Camuflagem disruptiva
A camuflagem disruptiva, também conhecida como camuflagem deslumbrante ou ofuscante, é uma técnica de pintura de embarcações que foi usada na Primeira Guerra Mundial e, em menor grau, na Segunda Guerra Mundial e posteriormente. Ela consiste de padrões complexos de formas geométricas em cores contrastantes, que se interrompem e cruzam, e, diferentemente de outras formas de camuflagem, seu objetivo não é ocultar o objeto mas sim enganar unidades ofensivas inimigas quanto ao seu alcance, velocidade e rumo, de forma a levá-las a ocupar posições de assalto ruins.
Contexto
Até o início da Primeira Guerra Mundial o Império Alemão havia investido pouco na construção e desenvolvimento de submarinos, e os planos do grande almirante Alfred von Tirpitz haviam se concentrado sobretudo na constituição de uma marinha de alto mar. Quando do início do conflito, em 1914, o país contava com apenas 28 embarcações desse tipo, e a chefia da Marinha Imperial Alemã via seu uso sobretudo em uma tática de guerrilha contra a Marinha Real Britânica, quando esta viesse a instituir um bloqueio naval estreito dos portos alemães. Contudo, com o desenrolar da guerra o Reino Unido evitou levar a cabo um tal bloqueio em torno dos portos, preferindo bloqueá-los à distância nas saídas do Mar do Norte. Assim, os submarinos alemães foram despachados para essas regiões com ordens de patrulhá-las e afundar navios de guerra britânicos que por lá estivessem.
Abbott Handerson Thayer
Amplamente referido como o "pai da camuflagem", Abbott Handerson Thayer estudou pintura na École des Beaux-Arts de Paris, sob a tutela de Jean-Léon Gérôme, e, ao voltar ao seu país natal, em meados do século XIX, ganhou reputação como professor e um dos melhores pintores de figuras (artistas cujo objeto principal é a figura humana) dos Estados Unidos. Grandemente inspirado pelo transcendentalismo de Ralph Waldo Emerson, ele também dedicou parte considerável de sua atenção à pintura de paisagens naturais, e esse interesse o levou a desenvolver uma carreira em paralelo como naturalista. Como pintor, Thayer tornou-se conhecido por sua técnica e interesse na teoria das cores, notadamente quanto aos valores e intensidades das cores e sua intensificação e cancelamento quando justapostas. No campo de sua atividade como naturalista, ele viria a desenvolver teorias pioneiras sobre a coloração dos animais. Mais especificamente, Thayer pesquisou aquilo que ficou conhecido como "ocultação pela coloração", argumentando que a coloração dos animais tem como objetivo reduzir a sua visibilidade em seus habitats naturais, por meio do que ficaria conhecido como camuflagem, e perturbar a interpretação de suas formas, principalmente por meio de fortes padrões arbitrários de cores que achatam a forma e interrompem os contornos do animal. A distorção das formas dos animais teria dois efeitos protetores, isto é, os faria desaparecer no ambiente e/ou aparentaria ser algo diferente do que são.
John Graham Kerr
Em meados da década de 1890 Thayer conheceu o naturalista britânico John Graham Kerr, com quem desenvolveu uma amizade por conta de seus interesses em comum. Kerr havia estudado medicina na Universidade de Edimburgo e, após abandonar o curso, juntara-se a uma expedição da Armada Argentina como naturalista, entre 1889 e 1891. De volta ao Reino Unido, estudara ciências naturais no Christ's College da Universidade de Cambridge e, em 1902, se tornara professor catedrático de zoologia na Universidade de Glasgow e mais tarde Membro do Parlamento do Reino Unido. Na primavera de 1914 Thayer voltou a contatar Kerr e lhe enviou uma cópia de seu livro, que fora publicado em 1909.
Norman Wilkinson
Posteriormente às propostas de Kerr e Thayer, o conceito foi promovido e desenvolvido por Norman Wilkinson. Um reconhecido artista marinho e pintor de cartazes de inspiração modernista, ele fora contratado para criar pinturas dos elegantes quartos para fumantes a bordo do Titanic e do Olympic e realizara obras na Europa continental, nos Estados Unidos e no Brasil. Com o início da Primeira Guerra Mundial, ele juntara-se à marinha britânica em 1915 e, depois de servir em Galípoli, a partir de 1917 passou a fazer parte da equipe de um navio caça-minas na costa britânica, a serviço da Reserva Naval Real. Foi nesse posto que ele passou a advogar a adoção do conceito de "camuflagem deslumbrante", termo que ele mesmo criara.
