Bombardeamentos atômicos de Hiroshima e Nagasaki
Bombardeamentos atômicos (português brasileiro) ou atómicos (português europeu) das cidades de Hiroshima e Nagasaki foram dois bombardeios realizados pelos Estados Unidos contra o Império do Japão durante os estágios finais da Segunda Guerra Mundial, em agosto de 1945. Foi o primeiro e único momento na história em que armas nucleares foram usadas em guerra e contra alvos civis.
Guerra do Pacífico
Em 1945, a Guerra do Pacífico entre o Império do Japão e os Aliados entrou em seu quarto ano. Das 1,25 milhão de baixas em combate incorridas pelos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, incluindo as dos militares mortos e feridos em combate, quase um milhão ocorreu no período de doze meses entre junho de 1944 e junho de 1945. Em dezembro 1944, o número de vítimas norte-americanas em combate bateu um recorde histórico mensal de 88 mil, como resultado da Ofensiva das Ardenas pelos alemães. No Pacífico, os Aliados voltaram para as Filipinas, recapturaram a Birmânia e invadiram Bornéu. Ofensivas comprometeram-se a reduzir as forças japonesas remanescentes em Bougainville, Nova Guiné e Filipinas. Em abril de 1945, as forças norte-americanas desembarcaram em Okinawa, onde violentos combates continuaram até junho. Ao longo do caminho, a relação de baixas japonesas e norte-americanas caiu de 5:1, nas Filipinas, para 2:1 em Okinawa.
Preparativos para invadir o Japão
Mesmo antes da rendição da Alemanha nazista, em 8 de maio de 1945, planos estavam em andamento para a maior operação da Guerra do Pacífico, a Operação Downfall, o nome dado para a invasão do Japão. A operação teve duas partes: as operações Olympic e Coronet. Começando em outubro de 1945, a Olympic envolveu uma série de desembarques do Sexto Exército dos Estados Unidos com o objetivo de capturar a terceira principal ilha japonesa mais ao sul, Kyūshū. A operação Olympic devia ser seguida em março de 1946 pela Operação Coronet, a captura da planície de Kantō, perto de Tóquio, na principal ilha japonesa de Honshū, pelos Primeiro, Oitavo e Décimo Exércitos dos Estados Unidos. A data limite foi escolhida para permitir que a Olympic completasse seus objetivos, para as tropas reafetar da Europa e o inverno japonês terminar.
Bombardeios no Japão
Apesar dos Estados Unidos terem desenvolvido planos para uma campanha aérea contra o Japão, antes da Guerra do Pacífico, a captura de bases aliadas no Pacífico ocidental nas primeiras semanas do conflito acabou por postergar esta ofensiva até meados de 1944, quando o Boeing B-29 Superfortress ficou pronto para uso em combate. A Operação Matterhorn envolvia aviões B-29 baseados na Índia estacionados em bases nos arredores de Chengdu, na China, para fazer uma série de ataques a alvos estratégicos no Japão. A operação não atingiu os objetivos estratégicos que os seus planejadores previam, em grande parte devido a problemas de logística, problemas mecânicos do bombardeiro, a vulnerabilidade das bases de preparação chinesas e a longa distância necessária para alcançar as principais cidades japonesas.
Desenvolvimento de armas atômicas
Trabalhando em colaboração com o Reino Unido e Canadá, com suas respectivas equipes de projetos, o Projeto Manhattan, sob a direção do Major General Leslie Groves, do Corpo de Engenheiros do Exército dos Estados Unidos, projetou e construiu as primeiras bombas atômicas. A pesquisa preliminar começou em 1939, originalmente pelo medo de que o projeto da bomba atômica alemã acabasse por desenvolver armas nucleares antes dos Aliados. Com a derrota da Alemanha, em maio de 1945, os planos mudaram para o uso da bomba contra o Japão. Dois tipos de bombas foram elaborados por cientistas e técnicos do Laboratório Nacional de Los Alamos, sob a liderança do físico norte-americano J. Robert Oppenheimer. A bomba de Hiroshima, conhecida como Little Boy, era uma arma de fissão de tipo balístico que usava urânio-235, um isótopo raro de urânio extraído em fábricas gigantes em Oak Ridge, Tennessee. O outro era mais poderoso e eficiente, mas mais complicado por conta da implosão de uma arma nuclear com o uso de plutônio-239, um elemento sintético criado em reatores nucleares em Hanford, Washington. Uma arma nuclear de teste foi detonada durante a Experiência Trinity, em 16 de julho de 1945, perto de Alamogordo, Novo México. A bomba de Nagasaki, a Fat Man, era um dispositivo similar.
