Catarina II da Rússia
Catarina II, conhecida como Catarina, a Grande, foi a Imperatriz da Rússia de 1762 até sua morte. Nascida como princesa Sofia Frederica Augusta de Anhalt-Zerbst-Dornburg, era a filha mais velha de Cristiano Augusto, Príncipe de Anhalt-Zerbst, e sua esposa Joana Isabel de Holsácia-Gottorp. Sofia se converteu para a Igreja Ortodoxa Russa, assumiu o nome de Catarina Alexeievna e se casou com o grão-duque Pedro Feodorovich, nascido príncipe de Holsácia-Gottorp, em 1745. Seu marido ascendeu ao trono russo em janeiro de 1762 como Pedro III da Rússia e ela organizou um golpe de estado que o tirou do trono em julho, com Pedro III morrendo alguns dias depois supostamente assassinado.
O pai de Catarina, o príncipe Cristiano Augusto de Anhalt-Zerbst, pertencia à família reinante de Anhalt, mas servia o exército prussiano, onde detinha o posto de general. Após a morte do seu pai, o príncipe e marechal-de-campo do exército da Prússia Leopoldo de Dessau assumiu o poder do Ducado de Anhalt-Zeberst, cuja capital era Estetino, a mesma cidade onde a imperatriz russa havia nascido. Nascida com o nome de Sofia Frederica Augusta de Anhalt-Zerbst-Dornburg, Princesa de Holsácia, a futura imperatriz russa tinha a alcunha de "Figchen". Como era costume nas cortes alemãs da época, a jovem princesa recebeu uma excelente educação de duas governantas francesas, a primeira Madeleine Cardel que, depois de casada, foi substituída pela sua irmã Babet Cardel. Além da governanta, havia um tutor para cada área da educação de Sofia. A sua infância foi bastante calma, e a própria Catarina escreveria ao barão Grimm que "não consigo ver nada de interessante nela". Apesar de ter nascido como princesa, a sua família tinha pouco dinheiro, o que pode ter contribuído para a sua infância aparentemente monótona. Catarina ascendeu na escada social graças aos laços de parentesco que a sua mãe, a duquesa Joana Isabel de Holsácia-Gottorp, tinha com membros proeminentes da realeza.
Candidata a esposa do herdeiro do trono russo
A escolha de Sofia para esposa do futuro czar Pedro de Holsácia-Gottorp resultou de uma quantidade generosa de negociações diplomáticas nas quais o conde Lestocq, a tia de Pedro (na altura a imperatriz reinante Isabel da Rússia) e o rei Frederico II da Prússia participaram. Lestocq e Frederico queriam fortalecer a amizade entre a Prússia e a Rússia para, assim, enfraquecer a influência da Áustria e arruinar o chanceler russo, Bestuzhev, em quem a czarina Isabel confiava, e que era conhecido por pretender instituir uma cooperação russo-austríaca, o que não era visto com bons olhos. Catarina conheceu Pedro aos dez anos de idade e, segundo o que escreveu, parece ter achado o príncipe detestável desde o primeiro encontro. Não gostou da sua tez pálida e do gosto por álcool que já demonstrava nesta tenra idade.
Após a morte da imperatriz Isabel em 5 de janeiro de 1762, Pedro, o grão-duque de Holsácia-Gottorp, sucedeu ao trono como Pedro III da Rússia. Catarina, que antes detinha o título de grã-duquesa, tornou-se imperatriz-consorte da Rússia. O casal imperial mudou-se para o novo Palácio de Inverno em São Petersburgo. As excentricidades e políticas do novo czar, incluindo a sua grande admiração pelo rei Frederico II da Prússia, enfureceram alguns círculos sociais que a própria Catarina tinha criado. Além disso, Pedro interveio numa disputa entre o seu ducado de Holsácia e a Dinamarca. O apoio insistente de Pedro a Frederico II, que tinha observado a ocupação de Berlim pelas tropas russas em 1760, mas agora sugeria repartir os territórios polacos com a Rússia, fê-lo perder muito do apoio da nobreza. (A Rússia e a Prússia tinham lutado uma contra a outra durante a Guerra dos Sete Anos que durou até Pedro subir ao trono.)
