Império Romano
Império Romano foi o período pós-republicano da antiga civilização romana, caracterizado por uma forma de governo autocrática liderada por um imperador e por extensas possessões territoriais em volta do mar Mediterrâneo na Europa, África e Ásia. A república que o antecedeu ao longo de cinco séculos encontrava-se numa situação de elevada instabilidade, na sequência de diversas guerras civis e conflitos políticos, durante os quais Júlio César foi nomeado ditador perpétuo e foi assassinado em 44 a.C. As guerras civis culminaram na vitória de Otávio, filho adotivo de César, sobre Marco António e Cleópatra na batalha de Áccio em 31 a.C. Detentor de uma autoridade inquestionável, em 27 a.C. o senado romano atribuiu a Otávio poderes absolutos e o novo título Augusto, assinalando desta forma o fim da república.
A expansão romana teve início no século VI a.C., pouco após a fundação da república. No entanto, só no século III a.C. é que Roma iniciou a anexação de províncias fora da península Itálica, quatro séculos antes de alcançar a sua maior extensão territorial e, nesse sentido, constituía já um "império", apesar de ainda ser governado enquanto república. A República Romana não era um estado-nação no sentido contemporâneo do termo, mas antes uma rede de cidades, cada uma com diferente grau de autonomia em relação ao senado romano. As províncias republicanas eram administradas por antigos cônsules e pretores, eleitos para um mandato de um ano. O poder militar dos cônsules tinha como base a noção jurídica de imperium, ou comando militar. Ocasionalmente, os cônsules bem-sucedidos eram agraciados com o título imperator (comandante), o qual está na origem do termo "imperador".
Augusto e transição da república para o império
A partir do final do século II a.C., ao mesmo tempo que Roma vivia uma série de conflitos internos, conspirações e guerras civis, a sua influência alargou-se para além de Itália. O século I a.C. foi um período de instabilidade, marcado por diversas revoltas políticas e militares que abriram caminho para a implementação de um regime imperial. Em 44 a.C., Júlio César foi aclamado ditador perpétuo antes de ser assassinado. No ano seguinte, Otávio (futuro Augusto), sobrinho-neto e filho adotivo de César e um dos mais destacados generais republicanos, tornou-se um dos três membros do Segundo Triunvirato — uma aliança política com Lépido e Marco António. A divisão do império entre António e Otávio foi efémera. As tensões entre ambos no período que se seguiu à Batalha de Filipos (42 a.C.) levaram à dissolução do triunvirato em 32 a.C. e ao confronto na Batalha de Áccio (31 a.C.), da qual Marco António e a rainha Cleópatra saíram derrotados. O subsequente confronto em Alexandria (30 a.C.) proporcionou a anexação do Reino Ptolemaico por Otávio.
Principado
Em 27 a.C., o Senado e Povo de Roma proclamaram Otaviano príncipe (em latim: princeps; romaniz.: lit. "primeiro [cidadão]") com imperium proconsular e o título Augusto (em latim: augustus; lit. "o venerado"). Este evento assinala o início do Principado, a primeira época do período imperial entre 27 a.C. e 284 d.C.. O governo de Augusto pôs fim a um século de guerra civil, dando início a uma época sem precedentes de estabilidade social, prosperidade económica e Pax Romana ("paz romana"), que se prolongou durante os dois séculos seguintes. As revoltas nas províncias eram pouco frequentes e rapidamente controladas. Sendo agora o único governador de Roma, Augusto iniciou uma série de reformas militares, políticas e económicas em larga escala. O senado atribuiu-lhe o poder de nomear os próprios senadores e autoridade sobre os governadores de província, criando de facto o cargo que mais tarde seria denominado imperador.
Dominato
Diocleciano (r. 284–305) renunciou ao papel de príncipe e adotou o título domine (mestre ou lorde), marcando a transição do principado para o dominato — um estado de monarquia absoluta que se prolongaria desde 284 até à queda do Império Romano do Ocidente em 476. Diocleciano impediu o colapso do império, embora o seu reinado tenha sido marcado pela perseguição ao cristianismo. Durante o seu reinado, o império foi dividido numa Tetrarquia de quatro regiões, cada uma governada por um imperador distinto. Em 313, a tetrarquia entrou em colapso. Após uma série de guerras de sucessão, Constantino (r. 306–337) emergiu como único imperador e o primeiro a converter-se ao cristianismo, estabelecendo Constantinopla como capital do Império do Oriente. Ao longo das dinastias constantina e valentiniana, o império encontrava-se dividido numa metade ocidental e outra oriental, sendo o poder partilhado por Roma e por Constantinopla. A sucessão de imperadores cristãos foi brevemente interrompida por Juliano (r. 361–363), que tentou restaurar as religiões romana e helenística. Teodósio (r. 378–395), o último imperador a governar o império oriental e ocidental, morreu em 395, após ter decretado o cristianismo a religião oficial do império.
Fragmentação e declínio
A partir do início do século V o Império Romano começou a fragmentar-se, uma vez que o elevado número de migrações dos povos germânicos era superior à capacidade do império em assimilar os migrantes. Embora o exército romano fosse eficaz a repelir os invasores, o mais notável dos quais Átila, o Huno (r. 434–453), o império tinha assimilado de tal forma povos germânicos com lealdade duvidosa a Roma que o império se começou a desmembrar a partir de si próprio. A maior parte dos historiadores data a Queda do Império Romano do Ocidente em 476, ano em que Rómulo Augusto (r. 475–476) foi deposto pelo líder hérulo Odoacro (r. 476–493). No entanto, em vez de assumir para si o título de imperador, Odoacro submeteu-se ao domínio do Império Romano do Oriente, terminando assim a linha de imperadores ocidentais. Ao longo do século seguinte, o império oriental, conhecido atualmente como Império Bizantino,[nt 4] foi perdendo progressivamente o domínio da parte ocidental. O Império Bizantino terminou em 1453, com a morte de Constantino XI (r. 1449–1453) e a conquista de Constantinopla pelo Império Otomano.
