Autorretrato
Autorretrato, muitas vezes é definido em História da Arte, como um retrato, que o artista faz de si mesmo, independente do suporte escolhido. Reconhece-se, em geral, a partir da renascença italiana, que este tipo de autorrepresentação passou a ser cada vez mais frequente, chegando à obsessão de um Rembrandt - quase uma centena - ou de uma Vigée-Lebrun.
Atribui-se ao desenvolvimento ao refinamento da técnica de fabricação de espelhos, na indústria do vidro em Veneza, fixar a partir do século XV, o gênero autorretrato, o que como assinala Teixeira não escapa da ideia de imagem refletida (espelho) já presente no mito de Narciso. Os estudos exclusivamente versando sobre autorretratos e a atenção a eles dispensados, entretanto, só têm início no século XX: década de 1920, especificamente. Trabalhos mais rigorosos e aprofundados só aparecerão na década de 1950, mas, neste período, as peculiaridades do fazer artístico e o pensamento sobre ele esfacelam as noções do que seria um autorretrato e o seu enquadramento como gênero artístico advindas dos séculos anteriores. Como entender e classificar um "autorretrato" de Mattia Moreni ou das "caricaturas" de Keith Haring. Analisando os mais de cinquenta autorretratos de Frida Kahlo Querido observa que são praticamente sua autobiografia. Segundo esta autora cada um deles corresponde a uma época de sua vida e espelha os sentimentos intensos que marcaram sua forma de ver o mundo, sua identidade: há a Frida europeia; a Frida tehuana; a Frida ativista política; a Frida dilacerada pela dor; a Frida pós-aborto e massacrada pela ideia de não poder ser mãe; a Frida pós-separação; a Frida filha; e a Frida esposa.
Não somente nas artes plásticas a autorretratística está presente. Na literatura a chamada Literatura Confessional, estreitamente associada à expressão da intimidade, emerge como uma prática discursiva em que o sujeito de enunciação toma a si mesmo como objeto de conhecimento. Suas raízes remontam tanto ao exame de consciência cristão, como exemplificado nas Confissões de Santo Agostinho, quanto à tradição filosófica e literária secular, que ganha relevância a partir do Iluminismo, especialmente com Jean-Jacques Rousseau. Este, em sua obra precursora As Confissões (1782), inaugura uma nova forma de autoexame, marcada por uma sinceridade sem precedentes, em que o eu se defronta não mais com o julgamento divino, mas com a hipocrisia social.


