Bernardo de Claraval
Bernardo de Claraval foi um abade francês, canonizado em 1174 e proclamado Doutor da Igreja. Foi o principal responsável por reformar a Ordem de Cister, na qual entrou logo depois da morte de sua mãe. Foi o fundador da Abadia de Claraval (Clairvaux), na Diocese de Langres.
Primeiros anos (1090—1113)
Os pais de Bernardo eram Tescelin, senhor de Fontaines, e Aleth de Montbard, ambos oriundos da mais alta nobreza da Borgonha. Ele foi o terceiro de sete filhos, seis dos quais homens. Aos nove, foi enviado para uma escola em Châtillon-sur-Seine dirigida pelos clérigos seculares de Saint-Vorles. Em sua educação, demonstrou grande apreciação pela literatura - principalmente para poder estudar a Bíblia - e dedicou-se por algum tempo à poesia. Bernardo era especialmente devoto da Virgem Maria e escreveu depois muitas obras sobre a "Rainha do Céu", como ele a chamava. Suas conquistas acadêmicas lhe valeram grande admiração de seus professores. Bernardo tinha apenas dezenove anos quando sua mãe morreu, um evento que o fez pensar em se retirar do mundo para viver uma vida de solidão e oração. Em 1098, São Roberto de Molesme fundou a Abadia de Cister, perto de Dijon, com o objetivo de restaurar à "Regra de São Bento" o seu rigor original. Depois de voltar para sua terra natal, Roberto deixou sua nova abadia aos cuidados de Santo Alberico, que morreu em 1109. Em 1113, Santo Estêvão Harding havia acabado de sucedê-lo como abade quando Bernardo e trinta outros jovens da nobreza foram admitidos na Ordem de Cister.
Abade de Claraval (1115—1128)
A pequena comunidade de beneditinos reformados de Cîteaux, que teria uma profunda influência sobre o monasticismo ocidental, cresceu rapidamente. Três anos depois, Bernardo foi enviado à frente de um grupo de doze monges para fundar uma nova casa no Vallée d'Absinthe, na Diocese de Langres, uma região que ele batizou de "Claire Vallée" (que evoluiu depois para "Clairvaux" e tornou-se "Claraval" em português). A nova abadia, fundada em 25 de junho de 1115, ligou seu nome, Abadia de Claraval, ao de Bernardo daí em diante. Durante uma ausência do bispo de Langres, Bernardo foi abençoado como abade por Guilherme de Champeaux, bispo de Châlons-sur-Marne e, a partir daí, uma forte amizade nasceu entre os dois. Guilherme era também professor de teologia em Notre-Dame de Paris e fora o fundador da Abadia de São Vítor na mesma cidade.
Doutor da Igreja (1128—1146)
Em 1128, Bernardo participou do Concílio de Troyes, convocado pelo papa Honório II e presidido pelo cardeal Mateus, bispo de Albano, com o objetivo de resolver definitivamente a disputa entre os bispos de Paris e de propor algumas regulamentações para a Igreja da França. Os bispos reunidos elegeram Bernardo como secretário do concílio e o encarregaram de escrever os estatutos sinodais. Como resultado do concílio, o bispo de Verdun foi deposto. Foi ali também que Bernardo delineou a regra monástica que seria seguida pelos Cavaleiros Templários e que tornar-se-ia o ideal de nobreza cristão. Por volta da mesma época, Bernardo escreveu sua eulogia aos templários, a "Liber ad milites templi de laude novae militiae".
Segunda Cruzada (1146—1149)
Em 1146, notícias alarmantes para os cristãos começaram a chegar da Terra Santa. A maior parte do Condado de Edessa havia caído nas mãos dos turcos seljúcidas depois da vitória muçulmana no Cerco de Edessa. O Reino de Jerusalém e os demais estados cruzados estavam agora à beira de um desastre similar. Diversas embaixadas de bispos vindos do Reino Armênio da Cilícia chegaram para pedir ajuda ao papa; vieram também a Roma embaixadores do rei da França. O papa, pressionado, encarregou Bernardo de pregar uma nova cruzada e prometeu conceder aos participantes as mesmas indulgências que Urbano II havia concedido na anterior. Num primeiro momento, o entusiasmo popular pela empreitada foi pífio, assim como já ocorrera em 1095. Bernardo então achou por bem se ater aos resultados que a tomada da cruz poderia gerar: a absolvição dos pecados e de recepção da graça divina. Em 31 de março, na presença de Luís VII da França, Bernardo pregou para uma enorme multidão reunida num campo em Vézelay. James Meeker Ludlow descreve a cena da seguinte forma:
Anos finais (1149—1153)
A morte de seus contemporâneos serviu de aviso a Bernardo de que seu próprio fim se aproximava. O primeiro a morrer foi Suger, em 1152, sobre quem Bernardo escreveu ao papa Eugênio III elogiando: "Se existe um vaso precioso adornando o palácio do Rei dos Reis, é a alma do venerável Suger". Conrado III e Henrique morreram no mesmo ano. Quando o próprio Eugênio morreu em 1153, Bernardo perdeu seu melhor amigo e consolador. São Bernardo morreu em 20 de agosto de 1153 aos sessenta e três anos de idade, quarenta dos quais passou enclausurado. Foi enterrado na Abadia de Claraval, mas, depois que ela foi dissolvida em 1792 durante a Revolução Francesa, seus restos mortais foram levados para a Catedral de Troyes.