Organização e treinamento
O 509º Grupo Composto foi constituído em 9 de dezembro de 1944 e ativado em 17 de dezembro de 1944, na Base Aérea de Wendover, em Utah, comandado pelo coronel Paul Tibbets. Tibbets foi designado para organizar e comandar um grupo de combate para o desenvolvimento dos meios para lançar uma arma atômica contra alvos no Japão e na Alemanha. Visto que os esquadrões aéreos do grupo consistiam em bombardeiro e transporte aéreo, o grupo era designado como "composto", em vez de uma unidade de bombardeio. Trabalhando com o Projeto Manhattan, em Los Alamos, Tibbets selecionou Wendover como sua base de treinamento sobre Great Bend, Kansas, e Mountain Home, Idaho, por causa de seu afastamento.
Escolha dos alvos
Em abril de 1945, Marshall perguntou a Groves nomes específicos como alvos do bombardeio nuclear para aprovação final pelo próprio e Stimson. Groves formou um Comitê do Alvo presidido por ele próprio, que incluía Farrell, major John A. Derry, coronel William P. Fisher, Joyce C. Stearns e David M. Dennison das USAAF; além dos cientistas John von Neumann, Robert R. Wilson e William Penney, do Projeto Manhattan. O Comitê do Alvo foi para Washington em 27 de abril; para Los Alamos em 10 de maio, onde conversou com os cientistas e técnicos de lá; e, finalmente, novamente para Washington em 28 de maio, onde foi formado por Tibbets, Frederick Ashworth, o comandante do Projeto Alberta, e Richard C. Tolman, o conselheiro científico do Projeto Manhattan.
Distribuição de folhetos
Durante vários meses, os Estados Unidos despejarem mais de 63 milhões de folhetos em todo o Japão advertindo os civis sobre os ataques aéreos. Muitas cidades japonesas sofreram danos terríveis de bombardeios aéreos, sendo que algumas chegarem a ter 97% de seu território destruído. LeMay pensava que isso iria aumentar o impacto psicológico do bombardeio e reduzir o estigma do bombardeio aéreo de cidades. Mesmo com os avisos, a oposição japonesa à guerra permaneceu ineficaz. Em geral, os japoneses consideravam as mensagens nos folhetos como verdadeiras, mas qualquer um que fosse pego em posse de um deles era preso. Os textos dos folhetos foram preparados pelos mais recentes prisioneiros de guerra japoneses, porque acreditava-se que fossem a melhor escolha "para apelar aos seus compatriotas".
Declaração de Potsdam
Em 26 de julho, os líderes aliados redigiram a Declaração de Potsdam, que delineava os termos da rendição do Japão. Ela foi apresentada como um ultimato e afirmava que, sem uma rendição, os Aliados iriam atacar o Japão, resultando "na destruição inevitável e completa das forças armadas japonesas e na igualmente inevitável devastação da pátria japonesa". A bomba atômica não foi mencionada no comunicado. Em 28 de julho, jornais japoneses noticiavam que a declaração havia sido rejeitada pelo governo japonês. Naquela tarde, o primeiro-ministro Kantaro Suzuki declarou numa conferência de imprensa que a Declaração de Potsdam não era mais que uma repetição (yakinaoshi) da Declaração do Cairo e que o governo pretendia ignorá-la (mokusatsu, "matar pelo silêncio"). A declaração foi feita por jornais japoneses e estrangeiros como uma clara rejeição da declaração. O Imperador Hirohito, que estava esperando por uma resposta soviética, não fez nenhum movimento para mudar a posição do governo.