O Império Romano foi um dos maiores da História e dominava uma extensão territorial contínua ao longo da Europa, Norte de África e Médio Oriente, desde a muralha de Adriano na chuvosa Inglaterra até às margens soalheiras do rio Eufrates na Síria, desde as planícies férteis da Europa Central até às luxuriantes margens do vale do Nilo no Egito. A noção de imperium sine fine ("império sem fim") manifestava a ideologia romana de que o seu império não era limitado no espaço e no tempo. A maior parte da expansão romana ocorreu durante a república, embora algumas partes do norte e centro da Europa tenham sido conquistadas no século I d.C., período que corresponde à consolidação do poder romano nas províncias. A Res Gestae, narrativa das conquistas de Augusto, destacava o número de povos e regiões do império. A administração imperial realizava frequentemente censos e mantinha registos geográficos meticulosos.
A língua dos romanos era o latim, que Virgílio destacou como fonte da unidade e tradição romanas. Embora o latim fosse a língua corrente nos tribunais e administração pública no Império do Ocidente e no exército de todo o império, não era imposto de forma oficial aos povos sob domínio romano. Ao conquistar novos territórios, os romanos preservavam as tradições e línguas locais, introduzindo gradualmente o latim através da administração pública e documentos oficiais. Esta política contrasta com a de Alexandre, o Grande, que impôs o grego helenístico como língua oficial do seu império. Isto fez com que o grego antigo viesse a ser a língua franca da metade oriental do Império Romano, ao longo de todo o mediterrâneo oriental e da Ásia Menor. No ocidente, o latim vulgar substituiu progressivamente as línguas celtas e itálicas, relativamente às quais partilha a mesma raiz indo-europeia, o que facilitou a sua adoção.
Os três principais elementos do estado imperial romano foram o governo central, as forças armadas e os governos provinciais. As forças militares impunham o domínio sobre um território através de campanhas militares. No entanto, depois de uma cidade ou povo assinarem tratados de cooperação, as missões militares convertiam-se em missões de policiamento, protegendo cidadãos romanos e, a partir de 212, todos os homens livres do império, os campos de cultivo e locais religiosos. Sem recursos modernos de comunicação ou destruição em massa, os romanos não dispunham de capital humano suficiente para impor o seu domínio apenas através da força. Era necessária a cooperação com as elites locais para manter a ordem, recolher informações e cobrar impostos. Os romanos muitas vezes exploravam divisões políticas internas entre os povos assimilados, apoiando uma facção contra outra. As comunidades que demonstrassem a sua lealdade perante Roma podiam manter as suas próprias leis, cobrar os seus próprios impostos e, em casos excecionais, estavam isentas dos impostos centrais. Os privilégios jurídicos e a relativa independência constituíam um incentivo a que fosse do interesse da população manter a sua reputação perante Roma. Assim, o poder do governo central romano era limitado, embora eficiente no uso dos recursos disponíveis.
Governo central
O imperador era a suprema autoridade religiosa e política do império, reservando para si competências que durante a república eram atribuição do senado, como o direito de declarar guerra, ratificar tratados e negociar com líderes estrangeiros. A autoridade do imperador baseou-se na concentração dos poderes de vários cargos republicanos, entre os quais a inviolabilidade e autoridade sobre o poder civil dos tribunos da plebe, a autoridade sobre o exército dos procônsules e a autoridade dos censores para manipular a hierarquia da sociedade romana e controlar o senado. Embora as funções do imperador tenham sido definidas durante o principado, ao longo do tempo o poder do imperador foi se afastando do modelo constitucional e aproximando-se progressivamente do modelo do despotismo característico do dominato. A morte de um imperador provocava um período de incerteza e crise. A maior parte dos imperadores indicava o seu sucessor, geralmente um membro familiar chegado ou herdeiro adotivo. O novo imperador deveria garantir a lealdade do aparelho de estado para estabilizar o cenário político.
Governo provincial
Para que um território anexado se tornasse uma província era necessária a realização de um inventário das cidades, de um censo da população e de um levantamento topográfico. A administração passava então a manter diversos registos, entre os quais dos nascimentos e mortes, das transações de propriedade e dos procedimentos jurídicos. As províncias eram administradas por governadores romanos. As províncias senatoriais eram governadas por magistrados eleitos em Roma em nome do povo romano. As províncias imperiais, excluídas do controlo do senado, eram governadas por membros da ordem equestre que administravam o imperium em nome do imperador. Um governador devia ser acessível à população governada, embora pudesse delegar várias tarefas, para as quais dispunha de um quadro de funcionários públicos: aparitores (apparitores; assessores), entre os quais se incluíam lictores, mensageiros, escribas e guarda-costas; legados civis e militares, geralmente da ordem equestre; e um conselho não oficial de pessoas de confiança.
Exército e marinha
Os legionários do exército imperial romano eram profissionais de carreira que se voluntariavam para vinte anos de serviço ativo e cinco na reserva, cujos salários eram pagos através do erário militar. A profissionalização do exército teve início no final do período republicano e substituiu o serviço militar obrigatório, pelo qual se convocavam os habitantes para combater uma ameaça específica. Serviam no exército imperial cerca de 300 mil soldados no século I e menos de 400 mil no século II, um número significativamente menor do que o conjunto das forças armadas dos territórios conquistados e que corresponde a cerca de 2% dos homens adultos residentes no império.
