Carlos I, Conde de Anjou
Carlos I de Anjou foi um membro da dinastia real capetiana e fundador da Segunda Casa de Anjou. Foi rei da Sicília e de Nápoles, príncipe da Acaia e conde de Anjou, Maine, Provença e Forcalquier. Em 1272, foi proclamado rei da Albânia; em 1277 iniciou uma reivindicação ao Reino de Jerusalém.
Infância
Carlos era o filho mais novo do rei Luís VIII da França e de Branca de Castela. A data de seu nascimento não foi preservada, mas ele provavelmente era um filho póstumo, nascido no início de 1227.[nota 1] Foi o único filho sobrevivente do rei a "nascer na púrpura" (após a coroação de seu pai), um fato que enfatizou frequentemente em sua juventude, como o cronista contemporâneo Mateus de Paris observou em sua Chronica majora. Foi o primeiro capetiano a receber o nome de Carlos Magno. Luís VIII morreu em novembro de 1226 e seu filho mais velho, Luís IX, o sucedeu. O falecido rei desejou que seus filhos mais novos fossem preparados para uma carreira na Igreja Católica. Os detalhes do ensino de Carlos são desconhecidos, mas ele recebeu uma boa educação. Entendia as principais doutrinas católicas e conseguia identificar erros em textos em latim. Sua paixão pela poesia, medicina e direito está bem documentada.
Provença e Anjou
Raimundo Berengário IV da Provença morreu em agosto de 1245, legando Provença e Forcalquier à sua filha mais nova, Beatriz, supostamente por ter dado dotes generosos às três irmãs dela. Os dotes, na verdade, não foram totalmente quitados, fazendo com que duas irmãs, Margarida (esposa de Luís IX) e Leonor (esposa de Henrique III da Inglaterra), acreditassem que tinham sido deserdadas ilegalmente. A mãe delas, Beatriz de Saboia, afirmava que Raimundo Berengário lhe havia cedido o usufruto da Provença. O imperador Hohenstaufen Frederico II (a quem o Papa Inocêncio IV recentemente excomungara por alegados "crimes contra a Igreja"), o conde Raimundo VII de Toulouse e outros governantes vizinhos propuseram a si próprios ou a seus filhos como maridos da jovem condessa. Sua mãe a colocou sob a proteção da Santa Sé. Luís IX e Margarida sugeriram que Beatriz deveria ser dada em casamento a Carlos. Para garantir o apoio da França contra Frederico II, o Papa Inocêncio IV aceitou a proposta deles. Carlos correu para Aix-en-Provence à frente de um exército para evitar que outros pretendentes invadissem a Provença e casou-se com Beatriz em 31 de janeiro de 1246. O condado fazia parte do Reino de Arles e, portanto, do Sacro Império Romano, mas Carlos nunca jurou lealdade ao imperador. Ele ordenou uma inspeção sobre os direitos e receitas dos condes, ultrajando seus súditos e sua sogra, que considerou essa ação um ataque aos direitos dela.
Sétima Cruzada
Em dezembro de 1244, Luís IX jurou liderar uma cruzada. Ignorando a forte oposição de sua mãe, seus três irmãos – Roberto, Afonso e Carlos – também participaram do movimento. Os preparativos para a cruzada duraram anos, com os cruzados embarcando em Aigues-Mortes em 25 de agosto de 1248. Depois de passar vários meses no Chipre, eles invadiram o Egito em 5 de junho de 1249. Capturaram Damieta e decidiram atacar o Cairo em novembro. Durante seu avanço, o biógrafo do rei francês, João de Joinville, observou a coragem pessoal de Carlos, que salvou a vida de dezenas de cruzados. Roberto de Artésia morreu lutando contra os egípcios em Almançora. Seus três irmãos sobreviveram, mas tiveram que abandonar a campanha. Enquanto se retiravam do Egito, eles caíram em cativeiro em 6 de abril de 1250. O sultão egípcio, Maleque Turanxá, libertou Luís, Carlos e Afonso em troca de 800 mil besantes e a rendição de Damieta em 6 de maio. Durante sua viagem a Acre, Carlos indignou Luís por jogar apostas enquanto o rei lamentava a morte de Roberto. Luís permaneceu na Terra Santa, mas Carlos retornou à França em outubro de 1250.