Bombas
A bomba Little Boy, com exceção da carga de urânio, estava pronta no início de maio de 1945. O projétil de urânio-235 foi concluído em 15 de junho e o alvo em 24 de julho. O destino e a bomba pré-montada (bombas parcialmente montadas sem os componentes físseis) deixou o Hunters Point Naval Shipyard, na Califórnia, em 16 de julho, a bordo do cruzador USS Indianapolis, chegando em 26 de julho. As inserções aos alvos seguiram pelo ar em 30 de julho. O primeiro núcleo de plutônio, juntamente com o iniciador de nêutrons modulados de polônio-berílio, foi transportado sob a custódia de Raemer Schreiber, do Projeto Alberta, em um campo de magnésio concebido para o feito por Philip Morrison. O magnésio foi escolhido porque não age como refletor de nêutrons. O núcleo partiu da Base Aérea de Kirtland em um avião de transporte C-54 do 320º Esquadrão do 509º Grupo Composto em 26 de julho e chegou a North Field em 28 de julho. Três explosivos pré-montados da Fat Man, designados como F31, F32 e F33, foram apanhados em Kirtland em 28 de julho por três B-29 do 393º Esquadrão de Bombardeio, além de um da 216ª Base Aérea da Força Aérea do Exército, e foram transportados para North Field, chegando em 2 de agosto.
Hiroshima durante a Segunda Guerra Mundial
Na época do seu bombardeamento, Hiroshima era uma importante cidade industrial e militar. Algumas unidades militares estavam localizadas nas proximidades, a mais importante das quais era a sede do Segundo Exército Geral do Marechal Shunroku Hata (que comandava a defesa de todo o sul do Japão) e que estava localizada no Castelo de Hiroshima. O comando de Hata consistia em cerca de 400 mil homens, muitos dos quais estavam em Kyushu, onde uma invasão aliada foi corretamente prevista. Também presente em Hiroshima estava a sede do 59º Exército, da 5ª Divisão e da 224ª Divisão, uma unidade móvel recém-formada. A cidade era defendida por cinco baterias antiaéreas da 3ª Divisão antiaérea. No total, mais de 40 mil militares estavam estacionados na cidade.
O bombardeamento
Hiroshima era o alvo principal da primeira missão de bombardeio nuclear em 6 de agosto, sendo Kokura e Nagasaki como alvos alternativos. O B-29 Enola Gay, do 393º Esquadrão de Bombardeio, pilotado por Tibbets, decolou de North Field, em Tinian, há cerca de seis horas de voo do Japão. O Enola Gay (em homenagem a mãe de Tibbets) foi acompanhado por outros dois B-29. The Great Artiste, comandado pelo Major Charles Sweeney e carregando instrumentos, e um avião então sem nome (mais tarde chamado de Necessary Evil), comandado pelo capitão George Marquardt, serviu como a aeronave de fotografia. Depois de deixar Tinian, a aeronave fez o seu caminho separado para Iwo Jima, para o encontro com Sweeney e Marquardt às 05h55 a 9 200 pés (2 800 m) e percurso definido para o Japão. A aeronave chegou em cima do alvo com visibilidade clara a 31 060 pés (9 470 m). Parsons, que estava no comando da missão, armou a bomba durante o voo para minimizar os riscos durante a decolagem. Ele tinha testemunhado quatro aviões B-29 baterem e queimarem na decolagem e temia que uma explosão nuclear pudesse ocorrer se um B-29 caísse com uma Little Boy armada a bordo. Seu assistente, o tenente Morris R. Jeppson, retirou os dispositivos de segurança 30 minutos antes de atingir a área do alvo.
Acontecimentos em terra
Alguns dos edifícios de concreto armado em Hiroshima tinham sido muito fortemente construídos por causa do perigo de terremotos no Japão e suas estruturas não entraram em colapso, embora eles estivessem localizados bem perto do centro da explosão. Uma vez que a bomba foi detonada no ar, a explosão foi dirigida mais para baixo do que para os lados, o que foi o grande responsável pela sobrevivência do Museu Comercial de Hiroshima, agora conhecida como Memorial da Paz de Hiroshima. Este edifício foi projetado e construído pelo arquiteto tcheco Jan Letzel e estava a apenas 150 metros do ponto zero da explosão nuclear. A ruína foi considerada um Patrimônio Mundial pela UNESCO em 1996, apesar das objeções de Estados Unidos e China, que expressaram reservas sobre o fundamento de que outros países asiáticos sofreram perdas materiais e de vidas maior e que um foco sobre o Japão não tinha perspectiva histórica.
