Bacia do Paraná
A Bacia Geológica do Paraná, ou simplesmente Bacia do Paraná é uma ampla bacia sedimentar situada na porção centro-leste da América do Sul. A sua área de ocorrência abrange, principalmente, o centro-sul do Brasil, desde o estado do Mato Grosso até o estado do Rio Grande do Sul, onde perfaz cerca de 75% de sua distribuição areal. Além do Brasil, ela também distribui-se no nordeste da Argentina, na porção leste do Paraguai e no norte do Uruguai. É uma depressão ovalada, com o eixo maior no sentido quase norte-sul, e possui uma área de cerca de 1,5 milhão de km².
Os primeiros estudos sobre a Bacia do Paraná foram publicados na primeira metade do século XIX, ainda durante o período do Império Brasileiro, e tratam principalmente de estudos sobre carvão mineral. Durante os anos de 1875 a 1877, as rochas da Bacia do Paraná foram estudadas pela Comissão Geológica do Império do Brasil. Esta comissão foi constituída pelo Imperador D. Pedro II e coordenada pelo geólogo canadense Charles Frederick Hartt. O enfoque preliminar da comissão era o estudo da Geologia, da Paleontologia e das minas brasileiras. Os trabalhos básicos mais importantes desta fase inicial são representados pelas publicações de Orville Derby, em 1879 e 1883. A primeira sondagem profunda para a pesquisa de petróleo no Brasil foi realizada na Bacia do Paraná, no município de Bofete, estado de São Paulo, por iniciativa do fazendeiro Eugênio Ferreira de Camargo. Este poço é considerado o primeiro poço de petróleo brasileiro, tendo sido perfurado entre 1892 e 1897. O poço atingiu uma profundidade de 488 metros e recuperou somente água sulfurosa e dois barris de petróleo.
A Bacia do Paraná e a teoria da deriva continental
Durante o século XIX, e início do século XX, foram encontrados e identificados inúmeros fósseis na Bacia do Paraná, tanto de animais que viveram em ambiente terrestre ou marinho raso quanto de vegetais continentais, e que também foram encontrados nos outros continentes do hemisfério sul, além da Índia, como por exemplo, e principalmente, os répteis mesossaurídeos e a flora Glossopteris. Estas descobertas tiveram um papel importante no desenvolvimento da teoria da deriva continental, precursora da atual teoria de tectônica de placas. A teoria da deriva continental foi apresentada pelo geólogo e meteorologista alemão Alfred Wegener em 1915, com a publicação de sua obra clássica: A Origem dos Continentes e Oceanos (Die Entstehung der Kontinente und Ozeane). Wegener afirmava que os continentes, hoje separados por oceanos, estiveram unidos numa única massa de terra no passado, por ele denominado de Pangaea (do grego "toda a Terra"), do Carbonífero superior, a cerca de 300 milhões de anos, ao Jurássico superior, a cerca de 150 milhões de anos, quando a Laurásia (atuais América do Norte e Eurásia) separou-se do Gondwana, que depois também dividiu-se, já no Cretáceo inferior, formando as atuais América do Sul, África, Antártida, Austrália e Índia.
A origem da Bacia do Paraná está ligada à relação de convergência entre a margem sudoeste do antigo supercontinente Gondwana e a litosfera oceânica do Panthalassa. O evento que marca o início da formação da Bacia do Paraná foi a geração de magmas no Ordoviciano, o chamado Basalto Três Lagoas, a mais de 4 500 metros abaixo da superfície terrestre atual. Entretanto, diversas são as hipóteses sobre os processos que resultaram na sua formação, marcada pela subsidência do eixo central e soerguimento de suas bordas, o que levou a maioria dos cientistas a assumir que diversos fatores devem ter contribuído. Assim, acredita-se que os fenômenos de subsidência devem ter iniciado no Ordoviciano, na chamada Fase Plataforma Estável, possivelmente devido à processos de estiramento litosférico e subsidência térmica, mudanças na distribuição das temperaturas na litosfera, mecanismos de flexura intracontinental devido ao carregamento tectônico nas margens de placas, propagação de esforços horizontais na litosfera, além do surgimento de rifte inicial no sentido norte-sul. Como todos esses eventos ocorreram concomitantemente aos eventos tectônicos da borda oeste do continente (onde hoje são os Andes), diversos cientistas estabelecem correlações causais diretas, enquanto outros afirmam que a relação é apenas temporal. Contudo, é praticamente consenso que os eventos orogênicos andinos proporcionaram a individualização da Bacia do Paraná, separando-a do Chaco paraguaio-boliviano, devido ao surgimento do Arco de Assunção, feição originada pela sobrecarga do cinturão andino sobre o continente.