Conflitos e consolidação
Os oficiais de Carlos continuaram a inspecionar os direitos e receitas dos condes na Provença, provocando uma nova rebelião durante sua ausência. Em seu retorno, aplicou diplomacia e força militar para lidar com eles. O arcebispo de Arles e o bispo de Digne cederam seus direitos seculares nas duas cidades a Carlos em 1250. Ele recebeu assistência militar de seu irmão, Afonso. Arles foi a primeira cidade a se render a eles em abril de 1251. Em maio, forçaram Avinhão a reconhecer seu governo conjunto. Um mês depois, Barral de Baux também capitulou. Marselha foi a única cidade a resistir por vários meses, mas também buscou a paz em julho de 1252. Os cidadãos reconheceram Carlos como seu senhor, mas mantiveram suas instituições autônomas.
Conquista do Reino
Luís IX decidiu apoiar a campanha militar de Carlos na Itália em maio de 1263. O papa Urbano IV prometeu proclamar uma cruzada contra Manfredo, enquanto o conde de Anjou prometeu que não aceitaria nenhum cargo nas cidades italianas. Manfredo deu um golpe em Roma, mas os guelfos elegeram Carlos como senador (ou chefe do governo civil de Roma). Ele aceitou o cargo e um grupo de cardeais solicitou que o papa revogasse o acordo com ele, mas o papa, estando indefeso contra Manfredo, não conseguiu romper com Carlos. Na primavera de 1264, os cardeais Simon de Brie e Guy Foulques foram enviados à França para chegar a um acordo e começar a angariar apoio para a cruzada. Carlos enviou tropas a Roma para proteger o Papa contra os aliados de Manfredo. A pedido de Foulques, a cunhada de Carlos, Margarida (que não abandonou suas reivindicações ao dote), prometeu que não tomaria medidas contra o conde angevino durante sua ausência. Foulques também persuadiu os prelados franceses e provençais a oferecer apoio financeiro à cruzada. O papa Urbano morreu antes que o acordo final fosse concluído. Carlos tomou providências para sua campanha contra a Sicília durante o interregno; ele concluiu acordos para garantir a rota de seu exército pela Lombardia e executou os líderes dos rebeldes provençais.
Conradino
Carlos foi leniente com os partidários de Manfredo, mas eles não acreditavam que essa política conciliatória pudesse durar. Sabiam que ele havia prometido devolver as propriedades aos senhores guelfos expulsos do Reino. Carlos também não conseguiu a lealdade dos plebeus, em parte porque continuou a aplicar o subventio generalis, apesar dos papas terem declarado que era uma cobrança ilegal. Proibiu o uso de moeda estrangeira em grandes transações e lucrou com a troca obrigatória de moeda estrangeira por moeda cunhada localmente. Também negociava grãos, especiarias e açúcar, por meio de um empreendimento conjunto com os mercadores de Pisa. O Papa Clemente censurou Carlos por seus métodos de administração estatal, descrevendo-o como um monarca arrogante e obstinado. A consolidação do poder do governante no norte da Itália também alarmou Clemente. Para apaziguar o Papa, renunciou ao seu mandato de senador em maio de 1267. Seus sucessores, Conrado Monaldeschi e Luca Savelli, exigiram o reembolso do dinheiro que Carlos e o Papa tinham pedido emprestado aos romanos.
Itália
A esposa de Carlos, Beatriz da Provença, morreu em julho de 1267. Viúvo, casou-se com Margarida de Nevers em novembro de 1268. Ela era uma das herdeiras de seu pai, Eudo, filho mais velho de Hugo IV, Duque da Borgonha. O Papa Clemente morreu em 29 de novembro de 1268. A vacância papal durou três anos, o que fortaleceu a autoridade do nobre angevino na Itália, mas também o privou do apoio eclesiástico que apenas um papa poderia fornecer. Voltou a Lucera para dirigir pessoalmente um cerco em abril de 1269. Os sarracenos e gibelinos que fugiram para a cidade resistiram até que a fome os obrigou a se renderem em agosto daquele ano. Carlos enviou Filipe e Guido de Monforte à Sicília para forçar os rebeldes à submissão, mas eles só puderam capturar Augusta. Nomeou William l'Estandart comandante do exército na Sicília em agosto daquele ano. L'Estandart capturou Agrigento, forçando Frederico de Castela e Frederico Lancia a buscar refúgio em Túnis. Após a vitória subsequente de L'Estandart em Sciacca, apenas Conrado Capece resistiu, mas ele também teve que se render no início de 1270.