Percepção japonesa do bombardeamento
O conhecimento por parte de Tóquio do que realmente tinha causado o desastre veio do anúncio público da Casa Branca, em Washington, dezesseis horas após o ataque nuclear a Hiroshima. O operador de controle da Japanese Broadcasting Corporation, em Tóquio, reparou que a estação de Hiroshima tinha saído do ar. Ele tentou restabelecer o seu programa usando outra linha telefónica, mas esta também falhou. Cerca de 20 minutos mais tarde, o centro telegráfico de Tóquio verificou que a principal linha telegráfica tinha deixado de funcionar logo ao norte de Hiroshima. De algumas pequenas estações de ferroviárias a menos de 16 km da cidade chegaram notícias não oficiais e confusas de uma terrível explosão em Hiroshima. Todas estas notícias foram transmitidas para o Quartel General do Estado-Maior japonês.
Após o bombardeamento a Hiroshima, o Presidente Truman anunciou: "Se eles não aceitam os nossos termos, podem esperar uma chuva de fogo vinda do ar nunca antes vista na Terra." Em 8 de agosto de 1945, panfletos foram jogados e avisos foram dados por intermédio da Rádio Saipan. A campanha de panfletos já durava cerca de um mês quando estes foram lançados sobre Nagasaki, em 10 de agosto. Uma tradução em língua inglesa desse panfleto está disponível em PBS. O governo japonês não reagiu. O Imperador Hirohito, o governo e o conselho de guerra consideraram quatro condições para a rendição: a preservação do kokutai (instituição imperial e da política nacional), pressuposto pela responsabilidade imperial para o desarmamento e a desmobilização, nenhuma ocupação do arquipélago japonês, da Coreia ou de Formosa, e que a delegação da punição dos criminosos de guerra ficasse com o governo japonês. O ministro do exterior soviético, Vyacheslav Molotov, informou Tóquio sobre a revogação unilateral do pacto nipônico-soviético no dia 5 de agosto. Aos dois minutos depois da meia-noite em 9 de agosto, horário de Tóquio, infantaria, blindados e forças aéreas soviéticas haviam lançado a Ofensiva Estratégica na Manchúria. Quatro horas mais tarde, chegou a Tóquio a notícia sobre a declaração de guerra oficial da União Soviética. A liderança sênior do exército japonês começou então os preparativos para impor a lei marcial no país, com o apoio do Ministro da Guerra, Korechika Anami, a fim de impedir que alguém tentasse fazer um acordo de paz.
Eu percebo o significado trágico da bomba atômica ... É uma responsabilidade terrível que chegou até nós ... Agradecemos a Deus que veio a nós, em vez de ir para os nossos inimigos; e oramos para que Ele nos guie para usá-la em Seus caminhos e para Seus propósitos.
Nagasaki durante a Segunda Guerra Mundial
A cidade de Nagasaki era um dos maiores portos do sul do Japão e era de grande importância em tempos de guerra devido à sua abrangente atividade industrial, que incluía a produção de material bélico, navios, equipamentos militares e outros materiais de guerra. As quatro maiores empresas na cidade eram a Mitsubishi Shipyards, a Electrical Shipyards, a Arms Plant e a Steel and Arms Works, que empregavam cerca de 90% da força de trabalho da cidade e eram responsável por 90% da indústria local. Apesar de ser um importante centro industrial, Nagasaki tinha sido poupada dos bombardeios aliados, porque a sua geografia tornava sua localização difícil à noite com o radar AN/APQ-13.
O bombardeio
A responsabilidade para o momento do segundo ataque nuclear foi delegada para Tibbets. Agendado para 11 de agosto contra Kokura, o ataque foi antecipado em dois dias para evitar um período de cinco dias de mau tempo previsto para começar a 10 de agosto. Três bombas já fabricadas tinham sido transportadas para Tinian, com as marcas F-31, F-32 e F-33 em seus exteriores. Em 8 de agosto um ensaio geral foi realizado nos arredores de Tinian por Sweeney usando o Bockscar como avião de ataque. A F-33 foi usada para testar os componentes e a F-31 foi designada para a missão de 9 de agosto. Às 03:49 da manhã de 9 de agosto de 1945 o Bockscar, pilotado pela equipe de Sweeney, foi carregado com a Fat Man, tendo Kokura como o alvo principal e Nagasaki como o alvo secundário. O plano da missão para o segundo ataque era quase idêntico ao da missão Hiroshima, com dois B-29 voando uma hora à frente e dois B-29 adicionais para instrumentação e suporte fotográfico da missão. Sweeney decolou com sua arma já armada, mas com as fichas de segurança elétrica ainda envolvidas.
