Carlos III de Espanha
Carlos III foi o Rei da Espanha de 1759 até sua morte, e também Rei de Nápoles como Carlos VII e da Sicília como Carlos V desde suas conquistas em 1734 até sua abdicação em 1759. Era o filho mais velho do rei Filipe V e de sua segunda esposa Isabel Farnésio.
Em 1713, a Guerra da Sucessão Espanhola (1701-1714) terminou com a assinatura do Tratado de Utrecht, reduzindo o poder político e militar de Espanha, país que tinha sido governado pela Casa de Bourbon desde 1700. Segundo os termos do tratado, o Império Espanhol poderia ficar com os seus territórios na América Latina, mas teria de ceder o sul dos Países Baixos à Áustria dos Habsburgos, os reinos de Nápoles e da Sardenha, o Ducado de Milão e o Estado dos Presídios. Além disso, a Casa de Saboia recebeu o Reino da Sicília e o Reino da Grã-Bretanha recebeu a ilha de Maiorca e a fortaleza de Gibraltar. Em 1700, o pai de Carlos tornou-se rei de Espanha como Filipe V. Durante o resto do seu reinado (1700-1746), Filipe tentou insistentemente recuperar os territórios perdidos. Em 1714, após a morte da sua primeira esposa, a princesa Maria Luísa Gabriela de Saboia, o cardeal Giulio Alberoni arranjou com sucesso o casamento de Filipe com a ambiciosa Isabel Farnésio, sobrinho e enteada de Francisco Farnésio, Duque de Parma. Isabel e Filipe casaram-se a 24 de dezembro de 1714; a nova rainha demonstrou rapidamente ser uma consorte dominante e influenciou o marido a nomear o cardeal Giulio Alberoni primeiro-ministro de Espanha em 1715.
Infância
O nascimento de Carlos encorajou o primeiro-ministro Alberoni a fazer grandes planos para a Europa. Em 1717, ordenou que a Espanha invadisse a Sardenha. Em 1718, Alberoni também ordenou a invasão da Sicília, que era então governada pela Casa de Saboia. Nesse mesmo ano, nasceu a primeira irmã de Carlos, a infanta Mariana Vitória, a 31 de março. Em reacção à Quádrupla Aliança de 1718, o duque de Saboia juntou-se à mesma e declarou guerra a Espanha. Devido a esta guerra, Alberoni foi dispensado pelo rei Filipe em 1719. O Tratado de Haia de 1720, incluía o reconhecimento de Carlos como herdeiro do Ducado de Parma e Placência. O meio-irmão de Carlos, o infante Filipe Pedro, morreu a 29 de dezembro de 1719, colocando Carlos no terceiro lugar de sucessão, atrás de Luís e Fernando. Esta seria a sua posição, atrás dos dois meios-irmãos, até à morte de cada um deles. O seu segundo irmão, o infante Filipe de Espanha, nasceu a 15 de março de 1720.
Chegada a Itália
Carlos chegou a Itália a 20 de outubro de 1731. Após uma cerimónia solene em Madrid, Carlos recebeu a épée d'or (espada de ouro) do seu pai; a espada tinha sido entregue a Filipe V pelo seu avô, o rei Luís XIV de França, antes da sua partida para Espanha em 1700. Carlos partiu de Espanha e viajou por terra de Sevilha para Antibes seguindo depois para a Toscana, tendo chegado a Livorno a 27 de dezembro de 1731. O seu primo, João Gastão de Médici, grão-duque da Toscana foi nomeado seu cotutor e, apesar de Carlos ser considerado herdeiro presumível de João Gastão, o grão-duque recebeu-o bem. A caminho de Florença a partir de Pisa, Carlos adoeceu de varíola. Carlos entrou majestosamente em Florença, capital dos Médici, a 9 de março de 1732, com uma comitiva de 250 pessoas. Ficou alojado com o seu anfitrião na residência ducal, o Palácio Pitti.
Personalidade e aparência
Quando chegou à península Itálica, Carlos ainda não tinha dezassete anos de idade. Recebeu a educação rigorosa e estruturada dada a um infante espanhol. Era muito devoto e muitas vezes sentia-se intimidado pela sua mãe dominadora, com quem, segundo relatos da época, se parecia muito. Alvise Giovanni Mocenigo, Doge de Veneza e embaixador de Veneza e Nápoles declarou que: O conde Monasterolo Solaro, embaixador de Saboia que serviria o duque Carlos Emanuel III da Sardenha em 1742, partilhava a mesma opinião. Por outro lado, aprendeu a produzir gravuras (algo que faria ao longo de toda a sua vida), a pintar e uma série de actividades físicas, como por exemplo a caça, que era o seu desporto preferido. Sir Horace Mann, um diplomata britânico que vivia em Florença, reparou que ficou muito impressionado com o gosto que Carlos tinha por desporto.