Oitava Cruzada
Luís IX nunca abandonou a ideia da libertação de Jerusalém, mas decidiu começar sua nova cruzada com uma campanha militar contra Túnis. Segundo seu confessor, Godofredo de Beaulieu, o rei francês estava convencido de que Maomé Almostancir estava pronto para se converter ao cristianismo. A historiadora do século XIII, Saba Malaspina, afirmou que Carlos persuadiu Luís a atacar Túnis, porque queria garantir o pagamento do tributo que os governantes de Túnis pagaram aos antigos monarcas sicilianos. Os cruzados franceses embarcaram em Aigues-Mortes em 2 de julho de 1270; Carlos partiu de Nápoles seis dias depois. Passou mais de um mês na Sicília, esperando por sua frota. Quando desembarcou em Túnis, em 25 de agosto, a disenteria e a febre tifoide dizimaram o exército francês. Luís morreu no dia em que seu irmão chegou.
Tentativas de expansão
Carlos acompanhou Filipe III até Viterbo em março de 1271. Nessa cidade, eles não conseguiram convencer os cardeais a eleger um novo papa. Seu irmão Afonso de Poitiers adoeceu. O monarca angevino enviou seus melhores médicos para curá-lo, mas Afonso morreu. Carlos reivindicou a maior parte da herança do irmão, incluindo o marquesado da Provença e o condado de Poitiers, porque era o parente mais próximo do falecido. Após a objeção de Filipe III, ele levou o caso ao Parlamento de Paris. Em 1284, a corte determinou que os apanágios fossem transferidos para a coroa francesa caso seus governantes morressem sem descendentes. Um terremoto destruiu as paredes de Durazzo no final dos anos 1260 ou início dos anos 1270. As tropas de Carlos tomaram posse da cidade com a ajuda dos líderes das comunidades albanesas nas proximidades. Carlos concluiu um acordo com os chefes albaneses, prometendo protegê-los e às suas antigas liberdades em fevereiro de 1272. Ele adotou o título de rei da Albânia e nomeou Gazzo Chinardo como seu vigário-geral. Também enviou sua frota à Acaia para defender o principado dos ataques bizantinos.
Eleições papais
O Papa Gregório X morreu em 10 de janeiro de 1276. Após a hostilidade que experimentou durante o pontificado dele, Carlos estava determinado a garantir a eleição de um papa disposto a apoiar seus planos. O Papa Inocêncio V, sucessor do finado, sempre foi partidário do angevino e rapidamente o confirmou como senador de Roma e vigário imperial da Toscana. Ele também mediou um tratado de paz entre Carlos e Gênova, que foi assinado em Roma em 22 de junho de 1276. O rei angevino da Sicília restaurou os privilégios dos mercadores genoveses e renunciou às suas conquistas, e os genoveses reconheceram seu governo em Ventimiglia. O Papa Inocêncio morreu em 30 de junho de 1276. Depois que os cardeais se reuniram no Palácio de Latrão, as tropas de Carlos os cercaram, só permitindo a seus aliados que se comunicassem com outros cardeais e com estranhos. Em 11 de julho, os cardeais elegeram um velho amigo dele, Ottobuono Fieschi, papa, mas este morreu em 18 de agosto. Os cardeais se encontraram novamente, desta vez em Viterbo. Embora Carlos estivesse hospedado na vizinha Vetralla, não pôde influenciar diretamente a eleição, porque seu veemente oponente, o cardeal Giovanni Gaetano Orsini, dominou o conclave papal. O Papa João XXI, eleito em 20 de setembro, excomungou os oponentes de Carlos no Piemonte e proibiu Rodolfo de vir para a Lombardia, mas não proibiu os líderes guelfos lombardos de jurarem lealdade a ele. O papa também confirmou o tratado concluído por Carlos e Maria de Antioquia em 18 de março, que transferiu seus direitos sobre Jerusalém para o Rei da Sicília por mil besantes e uma pensão de quatro mil libras tornesas.
Fim da união da Igreja
O Papa Martinho excomungou o Imperador Miguel VIII em 10 de abril de 1281 porque este não impôs a união da Igreja em seu império. O Papa logo autorizou Carlos a invadir o império. Hugo de Sully, seu vigário na Albânia, já havia sitiado a fortaleza bizantina de Berati. Um exército bizantino de alívio sob o comando de Miguel Tarcaniota e João Sinadeno chegou em março de 1281. Sully foi emboscado e capturado, seu exército foi colocado em fuga e o interior da Albânia foi perdido para os bizantinos. Em 3 de julho de 1281, Carlos e seu genro, Filipe de Courtenay, o imperador latino titular, fizeram uma aliança com Veneza "para a restauração do Império Romano". Eles decidiram começar uma campanha em grande escala no início do próximo ano.