Durante o seu reinado, Catarina amplificou as fronteiras do Império Russo para sul e para o ocidente, absorvendo a Nova Rússia, Crimeia, Ucrânia, Bielorrússia, Lituânia e Curlândia, ao custo de, maioritariamente, duas potências – o Império Otomano e a República das Duas Nações. Ao todo ela acrescentou cerca de 518 000 quilómetros ao território russo. O ministro de negócios estrangeiros de Catarina, Nikita Panin (em funções entre 1763 e 1781), influenciou em muito o início do seu reinado. Um estadista astuto, Panin dedicou muito esforço e milhões de rublos para conseguir o "Acordo do Norte" entre a Rússia, a Prússia, a Polónia e a Suécia, para contrapor a Liga Bourbon-Habsburgo. Quando se tornou claro que o seu plano não daria frutos, Panin perdeu o seu lugar privilegiado com Catarina e foi substituído por Ivan Osterman que exerceu funções desde 1783 até 1797. Catarina assinou um tratado comercial com a Grã-Bretanha em 1766, mas evitou uma aliança militar. Apesar de compreender os benefícios de uma boa relação com a Grã-Bretanha, não confiava no aumento de poder que o país tinha visto desde a sua saída vitoriosa da Guerra dos Sete Anos e que ameaçava a balança do poder na Europa.
Guerras Russo-Turcas
Enquanto Pedro, o Grande apenas tinha tido sucesso em conquistar parte do mar Negro nas campanhas de Azov, Catarina completou a conquista do sul que ele tinha iniciado. A imperatriz fez da Rússia a potência dominante do sudoeste europeu após a sua primeira Guerra Russo-Turca contra o Império Otomano (1768 - 1774), que provocou algumas das piores derrotas turcas da História, incluindo a Batalha de Chesma (5 a 7 de julho de 1770) e a Batalha de Kagul (21 de julho de 1770). As vitórias russas permitiram ao governo de Catarina obter acesso ao mar Negro e incorporaram os vastos portos do sul da Ucrânia onde os russos fundaram as novas cidades de Odessa, Nikolayev, Yeakaterinoslav (literalmente: "a glória de Catarina) e Kherson. O Tratado de Küçük Kaynarca, assinado a 10 de julho de 1774, outorgou aos russos as províncias de Azov, Kerch, Yenikale, Kinburn e uma pequena linha de costa no Mar Negro entre os rios Dnieper e Bug. O tratado pôs termo às restrições impostas à marinha russa e ao comércio no mar de Azov, garantindo à Rússia a posição de protectora dos cristão ortodoxos no Império Otomano e fez da Crimeia um protectorado russo.
Relações com a Europa Ocidental
Catarina ansiava por ser reconhecida como uma soberana iluminista. Foi ela a pioneira naquele que seria mais tarde o papel da Grã-Bretanha ao longo do século XIX, o de mediadora internacional de disputas que poderiam levar à guerra. Assim, foi ela a mediadora da Guerra de Sucessão da Baviera (1778 - 1779) entre a Prússia e a Áustria. Em 1780, criou a Liga de Neutralidade Armada, que tinha como objectivo defender mercadorias neutras da Marinha Real Britânica durante a Revolução Americana. De 1788 a 1790, a Rússia pelejou na Guerra Russo-Sueca contra a Suécia, instigada pelo próprio primo de Catarina, o rei Gustavo III da Suécia. Esperando simplesmente adquirir os exércitos russos que ainda se encontravam a lutar contra o Império Otomano, e com a esperança de atacar São Petersburgo directamente, os suecos acabaram por sofrer pesadas derrotas por parte da esquadra báltica russa. Após a Dinamarca declarar guerra à Suécia em 1788 (a Guerra Teatral), a situação complicou-se para os suecos. Após a Batalha de Svensksund em 1790, ambos os partidos assinaram o Tratado de Värälä a 14 de agosto de 1790, devolvendo todos os territórios conquistados aos seus respectivos donos e a paz reinou durante vinte anos com a ajuda do assassinato do rei Gustavo III em 1792.
Partição da Polónia
Em 1764, Catarina colocou Stanislaw Poniatowski, o seu antigo amante, no trono polaco. Apesar de a ideia das partições polacas ter vindo do rei Frederico, o Grande da Prússia, Catarina teve o papel principal na realização do projecto durante a década de 1790. Em 1768, tornou-se formalmente protectora da República das Duas Nações, uma decisão que aumentou o sentimento anti-russo na Polónia com o apoio da Confederação de Bar (1768 - 1772). Após reprimir a revolta, a imperatriz estabeleceu um sistema de governo completamente controlado pelo Império Russo através de um Conselho Permanente sob a supervisão de embaixadores e enviados. Após a Revolução Francesa de 1789, Catarina rejeitou muitos dos princípios do iluminismo que antes tinha defendido. Temendo que a Constituição de Maio da Polónia (1791) pudesse levar ao renascimento da República das Duas Nações e que os movimentos democráticos crescentes dentro da mesma se pudessem converter numa ameaça para os monarcas europeus, Catarina decidiu intervir na Polónia. Ofereceu apoio ao grupo anti-reforma da Polónia, conhecido por Confederação Targowica. Após derrotar as forças patriotas polacas na Guerra em Defesa da Constituição (1792) e na Revolta Kościuszko (1794), a Rússia completou a partição da Polónia, dividindo todos os territórios que restavam da república com a Prússia e a Áustria .
Relações com o Japão
A Oriente, os russos começaram a contribuir no comércio de peles em Kamchatka e nas Ilhas Curilas. Isto cultivou o interesse russo em negociar abertamente com o Japão a sul para encontrar mantimentos e comida. Em 1783, uma tempestade levou o almirante japonês Daikokuya Kōdayū, à costa das Ilhas Aleutas, que, na altura, constituíam território russo. As autoridades locais russas ajudaram-no a ele e aos seus homens e, então, o governo russo decidiu utilizá-lo como enviado de comércio. A 28 de junho de 1791, Catarina teve uma audiência com Kōdayū em Czarskoe Selo. Subsequentemente, em 1792, o governo russo enviou uma missão comercial liderada por Adam Laxnab até ao Japão. O governo Tokugawa recebeu a missão, mas as negociações falharam.
Sistema bancário e finanças
Em 1768, foi incumbida ao Banco de Repartição a tarefa de criar as primeiras notas do governo russo, abrindo duas filiais em São Petersburgo e Moscovo em 1769. Depois seriam abertas várias filiais do banco em cidades menores. As notas eram atribuídas para pagamentos de quantias idênticas às das moedas que também eram entregues em troca de notas de banco. O surgimento destes rublos por parte da repartição foram necessários devido aos grandes custos que o governo tinha com o exército e que levaram a uma escassez de prata no tesouro da corte (as transacções, principalmente no que dizia respeito ao comércio internacional, eram feitas quase exclusivamente em prata e ouro). Os rublos da repartição circularam com o mesmo valor dos rublos de prata e criou-se um forte mercado para a conversão entre os dois. O uso destas notas manteve-se até 1849.
Catarina tinha a reputação de ser uma mecenas das artes, literatura e educação. O Museu Hermitage, que agora ocupa o Palácio de Inverno inteiro, começou a partir da colecção privada da imperatriz. Com o incentivo do seu factótum, Ivan Betskoi, escreveu um manual para a educação de crianças, inspirando-se nas ideias de John Locke, e fundou em 1764, o conhecido Instituto Smolny, onde estudavam jovens meninas da nobreza. Escreveu ainda comédias, ficção e uma autobiografia enquanto se correspondia com Voltaire, Diderot e d’Alembert, todos eles autores da primeira Enciclopédia que, mais tarde, cimentaram a sua reputação através da escrita. Os principais economistas da época, Arthur Young e Jacques Necker, tornaram-se membros estrangeiros da Sociedade Económica Livre seguindo a sugestão dela de se instalarem em São Petersburgo em 1765. Catarina também "roubou" os cientistas Leonhard Euler e Peter Simon Pallas de Berlim para a capital russa.
