Conservadorismo
Conservadorismo ou conservantismo é uma filosofia social que defende a preservação das instituições, costumes e valores sociais tradicionais no contexto da cultura e da civilização. O primeiro uso estabelecido do termo em um contexto político originou-se com François-René de Chateaubriand em 1818, durante o período de restauração de Bourbon que procurou reverter as políticas da Revolução Francesa. O termo, historicamente associado com a política de direita, desde então tem sido usado para descrever uma ampla gama de pontos de vista: diferentes grupos de conservadores podem escolher diferentes valores tradicionais para preservar.
Embora os conservadores às vezes reivindiquem filósofos tão antigos quanto Aristóteles e Cícero como seus antepassados, o primeiro teórico político explicitamente conservador é geralmente considerado ser Edmund Burke. Em 1790, quando a Revolução Francesa ainda parecia prometer uma utopia sem sangue, Burke previu em sua obra Reflections on the Revolution in France — e não por sorte, mas por uma análise da rejeição da tradição e dos valores herdados — que a revolução decairia para terror e ditadura. Em seu desprezo racionalista pelo passado, ele acusou os revolucionários de estarem destruindo as instituições testadas pelo tempo sem nenhuma garantia de que poderiam substituí-las por algo melhor. Para o conservador, as tradições são a base de qualquer atuação política e social, pois elas oferecem ao agente algo sobre o qual a sociedade pode operar, criticar e, consequentemente, mudar. Sendo assim, é preciso respeitar um princípio seguro de conservação e um princípio seguro de transmissão, sem excluir um princípio de melhoria.
Conservadorismo autoritário
O conservadorismo autoritário refere-se a regimes autocráticos que retratam a autoridade como absoluta e inquestionável. Movimentos conservadores autoritários demonstram forte devoção à religião, tradição e cultura, ao mesmo tempo em que expressam um nacionalismo fervoroso semelhante a outros movimentos nacionalistas de extrema direita. Exemplos de ditadores conservadores autoritários incluem o Marechal Philippe Pétain na França, o Regente Miklós Horthy na Hungria, o General Ioannis Metaxas na Grécia, o Rei Alexandre I na Iugoslávia, o Primeiro-Ministro António de Oliveira Salazar em Portugal, o Chanceler Engelbert Dollfuss na Áustria, o Generalíssimo Francisco Franco na Espanha, o Rei Carol II na Romênia, e o Czar Boris III na Bulgária.
Conservadorismo liberal
O conservadorismo liberal é uma variante do conservadorismo que é fortemente influenciada por posturas liberais. Ele incorpora a visão liberal clássica de intervenção econômica mínima, significando que os indivíduos devem ser livres para participar do mercado e gerar riqueza sem a interferência do governo. No entanto, os indivíduos não podem ser totalmente confiáveis para agir de forma responsável em outras esferas da vida; portanto, os conservadores liberais acreditam que um estado forte é necessário para garantir a lei e a ordem, e instituições sociais são necessárias para cultivar um senso de dever e responsabilidade para com a nação. Originalmente oposto ao capitalismo e à revolução industrial, a ideologia conservadora em muitos países adotou o liberalismo econômico, especialmente nos Estados Unidos, onde essa ideologia é conhecida como conservadorismo fiscal.
Conservadorismo nacional
O conservadorismo nacional prioriza a defesa da identidade nacional e cultural, muitas vezes baseado em uma teoria da família como modelo para o estado. O conservadorismo nacional é orientado para a defesa da soberania nacional, que inclui imigração limitada e uma forte defesa nacional. Na Europa, os conservadores nacionais são geralmente eurocéticos. O filósofo político Yoram Hazony defendeu o conservadorismo nacional em seu trabalho A Virtude do Nacionalismo (2018).
Conservadorismo paternalista
O conservadorismo paternalista é uma vertente do conservadorismo que reflete a crença de que as sociedades existem e se desenvolvem organicamente e que os membros dentro delas têm obrigações uns com os outros. Há uma ênfase particular na obrigação paternalista (noblesse oblige) daqueles que são privilegiados e ricos em relação às partes mais pobres da sociedade, o que é consistente com princípios como dever, organicismo e hierarquia. Seus defensores frequentemente enfatizam a importância de uma rede de segurança social para lidar com a pobreza, apoiando uma redistribuição limitada de riqueza juntamente com a regulação governamental dos mercados no interesse tanto dos consumidores quanto dos produtores.
Conservadorismo reacionário
O conservadorismo reacionário, também conhecido como reacionismo, se opõe a políticas para a transformação social da sociedade. No uso popular, o reacionismo refere-se a uma perspectiva política conservadora tradicionalista de uma pessoa que apoia o status quo e se opõe a mudanças sociais, políticas e econômicas. Alguns adeptos do conservadorismo, em vez de se opor à mudança, buscam retornar ao status quo ante e tendem a ver o mundo moderno de forma negativa, especialmente em relação à cultura de massa e ao secularismo, embora diferentes grupos de reacionários possam escolher diferentes valores tradicionais para reviver. Alguns cientistas políticos, como Corey Robin, tratam as palavras reacionário e conservador como sinônimos. Outros, como Mark Lilla, argumentam que reacionarismo e conservadorismo são visões de mundo distintas. Francis Wilson define conservadorismo como "uma filosofia da evolução social, na qual certos valores duradouros são defendidos dentro do quadro da tensão do conflito político".
