Família Brontë
Os Brontë foram uma família literária do século XIX associada à aldeia de Thorton, localizada no West Riding of Yorkshire, Inglaterra. As irmãs Charlotte (1816-1855), Emily (1818-1848) e Anne (1820-1849) são escritoras e poetisas bem conhecidas do grande público. À semelhança de muitas escritoras da sua época, inicialmente elas publicaram os seus poemas e romances sob pseudónimos masculinos: Currer, Ellis e Acton Bell. Os seus livros tiveram bastante sucesso assim que foram publicados. Jane Eyre de Charlotte foi o primeiro romance a ser publicado, seguido de Wuthering Heights de Emily e The Tenant of Wildfell Hall de Anne. As três irmãs e o seu irmão Branwell eram bastante próximos e na infância desenvolveram as suas imaginações através das histórias que ouviam da empregada e da criação de mundos imaginários que, mais tarde, desenvolveram na escrita.
A origem da família Brontë pode ser traçada até ao clã irlandês Ó Pronntaigh, que se traduz literalmente para "filho de Pronntach". Esta era uma família de escribas e homens da literatura em Fermanagh. o que é relacionado com a palavra bronnadh. A versão inglesa deste nome é Prunty e, por vezes Brunty. A certa altura, o pai das irmãs, Patrick Brontë (nascido Brunty) decidiu mudar o seu apelido. Não se sabe ao certo o que o levou a fazê-lo e existem várias teorias. Ele pode tê-lo feito para esconder as suas origens humildes. Como homem de letras, ele estaria familiarizado com o grego clássico e é possível que se tenha baseado na palavra grega βροντή ("trovão") para escolher o seu nome. Um ponto de vista, apresentado pelo biógrafo C. K. Shorter em 1896, é que ele adaptou o seu nome para se associar com o Almirante Horatio Nelson, que também foi o Duque de Bronte. Prova disso é o facto de ele querer imitar o Duque de Wellington na forma como se vestia.
Patrick Brontë
Patrick Brontë (17 de março de 1777 – 7 de junho de 1861), nasceu em Loughbrickland, Condado de Down, na Irlanda, numa família de trabalhadores rurais com rendimentos médios. O seu nome de nascimento era Patrick Prunty ou Brunty. A sua mãe, Alice McClory, era católica romana, enquanto que o seu pai, Hugh era protestante, e Patrick foi criado com a religião do pai. Ele acabou por se tornar no sacerdote permanente da paróquia de Haworth. Foi também poeta, escritor e polemista. Patrick, um sacerdote anglicano de origens irlandesas, nasceu no Dia de São Patrício, em 17 de março de 1777. Na infância e juventude mostrou inteligência e, depois de ter lições com o Reverendo Thomas Tighe, conseguiu uma bolsa de estudos para a St John's College da Universidade de Cambridge onde estudou Teologia e História Antiga e Moderna. Depois de terminar os seus estudos em Cambridge, foi ordenado sacerdote no dia 10 de agosto de 1806. Nos anos seguintes, escreveu dois livros de poesia: Cottage Poems (1811) e The Rural Minstrel (1814) e ainda vários panfletos, artigos para jornais e uma série de poemas rurais.
Maria Branwell Brontë
A esposa de Patrick, Maria Brontë (nascida Branwell) (15 de abril de 1783 – 15 de setembro de 1821), era natural de Penzance, Cornualha e vinha de uma família de classe média alta. O seu pai tinha uma loja de chá e mercearia de sucesso que lhe deu uma fortuna considerável. Maria faleceu com 38 anos de cancro do útero. Maria casou-se no mesmo dia que a sua irmã Charlotte, na igreja de Guiseley, depois de o seu noivo ter celebrado a união de outros dois casais. Ela era uma mulher educada e devota, conhecida pela sua disposição animada, pela sua alegria e pela sua bondade. Patrick e Charlotte foram os únicos a deixar memórias dela. Os filhos mais novos, especialmente Emily e Anne lembravam-se apenas vagamente da mãe e as poucas memórias que tinham dela eram principalmente do sofrimento por que passou durante a sua doença.
