Elegias de Duino
As Elegias de Duino são uma coleção de dez elegias escritas pelo poeta boêmio-austríaco Rainer Maria Rilke (1875-1926).
Castelo de Duino e as primeiras elegias
Em 1910, Rilke havia terminado de escrever o romance vagamente autobiográfico, Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge (Os Cadernos de Malte Laurids Brigge), no qual um jovem poeta fica aterrorizado com a fragmentação e o caos da vida urbana moderna. Depois de concluir o trabalho, Rilke passou por uma grave crise psicológica que durou dois anos. Em 1912, ainda enfrentando essa grave depressão e desespero, Rilke foi convidado para o Castelo de Duino pela princesa Marie von Thurn e Taxis (1855–1934) (nascida Marie zu Hohenlohe-Waldemburgo-Schillingsfürst) que conhecera alguns anos antes. A princesa (que tinha vinte anos a mais que Rilke) e seu marido, príncipe Alexander (1851–1939), apoiaram com entusiasmo artistas e escritores.:p.317–320
Château de Muzot e o "furacão" criativo
Por causa de sua depressão, Rilke foi incapaz de voltar a escrever por vários anos, e somente em 1920 foi motivado a se concentrar na conclusão de seu trabalho nas Elegias de Duino. Nos dois anos seguintes, no entanto, seu modo de vida permaneceu instável e não lhe forneceu o tempo ou o estado mental necessário para escrever.:p.433–445 Em 1921, Rilke viajou para a Suíça, esperando mergulhar na cultura francesa perto de Genebra e encontrar um lugar para morar permanentemente.:p.471 Na época ele estava envolvido romanticamente com Baladine Klossowska (1886-1969). A convite de Werner Reinhart (1884–1951), Rilke mudou-se para o Château de Muzot, uma mansão do século XIII que carecia de gás e eletricidade, perto de Veyras, Vale do Ródano, Suíça.:p.474 Reinhart, um comerciante suíço e clarinetista amador, usou sua riqueza para patrocinar muitos compositores e escritores do século XX. Ele comprou Muzot para permitir que Rilke morasse lá sem aluguel e se concentrasse em seu trabalho.:p.474 Rilke e Klossowska se mudaram para lá em julho de 1921 e, mais tarde, nesse mesmo ano, Rilke traduziu textos de Paul Valéry e Michelangelo para o alemão.:p.478
Publicação e recepção
O livro foi publicado pela Insel-Verlag em Leipzig, Alemanha, em 1923. Críticos de destaque elogiaram o trabalho e compararam seus méritos aos trabalhos de Hölderlin e Goethe.:p.515 Em 1935 o crítico Hans-Rudolf Müller foi o primeiro a descrever a coleção como inerentemente "mística" e promover Rilke como um guia espiritual "místico". Em My Belief: Essays on Life and Art, o romancista alemão Hermann Hesse (1877-1962) descreve Rilke como evoluindo dentro dos limites da exploração de seus problemas existenciais, que "em cada estágio, de tempos em tempos, o milagre acontece; sua pessoa – delicada, hesitante e propensa à ansiedade – se retira e, através dele, ressoa a música do universo; como a bacia de uma fonte, ele se torna ao mesmo tempo instrumento e ouvido".
Em todas as Elegias de Duino, Rilke explora temas "das limitações e insuficiências da condição humana e da consciência humana fragilizada [...] a solidão da humanidade, a perfeição dos anjos, vida e morte, amor e amantes, e a tarefa do poeta". O filósofo Martin Heidegger observou que "o longo caminho que leva à poesia é ele próprio que pergunta poeticamente", e que Rilke "passa a perceber mais claramente a miséria da época. O tempo permanece pobre, não apenas porque Deus está morto, mas porque os mortais dificilmente têm consciência e são capazes até de sua própria mortalidade". Rilke explora a natureza do contato da humanidade com a beleza, incluindo sua transitoriedade, observando que a humanidade é capaz de vislumbrar apenas breve e momentaneamente uma beleza inconcebível, e que isso é aterrorizante. No início da Primeira Elegia, Rilke descreve essa experiência assustadora, definindo a beleza como
A reputação de Rilke no mundo de língua inglesa repousa amplamente na popularidade das Elegias de Duino. A coleção foi traduzida para o inglês mais de vinte vezes desde que foi publicada pela primeira vez em 1931 pela Hogarth Press de Londres, na Inglaterra, como Duineser Elegien: Elegies from the Castle of Duino, na tradução de Edward e Vita Sackville-West. Foi traduzido pela primeira vez para o mercado americano em 1939, por J. B. Leishman e Stephen Spender, e publicado pela W. W. Norton & Company de Nova Iorque. Outras traduções incluem a do poeta David Young (1978), a do letrista da Grateful Dead, Robert Hunter (1989), a do poeta Galway Kinnell com Hannah Liebmann (1999), a de Stephen Cohn (1989), a do poeta Alfred Poulin (1975) e a do poeta Gary Miranda (1981). Nos Estados Unidos, Rilke é um dos poetas mais populares e bem-vendidos, juntamente com Rumi (1207-1273) e o poeta libanês-americano Kahlil Gibran (1883-1931). Na cultura popular, Rilke é frequentemente citado ou referenciado em programas de televisão, filmes, música e outros trabalhos, quando esses trabalhos discutem o assunto do amor ou dos anjos. Por seu trabalho ser descrito como "místico", as obras de Rilke também foram apropriadas para uso pela comunidade da Nova Era e em livros de autoajuda. Nesse contexto, Rilke foi reinterpretado "como um mestre que pode nos levar a uma vida mais realizada e menos ansiosa".
A primeira tradução lusófona de alguma das elegias é creditada ao português Paulo Quintela, que traduziu a primeira delas em 1939. Porém, devido ao contexto literário dos anos 40, caracterizado pela oposição entre presencistas e neorrealistas, que não mostraram devido interesse na poesia, ela só continuaria a ser traduzida efetivamente a partir da década de 50, com o apoio dos jovens renovadores.[c] No Brasil, o poema foi inicialmente traduzido com o título As Elegias de Duino, pelo poeta Paulo Plínio Abreu e pelo antropólogo alemão Peter Paul Hilbert, além da versão da poetisa Dora Ferreira da Silva.[d] Nele, a tradutora "observa que há uma evidente tensão ameaçadora na relação entre o homem e o Anjo, 'símbolo do que ultrapassa e transcende a esfera do visível'". Citando a interpretação de Otto Friedrich Bollnow, ela compreende que a missão angélica revertida em uma forma de instabilidade refletiria a impossibilidade do repouso do homem, aproximando Rilke de Martin Heidegger, que postulava que o estar-no-mundo é ameaçado pela efemeridade.


