Cometa Halley
Cometa Halley, oficialmente designado 1P/Halley, é um cometa periódico, visível na Terra a cada 75–76 anos. É o único cometa de curto período que é regularmente visível a olho nu da Terra, e o único cometa a olho nu a aparecer nos céus duas vezes durante uma só geração humana. A última aparição dele foi em 1986, e seu retorno está marcado para 2061.
Halley foi o primeiro cometa a ser reconhecido como periódico. O senso comum a respeito de cometas, um legado de Aristóteles e que durou até a Renascença, era de que cometas eram distúrbios na atmosfera da Terra. A ideia foi descartada por Tycho Brahe, em 1577, que usou medidas da paralaxe para mostrar que cometas jaziam além da Lua. Muitos ainda não estavam convencidos de que cometas orbitavam o Sol, e acreditavam que eles seguissem uma trajetória reta através do Sistema Solar. Em 1687, Isaac Newton publicou sua Philosophiæ Naturalis Principia Mathematica, onde delineou as leis da física e do movimento. Seu trabalho sobre cometas, porém, ficou incompleto. Apesar de suspeitar que dois cometas que apareceram em 1680 e depois em 1681 eram o mesmo objeto antes e depois de passar pelo Sol (o que se provou mais tarde incorreto), ele não foi capaz de conciliar o movimento dos cometas com seu modelo.
O período orbital do Halley varia entre 74 a 79 anos desde 240 a.C.. Sua órbita ao redor do Sol é grandemente elíptica, com uma excentricidade orbital de 0,967. O periélio, ponto em que a órbita do cometa está mais próxima ao Sol, é de apenas 0,6 unidades astronômicas (UA). Seu afélio, sua maior distância ao Sol, é de 35 UA, grosseiramente a distância de Plutão do Sol. Pouco comum para um objeto no Sistema Solar, a órbita do Halley é retrógrada; ele orbita o Sol oposto à órbita dos planetas, ou no sentido anti-horário ao polo norte do Sol. Sua órbita é inclinada em 18° para a eclíptica, em grande parte para o sul da mesma. Por ser retrógrado, sua verdadeira inclinação é de 162°. Devido à sua órbita retrógrada, o cometa Halley tem uma das maiores velocidades relativas à Terra. Sua passagem em 1910 teve uma velocidade relativa calculada em 254,016 km/h. Como sua órbita se aproxima da Terra em dois lugares distintos, o cometa também está associado a duas chuvas de meteoros: a Eta Aquáridas, mais ou menos em maio, e a Oriônidas, mais ou menos em outubro. O cometa é o gerador da chuva de Oriônidas. Observações feitas em 1986 sugerem que ele pode perturbar a chuva de meteoros de Eta Aquáridas, mas não necessariamente ser sua geradora.
As missões das sondas Vega e Giotto deram aos cientistas planetários suas primeiras visões da estrutura e da superfície do Halley. Como todos os cometas, assim que se aproxima do Sol, seus componentes voláteis (aqueles com baixo ponto de ebulição, como a água, o monóxido de carbono, o dióxido de carbono e outros gelos voláteis) começam a sublimar da superfície, vindos do núcleo. Isso leva o cometa a desenvolver uma cabeleira, ou atmosfera, de cerca de 10 mil quilômetros de diâmetro. A evaporação de gelo sujo libera partículas de poeira, que viajam pelo gás para longe do núcleo. Moléculas de gás na cabeleira absorvem a luz solar e então a reirradia em diferentes comprimentos de onda, um fenômeno conhecido como fluorescência, em que partículas de poeira espalham a luz. Os dois processos são responsáveis por tornar a cabeleira visível. Como uma fração das moléculas de gás da cabeleira são ionizadas pela radiação ultravioleta do sol, a pressão do vento solar (uma corrente de partículas carregadas emitida pelo Sol) puxa os íons da cabeleira até formarem uma cauda, que pode se estender por até 100 milhões de quilômetros pelo espaço. Mudanças na corrente do vento do solar podem causar eventos de desconexão, onde a cauda pode se separar completamente do núcleo.
A aparição de Halley em 1986 foi a menos favorável já registrada. O cometa e a Terra estavam em lados opostos do Sol em fevereiro de 1986, criando as piores circunstâncias para os observadores da Terra nos últimos 2.000 anos. A máxima aproximação do Halley foi de 0,42 UA. Com o aumento da poluição luminosa da urbanização, muitas pessoas nem conseguiram ver o cometa. Foi possível observá-lo em áreas fora das cidades com a ajuda de binóculos. O cometa alcançou seu maior brilho quando era quase invisível no hemisfério norte, em março e abril de 1986. A aproximação do Halley foi detectada pela primeira vez pelos astrônomos David C. Jewitt e G. Edward Danielson em 16 de outubro de 1982, usando o Telescópio Hale de 5,1 metros no Monte Palomar e uma câmera CCD. A primeira pessoa a observar visualmente o cometa em seu retorno de 1986 foi o astrônomo amador Stephen James O'Meara em 24 de janeiro de 1985. O'Meara usou um telescópio caseiro de 24 polegadas no topo do Mauna Kea para detectar o cometa de magnitude 19,6. Em 8 de novembro de 1985, Stephen Edberg (então servindo como coordenador para observações amadoras no Jet Propulsion Laboratory da NASA) e Charles Morris foram os primeiros a observar cometa Halley a olho nu na sua aparição 1986.