Elizabeth Branwell
Elizabeth Branwell (2 de dezembro de 1776 – 29 de outubro de 1842) chegou de Penzance em 1821, com 45 anos, após a morte de Maria, a sua irmã mais nova, para ajudar Patrick a cuidar das crianças. Ela era tratada por "Tia Branwell". Elizabeth ensinou aritmética, o alfabeto e costura às crianças. Ela era subscritora da revista Fraser's Magazine e debatia os seus artigos com os sobrinhos. Elizabeth era uma pessoa generosa que dedicou a sua vida aos sobrinhos e nunca se casou, nem regressou à Cornualha para visitar os seus familiares. Ela morreu de obstrução intestinal em outubro de 1842 após um breve período de grande agonia. Às portas da morte, foi consolada pelo seu sobrinho Branwell. No seu testamento, Elizabeth deixou uma quantia significativa de dinheiro aos sobrinhos, o que permitiu que Charlotte, Emily e Anne deixassem os seus empregos de governantas e professoras e se dedicassem por completo à literatura.
Filhos
Maria, a filha mais velha, nasceu na Clough House, em High Town, no dia 4 de abril de 1814. Ela foi sujeita a períodos de fome e privação na escola Cowan Bridge. Charlotte descreveu-a como animada, muito sensível e bastante avançada na leitura. Ela regressou da escola com tuberculose num estado já avançado e morreu em Haworth com 11 anos de idade, em 6 de maio de 1825. Elizabeth (1815–1825), a segunda filha, também frequentou a Cowan Bridge, onde sofreu o mesmo destino da irmã. Charlotte descreveu-a como menos animada do que os irmãos e, aparentemente, menos inteligente. Ela morreu com 10 anos de idade, em 15 de junho de 1825, duas semanas depois de regressar a casa da escola.
Patrick Brontë teve dificuldades em organizar a educação das suas filhas, uma vez que a família pertencia à classe média baixa e não tinha muito dinheiro. Além disso, não tinha grandes conhecimentos, nem meios para pagar as mensalidades das escolas privadas mais prestigiadas. Uma das soluções para o seu problemas eram as chamadas "escolas de caridade" que tinham como objetivo auxiliar famílias de poucos meios, como era o caso das famílias do baixo clero. Não se pode acusar Patrick de não ter feito o seu melhor para encontrar a melhor escola para as suas filhas. Como Juliet Baker comentou, ele tinha lido relatórios de processos judiciais contra escolas em Yorkshire devido a casos de alunos mordidos por ratazanas e subnutridos ao ponto de terem perdido a visão, pelo que não era ignorante em relação à forma como algumas crianças eram tratadas em escolas privadas. No entanto, tudo apontava para que a Clergy Daughters' School do Reverendo Carus Wilson providenciava um ensino de qualidade e tratava bem as suas alunas. Esta escola não era cara e os seus benfeitores eram todos pessoas respeitadas. Entre eles encontrava-se a filha de Hannah Moore, uma escritora que era amiga chegada do poeta William Cowper, ambos apoiantes de uma educação correta para as crianças. Assim, Patrick acreditava que a escola do Reverendo Wilson tinha as qualidades necessárias para que as suas filhas tivessem uma boa experiência.
Clergy Daughter's School em Cowan Bridge
Em 1824, as quatro filhas mais velhas de Patrick ingressaram na Clergy Daughters' School em Cowan Bridge. A escola dedicava-se a educar as filhas de membros mais pobres do clero e tinha sido recomendada a Patrick. No ano seguinte, Maria e Elizabeth ficaram gravemente doentes e foram retiradas da escola, porém morreram pouco tempo depois de chegarem a casa e com poucas semanas de diferença entre elas. Charlotte e Emily também foram retiradas da escola e regressaram a Haworth. A perda das suas irmãs provocou um trauma que se refletiu no trabalho de Charlotte. Em Jane Eyre, Cowan Bridge assume a forma de Lowood e Maria é representada pela personagem da jovem Helen Burns, a crueldade de Miss Andrews é representada por Miss Scatcherd e a tirania do diretor, o Reverendo Carus Wilson, por Mr. Brocklehurst.
