Lampião (cangaceiro)
Virgulino Ferreira da Silva, conhecido como Lampião, foi um cangaceiro brasileiro que atuou no Sertão nordestino entre as décadas de 1920 e 1930. Ele é considerado o líder do movimento de banditismo mais bem-sucedido da história do Brasil e do século XX, o que lhe rendeu o apelido de "Rei do Cangaço".
Pontos-chave
- Lampião foi o líder do movimento de cangaço mais bem-sucedido no Brasil e no século XX.
- O cangaço foi potencializado pela pobreza e pela estrutura política rural dominada por grandes proprietários de terra no Sertão.
- Sua entrada no cangaço foi marcada por conflitos com vizinhos e a aliança com outros bandos.
- Lampião expandiu as ações do seu bando para diversos estados nordestinos, desafiando as autoridades.
- Foi emboscado e morto em 1938 na Fazenda Angicos, Sergipe, junto com Maria Bonita e outros cangaceiros.
A economia sertaneja, desde a colonização portuguesa, era fortemente ligada à pecuária. A política regional era controlada por grandes proprietários de terra que, através de jagunços, expulsavam populações originárias e mantinham seu poder. Com o crescimento populacional e o aumento da pobreza no final do século XIX, o Cangaço, que já existia desde o século XVIII, foi potencializado. Esse fenômeno é descrito pelo historiador Eric Hobsbawm como "banditismo social", onde criminosos são vistos por camadas mais baixas da sociedade como agentes de transformação.
Virgulino Ferreira da Silva nasceu entre 1897 e 1900 em Vila Bela (atual Serra Talhada), Pernambuco. Terceiro filho de José Ferreira da Silva e Maria Lopes de Oliveira, ele cresceu no sítio "Passagem das Pedras", onde trabalhou como vaqueiro na agricultura de subsistência. Apesar de não ter frequentado a escola, Virgulino aprendeu a ler e escrever rudimentarmente e participava ativamente da vida social local, inclusive tocando sanfona.
Especula-se que Virgulino e seus irmãos se envolveram em intrigas com vizinhos, especialmente com José Alves de Barros, conhecido como "José Saturnino". Os relatos sobre o início dessa inimizade são variados e confusos, mas geralmente apontam para acusações mútuas de roubo de animais entre as famílias Ferreira e Saturnino. Em 1917, após a morte do patriarca Saturnino Alves de Barros, José Saturnino acusou Virgulino de se apoderar de um chocalho de seus animais, o que levou Virgulino a destruir o objeto na frente dele e a apelidá-lo de "Zé Chocalho" ou "Zé Muié", em um ato de humilhação. Após várias altercações, José Ferreira foi forçado a vender seu sítio por um preço irrisório e se exilar em "Poço do Negro", próximo a Nazaré, no município de Floresta, onde vivia um parente da família, Manoel Lopes. O acordo previa que os Ferreiras não retornariam à antiga propriedade e os Saturninos não se aproximariam de Nazaré.
A entrada de Lampião no cangaço foi um processo gradual, marcado por alianças e eventos que o consolidaram como líder.
Sob o Comando de Antônio Matilde
José Saturnino tentou destruir a reputação de Antônio Matilde junto ao coronel Luna. Em resposta, Matilde reuniu seus netos e familiares, buscando proteção com Sinhô Pereira em São Francisco, que ofereceu o cangaceiro Baliza e mais seis homens. Esse grupo, junto com o bando de Antônio Porcino e irmãos, saqueou as fazendas de Saturnino, que se aliou ao bando de Cassimiro Honório. Foi nesse período que Virgulino e seus irmãos, liderados por Antônio Matilde, saquearam o povoado de Pariconha pela primeira vez, e Virgulino adotou o apelido de Lampião. Para se afastar das atividades criminosas dos filhos, José Ferreira mudou-se para Mata Grande, Alagoas, pela última vez.
No Bando de Sinhô Pereira
Pouco tempo após a morte de José Ferreira, Antônio Matilde deixou o cangaço e se estabeleceu na Paraíba. Lampião assumiu a liderança de seu bando, que passou a colaborar com Sinhô Pereira, especialmente após a morte de Antônio Porcino em setembro de 1921. Durante esse tempo, Lampião conheceu muitos coiteiros e parentes de Pereira, que mais tarde seriam cruciais para a continuidade do cangaço sob seu comando. Lampião assumiu o comando do bando de Sinhô Pereira meses depois, quando este, influenciado por Padre Cícero, decidiu abandonar o banditismo. Luís Padre, outro cangaceiro companheiro de Sinhô Pereira, também deixou o cangaço na mesma época.
