Autorretratística
Autorretratística é o campo da teoria e história da arte que estuda a história, meios de produção e circulação, recepção, formas e significados dos autorretratos. Surgindo na Antiguidade e se popularizando a partir do Renascimento como prática artística, como um campo específico de estudos a autorretratística é recente, mas vem se expandindo com rapidez.
O autorretrato tem uma longa história. Na análise de Reynolds & Peter, as marcas de mãos que a humanidade pré-histórica deixou nas pinturas das cavernas podem ser consideradas precursoras do autorretrato, por serem um documento direto da presença do autor no ato criativo e da sua percepção da existência de um "eu". O autorretrato mostrando a face ou todo o corpo do artista apareceu bem mais tarde, havendo exemplos documentados no Antigo Egito e na Antiguidade Clássica. A categoria, entretanto, é de uso recente. Assim como o próprio conceito de ¨autorretrato¨. Em Língua Inglesa, por exemplo, o primeiro registro é do século XIX, segundo o Oxford English Dictionary. O termo "autorretrato¨ é um tanto quanto impróprio para tratar de produções artísticas antes do surgimento do próprio termo - o que os historiadores chamam de anacronismo - para tratar de produções onde o autor é o próprio objeto da obra. Se alguém, até então, quisesse falar de uma obra artística onde o autor era o próprio objeto retratado diria: "o retrato de (...) realizado por si mesmo¨.
Apesar da antiguidade do material que estuda, a autorretratística como um campo definido de estudos só começou a se desenvolver recentemente. O próprio termo "autorretrato" só foi documentado na língua inglesa (self-portrait) em 1831 e pouco depois foi dicionarizado, e até então, quando alguém queria referir-se a uma produção onde o artista fazia uma autorrepresentação dizia-se "retrato de um artista feito por si mesmo", ou "retrato do artista". Em italiano foi dicionarizado em 1913, e em francês em 1928. O termo entrou no léxico português no início do século XX e foi dicionarizado em 1949, rapidamente se disseminando, e segundo Cláudio Rangel, o termo "autorretratística" foi introduzido no início dos anos 2000, devido ao crescimento colossal da produção de autorretratos, uma expansão favorecida pelas novas tecnologias disponíveis ao grande público, sendo um exemplo bem conhecido a prática da selfie com câmeras de telefones móveis.
A autorretratística como um campo teórico tenta modernamente responder a várias perguntas, desde a mais básica: o que é um autorretrato? Ou, por que ao longo dos séculos foi crescendo o número, e em quantidade de obras, dos artistas que dedicaram a ele? Ou, ainda, por que as selfies se tornaram um fenômeno global? Também é objeto de seu interesse analisar a relação entre a autorrepresentação e a realidade, posto que os autorretratos muitas vezes não almejam a mera reprodução fidedigna de traços identificáveis objetivamente, mas, sendo construções intencionais, podem ser alegóricos, idealizantes, críticos, simbólicos, psicológicos, satíricos, filosóficos, reflexivos. Os pesquisadores ainda investigam os autorretratos porque eles desdobram muitos aspectos da vida pessoal e da percepção do artista de si mesmo e suas relações com seu meio social, seus pares, seu tempo, a cultura e a história, questionam a linguagem, a comunicação, a poética e o estilo artísticos (visuais ou literários), e entrelaçam o público e o privado, a pessoalidade e a impessoalidade, sendo obras intertextuais e polissêmicas. Outro foco da pesquisa é analisar as mudanças no entendimento do significado do autorretrato ao longo dos séculos e sua recepção.
A autorretratística — ou o estudo sistemático do autorretrato na arte — constitui hoje um campo consolidado dentro da teoria e da história da arte, situando-se na intersecção entre estética, iconologia, história cultural, estudos de gênero e teoria da subjetividade. Trata-se de uma área que não apenas investiga a produção e circulação de imagens do eu por parte dos artistas, mas também problematiza os modos como tais imagens são codificadas, interpretadas e ressignificadas ao longo do tempo. O autorretrato, enquanto gênero artístico, que surge como fenômeno identificável por volta do século XIV, intensificando-se de forma notável no Renascimento, momento em que a figura do artista moderno — dotado de consciência individual e status autoral — começa a emergir com força na cultura ocidental. A partir de então, o autorretrato torna-se não apenas um exercício de representação, mas um gesto de afirmação de identidade e agência. Ele articula questões que vão do reconhecimento social à exploração metafísica do sujeito.