Conservadorismo religioso
O conservadorismo religioso aplica principalmente os ensinamentos de religiões particulares à política—às vezes apenas proclamando o valor desses ensinamentos, outras vezes fazendo com que esses ensinamentos influenciem as leis. Na maioria das democracias, o conservadorismo político busca manter estruturas familiares tradicionais e valores sociais. Conservadores religiosos geralmente se opõem ao aborto, ao comportamento LGBT (ou, em certos casos, à identidade), ao uso de drogas, e à atividade sexual fora do casamento. Em alguns casos, os valores conservadores estão fundamentados em crenças religiosas, e os conservadores buscam aumentar o papel da religião na vida pública.
Dentro destes princípios gerais — defesa da tradição, das particularidades nacionais, regionais e locais, dos corpos intermédios e da autoridade, contra o colectivismo, o individualismo e o racionalismo político —, o conservadorismo tem assumido diferentes variantes de país para país, até pela sua rejeição dos modelos universalistas. Frequentemente, é feita uma contraposição entre o conservadorismo anglo-saxônico, mais liberal, e o conservadorismo continental, mais autoritário e estatizante.
Alemanha
No princípio do século XIX, as tendências conservadoras na Alemanha podem ser encontradas nos autores da Escola Histórica do Direito, como Friedrich Carl von Savigny. Essa escola de pensamento (inspirada, entre outros, por Burke e de Maistre) considerava que as instituições só poderiam ser entendidas enquanto produto de desenvolvimento histórico e da continuidade ao longo dos séculos. Um exemplo dessas teses foi a oposição de Savigny à ideia de criar um "Código Civil" para a Alemanha (à maneira francesa) argumentando que não se poderia substituir o conjunto de leis produto de séculos de história por um único código legal. Entre outros pensadores dessa escola, temos também Adam Müller (1779-1829) e, décadas mais tarde, Otto von Gierke (1841-1921), estudiosos das leis e instituições medievais, e defensores do papel e importância das associações e corpos intermédios, por oposição ao individualismo do jusnaturalismo racionalista.
Brasil
O conservadorismo brasileiro esteve presente desde os primórdios do país. O Visconde de Cairu, ainda no início do século XIX, foi um dos primeiros e principais divulgadores e tradutores das obras de Adam Smith e Edmund Burke no Brasil. Bernardo Pereira de Vasconcelos, fundador do Partido Conservador e organizador do movimento denominado "Regresso", forjou, na década de 1830, um modelo político que erradicou as guerras civis e ajudou a pôr, afinal, o Estado nacional brasileiro de pé. Denominado por Nabuco como "gigante intelectual", Vasconcelos teve contato com Burke, mas também bebeu argumentos "conservadores" em outros autores aparentados, como David Hume e Alexander Hamilton, nos quais recolheu argumentos favoráveis à centralização e que não podiam ser acusados de absolutistas.
Estados Unidos da América
Embora o actual movimento conservador nos EUA tenha surgido largamente nos anos 1950, Russel Kirk traçou, em The Conservative Mind, uma história do pensamento conservador norte-americano, começando nos Federalistas como John Adams, Alexander Hamilton e Fischer Ames (defensores de um governo federal forte e do papel das elites e críticos da Revolução Francesa e do populismo agrário jeffersoniano), e passando por vários autores, como os tradicionalistas sulistas (como John C. Calhoun) ou os "novos humanistas". É frequente entre os autores conservadores considerar a Revolução Americana como "conservadora", por ter sido feita pelos colonos em nome dos seus direitos tradicionais como cidadãos ingleses (que alegadamente estariam a ser violados pelo rei) e não em nome de supostos direitos abstractos universais (como em França).
França
A Revolução Francesa suscitou a oposição de vários sectores, desde aristocratas a camponeses de regiões como a Vendeia. Entre os intelectuais da época que a ela se opuseram temos Rivarol, Louis de Bonald e o saboiano De Maistre. Após a Restauração, Bonald e De Maistre irão ser os principais ideólogos da facção tradicionalista / "ultra", defendendo o absolutismo real, a teocracia católica, a ordem hierárquica da sociedade e o primado da experiência e da História sobre a razão abstracta como base para a política. Nessa altura, é editado o jornal Le Conservateur, dirigido por Chateaubriand, que funciona como órgão dos ultras (à época a facção dominante no Parlamento).
Itália
Na Itália, que foi unificada por liberais e radicais (Risorgimento), os liberais, não os conservadores, emergiram como o partido da direita. Após a Segunda Guerra Mundial, na Itália, os partidos conservadores foram representados principalmente pelo partido Democracia Cristã (DC), cujo governo formou a fundação da República até a dissolução do partido em 1994. Oficialmente, a DC recusava a ideologia do conservadorismo, mas em muitos aspectos, por exemplo em relação a valores familiares, era um típico partido social conservador. Em 1994, o magnata da mídia e empresário Silvio Berlusconi fundou o partido conservador liberal Forza Italia (FI). Berlusconi ganhou três eleições em 1994, 2001 e 2008, governando o país por quase dez anos como presidente do conselho de ministros. Forza Italia formou uma coalizão com o partido de direita regional Lega Nord enquanto estava no governo.
Reino Unido
O conservadorismo britânico deriva largamente de Edmund Burke e da sua obra "Reflexões sobre a Revolução na França" (1790), onde este defende que as constituições não devem ser o produto da razão abstracta (como as francesas) mas sim de uma lenta evolução histórica (como a constituição inglesa), considerando a sociedade como sendo não apenas um contrato entre os vivos, "mas entre os vivos, os mortos e os que estão por nascer". Contra "a Liberdade" proclamada pela Revolução como um absoluto, Burke faz a defesa das liberdades, das prerrogativas particulares e tradicionais dos diversos grupos sociais e locais, que se equilibravam mutuamente na ordem pré-revolucionária.