A coluna estratigráfica da Bacia do Paraná foi subdividida por Milani (1997) em seis unidades alostratigráficas de segunda ordem ou supersequências, no senso de Vail et. al. (1977), isto é, separadas por hiatos significativos, como visto na figura ao lado (Carta estratigráfica simplificada da Bacia do Paraná). Estas unidades, descritas a seguir, definem o arcabouço estratigráfico da Bacia do Paraná e são separadas por expressivos hiatos deposicionais, causados por eventos erosivos. Supersequência Rio Ivaí: a supersequência mais basal, de idade Neo Ordoviciana a Eo Siluriana, foi depositada quando a região constituía um imenso golfo preenchido pelas águas do Panthalassa, e possui três formações geológicas: a mais antiga, denominada Formação Alto Garças, é constituída principalmente por arenitos quartzosos finos a grossos, pouco feldspáticos, e possui espessura máxima da ordem de 300 m. A seguir ocorre a Formação Iapó, que registra depósitos relacionados à glaciação Ordoviciana que afetou grandes porções do Gondwana, sendo formada basicamente por diamictitos. Sobrepondo estes diamictitos ocorre a Formação Vila Maria, uma espessa camada argilosa com conteúdo fóssil abundante de graptólitos, trilobitas, braquiópodos e quitinozoários.
A Bacia do Paraná possui extensas acumulações de recursos naturais que são explorados desde os tempos do Brasil Colônia:
Água subterrânea
Um importante recurso natural presente na Bacia do Paraná é a água subterrânea do Aquífero Guarani, que constitui um dos maiores aquíferos do mundo e é a maior reserva subterrânea de água da América do Sul. O aquífero possui uma área de ocorrência de cerca de 1,2 milhões de km², um volume de aproximadamente 46 mil km³, espessuras que variam de zero a 800 m e profundidade máxima por volta de 1 800 metros. Cerca de 70% do aquífero situa-se no Brasil e o restante está localizado na Argentina, Paraguai e Uruguai. O Aquífero Guarani é formado principalmente por rochas arenosas de idade Triássica a Jurássica das formações Piramboia, Rosário do Sul e Botucatu, no Brasil, Misiones, no Paraguai, Buena Vista, no Uruguai e Tacuarembó, no Uruguai e na Argentina. É recoberto por espessas camadas de basaltos da Formação Serra Geral, sendo confinado em cerca de 90% de sua área total. A extração de água é maior no Brasil, a qual é utilizada para os mais diversos fins, como por exemplo, abastecimento público, estâncias termais e irrigação. Nos outros países, o principal uso é em estâncias termais.
Recursos energéticos
Arenitos asfálticos: Existem diversas ocorrências de arenitos asfálticos aflorantes na Bacia do Paraná, sendo que as principais acumulações estão localizadas nas proximidades da cidade de Anhembi, estado de São Paulo, na borda leste da Bacia. A maior destas acumulações situa-se na Fazenda Betumita, com volume estimado de cerca de 5,7 milhões de barris de óleo. Os depósitos se concentram em arenitos da Formação Piramboia, de idade Triássica e correspondem a prováveis reservatórios de petróleo exumados, quando do soerguimento e erosão da borda leste da Bacia. Entre 1939 e 1946 houve extração destes arenitos para utilização em pavimentação e geração de óleo combustível.
Recursos minerais
Em toda a extensão da Bacia do Paraná uma grande variedade de materiais são extraídos para uso nas indústrias da construção civil, cerâmica e de transformação, como por exemplo, ágata, ametista, arenito, argilas vermelha e refratária, basalto, calcário, cobre, caulim, folhelho, ouro, rochas ornamentais e varvito (na forma de lajotas). A maior jazida de ametista do mundo é encontrada na cidade de Ametista do Sul, no Rio Grande do Sul, chamada de Capital Mundial da Ametista. Cerca de 75% da economia municipal é decorrente da mineração, beneficiamento e comércio de pedras semipreciosas como Ametista, Ágata e Topázio além de outros. A região do Rio Tibagi, no Estado do Paraná, constitui a segunda província diamantífera mais antiga do Brasil, relatada desde 1754, e a sua produção é oriunda de aluviões e terraços antigos. Estes depósitos diamantíferos foram certificados pelo Processo de Kimberley.