Em 1733, quando morreu o rei Augusto II da Polónia, houve uma crise de sucessão na Polónia. A França apoiava um pretendente enquanto a Áustria e a Rússia preferiam outro. A França e os Saboia criaram uma aliança e conquistaram territórios à Áustria. A Espanha, que se tinha aliado a França em finais de 1733 através do chamado Pacto dos Bourbon, também entrou no conflito. Na categoria de regente, a mãe de Carlos viu nesta ocasião a oportunidade para reconquistar os reinos de Nápoles e da Sicília que a Espanha tinha perdido no Tratado de Utrecht. A 20 de janeiro de 1734, Carlos tornou-se maior de idade e estava agora "livre para governar e gerir de forma independente os seus estados". Na altura foi também nomeado comandante de todas as tropas espanholas em Itália, uma posição que partilhava com o duque de Montemar. A 27 de fevereiro, o rei Filipe expressou a sua intenção de conquistar o reino de Nápoles, afirmando que o libertaria da "violência excessiva exercida pelo vice-rei da Áustria em Nápoles, assim como a sua opressão e tirania". Carlos, que era agora conhecido como "Carlos I de Parma", seria o responsável. Carlos inspeccionou as tropas espanholas em Perúgia e marchou a caminho de Nápoles a 5 de março. O exército passou pelos Estados Pontifícios, na altura governados pelo papa Clemente XII.
Carlos de Bourbon entrou em triunfo em Nápoles a 10 de maio de 1734. Fê-lo montado num cavalo que entrou pelo velho portão da cidade em Capuana rodeado pelos conselheiros da cidade, juntamente com um grupo de pessoas que atirou dinheiro aos habitantes locais. A procissão atravessou as ruas e terminou na Catedral de Nápoles, onde Carlos recebeu a bênção do bispo local, o cardeal Pignatelli. Carlos passou a residir no Palácio Real, um edifício mandado construir pelo seu antecessor, o rei Filipe III de Espanha. Dois cronistas da época, o florentino Bartolomeo Intieri e o veneziano Cesare Vignola relataram duas visões distintas relativamente à opinião que os napolitanos tinham desta situação. Intieri escreve que a sua chegada foi um evento histórico e que a multidão gritava que "Sua Alteza Real era lindo, que o seu rosto era semelhante ao de São Januário na estátua que o representava". Por outro lado, Vignola escreveu que "houve apenas algumas aclamações" e que a multidão aplaudia com "muita languidez" e apenas "para incentivar os que atiravam dinheiro a atirar ainda mais".
Relações com a Santa Sé
Durante os seus primeiros anos de reinado, a corte de Nápoles envolveu-se numa disputa com a Santa Sé. O Reino de Nápoles era um condado antigo dos Estados Pontifícios. Por isso, o papa Clemente XII considerava-se o único com autoridade para investir o rei de Nápoles e não reconhecia Carlos de Bourbon como soberano legítimo. Através do núncio apostólico, o papa informou Carlos que não considerava a nomeação que tinha recebido da parte do pai válida. Em resposta, um comité liderado pelo advogado da Toscana, Bernardo Tanucci em Nápoles concluiu que a investidura do papa não era necessária, uma vez que a coroação de um rei não podia ser vista como um sacramento. Tanucci também implementou uma política que limitava substancialmente os privilégios do clero que não pagava impostos pelas suas vastas possessões e tinha a sua própria jurisdição. No entanto, o governo de Nápoles também procedeu por vezes de forma conciliatória para com a igreja proibindo, por exemplo, o regresso do historiador Pietro Giannonne que tinha sido exilado por não ser bem visto pela hierarquia eclesiástica.
