Capela Nosso Senhor Jesus do Bom Fim
A Capela Nosso Senhor Jesus do Bom Fim, Capela do Senhor do Bom Fim, ou, mais simplesmente, Capela do Bonfim, é uma pequena igreja católica localizada na Avenida Osvaldo Aranha, no bairro Bom Fim, em Porto Alegre.
Origens
Um registro bastante detalhado sobre os primórdios desta devoção em Porto Alegre se encontra no Comentário Eclesiásticco do R.S. desde 1737, obra inédita de Vicente Zeferino Dias Lopes. Diz ele: A área onde hoje se ergue a Capela do Senhor do Bom Fim era inicialmente uma grande estância de propriedade de Antônio da Silva Pereira, que foi vendida ao escravo forro Garcia de Souza, que dela fez um vasto milharal em 1777. Nesta época já era conhecida como Várzea. Por ali fora aberta uma estrada, chamada de Estrada do Meio ou Caminho do Meio, e depois de Avenida Bom Fim, a atual avenida Oswaldo Aranha, onde se localiza com o número 462. Em 1870, por estar sendo construída a capela na região, a Várzea passou a ser chamada de Campo do Bom Fim, mas com a libertação de grande número de escravos em 1884, 4 anos antes da Lei Áurea, o lugar foi chamado de Campos da Redenção. Na exposição comemorativa do Centenário da Revolução Farroupilha, realizada nestes campos em 1935, tornou-se o Parque Farroupilha, nome que até hoje designa o grande parque remanescente dos antigos descampados. Com a crescente urbanização da metrópole a capela acabou por encontrar-se em um entorno polimorfo e muito poluído visualmente, infelizmente cercada de arranha-céus e alguns casarões decadentes, e defronte a uma avenida movimentada com abrigos para ônibus e pesada fiação para iluminação pública.
Decadência e restauro
Em 20 de março de 1953 a propriedade do imóvel foi doada à Congregação do Santíssimo Redentor, quer passou a administrar o prédio e os serviços religiosos. A partir daí, entrou em declínio. A capela original veio a ser muito dilapidada pelo tempo e pela intervenção humana, por sucessivas modificações que seguiam os gostos de cada época, pela ação de agentes naturais de degradação como térmitas, umidade e fungos, e a estrutura sofreu abalos por acomodações imprevistas no subsolo. Foi finalmente fechada para o público em 7 de setembro de 1972, dada sua condição quase ruinosa, e a Congregação Redentorista elaborou planos para sua demolição e substituição por um templo bem mais amplo. Porém a comunidade local posicionou-se contrária à ideia, e ocorreram manifestações de rua e órgãos de Patrimônio Histórico entraram em ação, fazendo com que o destino do tradicional templo da Avenida Oswaldo Aranha entrasse em um longo período de impasse e disputa que chegou até mesmo aos tribunais.
A capela apresenta um estilo eclético, considerando-se o seu conjunto. A entrada se dá por um portão de ferro ladeado de balaustrada, conduzindo a um pequeno adro com curta escadaria. A fachada é consistentemente neoclássica, com 3 portas entalhadas sob arco pleno com tímpano envidraçado, sendo a central ladeada de dois pares de colunas toscanas lisas, em meio-relevo, com base elevada, que terminam em uma cornija reta e estreita. O nível superior espelha as aberturas inferiores, com 3 janelas em arco decoradas com vitrais, mas já com meias-colunas coríntias, também de fuste liso. O frontão é um triângulo isósceles rebaixado, com cruz no vértice superior e um óculo redondo ao centro, e está inserido em uma área retangular de onde se ergue uma estátua em cada extremidade, e uma torre sineira centralizada e livre, também com dois pares de colunas coríntias, agora em baixo-relevo e de fuste canelado, emoldurando um arco redondo aberto para o sino, encimado por outro óculo redondo. O coruchéu tem arcos abatidos nas 4 faces e uma pequena cúpula em 4 águas, com uma cruz no topo. Todo o cornijamento é liso e simples. O telhado é em 2 águas com beirais, de telhas coloniais capa-canal. As fachadas laterais e posterior são desprovidas de qualquer adorno, e possuem aberturas em intervalos e alturas irregulares, e com arcos tanto abatidos como ogivais. As que abrem para a nave são guarnecidas de vitrais.
Peças notáveis
A capela guarda muitas imagens de valor artístico e histórico, como uma belíssima Nossa Senhora da Conceição com olhos de vidro e resplendor de prata, ascendendo sobre uma nuvem apinhada de anjos, grupos em gesso representando a Sagrada Família, outro mostrando Nossa Senhora do Rosário, outra imagem do Menino Jesus de Praga e por fim uma de Santa Teresinha. Mas de todas as peças sacras que a capela abriga, são realmente notáveis duas, e merecem uma atenção maior: A cruz de onde pende o Senhor que veio a ser cultuado como do Bom Fim, uma escultura de proporções relativamente pequenas, mas extremamente elegantes, de estilo barroco tardio. Esta peça pertencia, como já se viu, à Igreja de Nossa Senhora da Conceição, e foi através dela que nasceu a devoção que daria origem à construção da Capela do Bonfim. Foi trasladada com grande pompa e festa em 3 de setembro de 1883, de lá para sua nova casa, tendo havido procissão solene liderada pelo Bispo Diocesano, sermão, Te Deum e missa comemorativa.
A capela é um marco e uma referência na paisagem do bairro Bonfim, que se estruturou e desenvolveu em boa parte em função do templo. Muitas figuras ilustres da cidade pertenceram à Devoção do Senhor Jesus do Bom Fim, entre elas o Padre Landell de Moura, o General Andrade Neves e Apolinário Porto Alegre. O infausto evento do incêndio, e sua quase demolição, não obstante, tiveram um impacto positivo na comunidade, contribuindo para um crescimento na consciência de todos, cidadãos e poder público, a respeito do valor da memória, da arte, da história e de seus testemunhos materiais. Por fim, hoje, a despeito de suas muitas perdas materiais e desfigurações, algumas irreparáveis, está plenamente revitalizada, e a Capela do Senhor Jesus do Bom Fim voltou a excercer a função que lhe cabe, mantendo viva uma parte importante da história da cidade e agregando e atendendo às necessidades espirituais de uma parcela apreciável da população católica do bairro.