Disputa pela autoria
Ao constatar que navios estavam sendo camuflados de uma maneira que se assemelhava ao conceito que havia proposto à marinha britânica, Kerr inicialmente mostrou satisfação, sobretudo porque lhe parecia que as pinturas estavam sendo feitas de maneira profissional. Contudo, ele mostrou-se perturbado com o uso de "um esquema que considerava idêntico em conceito ao que vinha defendendo havia tanto tempo" e voltou a se corresponder com autoridades a fim de oferecer seus serviços. Contudo, o Almirantado lhe respondeu que o conceito de "camuflagem deslumbrante" de Wilkinson fora concebido para enganar submarinos, que, imersos ou emersos, viam os navios contra a linha do horizonte, e que considerava inúteis "meias medidas, como tons claros e escuros de cinzas, tentadas no início da guerra".
O homem no periscópio deve avistar e realizar operações cuidadosas antes de poder disparar um torpedo com sucesso. [...] Não seria possível engana-lo quanto à direção em que o navio se dirige, ou quanto à parte do casco que ele está mirando? Esse é o princípio que sublinha [...] o sistema 'deslumbre'. Thayer desenvolveu algumas das primeiras ideias de "ocultação pela coloração" e trabalhou para demonstrar sua aplicabilidade no âmbito militar, tanto quanto ao contrassombreamento como quanto à coloração disruptiva. Kerr, por sua vez, conhecia o trabalho de Thayer e procurou aprofundar sua aplicabilidade no âmbito naval. Sua proposta ao Almirantado Britânico sugeriu a adoção tanto do contrassombreamento como da coloração disruptiva, como forma de confundir os olhos de potenciais atacantes e dificultar seu trabalho em estimar a distância para o ataque. Wilkinson, por fim, avançou de maneira importante com a aplicabilidade dessas ideias no contexto de um conflito militar e deixou claro para o Almirantado Britânico que o objetivo de sua proposta de camuflagem era a confusão do inimigo.[h] Com isso, ele procurou distanciar a camuflagem deslumbrante da forma mais comum de camuflagem, que tinha como princípio misturar visualmente um objeto ao seu ambiente, isto é, ocultar um objeto tornando-o semelhante ao seu plano de fundo. Segundo ele escreveu mais tarde, tornar navios invisíveis com o uso de tinta seria impraticável porque, enquanto navios são observados contra um fundo de cor bastante escura (o mar) por outros navios e estações costeiras, cujos pontos de vista estão a uma altura muito acima da linha d'água, o comandante do submarino veria os navios contra um fundo claro (o céu), por conta de seu ponto de vista mais baixo, próximo do nível do mar. Assim, mesmo desconsideradas as frequentes mudanças climáticas em alto mar, um navio pintado de cor escura como a do mar seria menos visível apenas a outros navios e postos costeiros, e um navio pintado da cor do céu seria menos visível apenas a submarinos. Além disso, a fumaça emitida pelos navios poderia ser atenuada em alguns casos, mas jamais eliminada; de fato, comumente navios eram avistados por submarinos por conta da fumaça que emitiam. Enfim, segundo ele argumentou, os alemães eram prolíficos no uso do hidrofone e, embora sua precisão não fosse grande, nas fases iniciais de um ataque esse instrumento era de grande serventia e permitia localizar navios.
Perturbação no uso do telêmetro
Nos termos propostos por Kerr e Wilkinson, um dos mecanismos pelos quais a camuflagem deslumbrante poderia incutir o tipo de confusão pretendida seria pela perturbação do uso dos telêmetros de navios inimigos. Os telêmetros de coincidência empregados pela artilharia naval utilizavam um mecanismo óptico que dividia a imagem em duas metades, que deviam ser alinhadas por um operador humano a fim de calcular o alcance de um alvo potencial. Essa operação, portanto, incluía ajustar o mecanismo até que as duas meias imagens do alvo estivessem alinhadas em uma imagem completa. A camuflagem disruptiva tornaria isso difícil, pois os padrões em ambas imagens pareceriam anormais mesmo quando as duas metades estivessem alinhadas. Ao enganar os olhos do operador de telêmetro em um navio inimigo, mesmo quando a pouca distância ou velocidade, o artifício poderia frustrar o ataque inimigo.
