Carlota da Bélgica
Maria Carlota Amélia Augustina Vitória Clementina Leopoldina de Saxe-Coburgo-Gota foi a esposa do imperador Maximiliano I e Imperatriz Consorte do México de 1864 até 1867. Era filha, a única menina, do rei Leopoldo I da Bélgica e de sua segunda esposa, a princesa francesa Luísa Maria de Orleães.
Carlota desapareceu completamente da esfera pública, protegida pelos altos portões de seu domínio e pelos guardas que os protegiam. Ela recebia visitas apenas de sua família: principalmente de suas cunhadas, a rainha Maria Henriqueta e a condessa de Flandres. Aos domingos, um abade vinha celebrar a missa no Castelo de Bouchout. Para se distrair, ela fazia caminhadas, bordava, jogava cartas e ouvia seu gramofone. Ela não foi informada da morte de seus parentes próximos (o rei Leopoldo II em 1909 e sua cunhada, a condessa de Flandres, esposa de seu irmão Filipe, em 1912), nem de seus servos porque ela nunca fazia perguntas sobre sua ausência. Sua dama de companhia, a Condessa Hélène de Reinach-Foussemagne, disse sobre Carlota: "A maior parte do tempo, a infeliz mulher estava absorta em longos silêncios, ou pelo contrário em discussões acaloradas em francês, inglês, alemão, italiano, espanhol, com interlocutores imaginários, discussões muito incoerentes, muito desconexas para que se pudesse adivinhar quais pensamentos ocupavam esse cérebro. [...] Em seus solilóquios passam de vez em quando, muito raramente, frases, interjeições que provam que às vezes seu pensamento obscurecido retorna a essas lamentáveis lembranças: Senhor, alguém lhe disse que tinha tido um marido; um marido, senhor, e então a loucura! A loucura é feita de acontecimentos! Se ele tivesse sido ajudado por Napoleão!...". Por sua vez, a princesa Maria José e o príncipe Carlos da Bélgica relembraram suas visitas à tia-avó, lembrando-se de uma senhora idosa fazendo comentários confusos. Os períodos de lucidez tornaram-se mais raros com o tempo. Em crises de monomania destrutiva, ela cedia a explosões de raiva incontrolável e destruía louças e vasos de cristal, colocava seus cães atrás de uma empregada e rasgava quadros e livros. Isso alternava com períodos de calma, quando ela empreendia pacificamente ocupações simples.
Primeiros Anos
Maria Carlota Amélia Augustina Vitória Clementina Leopoldina de Saxe-Coburgo-Gotaa, mais conhecida pelo nome de Carlota, era filha do rei Leopoldo I da Bélgica e de sua segunda esposa, a princesa francesa Luísa Maria de Orleães. Seu primeiro nome é uma homenagem à falecida princesa Carlota de Gales, a primeira esposa de seu pai. Ela foi a quarta e última filha, a única menina, dos reis belgas, depois de Luís Filipe (que morreu com menos de um ano de idade em 1834), Leopoldo (nascido em 1835) e Filipe (nascido em 1837). A última gravidez da rainha Luísa Maria foi tão difícil que houve temores de um aborto espontâneo em abril, mas em 7 de junho de 1840 à 1h da manhã, Carlota nasceu saudável no Castelo Real de Laeken. Inicialmente decepcionado com o nascimento de uma menina, que na época não poderia herdar o trono da Bélgica, o rei Leopoldo I foi gradualmente encantado por sua filha, que se tornou com o tempo sua favorita. Através de sua mãe, Carlota era neta do rei Luís Filipe I de França e Maria Amélia das Duas Sicílias e, por meio de seu pai, era prima em primeiro grau da rainha Vitória do Reino Unido, de modo que, além de estadias regulares na cidade de Ostende no verão, Carlota passava longas férias com seus avós maternos nas residências reais francesas e com a prima no Castelo de Windsor. Ela era próxima de sua avó materna, a rainha Maria Amélia, e as duas se correspondiam regularmente; após a Revolução Francesa de 1848, que destronou seus avós e os exilou na Inglaterra, Carlota, por algumas semanas do ano, residia na Casa Claremont com os avós exilados.