A escola de Miss Wooler
Em 1831, Charlotte, na altura com 14 anos, ingressou na escola de Miss Wooler em Roe Head. Patrick tinha a opção de enviar a filha para uma escola menos dispendiosa e mais perto de casa em Keighley, mas Miss Wooler e as suas irmãs tinham uma boa reputação e ele lembrava-se bem do edifício onde funcionava a escola, uma vez que passava bastantes vezes por lá nos seus passeios quando era sacerdote em Kirklees, Dewsbury e Hartshead-cum-Clifton. Margaret Wooler ganhou um grande afeto pelas irmãs Brontë e acompanhou Charlotte ao altar no seu casamento. A escolha de Patrick deu bons resultados: Charlotte foi muito feliz nesta escola e teve bom aproveitamento. Fez também amizades que duraram toda a sua vida com Ellen Nussey e Mary Taylor.
As crianças interessaram-se cedo pela escrita. Inicialmente, ela surgiu na forma de um jogo que, mais tarde, evoluiu para uma paixão. Apesar de todos demonstrarem ter um grande talento para a narrativa, foram as irmãs mais novas que começaram a desenvolver as histórias nos seus tempos livres. No centro da criatividade das crianças estavam doze soldados de madeira que Patrick Brontë ofereceu a Branwell no início de junho de 1826. Estes soldados de brincar alimentaram instantaneamente a sua imaginação e elas referiam-se aos mesmos como "os jovens" e deram-lhes nomes. Porém, só em dezembro de 1827 é que as suas ideias passaram para o papel e, assim, nasceu o reino africano imaginário de Glass Town, seguido do Império de Angria. Emily e Anne criaram Gondal, uma ilha no Pacífico Norte governada por uma mulher, depois da partida de Charlotte em 1831. No início, estas histórias eram escritas em livros minúsculos do tamanho de uma caixa de fósforos (3,8 x 6,4 cm) e as suas páginas eram cuidadosamente unidas com fio. Para além de escrita, os pequenos livros continham ilustrações, mapas detalhados, esquemas, paisagens e plantas de edifícios. A ideia era que os livros deviam ter o tamanho ideal para os soldados os poderem ler. A complexidade das histórias foi evoluindo à medida que a imaginação das crianças se foi desenvolvendo, alimentada pela leitura das revistas do seu pai, ou dos jornais que a família recebia diariamente.
Influências literárias e artísticas
As primeiras influências literárias das Brontë chegaram sob a forma de revistas e jornais que o seu pai lia. A família lia os artigos e debatia o seu conteúdo até ao mais ínfimo detalhe. As descrições e mapas incluídos em artigos sobre expedições e descobertas de novos territórios em África levaram as crianças a localizar o Império de Angria na África Central e a descrevê-lo com grande detalhe. À medida que foram crescendo, os gostos literários dos Brontë foram evoluindo e as obras de Lord Byron tiveram uma grande influência na atração sexual e espírito apaixonado das personagens de Angria. Os Brontë descobriram Lord Byron através de um poema publicado numa das revistas que o seu pai lia e os temas mais ousados da sua obra tornaram-se sinónimo de tudo o que era proibido e audaz. A influência de Byron manifesta-se também nos romances que as irmãs escreveram quando eram adultas, visto que personagens como Heathcliff em Wuthering Heights ou Mr. Rochefort em Jane Eyre têm traços de personalidade que se encontram na obra de Byron: o herói com uma moralidade detestável, mas que é capaz de demonstrar grande afeição.