Antes de 1066
Pode ter havido um registro do Halley em 467 a.C., mas não se tem certeza. Um cometa foi registrado pelos antigos gregos entre 468 e 466 a.C. e a data, local, duração e a chuva de meteoros associada indicam ter sido o Halley. Segundo Plínio, o Velho, no mesmo ano um meteorito caiu na cidade de Egospótamo, na Trácia. Ele o descreve como marrom, do tamanho de uma carroça. Crônicas chinesas também mencionam um cometa no mesmo ano. O primeiro registro que certamente era do Halley foi feito em 240 a.C., na crônica chinesa Registros do Historiador ou Shiji, que descreve um cometa que apareceu no leste e se moveu para o norte. O único registro de sua aparição em 164 a.C. foi encontrada em dois fragmentos de tábuas de argila da Babilônia, que hoje estão no British Museum. A aparição de 87 a.C. foi registrada em tábuas babilônicas que dizem que o cometa podia ser visto "dia após dia", por cerca de um mês. Acredita-se que essa aparição esteja representada em moedas do reinado do rei Tigranes, o Grande, da Armênia, onde é possível ver de acordo com os autores, "uma estrela com uma cauda curva", que representaria a passagem do Halley em 87 a.C.. O rei teria visto o cometa passando perto do Sol em 6 de agosto daquele ano e para os armênios significaria uma nova era para o Rei dos Reis.
1066
Em 1066, o cometa foi visto na Inglaterra e considerado um presságio. Mais tarde, naquele ano, o rei Haroldo II morreu na Batalha de Hastings e o cometa foi considerado um mau presságio. Porém, para os inimigos de Haroldo, foi considerado um bom presságio, especialmente para o homem que o derrotou, Guilherme, o Conquistador. O Halley está representado na Tapeçaria de Bayeux como uma estrela de fogo e registros descrevem que ele era quatro vezes maior que Vênus e brilhava como 1/4 do brilho da Lua. Essa passagem também foi registrada na Crônica Anglo-Saxônica. Eilmer de Malmesbury, um monge beneditino inglês, pode ter observado o Halley em 989 e assim escreveu em 1066:
1145–1378
A passagem de 1145 foi registrada pelo monge Eadwine Psalter, da Cantuária. Alguns pesquisadores atribuem a passagem de 1222 a inspiração que Genghis Khan precisava para iniciar suas conquistas na Europa. A passagem de 1301 pode ter sido avistada por Giotto, que a representou como a Estrela de Belém, um cometa de cor de fogo, na seção da natividade da Cappella degli Scrovegni, completada em 1305. Em 1378, a passagem foi registrada nos Annales Mediolanenses.
1456
Quando o Halley apareceu em 1456, o Império Otomano invadiu o Reino da Hungria, culminando com o Cerco de Belgrado em julho do mesmo ano. Em uma bula pontifícia, o Papa Calisto III ordenou que orações especiais fossem feitas para a proteção da cidade. Em 1470, o estudioso Bartolomeo Platina assim escreveu em A Vida dos Papas: Uma estrela ardente apareceu durante vários dias, os matemáticos declararam que seguiria pestilência grave, escassez e alguma grande calamidade. Calisto, para evitar a ira de Deus, pediu súplicas de que, se os males fossem iminentes para a raça humana, ele converteria todos os turcos, os inimigos da cristandade. Ele também ordenou, para instigar Deus por contínua súplica, que uma chamada deveria ser feita pelos sinos para chamar os fiéis ao meio-dia para ajudar por suas orações, os que estão envolvidos em batalhas com os turcos.
1531–1835
Os periódicos retornos do Halley foram objetos de investigação científica a partir do século XVI. As três passagens, de 1531 a 1682, foram registradas por Edmond Halley, que o fez prever o retorno de 1759. Correntes de vapor foram observadas durante a passagem de 1835, registrada por outro astrônomo, Friedrich Wilhelm Bessel, que sugeriu que os jatos de material em evaporação poderiam alterar a órbita do cometa.
1910
Em 1910, o cometa se tornou um objeto visível a olho nu por volta de 10 de abril e chegou ao periélio em 20 de abril. Ele foi notável por várias razões: foi a primeira aproximação na qual existem fotografias e a primeira onde dados de espectroscopia foram obtidos. Além disso, o cometa chegou a uma distância relativamente próxima de 0,15 UA, proporcionando uma visão espetacular. De fato, em 19 de maio, a Terra passou pela cauda do cometa. Uma das substâncias descobertas na cauda pela análise espectroscópica foi o gás tóxico cianogênio, que levou o astrônomo Camille Flammarion a afirmar que, quando a Terra passasse pela cauda, o gás "impregnaria a atmosfera e possivelmente acabaria com toda a vida do planeta." Seu pronunciamento levou muitas pessoas em pânico à compra de máscaras de gás e duvidosas "pílulas anti-cometa" e "guarda-chuvas anti-cometa". Na realidade, como outros astrônomos foram rápidos em apontar, o gás é tão difuso que o mundo não sofreu efeitos negativos da passagem pela cauda.


