Boi Garantido
O Boi Garantido, cuja razão social é Associação Folclórica Boi-Bumbá Garantido, é uma associação cultural e popular conhecida como boi folclórico, que participa do Festival Folclórico de Parintins. Se caracteriza por ter como cores principais o vermelho e o branco, sendo esta última cor representada na pelagem do touro que identifica a agremiação, este apresentando um símbolo de coração vermelho na testa, sendo este o seu maior símbolo.
O nome Garantido surgiu do próprio criador, Lindolfo Monteverde, que em suas toadas sempre lembrava aos torcedores do boi adversário que seu bumbá sempre saía inteiro dos confrontos de ruas que, na época, eram rotineiros. Dizia Lindolfo que, nas brigas com os rivais, a cabeça de seu boi nunca quebrava ou ficava avariada, “isso era garantido”. Desde a sua criação, o Garantido se apresenta com um coração na testa, e suas cores, vermelho e branco, foram adotadas pelos torcedores. A cor do coração na testa do boi costumava ser preta até meados dos anos 1980, quando Dona Maria Ângela Faria, até hoje conhecida como madrinha do Garantido, deu a ideia deste ser pintado de vermelho. Ideia que foi prontamente executada pelo artista Jair Mendes. Em sua trajetória, lhe foram atribuídos vários adjetivos carinhosos, como: "Brinquedo de São João", "Boi da Promessa", "Boi da Baixa do São José", "'Eterno Campeão", "Oitava Maravilha", "Boi do Povão", entre outros. O mais popular é "Boi do Povão", alcunha sempre citada na arena, especificamente por seus torcedores.
O Boi Garantido está situado na antiga estrada Terra Santa, hoje Av. Lindolfo Monteverde, na tradicional Baixa do São José. Atualmente, um complexo arquitetônico da antiga Fabril Juta, localizado no km 1 da Rodovia Odovaldo Novo, adquirido pela agremiação, abriga toda a estrutura de galpões, curral, diretoria e demais coordenadorias que fazem parte da administração do Bumbá conhecido como Cidade Garantido.
Em 2015, primeiro ano de mandato de Adelson Albuquerque, o Garantido resolveu inovar pela tradição. Capitaneados por Mencius Melo, a Comissão de Artes resolve apresentar na arena a encenação do Auto do Boi após quase 40 anos. A cênica é lembrada como um momento histórico, na terceira noite do Festival. O momento foi apresentado ao som do verso História Antiga, de Tony Medeiros: Preste atenção na história que agora vou recordarÉ uma história antiga, do Auto do Boi BumbáMãe Catirina pediu, pra Pai Francisco buscarO Boi amado do Amo e sua língua tirarSe não cumprisse o pedido, seu filho não nasceriaE a gravidez da amada em risco ele poriaFoi pelo filho amado que Pai Francisco matouO Boi amado do Amo e sua língua tirouA morte do Boi amado grande tristeza criouE na fazenda inteira, até meu Amo chorouFicara tão transtornado que pro Pajé implorouE foi com a pajelança que ele ressuscitou A repercussão positiva deste momento foi tanta que no ano seguinte, em 2016, o Garantido apresentou a toada Auto do Boi Garantido, de Enéas Dias, Marcos Boi e João Kennedy. Nela, o mesmo momento era retratado através de um verdadeiro teatro a céu aberto encenado por Tony Medeiros (Amo do Boi), Djidja Cardoso (Sinhazinha), Sebastião Jr (Vaqueiro Fama Real) e João Paulo Faria, que assumira o posto de Pai Francisco do Garantido em 2015, dando voz e uma inédita carga dramática ao personagem, que até então era um cômico figurante na arena.