Educação
Catarina admirava os filósofos e a cultura ocidentais e queria rodear-se de pessoas que partilhavam as suas ideias dentro da Rússia. Acreditava que se podia criar um "novo tipo de pessoa" com a educação dos mais novos através do método europeu. Catarina acreditava que a educação podia modificar o espírito e as ideias russas para que estas se modernizassem. Para tal, era necessário desenvolver os indivíduos tanto intelectual como moralmente, fornecendo-lhes o conhecimento e as aptidões necessários para os dotar de responsabilidade cívica. Catarina nomeou Ivan Betskoy para seu conselheiro em questões de educação. Através dele, foi reunindo informação sobre a Rússia e outros países na área das instituições educativas. Também criou uma comissão formada por T.N. Teplov, T. con Klingstedt, F.G. Dilthey e o historiador G. Muller. Consultou os pioneiros da educação na Grã-Bretanha, principalmente o reverendo Daniel Dumaresq e o doutor John Brown. Em 1764, convidou Daniel Dumaresq a visitar a Rússia e integrou-o na comissão educacional. A comissão estudou os projectos reformistas que tinham sido levados a cabo por I.I. Shuvalov sob a orientação da imperatriz Isabel e do czar Pedro III e recomendaram a criação de um sistema de educação para todos os súbditos russos ortodoxos dos cinco aos dezoito anos, excluindo os servos. Contudo, nada foi feito e nenhuma proposta feita pela comissão foi posta em prática devido aos cortes da comissão legislativa. Em julho de 1765, Daniel Dumaresq escreveu numa carta dirigida ao doutor John Brown, que a comissão passava por problemas e recebeu como resposta uma longa carta onde Brown enviava sugestões muito generais e pouco profundas para as reformas sociais e educacionais na Rússia. Brown defendia que, num país democrático, a educação tinha de ser controlada pelo estado e ter como base um código de conduta educacional. Também deu grande importância à "educação apropriada e efectiva do sexo feminino". Dois anos antes, Catarina tinha ordenado Ivan Betskoy a criar um programa geral para a educação dos súbditos de ambos os sexos. Este trabalho destacava que a criação de um "novo tipo de pessoas" isoladas do ambiente atrasado russo. A criação da Casa do Abrigo de Moscovo (o orfanato de Moscovo) foi a primeira tentativa de atingir esse objectivo. Nela entraram crianças problemáticas e fruto de relações fora do casamento com o objectivo da forma que o estado achasse correcta. Visto que a Casa do Abrigo de Moscovo não foi criada como uma instituição do estado, esta dava oportunidade de experimentar as novas teorias educacionais. Contudo, este projecto não teve sucesso, principalmente devido à elevada taxa de mortalidade entre os alunos que impediu que muitas crianças vivessem tempo suficiente para verificar se se tinham tornado nos súbditos iluminados que o estado tanto desejava.
A aparente adopção completa de todas as coisas russas por parte de Catarina (incluindo a religião Ortodoxa) pode ter levado à indiferença que a imperatriz tinha com a religião. Não permitia que dissidentes edificassem capelas e acabou com o desacordo religioso depois da Revolução Francesa. Politicamente, Catarina explorou o cristianismo na sua política anti-otomana, promovendo o acolhimento e protecção de cristãos que se encontrassem sob as ordens do governo turco. Colocou restrições aos católicos romanos, principalmente os polacos e tentou regularizar e expandir o controle exercido pelo estado sobre eles. Mesmo assim a Rússia de Catarina acolheu um grande número de jesuítas expulsos na época de vários países europeus, incluindo Portugal.
Islão
Catarina tratou o Islão de várias maneiras durante o seu reinado. Entre 1762 e 1773, os muçulmanos foram expressamente proibidos de possuir servos ortodoxos e foram pressionados a converter-se à religião ortodoxa através de incentivos financeiros. Catarina prometeu obter mais servos de outras religiões e libertar prisioneiros religiosos se os muçulmanos se convertessem. A comissão legislativa de 1767 ofereceu vários lugares a pessoas que professavam abertamente a fé islâmica e prometeu proteger os seus direitos religiosos, mas acabaria por nunca o fazer. Muitos camponeses ortodoxos sentiam-se ameaçados por esta mudança súbita na política e queimaram mesquitas para demonstrar o seu descontentamento. Catarina escolheu integrar o Islão no estado em vez de o eliminar quando os protestos públicos contra a igualdade religiosa começaram a tornar-se cada vez mais violentos. Depois da publicação do édito "Tolerância Para Todas as Crenças" em 1773, os muçulmanos passaram a ter permissão para construir mesquitas e praticar todas as suas tradições, sendo a mais óbvia a peregrinação a Meca, algo que antes tinham sido proibidos de fazer. Catarina criou a Assembleia Espiritual Muçulmana de Orenburg para ajudar a regularizar as regiões habitadas por populações muçulmanas, bem como as suas práticas e ideais. Era a imperatriz quem fazia as nomeações para a assembleia e era ela, em conjunto com o governo, quem a financiava com o objectivo de controlar as práticas religiosas no império.