Direito
Os tribunais romanos possuíam jurisdição para deliberar sobre processos que envolvessem cidadãos romanos em todo o império, embora houvesse poucos funcionários para fazer cumprir a lei de forma uniforme entre as províncias. Para os que não tinham cidadania romana, a política do império consistia em respeitar a mos regionis, a "tradição local" ou "leis da terra" dos povos romanizados, vendo-as como fonte de precedentes jurídicos e de estabilidade social. A compatibilidade entre o direito romano e o direito local era vista como reflexo da Ius gentium, a lei das gentes ou direito internacional comum entre todas as comunidades humanas. Quando determinados aspetos das leis provinciais entravam em conflito com as leis ou costumes romanos, podiam ser feitos apelos aos tribunais romanos, tendo o imperador autoridade para promulgar uma decisão final.[nt 5]
Finanças
O direito fiscal era confuso e contraditório e determinava um sistema complexo de impostos diretos e indiretos, alguns pagos em dinheiro e outros em géneros. Os impostos podiam ser específicos de determinada província, podiam incidir apenas sobre determinado tipo de propriedades, como a pesca ou salinas ou podiam ainda ser aplicados apenas durante determinado intervalo de tempo. Em regiões pouco monetarizadas eram aceites pagamentos em género, sobretudo nas que produziam cereais ou bens para abastecer os campos militares. Os impostos também financiavam o exército, pelo que os contribuintes tinham direito a reembolso quando o exército capturava despojos ou excedentes.
O Império Romano era uma sociedade multicultural, com uma surpreendente capacidade de coesão, capaz de criar uma noção de identidade comum ao mesmo tempo que assimilou os mais diversos povos no seu sistema político. A preocupação romana em criar monumentos e espaços comunitários abertos ao público, como os fóruns, anfiteatros, circos ou as termas, ajudou a estabelecer o sentimento de romanidade. A sociedade romana possuía um sistema complexo de múltiplas hierarquias, que o conceito contemporâneo de classe social não define de forma precisa. As duas décadas de guerra civil anteriores ao governo de Augusto deixaram a sociedade tradicional romana num estado de confusão e sobressalto. No entanto, a diluição da hierarquia rígida da república levou a uma cada vez maior mobilidade social entre os romanos, tanto ascendente como descendente, e mais expressiva do que em qualquer outra sociedade da Antiguidade documentada. As mulheres, os libertos e os escravos tinham agora oportunidades económicas e de exercício de influência através de meios que anteriormente lhes estavam vedados. A vida em sociedade do império, particularmente para os que tinham recursos limitados, foi ainda impulsionada pela proliferação de associações voluntárias e confrarias (collegia e sodalitates) formadas com diversas finalidades: guildas profissionais e comerciais, grupos de veteranos, associações religiosas, clubes gastronómicos e trupes artísticas. No governo de Nero não era invulgar encontrar um escravo que fosse mais rico do que um cidadão nascido livre, ou um equestre (eques) mais influente do que um senador.
Cidadania
De acordo com o jurista Gaio, a principal distinção entre pessoas no direito romano dava-se entre cidadãos livres (liberi) e escravos (servi). O estatuto jurídico dos cidadãos livres podia ainda ser precisado de acordo com a sua cidadania. Durante o início do império, só um número limitado de homens é que tinha pleno direito à cidadania romana, a qual lhes permitia votar, candidatar-se a eleições e serem ordenados sacerdotes. A maior parte dos cidadãos tinha apenas direitos limitados, tendo, no entanto, direito a proteção jurídica e outros privilégios que eram vedados àqueles que não tinham cidadania. Os homens livres que viviam no interior do império, mas que não eram considerados cidadãos, tinham o estatuto de peregrinos (peregrini, ou não romanos). Em 212, através do Édito de Caracala, o imperador Caracala alargou o direito de cidadania a todos os habitantes do império, revogando todas as leis que distinguiam cidadãos de não cidadãos.
Ordens
No contexto do Império Romano, uma ordem (ordo; pl. ordine) significa uma classe aristocrática. Uma das finalidades dos censos era determinar a ordem (ordo; pl. ordine) a que determinada pessoa pertencia. Em Roma, as duas ordens de maior estatuto eram a ordem senatorial (ordo senatorius) e a ordem equestre (ordo equester). Fora de Roma, os decuriões (ordo decurionum) representavam a aristocracia local. A posição de "senador" não era um cargo eletivo. Um cidadão era admitido no senado depois de ser eleito e servir durante pelo menos um mandato enquanto magistrado. Um senador deveria também ter uma riqueza de, no mínimo, um milhão de sestércios. Nem todos os homens que cumpriam os critérios para a ordem senatorial aceitavam um lugar no senado, o qual exigia domicílio em Roma. Dado que o senado compreendia 600 lugares, os imperadores muitas vezes preenchiam os assentos vagos por nomeação direta. O filho de um senador pertencia por direito à ordem senatorial, embora tivesse que se qualificar por mérito próprio para ser admitido no senado. Os senadores podiam ser expulsos por violar as normas de conduta moral; por exemplo, não podiam casar com uma mulher liberta ou lutar na arena. Na época de Nero, os senadores eram oriundos principalmente de Roma e de outras partes de Itália, sendo alguns da Península Ibérica e do sul de França. Durante o governo de Vespasiano começaram a ser acrescentados senadores das províncias orientais. Durante a dinastia severa, os itálicos eram já menos de metade do senado.