As origens da fotografia remontam às descobertas da câmera obscura. O desenvolvimento e a popularidade da técnica, porém, só ocorreram após o daguerreótipo. Do século XIX ao século XXI houve um grande desenvolvimento de dispositivos capazes de produzir fotografias. Atualmente, quase todo mundo tem a possibilidade de ter um dispositivo portátil capaz de produzir uma fotografia. Isto não explica, no entanto, por que tantos optaram por produzir e partilhar um autorretrato nas redes sociais. O autorretrato de Robert Cornelius, datado de 1839, é considerado um marco na fotografia autorretratística, e os autorretratos fotográficos de Andy Warhol e Cindy Sherman estão entre os mais reconhecidos. Por outro lado, existem milhões de autorretratos produzidos por personagens não reconhecidos no campo da arte que, por mais brilhantes que sejam, não entram para a História da Arte. Não é algo para se surpreender. Antes desta época não era possível aos artistas utilizarem-se deste recurso. Atualmente, podem ser encontradas até descrições e instruções em como produzir um autorretrato fotográfico.
Tradicionalmente associada às artes plásticas a autorretratística, contudo, ultrapassa suas fronteiras. A relação entre o autorretrato nas artes plásticas e a literatura confessional pode ser entendida a partir de um elo comum: ambos são formas de expressão que revelam a intimidade, as vivências e a subjetividade do criador. Essa conexão é marcada pela busca por uma autoanálise sincera e profunda, ao mesmo tempo em que coloca em jogo a construção de uma identidade pública e privada. Ambas as formas compartilham uma necessidade de autoexposição e de confronto com o próprio "eu". O ato de se retratar ou de confessar-se em palavras coloca o artista ou escritor em uma posição vulnerável, onde ele negocia com suas próprias sombras, ansiedades e dores. No autorretrato, a materialidade da obra — tinta, pincel, papel — se torna um meio pelo qual o corpo e o espírito do artista são traduzidos em imagem. O olhar do artista sobre si mesmo é, ao mesmo tempo, um processo de descoberta e construção da identidade. Não raramente, esse olhar é também crítico, irônico ou perturbador, como nos autorretratos de Egon Schiele ou de Vincent van Gogh, que revelam uma introspecção inquietante. Na literatura confessional, a palavra escrita assume esse papel de construir e reconstruir o sujeito. A narrativa confessional é permeada pela subjetividade, onde a fronteira entre o que é real e o que é interpretado pelo eu-narrador se torna fluida. O leitor é convidado a adentrar o universo privado do escritor, participando de suas dores, reflexões e questões existenciais.
Não há uma tradição forte da produção de autorretratos por artistas brasileiros de destaque até o século XX. A autoinserção de Pedro Américo no imenso quadro Batalha do Avaí, como o ¨Soldado 33¨, ainda no século XIX, é uma das poucas exceções. Alguns outros artistas também os produziram, mas, foi só a partir da década de 1930 que houve uma expressiva produção de autorretratos por artistas brasileiros. Com efeito, com a criação do Museu Nacional de Belas Artes sob o comando do pintor Oswaldo Teixeira, este teve a intensão de destinar uma galeria exclusiva para autorretratos, aos moldes da Galeria Uffizi, e fez encomendas para tal galeria e uma exposição - que seria a primeira no Brasil - destinada à autorretratos. A Primeira Exposição de Auto-retratos, ocorrida no Brasil, veio efetivar-se, então, no Museu Nacional de Belas Artes, em fevereiro de 1944, com 144 obras. De fato, o primeiro anuário do Museu Nacional de Belas Artes, publicado em 1938, documenta uma relevante ação institucional no período inicial da sua consolidação. Logo após sua fundação, o MNBA estabeleceu um diálogo com museus nacionais e internacionais por meio de uma circular, que visava promover um intercâmbio cultural e artístico. Essa correspondência incluiu a proposta de organização de um “Dicionário Biográfico”, para o qual foram solicitados autorretratos de artistas, com o propósito de compor uma galeria dedicada exclusivamente a esse gênero de representação. Essa solicitação institucional exerceu um impacto significativo sobre a produção artística no Brasil, estimulando inúmeros artistas a criarem autorretratos especificamente destinados à coleção do MNBA. O resultado culminou na organização de uma exposição inteiramente dedicada aos autorretratos, evidenciando a importância atribuída a essa prática autorreferencial naquele momento histórico. Entre os anos de 1937 e 1944, observa-se uma notável intensificação na produção de autorretratos por artistas brasileiros. Entretanto, apesar da mobilização, muitas dessas obras não participaram da mostra, seja por não terem sido enviadas ao museu, seja por outros motivos. Uma análise abrangente da produção artística do período, abrangendo figuras de destaque como Di Cavalcanti, Quirino Campofiorito, Hilda Campofiorito, Djanira, e Cândido Portinari, revela que, para muitos desses artistas, este período representou o surgimento de seus primeiros autorretratos. A iniciativa do MNBA, ao estimular a criação de autorretratos e fomentar o intercâmbio cultural e artístico entre instituições, marca um ponto de inflexão na trajetória da arte brasileira, contribuindo para o fortalecimento da identidade artística nacional e promovendo uma reflexão crítica sobre a autorrepresentação e sua relevância no contexto das artes visuais.