Acontecimentos em terra
Embora a bomba fosse mais poderosa do que a usada em Hiroshima, o efeito foi contido pelo estreito Vale de Urakami. Dos 7 500 funcionários japoneses que trabalhavam dentro da fábrica de munições da Mitsubishi, incluindo estudantes mobilizados e trabalhadores regulares, 6 200 foram mortos. Entre 17 mil e 22 mil outros que trabalharam em outras fábricas de guerra e da cidade morreram também. Estimativas de mortes e danos imediatos variam muito, de 22 mil a 75 mil. Nos dias e meses seguintes à explosão, mais pessoas morreram por conta dos efeitos secundários da bomba. Por causa da presença de trabalhadores estrangeiros em situação irregular e vários militares em trânsito, há grandes discrepâncias nas estimativas do total de mortes até o final de 1945; uma faixa entre 39 mil e 80 mil pode ser encontrada em vários estudos.
Groves esperava ter uma outra bomba atômica pronta para uso em 19 de agosto, sendo mais três em setembro e outras três em outubro. Em 10 de agosto, enviou um memorando a Marshall no qual ele escreveu que "a próxima bomba ... deve estar pronta para entrega no período adequado após 17 ou 18 de agosto." No mesmo dia, Marshall aprovou o memorando com o comentário: "Não é para ser lançada sobre o Japão, sem autorização expressa do Presidente". Já havia discussão no Ministério da Guerra sobre preservar as bombas, então em produção, para a Operação Downfall. "[...] não deveríamos concentrar-se em metas que serão de grande utilidade para uma invasão ao invés de indústria, moral, psicologia e assim por diante? Mais próximo da utilização táctica, em vez de outro tipo de utilização." Mais dois artefatos Fat Man foram preparados. O terceiro núcleo estava programado para sair da Base Aérea Kirtland, no Novo México, para Tinian em 15 de agosto e Tibbets foi ordenado por LeMay para voltar a Utah para coletá-lo. Robert Bacher foi o seu empacotamento para embarque em Los Alamos, em 14 de agosto, quando ele recebeu a notícia de Groves de que a transferência tinha sido suspensa.
Até 9 de agosto, o conselho de guerra japonês ainda insistia em suas quatro condições para a rendição. Naquele dia, Hirohito ordenou Koichi Kido para "rapidamente controlar a situação ... porque a União Soviética declarou guerra contra nós." Ele realizou uma conferência imperial então, durante o qual autorizava o ministro Shigenori Tōgō a notificar os Aliados de que o Japão iria aceitar os seus termos com uma condição, que a declaração "não incluísse qualquer exigência que prejudique as prerrogativas de Sua Majestade como um soberano". Em 12 de agosto, o Imperador informou a família imperial sobre sua decisão de se render. Um de seus tios, o príncipe Asaka, em seguida, perguntou se a guerra seria mantida e se o kokutai não poderia ser preservado. Hirohito simplesmente respondeu: "Claro". Como os termos dos aliados pareciam deixar intacto o princípio da preservação do Trono, Hirohito gravou em 14 de agosto o anúncio de rendição, que foi transmitido para a nação japonesa no dia seguinte, apesar de uma rebelião curta de militaristas que se opunham à rendição.
Durante a guerra a "retórica aniquilacionista e exterminacionalista" era tolerada em todos os níveis da sociedade norte-americana; de acordo com a embaixada britânica em Washington, os norte-americanos consideravam os japoneses como "uma massa anônima de vermes". Caricaturas representando japoneses como menos que humanos, por exemplo como macacos, eram comuns. Uma pesquisa de opinião pública de 1944 perguntou o que deveria ter sido feito com o Japão e constatou que 13% do público estadunidense era a favor de "matar" todos os japoneses: homens, mulheres e crianças. Depois da bomba de Hiroshima explodir com sucesso, Robert Oppenheimer se dirigiu a uma assembleia em Los Alamos "juntando as mãos, como um boxeador premiado". O Vaticano foi menos entusiástico; seu jornal, L'Osservatore Romano, lamentou que os inventores da bomba não destruíram a arma para o benefício da humanidade. No entanto, a notícia do bombardeio atômico foi recebida com entusiasmo nos Estados Unidos; uma pesquisa na revista Fortune no final de 1945 mostrou uma minoria significativa de norte-americanos (22,7%) que desejavam que mais bombas atômicas fossem lançadas sobre o Japão. A resposta positiva inicial foi apoiada pelo imaginário apresentado ao público (principalmente as poderosas imagens da nuvem de cogumelo) e pela censura, por parte do governo norte-americano, de fotografias que mostravam cadáveres e sobreviventes mutilados.