Escolha do nome
Carlos deveria ser recordado como Carlos VII de Nápoles (algumas fontes inclusivamente tratam-no desta forma), mas este número nunca foi utilizado oficialmente por ele. Era conhecido simplesmente como Carlos de Bourbon. O motivo pelo qual nunca foi utilizado qualquer número oficialmente deve-se ao facto de este desejar realçar o facto de ser o primeiro rei de Nápoles a viver realmente neste território e para marcar a separação entre ele e os governantes anteriores que tinham o mesmo nome, mais especificamente, o imperador Carlos VI. Na Sicília, era conhecido por Carlos III da Sicília e de Jerusalém, preferindo o número III ao V. O povo da Sicília não tinha reconhecido o rei Carlos I de Nápoles (Carlos de Anjou) como seu governante e rebelaram-se contra ele. O mesmo tinha acontecido com o imperador Carlos que também não era amado.
Paz com a Áustria e casamento
Chegou-se a uma paz preliminar com a Áustria a 3 de outubro de 1735. No entanto, esta seria apenas definitiva três anos depois, com a assinatura do Tratado de Viena (1738) que concluiu a Guerra da Sucessão Polaca. Nápoles e a Sicília foram entregues pela Áustria a Carlos que, em troca, cedeu Parma e a Toscana. Carlos tinha herdado a Toscana em 1737, após a morte de Gian Gastone, mas este território passou para as mãos de Francisco Estêvão, genro do imperador romano-germânico Carlos VI, como compensação pela cedência do ducado de Lorena ao rei Estanislau I Leszczyński, deposto após a guerra. O tratado incluía também a transferência de todos os bens da Casa de Farnese para Nápoles. Carlos levou consigo a colecção de arte, os arquivos e a biblioteca do ducado, os canhões do forte e até uma escadaria de mármore do palácio ducal.
Guerra da Sucessão Austríaca
Foi assinado o tratado de paz entre Carlos e a Áustria em Viena, em 1740. Nesse ano, o imperador Carlos VI faleceu, deixado os seus reinos da Boémia e da Hungria (juntamente com muitas outras propriedades) à sua filha Maria Teresa da Áustria. O imperador tinha esperança de que muitos dos signatários da Pragmática Sanção não interferissem na linha de sucessão que tinha definido. No entanto, tal não aconteceu e rebentou a Guerra da Sucessão Austríaca. A França aliou-se à Espanha e à Prússia contra Maria Teresa que tinha o apoio da Grã-Bretanha, governada pelo rei Jorge II, e pelo Reino da Sardenha, governado pelo rei Carlos Emanuel III da Sardenha.
Em 1746, o rei Filipe V de Espanha faleceu aos sessenta e dois anos de idade. O trono de Espanha foi herdado pelo seu filho, o infante Fernando, que reinou como Fernando VI de Espanha. Fernando, que não tinha um bom relacionamento com a sua madrasta, forçou-a a deixar a corte espanhola. Esta atitude significava também que Isabel Farnésio perdia a influência que tinha junto do seu filho por ser rainha de Espanha. Nesse mesmo ano, foi introduzida a Inquisição nos reinos de Carlos, trazida pelo cardeal Spinelli. Esta medida não foi bem recebida e levou à intervenção de Carlos. Carlos deixou um legado duradouro no seu reino; construiu muitos edifícios e deu início a reformas no país. Em Nápoles e nas zonas circundantes é possível encontrar uma série de palácios construídos durante o seu reinado. Tendo como inspiração o Palácio de Versalhes e o Palácio Real de Madrid (que tinha já utilizado Versalhes como modelo), Carlos deu início à construção de um dos palácios mais luxuosos da Europa, o Palácio de Caserta. A ideia de construir o palácio surgiu em 1751, quando Carlos tinha vinte e cinco anos de idade. O local escolhido para a sua construção era uma cabana de caça, à semelhança de Versalhes. Carlos gostava do local porque lembrava San Ildefonso, o local onde se encontravam os palácios de La Granja e de San Ildefonso em Espanha. A construção de Caserta teve grande influência da sua esposa, a princesa Maria Amália da Saxónia, uma mulher muito culta. O local do palácio era também afastado no grande vulcão do monte Vesúvio que representava uma ameaça constante para a capital, assim como o mar. Foi o próprio rei que colocou a primeira pedra no local, entre grandes celebrações, no dia do seu vigésimo-sexto aniversário, a 20 de janeiro de 1752.