Mulheres
Ao longo da república e durante o império, as mulheres romanas livres eram consideradas cidadãs, embora não pudessem votar, ocupar cargos políticos ou servir no exército. A mulher romana conservava o apelido de solteira ao longo da vida. Na maior parte das vezes, os filhos escolhiam receber o apelido do pai, embora no período imperial pudessem também manter o apelido da mãe. A mulher romana podia possuir propriedade, realizar contratos e concretizar negócios, incluindo manufatura, transportes e empréstimos bancários. Era comum haver mulheres que financiavam obras públicas, o que indica que muitas delas possuíam ou administravam fortunas consideráveis. As mulheres tinham os mesmos direitos que os homens em relação a heranças, caso o pai morresse sem deixar um testamento. O direito a possuir e gerir propriedade, incluindo os termos do seu próprio testamento, proporcionavam à mulher romana uma enorme influência sobre os filhos, mesmo em adultos.
Casamento
A forma arcaica de casamento cum manum, pelo qual a mulher era sujeita à autoridade do marido, caiu em desuso durante o período imperial. Uma mulher romana que casasse continuava a ser proprietária dos bens que levava para o casamento. Tecnicamente, mesmo após a mudança para a residência do marido, continuava ainda sob a autoridade do pai, e só quando o pai morria é que se emancipava em termos legais. Este princípio demonstra o relativo grau de independência das mulheres romanas em comparação com outras culturas da antiguidade e até à idade moderna. Embora tivesse que responder perante o pai em assuntos jurídicos, a mulher romana era livre para gerir a vida quotidiana e o marido não tinha qualquer poder jurídico sobre ela. Embora fosse motivo de orgulho social ter casado apenas uma vez, o estigma social em relação ao divórcio ou ao segundo casamento era praticamente inexistente.
A economia do Império Romano tinha por base uma rede de economias regionais, na qual o Estado intervinha e regulava o comércio de forma a assegurar as suas próprias receitas. A conquista de território permitiu a reorganização em larga escala do uso da terra, o que proporcionou a produção de excedentes agrícolas e uma progressiva divisão do trabalho, em particular no norte de África. Algumas cidades afirmavam-se como grandes centros regionais de determinada indústria ou atividade comercial e a escala das edificações em áreas urbanas indica uma indústria de construção plenamente desenvolvida. Os papiros revelam métodos de contabilidade complexos que sugerem elementos de racionalismo económico numa economia bastante monetizada. Durante os séculos I e II as redes de estradas e transportes expandiram-se significativamente, ligando com rapidez as economias regionais. O crescimento económico, embora não seja comparável às economias modernas, foi superior à maioria das sociedades anteriores à industrialização.
Moeda e banca
A economia do Império Romano era universalmente monetizada. A normalização do dinheiro e das formas de pagamento em todo o império impulsionou o comércio e a integração económica das províncias. Até ao século IV, a unidade monetária básica era o sestércio, embora no início da dinastia severa também fosse usado o denário de prata, que valia quatro sestércios. A moeda de circulação corrente de menor valor era o asse de bronze, que valia um quarto de sestércio. Os lingotes não eram considerados moeda e eram usados apenas em negócios nas regiões fronteiriças. Os romanos dos séculos I e II contavam as moedas, em vez de as pesar, o que indica que o valor da moeda era atribuído em função do seu valor fiduciário, e não do valor do metal.
Transportes e comunicações
Os romanos privilegiavam o transporte de mercadorias por via marítima ou fluvial, uma vez que o transporte por terra era mais difícil. O Império Romano circundava o Mediterrâneo, o qual denominavam Mare Nostrum ("nosso mar"). As embarcações à vela romanas navegavam não só o Mediterrâneo, como todos os principais rios do império, entre os quais o Guadalquivir, o Ebro, o Ródano, o Reno, o Tibre e o Nilo. O transporte por via terrestre fazia uso de uma rede complexa e avançada de estradas romanas. Os impostos em género pagos pelas comunidades locais exigiam a deslocação frequente de funcionários administrativos, animais e veículos do curso público – o sistema estatal de correios e transportes implementado por Augusto. A primeira via foi criada em 312 a.C. por Ápio Cláudio Cego, para ligar Roma à cidade de Cápua: a Via Ápia. À medida que o império se expandiu, a administração adaptou o mesmo esquema nas províncias. No seu apogeu, a rede viária romana chegou a ter 400 mil quilómetros de estradas, 80 500 quilómetros das quais pavimentadas.
Trabalho e profissões
As inscrições registam 268 profissões diferentes na cidade de Roma e 85 em Pompeia. Existiam associações profissionais (collegia) para as mais diversas profissões, como as de pescadores (piscatores), mercadores de sal (salinadores; salinatores), comerciantes de azeite (olivários; olivarii), artistas (escênicos; scaenici), comerciantes de gado (pecuários; pecuarii), ourives (aurífices; aurifices), condutores (asinários [asinarii] ou muliões [muliones]) e pedreiros (lapidários; lapidarii). A produção têxtil era uma das principais fontes de emprego. Os tecidos e o vestuário pronto-a-vestir eram duas das principais mercadorias de troca entre as províncias. O vestuário de melhor qualidade era exportado por homens de negócios (negociadores [negotiatores] ou mercadores [mercatores]), os quais eram muitas vezes residentes abastados dos centros de produção. O pronto-a-vestir podia ser vendido por intermédio de vendedores (vestiários; vestiarii) ou mercadores itinerantes. Os produtores têxteis geriam muitas vezes pequenos negócios, empregando aprendizes, trabalhadores livres assalariados e escravos. Tanto os fiadores (fulões; fullones) como os tintureiros (coloradores; coloratores) tinham as suas próprias guildas. Os centonários (centonarii) eram trabalhadores especializados na produção têxtil e na reciclagem de tecidos em retalhos.