Primeiras oportunidades no ensino
Através da influência do seu pai e da sua própria curiosidade intelectual, as Brontë beneficiaram de uma educação que as colocou numa posição privilegiada, a nível intelectual, para a altura. No entanto, Patrick Brontë era um homem de poucos meios e as únicas opções que as suas filhas tinham para ganharem a vida eram o casamento ou tornarem-se professoras ou governantas. As irmãs conseguiram empregos em casas de famílias abastadas onde, por várias ocasiões, educaram crianças rebeldes, assim como emprego como professoras. A única irmã que nunca foi governanta foi Emily. A sua única experiência profissional foi uma posição de professora à experiência durante seis meses de exílio intolerável na escola de Miss Patchett em Law Hill (entre Haworth e Halifax). Por outro lado, Charlotte foi professora em vários locais, incluindo na escola de Miss Margaret Wooler e em Bruxelas com os Hegers. Foi ainda governanta em várias famílias até 1841. Anne também se tornou governanta e, depois de uma primeira experiência traumática em Blake Hall, conseguiu um emprego estável em Thorp Green Hall, tendo mesmo conseguido trabalho para o seu irmão, Branwell.
Trabalho como governantas
A situação financeira da família não era das melhores e a Tia Branwell gastava o dinheiro com cuidado. Emily sentia uma necessidade quase visceral de permanecer em casa e do campo que a rodeava e, sempre que se ausentava, sentia-se desesperada. Charlotte e Anne eram mais realistas e não hesitaram em procurar trabalho e a partir de abril de 1839 e dezembro de 1841, respetivamente, as duas irmãs trabalharam como governantas. No entanto, Anne foi a única a conseguir um emprego que durou mais do que poucos meses com a família Robinson em Thorp Green entre maio de 1840 e junho de 1845. Entretanto, Charlotte teve uma ideia que parecia ser proveitosa para as irmãs. A conselho do pai e dos amigos, ela teve a ideia de criar uma escola para jovens mulheres na casa da família no local onde davam catequese. Elas tinham concebido um plano de estudos que incluía línguas modernas e chegaram à conclusão de que deveriam desenvolver as suas competências no estrangeiro. Depois de rejeitarem a ideia de irem para Paris ou Lille, devido a uma aversão aos franceses provocada pelos ideais liberais da Revolução Francesa (a família era bastante conservadora), elas decidiram ir para a Bélgica. Aí, também poderiam estudar Alemão e Música. A Tia Branwell financiou a viagem.
Projeto da escola e viagem a Bruxelas
Emily e Charlotte chegaram a Bruxelas em fevereiro de 1842, acompanhadas pelo seu pai. Quando chegaram, inscreveram-se no internato de Monsieur e Madame Heger na Rue d'Isabelle, onde permaneceram durante seis meses. Clair Heger era a segunda esposa de Constantin e foi ela quem fundou e dirigia a escola enquanto Constantin era responsável pelas aulas de Francês mais avançadas. Segundo Miss Wheelwright, uma ex-aluna, ele tinha o intelecto de um génio. Ele era apaixonado pela matéria e exigia muitas aulas, opiniões e análises estruturadas. Charlotte adorava as aulas no internato, principalmente as de Constantin Heger, e tanto ela como Emily demonstravam uma inteligência excecional. Emily aprendeu bastante depressa Alemão e a tocar piano com um brilhantismo natural e as duas irmãs escreviam ensaios literários e filosóficos num nível avançado de Francês. Após seis meses de estudo, Madame Heger sugeriu que as irmãs permanecessem no internato sem qualquer custo em troca de ensinarem algumas disciplinas. Após bastante hesitação, as irmãs aceitaram. Nenhuma delas se sentia particularmente afeiçoada aos seus alunos e apenas uma aluna, Madamoiselle de Bassompierre, na altura com 16 anos, expressou mais tarde algum afeto pela sua professora.
Primeira publicação: Poems by Currer, Ellis and Acton Bell
Os membros da família Brontë nunca abandonaram a escrita. Charlotte e Branwell tinham ambições de verem os seus trabalhos publicados, porém Charlotte nunca incluiu o irmão nos seus projetos. Charlotte escreveu ao poeta laureado Robert Southey e enviou-lhe vários poemas que escrevera no seu estilo. O poeta respondeu-lhe vários meses depois com uma carta bastante desencorajadora. Southley, um poeta ilustre e uma das grandes figuras do Romantismo inglês em conjunto com William Wordsworth e Samuel Taylor Coleridge, partilhava o preconceito da época: uma carreira na literatura, mais particularmente na poesia, era do domínio masculino e não era apropriada para mulheres.