Início
Há muita controvérsia sobre a história dos Bumbás de Parintins, uma vez que os bois folclóricos do Amazonas não eram associações legalmente registradas nem possuíam farta cobertura da imprensa até a criação do Festival. Tudo o que se sabe atualmente foi levantado por pesquisadores a partir de entrevistas a membros das duas entidades, além de consultas a outros registros da tradição oral. O fato é que a extrema rivalidade dos bois, faz com que ambas as entidades busquem se afirmar como a mais antiga, o que leva seus torcedores e integrantes a defenderem teses que sugerem datas de fundação mais remotas. Quanto ao Boi Garantido, é consenso que seu fundador é Lindolfo Monteverde. Em Junho de 1913 Monteverde, aos 18 anos de idade, decidiu criar seu próprio boizinho feito de Curuatá, uma carapaça que envolve os frutos da palmeira de Inajá, o chamado Boi Mirim, que até hoje é muito comum no Norte e Nordeste do Brasil. Devido a uma grave doença, fez uma promessa a São João Batista, se ficasse curado, iria realizar anualmente uma ladainha e uma festa de boi em sua homenagem. Lindolfo foi atendido em seu pedido e cumpriu sua promessa. Contam os mais antigos que a apresentação começou com a ladainha e depois houve distribuição de aluá, bolo de macaxeira, tacacá e no final, muito forró. A partir de então, todos os anos os torcedores do Garantido se reúnem na noite de 24 de Junho para rezar a ladainha e festejar São João Batista e em seguida, saem pelas ruas da cidade, dançando em frente às casas que tiverem fogueiras acesas.
Década de 1980
Em 1988, ano de inauguração do Bumbódromo, o Garantido, impulsionado pela força de sua galera e memoráveis toadas, vence o primeiro Festival realizado na atual arena. A grande inovação do ano ficou por conta da Vaqueirada que, pela primeira vez, ostentou lanças enfeitadas com fitas de metalóide, substituindo o então tradicional papel de seda. No bloco musical, o destaque ficou por conta da toada "Mãe Catirina" que, tamanho o alvoroço causado na arquibancada vermelha do Bumbódromo, fez com que os engenheiros da arena deixassem a ilha na manhã do segundo dia de Festival por medo que a mesma desabasse. Parafusos foram achados nos corredores sob a arquibancada após o festival.
Década de 1990
Em 1991, o apresentador Paulinho Faria convidou o compositor do Boi Contrário, Chico da Silva para fazer toadas também para o Garantido. Compôs a toada "Boi do Carmo". A toada fazia uma homenagem à Padroeira de Parintins, Nossa Senhora do Carmo. Chico da Silva como era do Boi Contrário também compôs nesse ano a toada "Missionário da Luz", em homenagem ao curandeiro Waldir Viana. Naquele ano, o Garantido abriu a noite do primeiro dia do Festival com uma apresentação modesta. Durante a apresentação do Boi Contrário, formou-se um tempo de chuva em Parintins, que transformou-se forte temporal, destruindo as alegorias do Boi Contrário, que não teve tempo de se recuperar para os dois dias seguintes. O Boi Garantido foi sagrado campeão. Em 1993, foi gravada a toada "Tic, Tic Tac", que se tornaria sucesso internacional em 1997 com o Grupo Carrapicho. A toada foi composta por Braulino Lima e fazia parte da temática do Garantido em 1993, "Rio Amazonas, Este Rio é Minha Vida". Em 1996, um produtor francês ouviu a toada na versão do Grupo Carrapicho e decidiu lançá-la na França. O sucesso foi tão grande que a toada se tornou hit do verão europeu e rapidamente conquistou o Brasil.