Comércio
Embora grande parte das trocas comerciais se realizassem entre as diversas províncias do império, as rotas comerciais estendiam-se muito para além das fronteiras do império, chegando a regiões tão remotas como a China e a Índia O comércio com a China era realizado principalmente através de intermediários ao longo da Rota da Seda, enquanto que as trocas comerciais com a Índia eram também realizadas por via marítima, a partir dos portos egípcios no mar Vermelho. A principal mercadoria transacionada eram os cereais, sendo também comercializados outros alimentos, como o azeite e o garo (molho de peixe), escravos, minério, utensílios de metal, tecidos, fibras naturais, madeira, olaria, artefactos de vidro, mármore, papiro, especiarias, plantas medicinais, marfim, pérolas e pedras preciosas.
Agricultura
O governo central tinha um papel interventivo no fomento da produção agrícola. A produção de alimentos tinha a máxima prioridade na organização do território. As quintas de maior dimensão (latifúndios) alcançaram uma economia de escala tal que eram capazes de suster a vida urbana e a divisão do trabalho própria de economias avançadas. Os pequenos produtores eram beneficiados com a criação de mercados locais em cidades e centros de comércio. Em praticamente todo o território imperial se praticavam diversas técnicas agrícolas avançadas, como a rotação de culturas ou a selecção artificial, e era comum a introdução de novas espécies entre províncias, como a ervilha e o repolho na Britânia.
Mineração e metalurgia
Estima-se que em todo o império fossem extraídas anualmente 82 500 toneladas de ferro, 15 mil toneladas de cobre, 80 mil toneladas de chumbo, 9 toneladas de ouro e 200 toneladas de prata, valores que só seriam igualados durante a Revolução Industrial. As principais regiões mineiras do império eram a Hispânia (ouro, prata, cobre, estanho e chumbo), a Gália (ouro, prata, ferro); a Britânia (ferro, chumbo, estanho), as províncias do Danúbio (ouro, ferro), a Macedónia e a Trácia (ouro, prata), e a Ásia Menor (ouro, prata, ferro, estanho). A mineração em grande escala ocorreu entre o reinado de Augusto e o início do século III, período em que a instabilidade do império afetou a produção.
Após a crise republicana e a transição para o império, a religião do estado adaptou-se de forma a apoiar o novo regime. Augusto implementou um vasto programa de revivalismo e reformas religiosas. Os votos públicos, que anteriormente pediam às divindades a segurança da república, passaram a ser vocacionados para o bem-estar do imperador. O culto da personalidade vulgarizou novamente as práticas de veneração dos ancestrais e do génio – a divindade tutelar de cada indivíduo. Era possível ao próprio imperador tornar-se ainda em vida uma divindade de estado mediante uma votação no senado. O culto imperial, influenciado pela religião helenística, tornou-se uma das principais formas de Roma anunciar a sua presença nas províncias, cultivando em toda a extensão do império a lealdade e partilha da mesma identidade cultural.
A religião romana
A religião na Roma Antiga engloba não só as práticas e crenças que os romanos viam como suas, mas também os diversos cultos importados para Roma e os cultos praticados nas províncias. Os romanos viam a si próprios como profundamente religiosos, atribuindo a sua prosperidade económica e militar à boa relação com os deuses (pax deorum). A religião arcaica, que se acredita ter sido instituída pelos primeiros reis de Roma, ofereceu os fundamentos do mos maiorum, ou "tradição", o código social basilar na identidade romana. Não existia qualquer princípio análogo à separação Igreja-Estado e os lugares de sacerdote na religião do Estado eram preenchidos pelas mesmas pessoas que ocupavam lugares na administração pública. Durante o período imperial, o pontífice máximo era o próprio imperador.
Cristianização
O rigor monoteísta do judaísmo colocava dificuldades à política de tolerância religiosa romana. A religião judaica, ao contrário da cristã, era considerada legítima (religio licita). No entanto, quando os conflitos políticos e religiosos se tornaram irreconciliáveis surgiram várias revoltas entre judeus e romanos. O cerco de Jerusalém, em 70, esteve na origem do saque ao templo da cidade e da dispersão do poder político judaico. O cristianismo surgiu na província da Judeia no século I d.C. enquanto seita religiosa judaica, tendo o papa Lino, no ano 76 importante papel nesse período. A religião expandiu-se gradualmente até Jerusalém, estabelecendo inicialmente centros importantes em Antioquia e Alexandria, e a partir daí por todo o império. As perseguições oficiais foram muito poucas e esporádicas e a maior parte dos martírios ocorreu por iniciativa de autoridades locais.
A rede de cidades ao longo do território imperial (colónias, municípios, cividades ou, no termo grego, pólis) era um elemento de coesão que fomentava a Pax Romana. Os romanos dos séculos I e II eram encorajados pela propaganda imperial a respeitar e usufruir dos valores do tempo de paz. Até mesmo o polemista Tertuliano declarou que o mundo do século II era mais ordeiro e culto do que em épocas anteriores: "Por todo o lado existem casas, por todo o lado existem pessoas, por todo o lado a res publica, a causa do povo, por todo o lado existe vida." Muitas das características associadas à cultura imperial, como o culto público, jogos e festividades, competições para artistas, oradores e atletas, assim como a grande maioria da arte e dos edifícios públicos, eram financiados por privados, cujas despesas em benefício da comunidade ajudavam a justificar o seu poder económico e privilégios jurídicos e provinciais. O declínio das cidades e da vida cívica no século IV, quando as classes abastadas já não eram capazes de financiar a obra pública, foi um dos sinais da dissolução iminente do império.
A vida nas cidades
Na Antiguidade clássica, as cidades eram vistas como territórios que fomentavam a civilização se fossem adequadamente desenhadas, ordenadas e adornadas. O planeamento das cidades romanas e o estilo de vida urbano foram influenciados pela civilização grega de períodos anteriores. Na parte oriental do império, o domínio romano veio acelerar o desenvolvimento de cidades que já de si tinham um acentuado carácter helenístico. Algumas cidades, como Atenas, Afrodísias, Éfeso e Gérasa, modificaram alguns aspetos da arquitetura e planeamento urbano em conformidade com os cânones imperiais, embora exprimindo também a sua identidade individual e proeminência regional. Nas áreas mais ocidentais do império, habitadas por povos de línguas celtas, Roma encorajou o desenvolvimento de centros urbanos planificados, dotados de templos, fóruns, fontes monumentais e anfiteatros. Estas novas cidades eram muitas vezes projetadas nas proximidades ou no próprio local de assentamentos muralhados preexistentes (ópidos).[nt 7] A urbanização no norte de África expandiu as cidades gregas e púnicas ao longo da costa.
Educação
A educação tradicional romana era moral e prática. As histórias sobre as grandes personalidades, ou lições sobre fracassos individuais, destinavam-se a incutir nos jovens os valores romanos (mores maiorum). Era esperado dos pais e da família que agissem como modelo comportamental e que os pais com uma profissão passassem aos filhos esse conhecimento, os quais se podiam depois tornar aprendizes. As elites urbanas de todo o império partilhavam uma cultura literária imbuída de ideais de educação gregos (paideia). Muitas cidades gregas financiavam escolas superiores e, para além da literacia e numeracia, o currículo incluía também música e desporto. Atenas era o destino de muitos jovens romanos que aí procuravam as mais reputadas escolas de retórica e filosofia no império. Por norma, todas as filhas de membros das ordens equestre e senatorial recebiam instrução. O nível de qualificação variava, desde aristocratas cultas até mulheres formadas para serem caligrafistas ou escribas. A poesia augustiniana enaltece o ideal da mulher instruída, culta, independente e versada em arte, e uma mulher com qualificações elevadas representava uma mais-valia para qualquer família que tivesse ambições sociais.
Recreação e espetáculos
Durante o governo de Augusto, os espetáculos públicos ocupavam 77 dias do ano, número que por volta do reinado de Marco Aurélio ascendia a 135. Um dos principais eventos dos festivais religiosos romanos era a realização de jogos (ludi), sobretudo corridas de cavalos e bigas. No plural, ludi refere-se quase sempre a jogos com espectadores em grande escala. O singular latino ludus ("jogo, desporto, treino") tinha uma grande amplitude de significados, desde jogos de palavras, atuação teatral, jogos de tabuleiro, escola primária e até mesmo as escolas de treino de gladiadores, como o Ludo Magno, o maior destes campos em Roma. Os jogos circenses (ludi circensis) realizavam-se em recintos de espetáculos denominados circos, inspirados nos hipódromos gregos. Os circos eram a maior estrutura de construção regular no mundo romano e palco de corridas de cavalos, corridas de bigas, encenação de caçadas (veação), competições atléticas, recriações históricas e combates de gladiadores. Os jogos eram antecedidos por um desfile bastante elaborado (pompa circense; pompa circensis) que terminava no recinto. Os eventos de competição também eram realizados em recintos mais pequenos, como anfiteatros e estádios. Entre as modalidades desportivas, inspiradas nos modelos gregos, estavam as corridas a pé, boxe, luta livre e o pancrácio. Havia várias modalidades que tinham lugar em piscinas próprias, como a naumaquia e uma modalidade de balé aquático. Os eventos teatrais (ludi scaenici) tinham lugar nas escadarias dos templos, nos grandes teatros de pedra ou em teatros de pequena dimensão denominados odeão. Embora os jogos tivessem origem nas celebrações religiosas da Antiguidade, ao longo do tempo o seu significado recreativo foi se sobrepondo ao significado religioso. O mecenato dos eventos e espetáculos das arenas estava a cargo das elites locais. Apesar dos encargos financeiros avultados, a sua organização era uma fonte de prestígio e estatuto social.
Alimentação
A generalidade dos apartamentos em Roma não tinha cozinha, embora fosse frequente o uso de fogareiros. As tabernas, bares, estalagens e termopólios vendiam refeições prontas, embora comer nesses locais ou levar comida para casa fosse comum apenas entre as classes mais baixas. As classes mais abastadas preferiam refeições reservadas na sua própria residência, a qual geralmente tinha à disposição um chef (arquimágiro; archimagirus) e ajudantes de cozinha, ou então em banquetes organizados em clubes privados. A maior parte da população obtinha 70% da dose diária de calorias através da ingestão de cereais e legumes. Um dos principais preparados romanos era o puls, uma papa feita a partir de legumes cortados, pedaços de carne, queijo ou ervas aromáticas, com a qual se podia confeccionar pratos semelhantes à polenta ou ao risotto. A população urbana e o exército preferiam consumir cereais transformados em pão. A moagem e cozedura eram geralmente feitas na mesma loja. Durante o reinado de Aureliano, o estado começou a distribuir entre os cidadãos de Roma a annona, uma ração diária de pão, azeite, vinho e carne de porco.