— S. Bernardo de Claraval, cit. in Penelope Davies et al., A Nova História da Arte de Janson, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2010, p. 370 São Bernardo de Claraval foi nomeado Doutor da Igreja em 1830. No 800º aniversário de sua morte, Pio XII emitiu uma encíclica sobre Bernardo, "Doctor Mellifluus", na qual chama-o de "O Último dos Padres". Bernardo não rejeitou a filosofia humana, que é genuína e leva a Deus, mas diferenciou os diversos tipos de conhecimento, colocando no posto mais alto o teológico. Três elementos centrais da mariologia de Bernardo são: sua explicação para a virgindade perpétua de Maria, a "Estrela do Mar"; como os fieis deveriam rezar para a Virgem Maria e como ele percebia a Virgem como "Medianeira". Bernardo também defendia algumas doutrinas que os reformadores posteriores retomariam no início da Reforma. Por isso, alguns o identificam como sendo um protestante antes de seu tempo. A realidade, porém, é que Bernardo defendia uma mistura de doutrinas reformistas e outras defendidas pela Igreja Católica Apostólica Romana até hoje. Bernardo era, por exemplo, cético em relação à doutrina da Imaculada Conceição de Maria. Era também de grande importância para os reformadores o conceito de justificação de Bernardo. Calvino cita Bernardo diversas vezes para demonstrar a validade histórica da doutrina da "Sola Fide", que Lutero descrevera como sendo um artigo de fé sobre o qual a Igreja se sustenta ou rui. Calvino também cita-o quando desenvolve sua doutrina de uma retidão forense exterior, traduzida geralmente como "retidão imputada".
Bernardo foi instrumental ao reenfatizar a importância da "Lectio Divina" e da contemplação sobre as Escrituras na Ordem de Cister. Ele observou que, quando ela era negligenciada, sofria o monasticismo e, mais, considerava que ela, juntamente com a contemplação guiada pelo Espírito Santo, eram chaves para nutrir a espiritualidade cristã. Expandindo sobre a doutrina de Santo Anselmo de Cantuária (outro Doutor da Igreja), Bernardo transmutou o cristianismo calcado no ritual sacramental típico da Alta Idade Média numa nova fé, mais pessoal, que tinha a vida de Cristo como modelo e com grande ênfase na Virgem Maria. Ao contrário do viés racionalista utilizado para compreender o divino adotado pelo escolasticismo, Bernardo pregava uma fé mais imediata tendo Maria como intercessora.
Finalmente, há 547 cartas inequivocamente atribuídas a Bernardo. Muitas cartas, tratados e outras obras foram erroneamente atribuídas e sobreviveram. Elas são atualmente referidas como sendo de Pseudo-Bernardo:
A teologia e a mariologia de Bernardo continuam sendo de grande importância, principalmente para as ordens dos cistercienses e trapistas, nas quais seus textos são prescritos como leituras obrigatórias. Bernardo foi o responsável direto pela fundação de 163 mosteiros em diferentes partes da Europa e, quando morreu, o número era de 343. Sua influência levou o papa Alexandre III a lançar reformas que levariam ao estabelecimento do "Código de Direito Canônico". Bernardo foi ainda o primeiro monge cisterciense a entrar para o calendário de santos, tendo sido canonizado por Alexandre III em 18 de janeiro de 1174. Pio VIII proclamou-o Doutor da Igreja em 1830, conhecido como "Doctor Mellifluus" ("Doutor da Voz de Mel") por sua eloquência. Os cistercienses dedicam a ele as mesmas honras reservadas aos fundadores da ordem por seu extensivo trabalho para expandi-la em seus primeiros anos. Na "Divina Comédia", de Dante Alighieri, Bernardo é o último dos guias de Dante, conduzindo-o através do Paraíso (cantos XXXI–XXXIII). O motivo parece ser o misticismo contemplativo de Bernardo, sua devoção à Virgem Maria e sua reputação de eloquência.
São Bernardo e Portugal
Há lendas que associam São Bernardo a Portugal. Diz-se, por exemplo, que o próprio Bernardo teria vindo a Portugal quando se estabeleceu a Ordem de Cister no país (Mosteiro de São João de Tarouca, em 1142), e até que teria estado na Abadia de Alcobaça, um dos maiores coutos cistercienses de toda a Europa (o que evidentemente era impossível, já que a ela foi consagrada no ano da morte de Bernardo).[carece de fontes?] Estudos recentes dão como certo que São Bernardo esteja associado à independência de Portugal. Parece ter sido por sua mediação (ou pelo menos, por mediação da sua abadia) que o papa enviou um legado à Península Ibérica que reconheceu, senão a independência nacional, pelo menos o título de duque a Afonso Henriques e a submissão do novo país à Santa Sé em troca do pagamento de quatro onças de ouro anuais.[carece de fontes?]