A primeira ação do bando de Lampião foi invadir Belmonte, Pernambuco, e assassinar o coronel e comerciante Luiz Gonzaga Lopes Gomes Ferraz. Suas ações se estenderam para Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Em janeiro de 1923, chefes de polícia desses estados se reuniram para criar uma força-tarefa conjunta contra o cangaço. Em junho de 1923, o bando atacou Belém do São Francisco, roubando mercadorias e sitiando Salgueiro, causando paralisação do comércio e desabastecimento. Em seguida, ingressaram no Ceará, onde tinham apoio político, e em julho, saquearam fazendas em Alagoas. As autoridades inicialmente perseguiam o bando, deixando cidades menores desguarnecidas. Lampião usava o telégrafo para despistar a polícia, noticiando sua presença em cidades com grandes contingentes, enquanto atacava locais menos protegidos.
Em 27 de julho de 1938, o bando acampou na Fazenda Angicos, em Sergipe, considerado por Lampião o esconderijo mais seguro. Na madrugada de 28 de julho, sob forte chuva, a volante chegou silenciosamente. Por volta das cinco da manhã, enquanto os cangaceiros se preparavam para o café, um alarme foi dado, mas já era tarde. A traição, embora incerta, pegou o bando desprevenido. Os policiais do Tenente João Bezerra da Silva e do Sargento Aniceto Rodrigues da Silva abriram fogo com metralhadoras portáteis. O ataque durou cerca de vinte minutos, e poucos conseguiram escapar. Dos trinta e quatro cangaceiros presentes, onze morreram, incluindo Lampião, um dos primeiros, e Maria Bonita, gravemente ferida. Os policiais, eufóricos, apreenderam bens, dinheiro, ouro e joias, e mutilaram os corpos.
O Destino dos Cadáveres
O Coronel João Bezerra da Silva exibiu as cabeças dos cangaceiros, já em decomposição, por vários estados nordestinos, atraindo multidões. Primeiramente, foram expostas em Piranhas, arrumadas na escadaria da Prefeitura junto com armas e apetrechos, e fotografadas. Em seguida, foram levadas a Maceió e ao sudeste do Brasil. No IML de Aracaju, o Dr. Carlos Menezes examinou as cabeças, que foram medidas e pesadas. Contrariando a teoria de que criminosos teriam características físicas anômalas, os criminalistas concluíram que as cabeças não apresentavam sinais de degenerescência ou anomalias, sendo classificadas como normais.
Sua companheira, Maria Gomes de Oliveira, apelidada pela imprensa de Maria Bonita, foi a primeira mulher a integrar o bando, juntando-se a ele em 1930. Lampião e Maria Bonita tiveram uma filha, Expedita Ferreira Nunes, nascida em 13 de setembro de 1932. O casal também teria tido dois natimortos.
Sua Fé e Relação com Padre Cícero
Lampião era devoto de Padre Cícero e respeitava suas crenças e conselhos. Eles se encontraram apenas uma vez, em 1926, em Juazeiro do Norte. Na ocasião, o padre sugeriu que Lampião abandonasse o cangaço, mas ele recusou.
A figura de Lampião transcendeu sua vida e se tornou um ícone cultural, especialmente através da música.
O Compositor de 'Mulher Rendeira'
'Mulher Rendeira' é um antigo tema popular do sertão nordestino, cuja origem é controversa. Segundo o padre Frederico Bezerra Maciel, biógrafo de Lampião, e Câmara Cascudo, Lampião teria escrito os versos da versão original da música. Ele teria composto a letra em homenagem ao aniversário de sua avó, d. Maria Jocosa Vieira Lopes ('Tia Jacosa'), uma rendeira, entre setembro de 1921 e fevereiro de 1922, apresentando-a em Floresta, Pernambuco. A canção se tornou um hino de guerra para os cangaceiros de Lampião, com relatos de que o ataque a Mossoró em 1927 foi realizado com mais de 50 cangaceiros cantando 'Mulher Rendeira'.