Vestuário
Numa sociedade consciente do estatuto como a romana, o vestuário e os acessórios pessoais ofereciam uma indicação imediata sobre a etiqueta a observar na interação com o portador. Vestir de forma correta deveria refletir uma sociedade ordenada. A toga era o vestuário nacional característico do homem romano, embora fosse pesada e pouco prática, sendo vestida sobretudo para tratar de assuntos políticos, rituais religiosos e presença nos tribunais. Contrariamente à noção popular, o vestuário informal dos romanos era escuro ou colorido, e o conjunto mais comum entre os homens durante o quotidiano seria uma túnica, uma capa e calças nalgumas regiões. É difícil estudar a forma como os romanos se vestiam no quotidiano devido à falta de evidências diretas, uma vez que a retratística geralmente apresenta a pessoa com vestuário de natureza simbólica e são raros os tecidos sobreviventes deste período.
Sexualidade
A ideia de libertinagem sexual sem restrições no Império Romano é essencialmente uma interpretação cristã posterior. Na realidade, o sexo no mundo greco-romano era governado pela sobriedade e pela arte de gerir o prazer sexual. A sexualidade era um dos tópicos do mos maiorum, o conjunto de normas sociais que orientavam a vida pública, privada e militar, e o comportamento sexual era moderado pelas noções de pudor, vergonha e modéstia. Os censores romanos, magistrados que determinavam a classe social de cada pessoa, tinham o poder de remover a cidadania dos homens da ordem equestre ou senatorial que se envolvessem em conduta sexual imprópria. A legislação moral introduzida durante o reinado de Augusto tentou regular a conduta da mulher como forma de promover os valores da família. O adultério, que durante a república tinha sido uma questão do foro privado, foi criminalizado e definido enquanto ato sexual ilícito (stuprum) que ocorre entre um homem e uma mulher casada.[nt 9]
Roma formou uma sociedade que deu grande espaço para as artes nas suas mais variadas manifestações. Além de desempenhar uma função decorativa, as artes desempenhavam também um importante papel educativo e socializante num contexto em que grande parte da população era analfabeta ou com pouco acesso à literatura mais sofisticada. A arte consagrava ideologias, narrava eventos históricos, integrava festividades cívicas e rituais religiosos e glorificava personagens eminentes, agindo de fato como uma língua franca à qual toda a população tinha acesso. A arte romana desenvolveu-se inicialmente a partir da tradição etrusca e ao longo do processo de expansão territorial de Roma foi absorvendo as referências da cultura grega, tornando a sua arte em larga medida uma extensão e variação daquela, e fazendo dos romanos os principais preservadores do legado artístico grego para a posteridade. No entanto, embora tenham copiado muitas técnicas e modelos formais gregos na literatura, nas artes visuais, no teatro, na música e em outras especialidades, os romanos foram capazes de desenvolver uma tradição que no fim do período republicano e ao longo período imperial assumiu características inovadoras e originais, ganhando significativa independência da herança recebida e formando uma identidade própria. Mesmo assim, no Império houve várias fases de oscilação entre tendências mais helenizantes e imitativas e outras mais progressistas e criativas. Isso, somando-se às múltiplas variações regionais, à incorporação de influências orientalizantes, às importantes mudanças introduzidas na fase de cristianização do Império e ao forte e permanente amor romano pelo ecletismo, fazem da arte da Roma Imperial um complexo mosaico de tendências às vezes bastante divergentes, sendo impossível a sua caracterização como um bloco estético monolítico. Apesar do enorme valor dado às obras de arte, os artistas detinham um estatuto social inferior, mesmo até os mais renomados. Os romanos e gregos viam artistas e artesãos enquanto trabalhadores braçais, embora ao mesmo tempo fosse reconhecida a perícia necessária para produzir arte de qualidade, sendo até considerada uma oferenda divina.
Arquitetura
Os arcos de volta perfeita, as abóbadas e as cúpulas são características da arquitetura romana que a tornam distinta da arquitetura grega. A introdução destes elementos, de uma dimensão sem precedentes na História, foi possível graças à invenção do betão pelos romanos. O betão (opus caementicium) era fabricado a partir de cinzas vulcânicas descobertas nas imediações do Vesúvio, denominadas pozolanas, que eram trituradas e misturadas com cal. O núcleo de betão das construções era geralmente revestido com estuque, tijolo, pedra ou mármore. Em alguns casos eram acrescentadas esculturas douradas para criar um efeito de deslumbramento e ostentação de poder e prosperidade. A qualidade construtiva introduzida na arquitetura romana aumentou significativamente a sua durabilidade. Muitos dos edifícios romanos ainda se encontram intactos e em uso, dos quais a maior parte são edifícios convertidos em igrejas durante a época cristã. No entanto, em muitas das ruínas o revestimento de mármore foi removido, pelo que não representam a grandiosidade da aparência original, como é o caso da Basílica de Constantino.
Pintura
A pintura foi uma das artes mais populares do Império Romano, mas pouco se sabe sobre ela, uma vez que a grande maioria dos registos se perdeu ao longo do tempo. Muito do que se conhece sobre pintura romana baseia-se na decoração do interior de residências privadas, em particular os frescos que foram preservados em Pompeia. Esta cidade, descoberta no século XVIII, foi soterrada pela erupção do Vesúvio em 79, o que possibilitou a sua conservação relativamente intacta. A partir deste grupo de obras — que embora rico e variado, é uma diminuta fração do que foi produzido e abrange um período muito limitado — foi estabelecida uma cronologia de estilos que vem sendo controversamente aplicada para o conjunto do legado pictórico imperial. Segundo esta proposta, a pintura romana evoluiu a partir de exemplos gregos de decoração parietal puramente geométrica, incorporando progressivamente elementos figurativos em cenários arquitetónicos ou paisagísticos, frequentemente utilizando modelos gregos ou citando obras gregas célebres em releituras criativas, vindo a apresentar em alguns exemplos grande sofisticação e suntuosidade, em conjuntos organizados segundo um grande programa integrado e distribuído em vários ambientes, enquanto em outros a simplicidade e o gosto popular predominam. Para além dos frisos decorativos e de painéis com motivos geométricos e vegetalistas, a pintura mural representa cenas da mitologia e do teatro, paisagem e jardins, recreação e espetáculos, trabalho e vida quotidiana e cenas eróticas. Os pássaros, animais e vida marinha são frequentemente representados com especial cuidado em relação ao detalhe artístico.