Em finais de 1758, o meio-irmão de Carlos, o rei Fernando VI, começou a manifestar os mesmos sintomas de depressão do pai. Fernando tinha perdido a sua amada esposa, a infanta Bárbara de Portugal, em agosto de 1758 e entrou num período de luto profundo por ela. Nomeou Carlos seu herdeiro presumível a 10 de dezembro de 1758, antes de trocar Madrid por Villaviciosa de Odón, onde viria a falecer a 10 de agosto de 1759. Nesta altura, Carlos foi proclamado rei de Espanha com o nome de Carlos III, respeitando o terceiro Tratado de Viena que definia que não seria possível juntar os territórios de Nápoles e da Sicília ao trono espanhol. Mais tarde, Carlos recebeu o título de Senhor das Duas Sicílias. O Tratado de Aquisgrão, que Carlos não tinha rectificado, previa a eventualidade da sua subida ao trono de Espanha; assim, Nápoles e Sicília passariam para o seu irmão Filipe I de Parma, sendo os seus territórios divididos entre a imperatriz Maria Teresa da Áustria (Parma e Guastalla) e o rei da Sardenha (Placência).
Rei de Espanha
Ao contrário dos vinte anos produtivos que passou em Itália, a sua era em território espanhol não é vista com tanto entusiasmo. A política interna do país, assim como a sua relação com outros países foram completamente reformadas. Carlos representava um novo tipo de governante: o governante que tinha aderido ao absolutismo iluminado, uma forma de monarquia absoluta na qual os monarcas incorporavam os princípios do iluminismo, com especial destaque para a racionalidade, e os aplicavam nos seus territórios. Estes monarcas tendiam a permitir a tolerância religiosa, liberdade de expressão e de imprensa e o direito de deter propriedade privada. A maioria apoiou as artes, ciência e educação. Carlos partilhava estes ideais com outros monarcas, incluindo a imperatriz Maria Teresa, o seu filho José e a imperatriz Catarina II da Rússia.
Políticas
No seu todo, o seu governo interno foi favorável ao país. A primeira acção que tomou foi convencer os habitantes de Madrid a deixar de despejar os seus dejectos pela janela. Quando estes se mostraram contra esta medida, o rei acusou-os de serem como as crianças que choravam quando lhes lavavam a cara. Quando subiu ao trono de Espanha, Carlos nomeou o marquês de Esquillache secretário das finanças e do tesouro e, juntos, levaram a cabo muitas reformas. O exército e a marinha espanholas foram reorganizados apesar das perdas sofridas durante a Guerra dos Sete Anos. Carlos eliminou também o imposto sobre a farinha, o que liberalizou o comércio em grande escala. No entanto, devido a esta medida, houve uma grande subida nos preços, causada pelos "monopolizadores" que começaram a especular sobre as más colheitas dos anos anteriores. A 23 de março de 1766, a sua tentativa de convencer os madrileños a vestir-se à moda francesa por razões de segurança serviu de desculpa para o início de um motim (o Motim de Esquilache) durante o qual o rei não demonstrou a sua grande coragem. Após este acontecimento, permaneceu em Aranjuez durante um longo período de tempo, deixando o governo nas mãos do seu ministro, o conde de Aranda. Nem todas as suas reformas tiveram uma faceta tão formal.
Durante o reinado de Carlos, a Espanha começou a ser reconhecida como uma nação única e não como uma série de reinos e territórios com um soberano em comum. Os seus esforços resultaram na criação do Hino Nacional, de uma bandeira e de uma capital merecedora desse título, bem como da construção de uma rede de estradas coerente que convergia em Madrid. A 3 de setembro de 1770, Carlos III declarou que a Marcha Real deveria ser utilizada em cerimónias oficiais. Foi Carlos quem escolheu as cores da actual bandeira de Espanha, o vermelho e o amarelo. O rei apresentou a bandeira da marinha militar a 28 de maio de 1785. Até aí, as embarcações espanholas surgiam com a bandeira branca dos Bourbon e com o escudo do soberano. Esta foi substituída pela de Carlos devido à sua preocupação com o facto de a bandeira anterior ser demasiado parecida com as de outras nações. O escudo utilizado por Carlos enquanto rei de Espanha fez parte da bandeira até 1931, ano em que o seu descendente, o rei Afonso XIII, foi deposto e foi proclamada a Segunda República Espanhola (houve também uma breve interrupção entre 1873-5). Filipe VI da Espanha, o actual monarca, é descendente directo pela linha masculina do rey alcalde.
Carlos III casou-se com a princesa Maria Amália da Saxônia, de quem teve os seguintes filhos:


