Citânia de Briteiros
A Citânia de Briteiros é um impressionante povoado fortificado da Idade do Ferro, localizado no topo do Monte de São Romão, em Guimarães, Portugal. Este sítio arqueológico de grande dimensão, com um núcleo urbano central e muralhas defensivas, é crucial para o estudo da cultura e organização urbana castreja no norte do país. As escavações revelaram uma complexa malha urbana com zonas públicas e privadas, diversas residências, balneários (incluindo a famosa Pedra Formosa) e um edifício central de reuniões, oferecendo um vislumbre da vida na proto-história.
Pontos-chave
- Sítio arqueológico da Idade do Ferro, classificado como Monumento Nacional.
- Exibe uma complexa organização urbana com ruas, áreas públicas e privadas.
- Contém vestígios de residências, balneários e um edifício central de reuniões.
- A Pedra Formosa, encontrada num dos balneários, é um achado notável.
- Fundamental para o estudo da cultura e organização urbana castreja no noroeste de Portugal.
A Citânia de Briteiros é um vasto povoado fortificado, com cerca de 24 hectares, situado estrategicamente no cume do Monte de São Romão, a 336 metros de altitude, com fácil acesso ao Rio Ave. Sua localização oferece excelente controle visual da área circundante e faz parte da paisagem montanhosa entre Guimarães e Braga.
Localização e Geografia
O sítio arqueológico da Citânia de Briteiros abrange aproximadamente 24 hectares, com uma área visitável de cerca de sete hectares. Situa-se no topo do Monte de São Romão, próximo às margens do Rio Ave, atingindo uma altitude de 336 metros. A escolha do local permitia um amplo controle visual da região e acesso a recursos hídricos. A colina integra o conjunto montanhoso da Falperra-Sameiro, entre os concelhos de Guimarães e Braga, a cerca de quinze quilômetros da sede de Guimarães. O acesso é feito via estradas municipais a partir da EN 101 e EN 310, passando por São Salvador de Briteiros, com a Estrada Nacional 309 correndo próxima ao sítio.
Importância e Conservação
Classificada como Monumento Nacional, a Citânia de Briteiros é um dos mais importantes povoados proto-históricos da Península Ibérica. Sua relevância reside nas suas dimensões, na monumentalidade das muralhas, na arquitetura dos edifícios e na organização urbana. Juntamente com a Citânia de Sanfins, é um local chave para o estudo da cultura castreja no Noroeste de Portugal, sendo também um símbolo da União de Freguesias de Briteiros - São Salvador e Briteiros - Santa Leocádia.
Estrutura Urbana
A Citânia de Briteiros possuía uma área central fortificada, a acrópole (cerca de 250 x 150 m), rodeada por múltiplas linhas de muralhas. Esta zona continha edifícios residenciais e espaços públicos, como a Casa do Conselho e os balneários. Uma rede de ruas ortogonais, incluindo dois caminhos principais, organizava o espaço. As áreas eram divididas em núcleos semelhantes a quarteirões, com clara distinção entre espaços privados e públicos. A rua principal, orientada de Sudoeste para Norte, conectava a área dos balneários ao ponto mais alto do povoado, com ruas secundárias que separavam os bairros.
Achados Arqueológicos (Espólio)
O sítio rendeu um rico espólio de cerâmica, vidro e metais. Destacam-se os fragmentos de cerâmica, incluindo contentores com diversos motivos decorativos, alguns com pinturas simples e outros de terra sigillata, com decorações incisas ou inspiradas na natureza, possivelmente importados da Península Itálica e da Gália. Uma lucerna (candelabro) influenciou as produções locais de iluminação. Um dólio romano com inscrição em latim foi encontrado em 1951. Os fragmentos de vidro, com tons esverdeados, amarelos, azuis, rosados e roxos, incluem uma taça canelada de vidro verde, datada do período alto-imperial romano, sugerindo que utensílios e contas de vidro eram importados.
A Citânia de Briteiros é um marco nos estudos arqueológicos nacionais e peninsulares. Sua história remonta ao século XVI, com registros de visitas e investigações que revelam sua ocupação desde o final do Neolítico/Calcolítico, passando pela Idade do Bronze, Idade do Ferro, período romano e ocupação posterior.
Primeiras Evidências e Antecedentes
A presença humana no Monte de São Romão pode ter se iniciado no final do Neolítico ou Calcolítico (3º-4º milênio a.C.), evidenciada pela arte rupestre. No entanto, vestígios de ocupação direta desse período não foram encontrados. A ocupação mais significativa surgiu no início do 1º milênio a.C., durante a Idade do Bronze Atlântico.
Fundação e Desenvolvimento do Castro
O castro foi provavelmente fundado entre os séculos V e III a.C. (segunda Idade do Ferro), com algumas estimativas apontando para cerca de 400 a.C. Vestígios de organização urbana anterior ao século II a.C. foram encontrados na Casa da Espiral, e uma estrutura doméstica da segunda Idade do Ferro, demolida na segunda metade do século I a.C., indica processos de reorganização urbana. Dada sua localização estratégica e vestígios mais antigos, a fundação pode ser anterior.
Expansão e Auge Populacional
O povoado, inicialmente de médio porte, expandiu-se significativamente a partir do século II a.C., atingindo sua extensão máxima no século I a.C., possivelmente abrigando milhares de habitantes. Esse crescimento, comum em outros povoados fortificados da região Douro-Minho, pode ter sido impulsionado por maior estabilidade e imigração. O desenvolvimento trouxe mudanças econômicas, culturais e organizacionais, com ampliação da mão de obra, integração de novas experiências e necessidade de uma estrutura hierárquica mais complexa. O acesso a recursos agrícolas e fluviais (piscicultura, cultivo, pastoreio, extração de madeira) foi crucial. A Citânia tornou-se um núcleo urbano central, administrando um vasto território e servindo como polo cultural e artístico.
Integração Romana
A conquista romana do território ocorreu por volta de 19 a.C., após cerca de duzentos anos de conflito. A Citânia de Briteiros manteve contato com regiões já romanizadas, como evidenciado por fragmentos de ânforas de vinho da Bética. A integração na esfera romana pode ter sido mais pacífica, facilitada por trocas comerciais e acordos, em vez de uma campanha militar direta, como sugerem as ligações comerciais e a ausência de registros de batalhas significativas na área.
Declínio e Abandono Gradual
As transformações trazidas pelos romanos, como novos modos de vida e as políticas de controle do imperador Augusto, levaram ao abandono gradual dos castros. Na Casa da Espiral, foram encontrados indícios de abandono na época de Augusto, embora o processo não tenha sido uniforme em todo o povoado. A principal fase de abandono ocorreu entre os séculos I e II d.C., com a povoação deixando de ser permanentemente habitada neste último século. Vestígios de obras em infraestruturas, como alicerces da muralha interior do século I d.C., ainda datam deste período de transição.
Ocupação Posterior e Legado
Nos séculos X ou XI, uma ermida dedicada a São Romão foi construída sobre ruínas da Idade do Ferro. Após seu desaparecimento, um cruzeiro marcou o local, e em 1853, uma nova Capela de São Romão foi erguida. Escavações em 2005 revelaram um aterro de entulhos do século XIX, possivelmente relacionado ao adro da capela. Uma escultura rupestre em forma de cruz, datada da Idade Média ou Moderna, também foi encontrada no Monte de São Romão, indicando a persistência de marcos religiosos na área.


