagem.
Estudos superiores
As disciplinas ditas superiores (de acordo com a definição dada pelos conceitos clássicos e medievais) formavam a parte central e preparatória do currículo das universidades medievais, preparando o aluno para entrar em contato com as três principais formações de tais centros de saber: a medicina, o direito e a teologia. Como outras artes normativas, que ajustam ou regulam segundo um padrão ou norma, as artes da linguagem consistem em estudos práticos que ajustam a linguagem segundo uma norma, como por exemplo: É por isso que, no âmbito das artes liberais e dos princípios da educação superior, diz-se que "a verdade é a norma ou a meta da lógica", "a correção é a norma da gramática" ou "a eficácia é a norma da retórica".
Nos séculos XV e XVI, as artes liberais medievais foram reorganizadas diante das grandes transformações sociais e intelectuais desse período. Sob a influência do Renascimento e do Humanismo italiano, o currículo medieval do trivium foi ampliado e renomeado como studia humanitatis, mantendo ênfase na gramática e na retórica, mas excluindo a lógica e introduzindo disciplinas como poesia, história e filosofia moral (ética). Esse enfoque clássico-humanístico visava desenvolver a eloquência e as aptidões consideradas essenciais no período, seguindo o ideal de humanitas (virtus). Paralelamente, inovações como a imprensa de Gutenberg (c. 1450) possibilitaram o acesso mais amplo ao conhecimento, barateando livros e difundindo rapidamente as ideias pela Europa. As grandes navegações e descobertas científicas, por sua vez, ampliaram o escopo do ensino: o contato com novos territórios acrescentou conteúdos de geografia e história , enquanto progressos astronômicos impulsionaram o estudo de matemática e astronomia nas escolas e universidades. A Reforma Protestante também influenciou o currículo ao valorizar o estudo dos textos bíblicos nos idiomas originais e usar a imprensa para propagar doutrinas, reforçando o ideal humanista de uma educação baseada nas artes liberais clássicas e no pensamento crítico. Em síntese,essas reformas curriculares podem ser interpretadas como uma resposta às novas exigências culturais, políticas e econômicas do período, orientando a formação para cidadãos instruídos e virtuosos adequados às transformações do seu tempo.
As Artes Liberais não sobreviveriam ao iluminismo europeu, sendo substituídas pela educação superior profissional ou científica. A educação liberal deu lugar à formação profissional a partir das reformas universitárias na Prússia, lideradas por Wilhelm von Humboldt e na educação universitária francesa após a revolução. A Escola Normal Superior e a Escola Politécnica visava a formação profissional e considerava a formação liberal como resquício da aristocracia. Gradualmente, a maior parte das universidades da Europa e do mundo, abandonaram a educação liberal. As primeiras faculdades do Brasil visavam a formação profissional e não a formação liberal e assim foi quando instituíram as universidades no país no século XX (ver: História da educação no Brasil). O conceito de educação superior liberal continuou a existir nos Estados Unidos.
Nos Estados Unidos e Canadá a educação interdisciplinar segue um esquema contemporâneo das artes liberais. Tipicamente um Bacharelado em Artes ou um Bacharelado em Ciências, em inglês Bachelor of Arts, sigla B.A. e Bachelor of Science abreviado B.S., leva quatro anos, estudando matérias obrigatórias e optativas dentro de chaves de disciplinas como: Além das disciplinas tradicionais acima, há a possibilidade de estudar conjuntamente cursos técnicos, artísticos e profissionalizantes como Tecnologia da Informação, fotografia, design gráfico, administração. O aluno pode declarar uma major (área de concentração de seus estudos) e uma minor (uma segunda área de concentração de estudos), com uma titulação específica (a exemplo: Bachelor of Arts, Major in Mathematics, Minor in Economics). Além de programas vinculados à universidades há os chamados Liberal Arts Colleges que são pequenas faculdades, geralmente com maior investimento por aluno, com turmas e salas de aulas pequenas, forte ênfase em composição de ensaios, e demandam uma grande interação com os professores.
Os impedimentos coloniais no Brasil dificultaram o estabelecimento de educação superior antes da independência do país. Já no século XVIII, houve o curso de artes liberais no Colégio Jesuítico da Bahia, sendo banido seus diplomas superiores. Um certo João da Cointa é notado pelo Padre Anchieta de ter ensinado essas artes no litoral paulista. Assim, com a independência surgiram os cursos superiores de engenharia, direito e medicina, não voltados para uma educação liberal, mas uma educação tecnicista nos moldes das faculdades alemãs e francesas. Apesar disso, há instâncias de brasileiros, como Gilberto Freyre, tendo se graduado nas Artes Liberais. Entretanto, somente no século XIX que se firmariam uma educação multidisciplinar humanística e científica com os bacharelados interdisciplinares. As artes liberais contemporâneas não se limitam ao trivium e quatrivium, nem na formação clássica dos Liberal Arts colleges americanos do século XIX. Antes, essa educação busca conhecer as ciências, humanidades e tecnologias além de proficiência em análise quantitativa e comunicação eficiente.