Judaísmo
A Rússia tratou frequentemente o judaísmo como uma entidade independente onde os judeus tinham um sistema legal e burocrático próprio. Apesar de o governo saber que o judaísmo existia, Catarina e os seus conselheiros não tinham uma verdadeira noção do que era um judeu, já que esse termo teve vários significados durante o seu reinado. O judaísmo foi uma religião minoritária e quase inexistente na Rússia até 1772. Quando Catarina concordou com a Primeira Partição da Polónia, os judeus foram tratados como se fossem uma facção independente da população devido à sua religião. Mantendo o estatuto que estes mantinham na Polónia, Catarina permitiu que os judeus se separassem da sociedade ortodoxa com certas restrições, taxando impostos mais altos a famílias judaicas. Se uma família se convertesse à religião ortodoxa, passava a estar isenta desta taxa. Os judeus que quisessem viver na sociedade ortodoxa tinham de pagar o dobro dos impostos que os seus vizinhos, mas se se convertessem à religião ortodoxa, passavam a ter permissão para entrar na classe mercantil e a adquirir quintas como qualquer outro cidadão livre russo.
Igreja Ortodoxa Russa
A Igreja Ortodoxa Russa não se saiu melhor que as suas homólogas estrangeiras de várias maneiras durante o reinado de Catarina que acabou o que Pedro III tinha começado. As terras da igreja foram apropriadas pela coroa e o orçamento de todos os mosteiros e bispados passou a ser controlado pelo Colégio Económico. O lucro de terras que antes pertenciam à igreja foi substituído por uma renda do estado. As rendas geralmente tinham um valor muito inferior aos anteriores lucros. A imperatriz fechou 569 dos 954 mosteiros e apenas 161 deles recebia dinheiro do estado. Apenas 400 000 rublos da antiga fortuna da Igreja foram devolvidos. Enquanto outras religiões (como o Islão) receberam convites para integrar a Comissão Legislativa, o clero ortodoxo não teve direito a um único lugar. O papel da igreja ortodoxa no governo foi reduzido drasticamente durante o reinado de Catarina.
Durante o seu reinado, Catarina teve vários amantes que colocava frequentemente em altas posições do governo enquanto se interessava por eles, enviando-os para longe com grandes propriedades, pensões e servos quando a paixão se apagava. A percentagem de dinheiro estatal gasto na corte aumentou de 10,4% em 1767 para 11,4% em 1781 e 13,5% em 1795. Catarina ofereceu 66 000 servos entre 1762 e 1772, chegando mesmo a oferecer 100 000 num só dia, a 18 de agosto de 1795. Ao mesmo tempo que a igreja a apoiava na esperança de recuperar as suas antigas terras, Catarina comprava apoios no governo através de promoções-relâmpago, podendo mesmo promover uma pessoa catorze vezes num curto período de tempo independentemente do mérito que esta pudesse ter. Assim, o governo estava cheio de criados leais à imperatriz. Após o caso amoroso com o seu amante e conselheiro Gregório Alexandrovich Potemkin ter acabado em 1776, este alegadamente passou a escolher candidatos para amantes da imperatriz que tivessem tanto beleza física como inteligência para a satisfazer (tais como Alexandre Dmitriev-Mamonov). Alguns destes homens amavam-na e ela sempre foi muito generosa com eles, mesmo depois de o romance terminar. Um dos seus amantes, Pyotr Zavadovsky, recebeu 50 000 rublos mais uma pensão de 5 000 rublos anuais e 4 000 servos na Ucrânia depois de ser dispensado. O último dos seus amantes, o príncipe Zubov, quarenta anos mais novo, provou ser o mais caprichoso e extravagante de todos. A dependência sexual da imperatriz levou a que nascessem várias lendas sobre ela.
Poniatowski
Sir Charles Hanbury Williams, o embaixador de Inglaterra na Rússia, ofereceu a Stanislaus Poniatowski um lugar na embaixada se ele conseguisse fazer de Catarina sua aliada. Pelo lado da mãe, Poniatowski era descendente da família Czartoryski, magnata da nobreza polaca. Catarina, de vinte e seis anos, e já casada há cerca de dez, conheceu o atraente jovem de vinte e dois anos em 1755, muito antes de se encontrar com os irmãos Orlov. Dois anos depois, em 1757, Poniatowski prestou serviço militar do lado inglês durante a Guerra dos Sete Anos enquanto mantinha uma relação próxima com Catarina. A imperatriz teve uma filha dele, Anna Petrovna, nascida em 1757, e reconhecida por Pedro III.