A evolução da Bacia do Paraná e o posterior soerguimento da borda leste da mesma, associada à abertura do Atlântico sul e à formação da Serra do Mar criou, através de erosão, o aparecimento de inúmeras feições geológicas impressionantes, que constituem um patrimônio natural de valor inestimável. A seguir, os sítios geológicos existentes na Bacia do Paraná, a maioria deles definidos pela Comissão Brasileira de Sítios Geológicos e Paleobiológicos:
Sítios geomorfológicos
Cânions dos parques nacionais Aparados da Serra e Serra Geral: Estes cânions são feições geomorfológicas notáveis, criadas pelo corte abrupto do planalto que foi formado por rochas vulcânicas da Formação Serra Geral e cuja estruturação geológica possibilitou a formação de paredões verticalizados que, por uma extensão de cerca de 250 km, mostram uma formidável sucessão de cânions de até 900 metros de altura. Os cânions Itaimbezinho e Fortaleza constituem a paisagem mais espetaculares destes parques nacionais. Estão situados na Serra Geral, na divisa dos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul; Cânion Guartelá: O Cânion do Guartelá é um profundo desfiladeiro fluvial, com notáveis exposições de arenitos devonianos. Possui cerca de 30 km de extensão e desnível máximo de 450 m. Foi escavado pelo Rio Iapó que, através do cânion, vence a Escarpa Devoniana, cuesta que separa o Primeiro e o Segundo Planalto Paranaense. Situa-se entre os municípios de Castro e Tibagi, no Estado do Paraná;
Sítios espeleológicos
Furna do Buraco do Padre: Localizada na borda leste da Bacia, a 24 km a leste-sudeste da cidade de de Ponta Grossa, Paraná, é uma furna situada no cruzamento de falhas e fraturas que cortam arenitos devonianos da Formação Furnas e que causaram erosão subterrânea. É possível o acesso ao interior da mesma, a pé, através do leito subterrâneo do Rio Quebra-Pedra. Dentro do Buraco do Padre ocorrem notáveis exposições de arenitos da Formação Furnas, com suas típicas estratificações cruzadas e plano-paralelas.
Sítios paleoambientais
Diversos sítios geológicos da Bacia do Paraná são importantes pois registram a grande glaciação que ocorreu do Carbonífero inferior ao Permiano inferior, entre 360 e 270 milhões de anos, quando toda porção sul do antigo Gondwana ficou coberto por espessas camadas de gelo: Estrias Glaciais de Witmarsum: É um pavimento polido de arenito com estrias e sulcos de extensão métrica, causadas pelo movimento de geleiras. Situa-se na Colônia Witmarsum, BR-373, no município de Palmeira, Paraná. O afloramento foi tombado pela Secretaria da Cultura do Paraná; Parque do Varvito: Situa-se no Município de Itu, Estado de São Paulo. É a melhor exposição de varvito na Bacia do Paraná, rocha formada em corpos de água, como lagos glaciais, pela deposição rítmica de pares da lâminas claras, mais espessas e arenosas e escuras, mais delgadas e argilosas. Outra feição marcante no parque são os clastos caídos, visíveis nas camadas de varvito. Possuem tamanho e composição diversos e são originários do degelo dos icebergs que flutuavam sobre os lagos;
Sítios paleontológicos
Como já descrito na seção Estudos Pioneiros, a identificação de restos fósseis de animais e vegetais, na Bacia do Paraná, teve um importante papel para a Geologia em geral e o desenvolvimento inicial da Teoria da Deriva Continental em particular. A seguir, os principais sítios fossilíferos da Bacia do Paraná: Afloramento Bainha, Flora Glossopteris do Permiano Inferior: Este afloramento da Formação Rio Bonito e que está situado no município de Criciúma, SC, é o sítio paleontológico brasileiro mais importante do maior e mais conhecido gênero da extinta ordem de samambaias com sementes, conhecidas como Glossopteris; Austroposeidon: Na cidade de Presidente Prudente, sudoeste do estado de São Paulo, em rochas do Grupo Bauru, foram descobertos ossos fósseis pertencentes ao maior dinossauro já descoberto no Brasil. Este dinossauro, batizado de Austroposeidon Magnificus, pertence ao grupo dos Titanossauros e, quando adulto, media cerca de 25 m de comprimento. O grupo viveu no final do período Cretáceo.
Sítios de crateras de impactos
Apesar de crateras de impactos, chamados de astroblemas, não terem sua origem relacionadas a bacias sedimentares, por serem relacionados a quedas de meteoritos ou cometas na superfície de corpos celestes como a Terra, até o momento três crateras causadas por corpos extraterrestres foram identificados sobre rochas da Bacia do Paranáː Cratera de Araguainha: A Cratera de Araguainha é o maior astroblema conhecido na América do Sul. Está localizada na divisa dos estados de Goiás e do Mato Grosso, sendo que o Rio Araguaia corta a estrutura ao meio. Foi formada próxima ao limite Permiano-Triássico, a cerca de 245 milhões de anos atrás. Possui cerca de 40 km de diâmetro e afeta rochas paleozoicas da Bacia do Paraná;