Fama
Jane Eyre de Charlotte, Wuthering Heights de Emily e Agnes Grey de Anne foram publicados em 1847, após várias tentativas falhadas de encontrar uma editora. Depois de uma longa busca, a editora Smith, Elder & Co, sediada em Londres, publicou o primeiro livro. Até ali, George Smith, o dono da editora, especializava-se na publicação de revistas científicas. Os trabalhos de Emily e Anne foram entregues a Thomas Cautley Newby, cuja intenção era reunir três livros para vender em conjunto, uma opção de venda e de distribuição mais económica para bibliotecas. Assim, Wuthering Heights foi dividido em dois volumes e vendido em conjunto com Agnes Grey. Ambos os romances foram bem recebidos pela crítica e tiveram sucesso comercial, o que levou a que se apressasse o lançamento de Jane Eyre. O romance de Charlotte tornou-se rapidamente num best-seller.
Denúncia dos internatos (Jane Eyre)
As condições da escola de Cowan Bridge, onde Maria e Elizabeth podem ter contraído a tuberculose que acabaria por as matar, não seriam piores do que as de muitas escolas da época. Várias décadas antes da experiência das irmãs Brontë em Cowan Bridge, Jane Austen e a sua irmã Cassandra contraíram tifo numa escola parecida e Jane quase morreu. A educação das irmãs Austen, à semelhança da das irmãs Brontë, foi concluída em casa. Ainda assim, Charlotte atribuiu a responsabilidade da morte das irmãs a Cowan Bridge, especialmente aos seus cuidados médicos rudimentares (que consistiam em tratamentos com emético e sangramentos) e à negligência do médico da escola (que era cunhado do diretor). As memórias vívidas de Charlotte das privações que viveu em Cowan Bridge serviram-lhe de inspiração para a descrição da Lowood School em Jane Eyre: a comida escassa e, por vezes, estragada, a falta de aquecimento e de roupa adequada, as epidemias periódicas de doenças como tifo, a severidade e arbitrariedade dos castigos e até a dureza de certas professoras (pensa-se que uma professora chamada Miss Andrews, que ensinou em Cowan Bridge tenha sido a inspiração de Charlotte para a personagem de Miss Scatcherd em Jane Eyre).
Encontros literários
No seguimento do sucesso enorme de Jane Eyre, George Smith, o seu editor, pressionou-a a viajar para Londres para conhecer os seus leitores. Apesar da sua timidez extrema que a paralisava quando se encontrava com estranhos e fazia com que quase não se conseguisse expressar, Charlotte aceitou ser celebrada. Em Londres conheceu outros grandes escritores da sua época, incluindo Harriet Martineau e William Makepeace Thackeray, que se tornaram seus amigos. Charlotte tinha uma admiração especial por Thackeray cujo retrato (oferecido a Charlotte por George Smith) ainda se encontra pendurado na casa paroquial de Haworth. Porém, a relação entre Charlotte e Thackeray teve os seus precalços. Numa reunião pública, este apresentou Charlotte à sua mãe como Jane Eyre. A escritora ficou ofendida e no dia seguinte visitou Thackeray para o reprimir. A conversa foi tão severa que George Smith teve de intervir.
Casamento e morte
As irmãs Brontë divertiam-se muito com o comportamento dos sacerdotes que conheciam. Arthur Bell Nicholls (1818-1906) já era sacerdote em Haworth há sete anos e meio quando, contra todas as expectativas e a fúria de Patrick Brontë, pediu Charlotte em casamento. Apesar de gostar da sua dignidade e da sua voz grave e de quase ter tido um esgotamento emocional quando o rejeitou, Charlotte achava-o demasiado rígido, convencional e retrógrado "como todos os sacerdotes". Depois de ver o seu pedido rejeitado e com a raiva de Patrick Brontë, Nicholls deixou o seu cargo durante vários meses. Porém, pouco a pouco, os sentimentos de Charlotte mudaram e, depois de convencer o seu pai, ela acabou por se casar com Nicholls em 29 de junho de 1854.