Casamento
Em sua juventude, Carlota se parecia com sua mãe e era notada como uma beldade com feições delicadas. Isso, combinado com seu status de filha única do rei dos belgas, fez dela uma noiva desejável. Em 1856, enquanto ela se preparava para comemorar seu décimo sexto aniversário, dois pretendentes pediram sua mão: o príncipe Jorge da Saxônia (que foi rapidamente rejeitado) e o rei D. Pedro V de Portugal. Este último era o candidato favorito da rainha Vitória e do rei Leopoldo. Por escolha pessoal e sob a influência de Madame d'Hulst (que afirmou que na corte portuguesa nenhum padre a entenderia), Carlota recusou a oferta de casamento com o rei Pedro V. Ela explicou: "Quanto a Pedro, é um trono, é verdade, eu seria rainha e majestade, mas o que é isso, as coroas hoje em dia são fardos pesados e como se arrepende mais tarde de ter cedido a considerações tão loucas".
Vida na Itália
Em setembro de 1857, o Imperador Francisco José I da Áustria nomeou seu irmão Maximiliano como vice-rei do Reino da Lombardia-Vêneto. Após uma curta parada em Schönbrunn, onde conheceram a família imperial austríaca, os recém-casados seguiram para o Castelo de Miramare, onde permaneceram por oito dias. Eles então visitaram Veneza e Verona. Em 6 de setembro de 1857, Carlota e Maximiliano fizeram uma entrada solene em Milão, onde foram calorosamente recebidos. Alguns jornais alegaram que sua entrada foi feita para parecer ridícula por causa de carruagens e librés excessivamente ornamentadas. Leopoldo, Duque de Brabante, escreveu ao conde de Flandres: "Todos os criados usavam alabardas! Em Paris, falamos muito sobre isso [...]. Se pecamos aqui por muita simplicidade, eles são culpados por um luxo bufão de outra época e que hoje em dia parece muito fora do lugar".
Imperatriz do México
Em 10 de abril de 1864, em um apartamento do Castelo de Miramare, Maximiliano e Carlota foram proclamados informalmente como Imperador e Imperatriz do México. Maximiliano afirmou que os desejos do povo mexicano lhe permitiam considerar-se o legítimo representante eleito do povo. Na realidade, o arquiduque foi persuadido por alguns conservadores mexicanos que incorretamente lhe garantiram um apoio popular massivo. Para documentos de apoio, a delegação mexicana produziu "atos de adesão" contendo números populacionais para localidades dentro do México que foram supostamente pesquisadas. Maximiliano instruiu a delegação "a garantir por todos os meios o bem-estar, prosperidade, independência e integridade desta nação".
Retorno à Europa
Em 8 de agosto de 1866, a imperatriz Carlota chegou à Europa com seus dois filhos adotivos e Martín del Castillo, no porto de Saint-Nazaire, onde foram recebidos por Juan Almonte e sua esposa, em vez de uma cerimônia oficial de boas-vindas. De lá, ela pegou um trem para Paris, onde chegou em 9 de agosto. Durante a viagem, Carlota recebeu um telégrafo de Napoleão III, informando-a de que ele estava terrivelmente doente, mas isso pouco a dissuadiu. No Castelo de Saint-Cloud, o acamado Napoleão III recebeu um telegrama de Carlota solicitando uma entrevista. Ele primeiro enviou sua esposa, a imperatriz Eugénia, ao Le Grand Hôtel, onde Carlota estava hospedada, na esperança de dissuadir a determinada imperatriz do México de seus planos de encontrá-lo pessoalmente. Mas Carlota não pôde ser dissuadida e Eugénia fez arranjos para um primeiro encontro entre os dois no dia seguinte, 11 de agosto, em Saint-Cloud.
Retorno à Bélgica
Após sua chegada à Bélgica, Carlota residiu até 8 de outubro de 1867 no Pavilhão de Tervueren, perto de Bruxelas, que foi construído por Charles Vander Straeten para o rei Guilherme II dos Países Baixos. A residência, no entanto, não estava suficientemente mobiliada e mal aquecida no inverno. Ela, portanto, se juntou ao rei Leopoldo II e à rainha Maria Henriqueta no Castelo Real de Laeken, onde se mudou para os antigos apartamentos de seus irmãos. Quando Carlota finalmente soube, em janeiro de 1868, da execução de seu marido seis meses antes, ela ficou arrasada. Em um conjunto de quase 400 cartas encontradas em 1995 (principalmente destinadas a um oficial francês que ela conheceu no México, Charles Loysel), ela se declara "morta" na queda do Império Mexicano. Estas cartas, pelo seu número e extensão (por vezes até vinte páginas), oferecem também o testemunho da sua vida quotidiana pontuada por crises de paranóia e do tratamento que lhe foi dispensado.