Escultura
A escultura foi uma das mais importantes expressões artísticas dos antigos romanos e estava presente em todos os aspetos das suas vidas, do âmbito doméstico ao público, do religioso ao civil e militar, em grandes e pequenas dimensões, em pedra, metal ou cerâmica, desempenhando funções decorativas, mágicas, propiciatórias, consacratórias, memorialistas, celebratórias ou educativas. A parte mais importante da escultura imperial é figurativa, mas encontra-se também aplicada a objetos utilitários. Era comum aplicar na superfície das esculturas uma pintura decorativa. A tradição grega permaneceu uma referência central ao longo de toda a trajetória da arte escultórica em Roma, mas assim como ocorreu em outras expressões artísticas, foram introduzidas diversas inovações, visíveis em especial na retratística, que desde a República gozou de especial estima, com exemplares de intensa expressividade e grande realismo, e na decoração dos grandes monumentos públicos, como os arcos de triunfo, o Altar da Paz e a Coluna de Trajano, onde se desenvolveu um estilo narrativo que se configurou como tipicamente romano.
Artes decorativas
Entre os mais comuns objetos de artes decorativas, destinados a consumidores abastados, estão peças de cerâmica, recipientes e utensílios de prata e de bronze e artefactos de vidro. A produção de cerâmica de várias qualidades e as indústrias de metalurgia e vidro desempenhavam um papel económico significativo no comércio e no emprego. As importações estimulavam os novos centros de produção regionais, como o sul da Gália, que se tornou o principal produtor de terra sigillata, cerâmica de elevada qualidade e um dos principais artigos comercializados na Europa durante o século I. Os romanos dominavam também a técnica de sopro de vidro, a qual teve origem na Síria durante o século I a.C..
Artes performativas
A música e dança foram manifestações artísticas populares desde a fundação, tendo-se provavelmente desenvolvido a partir da imitação de precursores gregos. O pouco que se conhece a seu respeito deriva de fontes bibliográficas e iconográficas. A presença de música era comum em praticamente todos os eventos sociais e nas cerimónias fúnebres. Nos sacrifícios era habitual tocar uma tíbia, um instrumento de sopro cujo som se acreditava espantar as más influências. Acreditava-se que a música refletia a ordem do cosmos, sendo associada à matemática e ao conhecimento. Entre os instrumentos musicais mais comuns estavam as madeiras, os metais, os instrumentos de percussão e as cordas, como a cítara grega. O corno (cornu), um instrumento de sopro metálico que se curvava ao longo do corpo do músico, era usado em paradas e sinalização militar. O órgão hidráulico chamado hidraulo (hydraulis) foi um dos mais significativos feitos musicais e técnicos da Antiguidade, acompanhando combates entre gladiadores, eventos nos anfiteatros e atuações em palco.
Literatura
No cânone literário ocidental, a literatura durante o período de Augusto até ao fim da república é vista como a idade de ouro da literatura latina, incorporando os ideais clássicos da unidade do conjunto, proporção entre as partes e articulação cuidada da composição. Os três poetas clássicos latinos mais influentes – Virgílio, Horácio e Ovídio – pertencem a este período. Virgílio escreveu a Eneida, criando um épico nacional para Roma da mesma forma que os épicos de Homero o foram para a Grécia. Horácio aperfeiçoou o uso da métrica grega na poesia latina. A poesia erótica de Ovídio foi extremamente popular, embora vítima do programa moral de Augusto, que levou ao seu exílio em Tômis, onde permaneceu até ao resto da sua vida. As Metamorfoses de Ovídio são um poema contínuo ao longo de quinze livros, que abrangem temas desde a mitologia greco-romana até ao culto imperial de Júlio César. As versões de Ovídio dos mitos gregos tornaram-se numa das principais fontes de mitologia clássica. A sua foi tão influente na literatura medieval que os séculos XII e XIII foram denominados de "Idade de Ovídio"."
As noções imperiais de autocracia, lei e cidadania global influenciaram profundamente a História da Europa. O sentimento de partilha de uma cultura e identidade comuns no Ocidente, mais do que à língua ou à literatura, deveu-se à própria natureza do Império Romano. Após a queda do Império Romano do Ocidente, vários estados reivindicaram serem seus sucessores, um conceito denominado translatio imperii. O Sacro Império Romano-Germânico, uma tentativa de ressuscitar o império no Ocidente, foi fundado em 800 após a coroação pelo papa Leão III do rei dos francos Carlos Magno como imperador romano, embora o império só viesse a ser formalizado décadas mais tarde. Na parte oriental, os Bizantinos mantiveram um império que denominavam "romano" até à Queda de Constantinopla em 1453. Quando o Império Otomano, cujo estado era baseado no modelo bizantino, conquistou Constantinopla, Maomé II, o Conquistador estabeleceu aí a sua capital e alegou ter ascendido ao trono do Império Romano. Chegou também a iniciar uma invasão de Itália com o intuito de reunificar o império e convidou diversos artistas italianos para a sua capital, entre os quais Gentile Bellini. Após a queda de Constantinopla, o Grão-Ducado de Moscovo, herdeiro da tradição ortodoxa bizantina, denominou a sua capital Terceira Roma. O domínio romano da península Itálica influenciou também a unificação de Itália em 1861.