Patrick Branwell Brontë (1817–1848) era considerado um génio pelo seu pai e pelas suas irmãs. Por outro lado, o livro de Daphne du Maurier (1986), The Infernal World of Branwell Brontë, contém várias referências aos seus vícios em álcool e láudano. Ele era um rapaz inteligente com muitos talentos e interesse em vários assuntos, principalmente a literatura. Ele era uma das maiores forças motivadoras por trás dos mundos imaginários que os irmãos construíram, algo que o seu pai incentivava. Branwell partiu para Londres para tentar estabelecer-se como artista, mas passou muitos dos seus dias em cafés de má reputação onde gastava o dinheiro que o seu pai lhe enviava. As suas tentativas de obter trabalho mal pago falharam e não demorou muito tempo para se viciar em álcool e láudano e nunca mais conseguiu recuperar a sua estabilidade. Anne Brontë conseguiu trabalho para Branwell em janeiro de 1843, mas quase três anos depois, ele foi despedido. Em setembro de 1848, depois de vários anos de declínio, ele morreu de tuberculose. No seu funeral, o seu pai angustiado repetiu várias vezes: "O meu rapazinho brilhante". Já Emily escreveu que a condição do irmão "não tinha remédio".
Emily Brontë já foi chamada a "Sphinx da Literatura", uma vez que escrevia sem qualquer desejo de fama e apenas para sua satisfação pessoal. Ela era obsessivamente tímida fora do seu círculo familiar a ponto de virar as costas às pessoas com quem estava a conversar sem dizer uma palavra. Com apenas um romance, Wuthering Heights (1847), e poemas de poder elementar, ela atingiu um lugar de destaque na literatura. Quase desconhecida durante a sua vida, a posterioridade classifica-a como uma das maiores figuras da literatura inglesa. Simone de Beauvoir escreveu em Le Deuxième Sexe (1949) que, de todas as mulheres que já viveram, apenas três escritoras femininas: Emily Brontë, Virginia Woolf e "por vezes" Katherine Mansfield exploraram verdadeiramente o seu "dom". Acima de tudo, Emily adorava passear a pé pela paisagem das charnecas que rodeava Haworth. Em setembro de 1848, a sua saúde começou a deteriorar-se rapidamente. Ela tinha tuberculose, mas recusava-se a fazer qualquer tratamento, com a exceção de uma visita de um médico de Londres depois de muita insistência da sua família. Apesar da crença geral, Emily não morreu no sofá da sala de jantar. Não existem provas contemporâneas para a história e Charlotte menciona na sua carta a William Smith Williams que o cão de Emily, Keeper, estava deitado ao seu lado na cama quando ela morreu. É possível que ela tenha deixado um manuscrito inacabado que Charlotte queimou para evitar a mesma polémica que se seguiu à publicação de Wuthering Heights. Existem vários documentos que falam dessa possibilidade, mas não foi encontrada qualquer prova para a afirmação.
Anne não foi tão celebrada como as suas irmãs. O seu segundo romance, The Tenant of Wildfell Hall, não foi reeditado após a sua morte por insistência da sua irmã Charlotte. Charlotte disse numa carta ao editor de Anne: "não me parece que valha a pena preservar o Wildfell Hall. A escolha do tema desse trabalho foi um erro, as suas personagens, gostos e ideias não são compatíveis com a sua autora isolada e inexperiente". Considera-se que esta decisão é a principal razão pela qual Anne é a menos reconhecida das irmãs. A saúde de Anne começou a deteriorar-se rapidamente, à semelhança do que aconteceu com os seus irmãos alguns meses antes. Em 5 de abril de 1849, ela escreveu a Ellen Nussey a pedir-lhe que a acompanhasse a Scarborough na costa leste de Inglaterra. Anne esperava que o ar marítimo melhorasse a sua saúde e, uma vez que o médico recomendou a viagem, Charlotte concordou em acompanhá-las.