Vésperas sicilianas
Sempre precisando de fundos, Carlos não podia cancelar o subventio generalis, embora fosse o imposto mais impopular do reino. Em vez disso, concedeu isenções a indivíduos e comunidades, especialmente aos colonos franceses e provençais, o que aumentou a carga sobre aqueles que não gozavam de tais privilégios. A troca obrigatória anual, ou ocasionalmente mais frequente, dos denários – as moedas quase exclusivamente usadas em transações locais – também era uma fonte importante e impopular de receita para o tesouro real. Carlos fazia empréstimos forçados sempre que precisava "imediatamente de uma grande soma de dinheiro para certos negócios árduos e urgentes", como explicou em um de seus decretos.
Guerra com Aragão
Guilherme de Castelnou, o enviado de Pedro III de Aragão, iniciou negociações com os líderes rebeldes em Palermo. Percebendo que não poderiam resistir sem o apoio estrangeiro, eles reconheceram Pedro e Constança como seu rei e rainha. Eles designaram enviados para acompanhar Castelnou a Collo, onde a frota aragonesa estava se reunindo. Após uma breve hesitação, Pedro decidiu intervir em favor dos rebeldes e navegou para a Sicília. Ele foi declarado rei da Sicília em Palermo em 4 de setembro. Depois disso, dois reinos, cada um governado por um monarca denominado rei (ou rainha) da Sicília, coexistiram por mais de um século, com Carlos e seus sucessores governando no sul da Itália (conhecido como Reino de Nápoles), enquanto Pedro e seus descendentes governaram a ilha da Sicília.
Morte
Carlos foi a Brindisi e se preparou para uma campanha contra a Sicília no ano novo. Despachou ordens para seus funcionários para a coleta do subventio generalis. No entanto, ele adoeceu gravemente antes de viajar para Foggia em 30 de dezembro. Ele fez seu último testamento em 6 de janeiro de 1285, nomeando Roberto II de Artésia regente para seu neto, Carlos Martel, que governaria seus reinos até que Carlos de Salerno fosse libertado. Ele morreu na manhã de 7 de janeiro. Foi enterrado em um sepulcro de mármore em Nápoles, mas seu coração foi colocado no Couvent Saint-Jacques em Paris. Seu cadáver foi transferido para uma capela da recém-construída Catedral de Nápoles em 1296.
Todos os registros mostram que Carlos foi um marido fiel e um pai atencioso. Sua primeira esposa, Beatriz da Provença, deu à luz pelo menos seis filhos. De acordo com as fofocas da época, ela persuadiu o marido a reivindicar o Reino da Sicília, porque queria usar uma coroa como suas irmãs. Antes de morrer em julho de 1267, ela havia legado o usufruto da Provença ao esposo. O viúvo Carlos se propôs pela primeira vez a Margarida da Hungria. No entanto, Margarida, que havia sido criada em um convento dominicano, não queria se casar. Segundo a lenda, ela se desfigurou para impedir o casamento. Ele e sua segunda esposa, Margarida de Nevers, tiveram vários filhos, mas nenhum sobreviveu à idade adulta.
As obras de dois historiadores do século XIII, Bartolomeu de Neocastro e Saba Malaspina, influenciaram fortemente as visões modernas sobre Carlos, embora fossem tendenciosas. O primeiro o descreveu como um tirano para justificar as vésperas sicilianas, o último defendeu o cancelamento da cruzada contra Aragão em 1285. Carlos deu continuidade às políticas de seus predecessores imperiais em vários campos, incluindo cunhagem, tributação e emprego de funcionários impopulares de Amalfi. No entanto, a monarquia sofreu um "afrancesamento" ou "provençalização" durante seu reinado. Ele doou propriedades no Reino para cerca de 700 nobres da França ou da Provença. Não adotou as ricas vestes cerimoniais, inspiradas na arte bizantina e islâmica, dos primeiros reis sicilianos, mas se vestiu como outros monarcas da Europa Ocidental, ou como "um simples cavaleiro", como foi observado pelo cronista Tomé Tuscus que visitou Nápoles em 1267.