Na primavera de 1948, a "Atomic Bomb Casualty Commission" (ABCC) foi estabelecida em conformidade com um decreto presidencial de Truman para a Academia Nacional de Ciências — Conselho Nacional de Pesquisa dos Estados Unidos para realizar pesquisas sobre os efeitos tardios da radiação entre os sobreviventes de Hiroshima e Nagasaki. Um dos primeiros estudos realizados pela ABCC era sobre o resultado da gravidez que ocorre em Hiroshima e Nagasaki, e em uma cidade controle, Kure, localizada a 29 km ao sul de Hiroshima, a fim de discernir as condições e os resultados relacionados com a exposição à radiação. Dr. James V. Neel liderou o estudo, que concluiu que o número de defeitos congênitos não era significativamente maior entre os filhos dos sobreviventes que estavam grávidas no momento dos ataques. A Academia Nacional de Ciências questionou o procedimento de Neel por não filtrar a população Kure para exposição à radiação possível. Entre os defeitos congênitos observados houve uma maior incidência de má-formação encefálica em Nagasaki e Hiroshima, incluindo microcefalia e anencefalia, cerca de 2,75 vezes a taxa observada em Kure.
Os sobreviventes dos bombardeios são chamados de hibakusha (em japonês: 被爆者; romaniz.: hibakusha; lit. "pessoas afetadas pela explosão"). Em 31 de março de 2014, 192 719 hibakushas eram reconhecidos pelo governo japonês, a maioria vivendo no Japão. O governo nipônico reconhece que cerca de 1% deles têm doenças causadas pela radiação. Os memoriais em Hiroshima e Nagasaki contêm listas com os nomes dos hibakusha que são conhecidos por terem morrido desde os ataques atômicos. Atualizado anualmente, nos aniversários dos atentados, em agosto de 2014, os memoriais gravam os nomes de mais de 450 mil hibakusha; 292 325 em Hiroshima e 165 409 em Nagasaki. Os hibakusha e seus filhos eram (e ainda são) vítimas de grave discriminação no Japão devido a ignorância do público sobre as consequências do envenenamento radioativo, sendo que grande parte do público acredita ser algo hereditário ou mesmo contagiosa. Apesar do fato de que foi encontrado aumento estatisticamente comprovado de defeitos congênitos ou malformações congênitas entre as crianças concebidas e nascidas de sobreviventes de Hiroshima e Nagasaki. Um estudo sobre os efeitos psicológicos de longo prazo dos bombardeios sobre os sobreviventes descobriram que mesmo entre 17 e 20 anos após os ataques, os sobreviventes mostraram uma maior prevalência de sintomas de ansiedade e somatização.
Sobreviventes duplos
Em 24 de março de 2009, o governo japonês reconheceu oficialmente Tsutomu Yamaguchi como um hibakusha duplo. Foi confirmado que ele estava a 3 km do marco zero em Hiroshima em uma viagem de negócios quando Little Boy foi detonada. Ele ficou gravemente queimado em seu lado esquerdo e passou a noite em Hiroshima. Ele chegou em sua casa na cidade de Nagasaki em 8 de agosto, um dia antes da Fat Man ser lançada, e ele foi exposto a uma radiação residual, enquanto procurava por seus parentes. Ele foi o primeiro sobrevivente das duas bombas oficialmente reconhecido. Ele morreu em 4 de janeiro de 2010, com a idade de 93 anos, após uma batalha contra o câncer de estômago. O documentário de 2006 Twice Survived: The Doubly Atomic Bombed of Hiroshima and Nagasaki documentou 165 nijū hibakusha (literalmente "pessoas duplamente afetadas pela explosão") e foi exibido nas Nações Unidas.
Sobreviventes coreanos
Durante a guerra, o Japão trouxe até 670 mil recrutas coreanos para o Japão para o trabalho forçado. Cerca de 20 mil coreanos foram mortos em Hiroshima e outros 2 mil morreram em Nagasaki. Talvez um em cada sete das vítimas de Hiroshima eram de ascendência coreana. Por muitos anos, os coreanos tiveram de lutar por reconhecimento como vítimas das bombas atômicas e a eles foram negados benefícios para a saúde. A maioria dos problemas foram solucionados nos últimos anos através de ações judiciais.