A natureza da patologia mental de Carlota, psicose, paranoia e monomania, mostrou-se extremamente difícil de determinar com certeza a posteriori, dando origem a várias hipóteses. Vários autores propõem uma origem causada pela intoxicação. Esta hipótese é notavelmente apresentada por Joan Haslip, que revela que um dos médicos da corte mexicana adicionou brometo ao café de Carlota sem que ela soubesse. No México, a partir de julho de 1867, espalharam-se rumores de que a loucura da imperatriz era atribuída a um veneno que lhe era administrado regularmente em pequenas doses. A pesquisa de Roger Heim corrobora esta possibilidade, nomeadamente que Carlota poderia ter sido "pouco a pouco intoxicada enquanto ainda estava no México, pela introdução na sua comida durante um tempo prolongado de um psicotrópico". Quando fez uma visita oficial a Yucatán, Carlota escreveu ao seu marido em 8 de dezembro de 1865:
O relacionamento entre Carlota e sua cunhada, a imperatriz Sissi, foi muito difícil desde o início e isso foi em grande parte provocado por sua sogra, a arquiduquesa Sofia. Assim que Carlota chegou à corte austríaca, sua nova sogra, a arquiduquesa Sofia, ficou encantada com Carlota e escreveu: "Carlota é encantadora, linda, atraente, amorosa e gentil comigo. Sinto como se eu sempre a tivesse amado... Agradeço a Deus de todo o coração pela encantadora esposa que Ele deu a Max e pelo filho adicional que Ele nos deu". Com os elogios de Sofia, talvez não seja surpresa que Carlota e sua cunhada Sissi, que era considerada uma beldade lendária, não se dessem bem. Além disso, Carlota era filha de um rei e imensamente rica. Sissi provavelmente se sentia repreendida por sua sogra com cada pequeno elogio que era derramado sobre Carlota. A chegada de Carlota também infelizmente coincidiu com as consequências da morte da filha mais velha de Francisco José e Sissi, a arquiduquesa Sofia Frederica. A corte estava em luto profundo, mas Francisco José havia ordenado uma breve pausa para fazer uma recepção para os recém-casados, pois eles deveriam partir para a Itália no dia seguinte de qualquer maneira.
• 7 de Junho de 1840 - 27 de Julho de 1857: "Sua Alteza Real, a Princesa Carlota da Bélgica, Princesa de Saxe-Coburgo-Gota, Duquesa da Saxônia". • 27 de Julho de 1857 - 10 de Abril de 1864: "Sua Alteza Imperial e Real, a Arquiduquesa Carlota da Áustria, Princesa da Hungria, Croácia e Boêmia". • 10 de Abril de 1864 - 15 de Maio de 1867: "Sua Majestade Imperial, a Imperatriz do México". • 15 de Maio de 1867 - 19 de Janeiro de 1927: "Sua Majestade Imperial, a Imperatriz Carlota do México". Desde o nascimento, como filha do rei Leopoldo I, Carlota foi intitulada "Princesa de Saxe-Coburgo-Gota e Duquesa da Saxônia", com o predicado de "Alteza Real", de acordo com os títulos de sua casa, e ostentava o título não oficial de "Princesa da Bélgica", que seria oficialmente regularizado pelo Decreto Real datado de 14 de março de 1891. De 1864 até sua morte, ela foi denominada "Sua Majestade Imperial, a Imperatriz do México".
História em quadrinhos
Em outubro de 2018, a Dargaud publicou o primeiro volume de uma série de histórias em quadrinhos biográficas, Charlotte impératrice - La Princesse et l'Archiduc, de Matthieu Bonhomme (desenho) e Fabien Nury (roteiro). O segundo volume, intitulado Charlotte impératrice - L'Empire, foi publicado em maio de 2021. O terceiro volume, intitulado Charlotte impératrice - Adios, Carlotta, foi publicado em julho de 2023. Mais um volume está planejado.
Música
Em 1866, o escritor liberal Vicente Riva Palacio compôs uma canção satírica chamada Adiós, mamá Carlota (Adeus, mãe Carlota), criticando Carlota, os imperialistas e os políticos conservadores. É baseada no poema Adiós, oh Patria mía (Adeus, minha pátria) escrito em 1842 por Ignacio Rodríguez Galván.