Orlov
Gregório Orlov, neto de um rebelde do Levantamento de Streltsy em 1698 contra Pedro, o Grande, distinguiu-se na Batalha de Zorndorf (25 de agosto de 1758), onde recebeu três feridas. Contrastava com o pró-prussianismo de Pedro com o qual Catarina discordava. Em 1759, Orlov e Catarina eram já amantes apesar de nenhum dos que sabiam tivesse informado o marido dela, o grão-duque Pedro. Catarina considerava Orlov útil e este acabaria por tornar-se instrumental no golpe de estado contra o czar em julho de 1761, mas Catarina sempre preferiu manter o título de imperatriz-viúva do que se casar com outro. Gregório Orlov e os seus três irmãos foram recompensados com o título de condes, dinheiro, espadas e outros presentes. Mas Catarina não se casou com Gregório que provou não saber nada de política e ser inútil quando lhe eram pedidos conselhos. Recebeu um palácio em São Petersburgo quando Catarina se tornou imperatriz.
Potemkin
Gregório Potemkin tinha estado envolvido no golpe de estado de 1762. Em 1772, os amigos próximos de Catarina informaram-na sobre os casos amorosos de Orlov com outras mulheres e ela dispensou-o. No inverno de 1773, a revolta de Pugachev tinha começado a tornar-se ameaçadora. O filho de Catarina, Paulo, começava também a ganhar apoio e ambos ameaçavam o seu poder. A imperatriz pediu ajuda a Potemkin (acima de tudo militar) e ele passou a dedicar-se inteiramente a ela. Em 1772, Catarina escreveu a Potemkin. Dias antes tinha sido informada sobre uma revolta na região do Volga e nomeou o general Aleksandr Bibikov para a parar, mas precisava dos conselhos estratégicos de Potemkin.
Apesar de a vida e reinado de Catarina serem marcados por grandes sucessos, acabaram com dois fracassos. O seu primo sueco, o rei Gustavo IV Adolfo, visitou-a em setembro de 1796, numa altura em que Catarina desejava arranjar um casamento entre ele e a sua neta Alexandra. O noivado deveria ter sido anunciado num baile dado na corte imperial a 11 de setembro, mas Gustavo Adolfo sentiu-se pressionado a aceitar o facto de que Alexandra não tinha intenções de se converter ao luteranismo e, apesar de ter ficado encantado com a jovem, recusou-se a aparecer no baile e voltou para Estocolmo. Catarina ficou tão enfurecida com esta atitude que a sua saúde começou a piorar. Apesar de tudo conseguiu recuperar suficientemente bem para começar a planear uma cerimónia onde iria passar o trono directamente para o seu neto Alexandre, excluindo assim o filho Paulo da sucessão, mas acabaria por morrer de um acidente vascular cerebral antes de oficializar o plano.
As atuais famílias reais da Grã-Bretanha, Dinamarca, Holanda e Espanha descendem de Catarina, a Grande. A avó paterna do príncipe Filipe, Duque de Edimburgo, a grã-duquesa Olga Constantinovna da Rússia, é tataraneta de Catarina, fazendo de seu filho Rei Charles III do Reino Unido, seu neto Guilherme, principe de Gales e seu bisneto Jorge de Gales; os dois primeiros na linha de sucessão trono do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte, Canadá, Austrália e Nova Zelândia, descendentes de Catarina, a Grande. A rainha Margarida II da Dinamarca e duplamente descendente de Catarina, a grã-duquesa Helena Pavlovna da Rússia, neta de Catarina, é a tataravó por via paterna de Margarida. A tataraneta de Catarina, a grã-duquesa Anastasia Mikhailovna da Rússia, é bisavó por via materna de Margarida. O rei Guilherme Alexandre dos Países Baixos é tataraneto de Ana Pavlovna da Rússia, neta de Catarina.
Em 2016, o perfil de Catarina, a Grande foi incluído na primeira edição do livro Histórias de Ninar para Garotas Rebeldes: Cem fábulas sobre mulheres extraordinárias, como uma das cem mulheres mais influentes.