Perturbação da estimação da direção
Wilkinson considerava impossível tornar um navio invisível com tinta, e afirmou ter concluído que o "extremo oposto" seria a resposta, isto é, confundir os comandantes de submarinos inimigos por meio de formas conspícuas e contrastes violentos de cor. Segundo ele, os padrões pintados nos cascos dos navios poderiam indicar que o navio navegasse em um rumo diferente do real, e este era o critério principal considerado em cada design de camuflagem, em detrimento de todos os outros. Em outra oportunidade, Wilkinson também afirmou ter identificado, ao longo da guerra, as partes mais importantes de um navio para se obter a distorção desejada. Segundo ele, as regiões que requeriam maior cuidado no design da camuflagem eram a ponte de comando e a ponta da proa, pois seriam de grande utilidade para um submarino na determinação do curso de seu alvo. Em particular, padrões listrados na proa e na popa poderiam criar confusão sobre qual extremidade do navio era qual, a direção em que o objeto se movia e sua velocidade. Parte desses efeitos têm sido validados em estudos científicos posteriores, e testemunhos da época davam conta do efeito de deslumbramento produzido em observadores:
Perturbação do cálculo da velocidade
Em 2011 cientistas apresentaram evidências, usando padrões móveis em um computador, de que a percepção humana da velocidade é distorcida por padrões disruptivos. No entanto, as velocidades necessárias para disfarçar o movimento são superiores às que eram possíveis para os navios da Primeira Guerra Mundial. No experimento, o alvo correspondia a um veículo Land Rover pintado com um padrão disruptivo, a uma distância de setenta metros, viajando a noventa quilômetros por hora. Os resultados apontaram que um alvo viajando nessa velocidade causaria uma confusão de 7% em observadores, e, se uma granada lançada por foguete percorre essa distância em meio segundo, ela atingiria seu alvo com um desvio de noventa centímetros. Essa distância poderia ser o suficiente para salvar vidas no veículo e possivelmente fazer com que o ataque falhasse completamente.
Primeira Guerra Mundial
Em 1914 Kerr convenceu Winston Churchill a adotar uma forma de camuflagem que ele chamou de "coloração parcial", argumentando tanto pelo contrassombreamento de áreas dos navios quanto pela pintura com padrões disruptivos de coloração, inspirados nos de animais. Uma ordem geral, emitida em 10 de novembro de 1914, deu autonomia a oficiais navais para que aplicassem a abordagem de Kerr. Ela foi aplicada a vários navios de guerra britânicos, como o HMS Implacable, e oficiais notaram com aprovação que o padrão "aumentava a dificuldade de encontrar acuradamente o alcance". No entanto, Kerr considerou que o uso de sua técnica era impreciso, e, após a saída de Churchill do Almirantado, a Marinha Real voltou a pintar os navios de cinza.
Segunda Guerra Mundial
Por mais que a camuflagem disruptiva tenha sido amplamente usada na Primeira Guerra Mundial, progressivamente ela se tornou menos útil por conta de mudanças nas tecnologias e táticas empregadas em conflitos armados, notadamente uma maior prevalência das forças aéreas e do radar. Ela foi usada em menor escala na Segunda Guerra Mundial, e pode ter confundido os submarinos inimigos em algumas situações. Na marinha britânica, os esquemas de pintura deslumbrante reapareceram em janeiro de 1940, de maneira não oficial. Nessa época foram realizadas competições dentre os navios para identificar os melhores padrões de camuflagem. O Departamento de Camuflagem da Marinha Real adotou um esquema criado por um jovem oficial que no período entreguerras trabalhara como naturalista e artista da vida selvagem, Peter Scott, e que deu origem aos chamados Esquemas das Abordagens Ocidentais. No verão de 1941 entraram em uso os "Esquemas Disruptivos do Primeiro Almirantado", que em 1942 foram substituídos pelo "Padrão Disruptivo Intermediário do Almirantado". Por fim, em 1944 foram adotados os "Esquemas-padrão do Almirantado", que mostraram-se relativamente bem-sucedidos em "quebrar o contorno das embarcações a médio e longo alcance e na maioria das condições climáticas e de luz" e permaneceram em uso até o fim do conflito.