Década de 2000
Com apresentações cada vez mais modestas, o Boi Garantido entrou em uma crise financeira logo após o Festival de 2008. Credores ganhavam na justiça o direito sobre os bens da agremiação. Um sócio chegou a denunciar que o Garantido devia um total de 12 milhões de reais e que não passava de uma massa falida. O Curral da Baixa do São José, símbolo do Boi Garantido, foi leiloado duas vezes para pagamento de dívidas. A agremiação conseguiu comprá-lo de volta. Em 2009, o Garantido vem com o tema "Emoção". Nesse ano a enchente do Rio Amazonas chegou à Cidade Garantido e atingiu o lugar onde são produzidas as Alegorias. Os artistas tiveram que retirá-las dos galpões e levá-las para a praça em frente ao Bumbódromo, em um percurso de mais de três quilômetros. Muitas foram as chacotas por parte dos torcedores do Boi Contrário. Nas rádios, nas festas e na internet, chamavam os torcedores do Garantido de alagados, afogados, atolados e etc. Para piorar mais ainda a situação, devido a má administração o Garantido deixou de receber vários recursos. Os artistas trabalhavam sem receber o seu devido salário. O Ministério Público do Trabalho embargou os trabalhos de alegoria em frente ao Bumbódromo alegando que não havia condições de salubridade para o trabalho. Muitos acreditaram que, pela primeira vez, o Garantido não entraria na arena desde o início do Festival.
Década de 2010
Em 2010, com o tema "Paixão", o Garantido traz uma convidada especial, a cantora Daniela Mercury. Daniela faz uma participação na faixa de abertura do CD, na toada Paixão de Coração. Neste álbum, além do levantador de toadas, as toadas também foram gravadas na voz do apresentador Israel Paulain, do amo do boi Tony Medeiros e da cantora Márcia Siqueira. Robson Júnior, que já havia sido levantador de toadas do Boi Contrário em 2003, assume o item, mas devido a problemas de saúde, teve que deixar o posto dias antes da apresentação na arena do Bumbódromo, sendo substituído rapidamente pelo jovem cantor Sebastião Júnior. Sebastião Júnior é músico e uma grande revelação no Festival. Sebastião canta desde os 15 anos, iniciou sua carreira cantando no festival das tribos, o Festribal, da cidade de Juruti, no Pará. Também cantou com Daniela Mercury para mais de 1 milhão de pessoas no Rio de Janeiro, no Réveillon em Copacabana.
Década de 2020
Para a comissão de artes, a associação contratou o coreógrafo Gandhi Tabosa, o diretor e produtor musical Enéas Dias e a mestre em História e uma das lideranças do Movimento de Juventude e de Estudantes Indígenas do Amazonas, Izabel Cristine Munduruku. O tema do 58º Festival Folclórico de Parintins, foi anunciado em 11 de outubro e terá como título o famoso bordão criado por Paulinho Faria nos anos 80: "Boi do Povo, Boi do Povão".Em 19 de fevereiro, a diretoria anunciou a despedida de Edilene Tavares e David Assayag dos cargos de Rainha do Folclore e Levantador de Toadas, respectivamente. A nova rainha do folclore se tornou Lívia Christina e para porta-estandarte Jeveny Mendonça.No dia 21 de junho, ocorreu o sorteio da ordem de apresentação dos bumbás, onde foi acordado que o Garantido faria a abertura e o encerramento do festival. Em 26 de junho, um dia antes do festival, a agremiação apresentou em coletiva de imprensa o projeto de arena e os subtemas dos três dias de apresentação, sendo estes: "Somos os Povos da Amazônia", "Terra Brasileira" e "Boi do Brasil".
Alvorada
É uma festa que acontece na madrugada do dia 1º de Maio, Dia do Trabalhador, em homenagem a São José Operário. Lindolfo Monteverde criou esta festa para marcar o início dos ensaios do Garantido. Na noite de 30 de Abril, os torcedores se reúnem no Curral Lindolfo Monteverde, na Cidade Garantido. Na madrugada, o Boi Garantido, a Batucada e os torcedores saem em passeata, passando pela Baixa do São José e tradicionalmente pela casa de dona Maria Ângela Faria, seguindo pela avenida Amazonas, até chegar à Catedral de Nossa Senhora do Carmo. A festa vai até amanhecer, daí a origem do nome. Nos últimos anos o sucesso da Alvorada se tornou tão grande que já vêm sendo organizadas várias excursões de turistas para Parintins a fim de participarem da festa.
