Aserá
Aserá ou Achera é uma deusa mãe canaanita na mitologia semita que aparece em várias fontes acadianas escritas pelo nome de Asratum/Asratu (Ashratum/Ashratu) e entre os hititas como Aserdu (Asherdu), Asertu (Ashertu). Aserá é distinta da deusa ugarítica Astarte, e é considerada a parceira das divindades supremas Anu (Mesopotâmia) e El (semitas).
Aserá é identificada como rainha consorte do deus sumério Anu e do deus ugarítico El, as mais antigas divindades de seus respectivos panteões, bem como era consorte de Javé,[nota 1] Deus de Israel e Judá. Seu papel de consorte lhe rendeu um alto posto no panteão dos deuses ugaríticos. Os textos ugaríticos são considerados as principais fontes sobre a deusa, mencionada no segundo milênio antes da era comum (AEC) como atrt, Atirat. O livro de Jeremias, escrito por volta de 628 a.C., refere-se a Aserá quando menciona a "Rainha dos Céus" nos capítulos 7:18 "os filhos apanharam a lenha, e os pais acedem o fogo, e as mulheres preparam a massa, para fazerem bolos à Rainha dos Céus, e oferecem libações para outros deuses, para me provocarem a ira" e 44:22 "De modo que o SENHOR não podia mais suportar a maldade das vossas ações/, as abominações que cometestes; por isso se tornou a vossa terra em deserto, e em espanto e em maldição, sem habitantes, como hoje se vê".
Como deusa da fertilidade Aserá era representada por uma árvore que era colocada nos pátios dos templos, do que se tem referências desde o século VIII a.C. na cidade de Mari, onde o termo árvore também era usado para designar Aserá. Alguns estudiosos descobriram um vínculo antigo entre Aserá e Eva com base na coincidência de seu título em comum de "a mãe de todos os viventes" em Gênesis 3:20 através da identificação com a deusa mãe hurrita Hebat. Há especulações adicionais de que o Shekhinah como um aspecto feminino de Javé pode ser uma memória cultural ou devolução de Aserá. Nas escrituras cristãs, o Shekhinah, ou Espírito Santo, é representado por uma pomba - um símbolo onipresente das religiões da deusa, também encontrado nos santuários dos naos hebreus. No evangelho gnóstico não-cânone de Tomás, Jesus é descrito dizendo: "Quem conhece o Pai e a Mãe será chamado filho de uma prostituta". A simbologia da deusa ainda persiste na iconografia cristã; Enquanto que a arte cristã normalmente exibe anjos com asas de aves, a única referência bíblica a essas figuras vem da visão de Zacarias de deusas pagãs.
Entre o século X a.C. e o início de seu exílio em 586 a.C., o politeísmo era normal em Israel; foi somente após a destruição do Templo de Jerusalém e o exílio que se estabeleceu a adoração a Javé, e possivelmente apenas a partir da época dos macabeus (século II a.C.) que o monoteísmo se tornou universal entre os judeus. Alguns estudiosos da Bíblia acreditam que Aserá foi adorada como o consorte de Javé, o Deus nacional de Israel. Há referências à adoração de numerosos deuses em todos os reis: Salomão constrói templos para muitos deuses e Josias é relatado como cortando as estátuas de Aserá no templo que Salomão construiu para o Senhor (II Reis 23:14). O avô de Josias, Manassés, erigira uma dessas estátuas.(II Reis 21:7) Após o exílio, as referências ao politeísmo foram fortemente editadas nas escrituras judaicas. Oséias, por exemplo, critica uma deusa que está associada a árvores, mas cujo nome nunca é mencionado. A "Rainha do Céu" também é anônima em Jeremias, apesar de ser amplamente reverenciada. Como as mulheres de Jerusalém atestaram: "Faremos o que bem nos apetece. Queimaremos incenso à Rainha dos Céus. Apresentar-lhe-emos sacrifícios, tantos quanto quisermos, tal como já nós próprios fizemos e os nossos pais antes de nós, assim como os nossos reis e nobres sempre fizeram nas cidades de Judá e nas ruas de Jerusalém. E nesses dias até tínhamos abundância de comida, tudo nos corria bem e éramos felizes!" (Jeremias 44:17).
Os episódios da Bíblia Hebraica mostram um desequilíbrio de gênero na religião hebraica. Aserá era reverenciada por membros da realeza do sexo feminino, como a rainha mãe Maacá "O rei Asa retirou à sua avó Maacá a distinção de rainha-mãe, por ter sido ela quem fizera o abominável ídolo de Achera; destruiu esse ídolo desprezível, despedaçou-o e queimou-o, deitando as cinzas no ribeiro de Cedron." (1 Reis 15:13). Mas, mais comumente, talvez, Aserá era adorada dentro da casa, e suas ofertas eram realizadas por matriarcas da família. Como as mulheres de Jerusalém atestaram: "E acrescentaram as mulheres: 'Julgas que nós adorávamos a Rainha dos Céus, lhe oferecíamos as nossas libações e fazíamos bolos com a sua imagem, tudo isso sem os nossos maridos soubessem e nos ajudassem? Com certeza que não!'”(Jeremias 44:19). Esta passagem corrobora várias escavações arqueológicas que mostram espaços de altar em lares hebreus. Os "ídolos domésticos" mencionados na Bíblia também podem estar ligados às centenas de estatuetas femininas da Base de Pilar que foram descobertas.
Em diferentes traduções para o português da Bíblia
Diversos trechos da bíblica em grego ou em hebraico, quando traduzidos para o português, por erro ou omissão acabam omitindo referências a Asará. Como em 2 Reis 21:7:
O culto à Aserá era o mais antigo na Mesopotâmia e foi introduzido no Egito pelos hicsos.
Como 'Athirat', ela foi atestada no sul da Arábia pré-islâmica como a consorte do deus da lua "'Amm". Uma estela, agora mantida no Louvre, descoberta por Charles Huber em 1883 no antigo oásis de Tema,[nota 2] no noroeste da Arábia, e que acredita-se que data da época da aposentadoria de Nabonido, em 549 a.C., traz uma inscrição em aramaico que menciona Salm de Maḥram, Shingala e Ashira como os deuses de Tema. Esta "Ashira" pode ser Athirat/Achera. Devido a diferenças nos dialetos regionais, o árabe "th" ([θ]; em árabe: ث, translit. ṯāʾ; correspondente ao ugarítico 𐎘), pode ocorrer como "th" ([θ]; em hebraico: ת) or 'sh' ([ʃ]; em hebraico: שׁ). Além disso, é amplamente considerado que o cananeu 'th' é equivalente ao som 'sh' na maioria das outras línguas semíticas. Além disso, não está claro se o nome seria uma vocalização árabe do ugarítico ʾaṯrt ou um empréstimo posterior do cananeu 'Aserá'. Poderíamos, portanto, afirmar que a raiz de ambos os nomes é ʾšrt e pode-se inferir uma conexão etimológica entre Ashira e Athirat.