Embora não haja dúvidas de que os números de perdas de navios mercantes britânicos na Primeira Guerra Mundial reduziram consideravelmente depois da introdução da camuflagem disruptiva, é possível que essa diminuição se deva ao sistema de comboios e à proteção oferecida por navios de apoio americanos, que foram implementado na mesma época. Notícias contemporâneas mostram que a imprensa britânica tratou dessa técnica como sendo muito eficaz e publicou numerosas imagens e artigos sobre o assunto, levando a uma objetificação do conceito: rapidamente surgiram pijamas, cortinas, roupas de banho e outros produtos com estampas inspiradas nele. Ao menos em parte, a popularidade do conceito junto ao público levou o Almirantado Britânico a desconfiar de sua efetividade. Em 1918 essa instituição constituiu um "Comitê para a Pintura Deslumbrante", a fim de averiguar a efetividade do sistema de camuflagem. Esse organismo analisou dados das perdas de navios transporte, mas não conseguiu chegar a conclusões claras. Os navios com camuflagem disruptiva haviam sido atacados em 1,47% das viagens, comparados a 1,12% dos navios não camuflados; esta informação sugeriu que os navios camuflados tinham maior visibilidade, em conformidade com o que originalmente fora previsto por Wilkinson. Em contraposição, dos navios atingidos por torpedos, 43% dos navios camuflados afundaram, em comparação com 54% dos não camuflados; e, da mesma forma, 41% dos navios camuflados foram atingidos no meio do navio, em comparação com 52% dos não camuflados. Essas comparações sugeriram que os comandantes de submarinos tinham dificuldade em estimar o curso de um navio camuflado e, consequentemente, em decidir para onde mirar. Além disso, os navios camuflados eram maiores que os navios não camuflados, 38% deles com mais de cinco toneladas, em comparação com apenas 13% dos navios não camuflados. Por fim, o grande número de variáveis tornou os dados da avaliação pouco confiáveis, e é possível que variáveis demais tenham influenciado os resultados (esquemas de cores e padrões de pintura; tamanho e velocidade dos navios; táticas utilizadas) para que de fato se pudesse determinar quais fatores eram significativos ou quais eram os melhores. Contudo, a comissão estabelecida pelo Almirantado identificou claramente que a camuflagem disruptiva aumentara consideravelmente a moral dos marinheiros dos navios camuflados. Uma enquete entre capitães da White Star Line identificara que 60% dos entrevistados afirmara que preferiria conduzir navios com camuflagem deslumbrante.
Do ponto de vista artístico, os padrões de camuflagem deslumbrante tinham um visual essencialmente modernista e foram comparados ao estilo de Vassili Kandisnki, Giacomo Balla e do movimento vorticista. Seus motivos abstratos chamaram a atenção de pessoas ligadas ao mundo da pintura anterior à Primeira Guerra Mundial, incluindo artistas como Pablo Picasso. De maneira caracteristicamente assertiva, esse artista espanhol reivindicou crédito pelo conceito de camuflagem deslumbrante, que, segundo ele, fora derivado da técnica cubista. Em uma conversa com Gertrude Stein, pouco depois de ver pela primeira vez um canhão camuflado percorrendo as ruas de Paris,[n] ele comentou: "Fomos nós que o criamos; isto é cubismo!". No Reino Unido, o artista vorticista Edward Wadsworth, que durante a Primera Grande Guerra supervisionou a pintura de navios com camuflagem deslumbrante, ainda durante o conflito criou uma série de telas com base em seu trabalho nos navios, que atraíram a atenção da crítica britânica em uma série de exposições em galerias do país. No Canadá, Arthur Lismer usou navios camuflados em algumas de suas composições de guerra. Nos EUA, Burnell Poole pintou telas de navios camuflados da marinha americana.
Winston Churchill creditou à camuflagem deslumbrante o princípio do desenvolvimento de camuflagens para navios, e registrou sua impressão ao observar as primeiras embarcações na costa da Escócia em 1914: [...] diante de nós [...] os vinte Dreadnoughts e Super-Dreadnoughts dos quais dependia o comando marítimo. Ao redor deles e movimentando-se entre eles havia muitas dezenas de pequenas embarcações. Os navios em si haviam sido pintados pela primeira vez da maneira estranha que marcou o início da ciência da camuflagem. Essa técnica de camuflagem ainda pode ser encontrada esporadicamente no meio naval, como nos casos das corvetas suecas classe Visby, dos navios de patrulha lança-mísseis finlandeses classe Hamina e chineses Classe Houbei e do protótipo americano M80 Stiletto, que exibem camuflagem disruptiva para fins furtivos. Ela também pode ser encontrada na navegação civil, para fins artísticos e puramente estéticos. Notadamente, desde 2016 a Sea Shepherd Conservation Society usa padrões deslumbrantes em parte de sua frota.