Santo Antônio
É outra passeata do Boi Garantido que acontece no dia 12 de Junho, Dia dos Namorados e véspera de Santo Antônio. Repete um costume do Bumba-Meu-Boi do Maranhão de festejar Santo Antônio na véspera, começando com uma ladainha. A reza da ladainha é feita no Curral da Baixa do São José, na casa da família Monteverde. É posta uma mesa enfeitada com flores e velas com a imagem do Santo. Termina a ladainha, acontece outra passeata no mesmo estilo da Alvorada, com o Boi a Batucada e os torcedores. Nas casas que possuem fogueiras, o Garantido para e entrega uma rosa a dona da casa. De acordo com o historiador Sérgio Ivan Braga, nos dias 12 e 13 de Junho, Lindolfo arrecadava dinheiro dos simpatizantes para a festa principal, que é a Festa de São João Batista.
São João
É a festa do cumprimento da promessa. É semelhante à festa de Santo Antônio, porém ocorre no dia 24 de Junho, o mesmo dia dedicado ao Santo pela Igreja Católica. Também ocorre a ladainha no Curral da Baixa do São José e a passeata até a Catedral, com o Boi Garantido dançando em frente às casas que possuem fogueiras. A mesa é enfeitada com quatro velas e rosas vermelhas e brancas. A imagem de São João Batista adulto é colocada no centro da mesa, com suas fitas vermelhas e verdes, e no fundo é colocado o quadro da Sagrada Família. Após a morte de Lindolfo, seu filho, João Batista Monteverde passou a ser o anfitrião da cerimônia.
Matança do Boi
Realizada anualmente todo o dia 17 de Julho, pela família Monteverde, após o término da festa de Nossa Senhora do Carmo dia 16, a festa da morte do boi marca o fim oficial das festividades do Garantido no ano corrente. A festa se inicia com a tradicional ladainha realizada no Curral da Baixa do São José, após ela, os brincantes do Garantido saem as ruas para encenar a morte do boi, em alusão ao Auto do Boi. O Garantido tem seus chifres enfeitados com palmeiras de piririmas, é perseguido até ser capturado pelos vaqueiros, é golpeado e morto por Pai Francisco, e em meio a versos e cantorias, é ressuscitado. São cantadas toadas atuais e antigas do Garantido. Durante muitos anos, a festa da Morte do Boi atraía milhares de torcedores do Boi Garantido para Parintins, entretanto nos últimos anos, em virtude do pouco apoio dado pelas diretorias do bumbá, a festa perdeu espaço e quase foi extinta.
A arquibancada da galera encarnada fica na lateral esquerda do Bumbódromo. A torcida do Boi Garantido tem a alcunha de 'perreché', esse apelido foi dado pelo amo do boi contrário como forma de ofensa e segregação social. De acordo com o doutor em linguística e autor do dicionário Amazonês, Sérgio Freire, o termo 'perreché' vem da corruptela de "pé rachado", indicando a conotação negativa, associada à pobreza e simplicidade dos moradores do bairro da Baixa do São José, reduto do Garantido. Outras alcunhas como 'galera vermelha e branca', 'os camisa encarnada', 'nação vermelha' também fazem parte deste grupo. A torcida organizada responsável pela galera vermelha é o 'Comando Garantido', composto por integrantes de Parintins e Manaus.
Batucada
No Garantido, 'Batucada', é o nome do conjunto de ritmistas que toca durante as duas horas e meia de apresentação. Dispõe de cerca de 350 batuqueiros. O lema oficial da banda é ‘Ritmo, Cadência e Tradição’. O regente da Batucada, no Boi Garantido, é chamado de 'Peara', nome que os indígenas atribuem ao porco do mato que lidera o bando. Os Batuqueiros da Baixa também são chamados de Camisas Encarnadas.


