Pesquisa · Mapa mental

Atentado contra Jair Bolsonaro

Em 6 de setembro de 2018, o então deputado federal Jair Bolsonaro sofreu um atentado durante um comício que promovia sua campanha eleitoral para a presidência do Brasil. Enquanto era carregado em meio a uma multidão de apoiadores, o deputado sofreu um golpe de faca na região do abdômen, desferido por Adélio Bispo de Oliveira.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 24/06/2026
01

Contexto político

O país atravessa um período de polarização política. Em 2013, grandes manifestações populares, conhecidas como Jornadas de Junho, foram o cume da crise de representatividade política e despertaram a politização de grande parte da população. O povo estava mais politicamente alfabetizado para a eleição presidencial de 2014. Nesse período de eleição, acirravam-se os ânimos entre petistas e antipetistas, tendo a crise econômica no país como agravante. Novos grupos políticos, com ideologias diversas, entraram no debate, aumentando a polarização. As redes sociais contribuíram para o aumento da polarização. No final de 2013, a direita se uniu em torno da questão da corrupção. Os que estavam na esquerda se atentaram aos programas sociais e serviços públicos. À medida que os partidos políticos começaram a colocar essas questões na frente e no centro de suas plataformas, a esquerda e a direita se separaram mais ainda. Em agosto de 2016, o impeachment de Dilma Rousseff dividiu as linhas partidárias, tornando a polarização maior ainda.

02

Ataque

Em 19 de agosto de 2018, Adélio Bispo chegou a Juiz de Fora vindo de Florianópolis, Santa Catarina, para, segundo ele, encontrar um emprego. Ele se hospedou em uma pensão e trabalhou como garçom em um restaurante por quatro dias. Adélio começou a planejar o atentado após saber da ida de Bolsonaro à cidade por meio de um outdoor anunciando a presença do candidato. Antes de cometer o ataque, ele fotografou os locais onde Bolsonaro estaria, como a Câmara Municipal de Juiz de Fora e a Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage.:11 A programação da campanha presidencial de Jair Bolsonaro para o dia 6 de setembro previu sua chegada a Juiz de Fora às 11 horas. Bolsonaro visitaria o Hospital Ascomcer e participaria de um almoço com lideranças empresariais. Em seguida, faria um ato público em frente à Câmara Municipal, no Parque Halfeld, e depois iria para a Praça da Estação, onde realizaria seu comício. Bolsonaro tinha a maior das equipes de segurança entre os presidenciáveis, com 21 policiais federais, o máximo que um candidato a Presidente da República tinha direito. 13 agentes acompanhavam Bolsonaro no momento do ataque. Outros 50 policiais militares reforçavam a segurança do ato em Juiz de Fora.

03

Recuperação

Bolsonaro, carregado por seus seguranças, foi encaminhado ao serviço de emergência da Santa Casa de Misericórdia de Juiz de Fora por volta das 15h40. A facada na região do abdômen causou três lesões no intestino delgado e uma perfuração no intestino grosso, com contaminação fecal. Além disso, houve uma lesão na veia mesentérica superior. A perda de cerca de dois litros de sangue provocou um choque hipovolêmico. A diretora técnica da Santa Casa, Eunice Dantas, disse que, por questão de centímetros, Bolsonaro não foi golpeado em "uma região com muitos vasos mais calibrosos" e que, se o intestino grosso fosse atingido frontalmente, uma artéria seria afetada e a situação seria "muito pior". Cerca de 15 minutos após chegar ao hospital, Bolsonaro foi submetido a uma laparotomia exploradora, que é uma abertura na barriga para verificar os órgãos afetados. Durante essa cirurgia, a equipe médica estancou o sangramento e suturou as lesões no intestino delgado. Também foi feita uma colostomia temporária para desviar o fluxo de fezes e evitar infecções nos ferimentos do intestino grosso. A cirurgia durou três horas e Bolsonaro recebeu quatro bolsas de sangue.

04

Autor

O responsável pelo atentado foi preso em flagrante pela Polícia Federal e identificado como Adélio Bispo de Oliveira, nascido em Montes Claros e com então 40 anos. O agressor agiu sozinho e afirmou ter cometido o crime "a mando de Deus". Ele possui transtorno delirante persistente e apresenta "alucinações de cunho religioso, persecutório e político que se manifestam frequentemente". Ao longo de sua vida, Adélio trabalhou em diversas cidades, incluindo Montes Claros, Uberaba, Santa Catarina e Curitiba, acumulando 39 empregos em 18 anos. Ele atuou em uma fábrica de cosméticos, onde participou de manifestações após a falência da empresa, além de ter trabalhado em outros empregos como em farmácias, em um restaurante japonês e como servente de pedreiro. No final da década de 1990, ingressou na Igreja da Fé de Uberaba, tornando-se obreiro em 1998, e, nos anos seguintes, pastor em uma igreja missionária de Montes Claros.

05

Investigações

Logo após o incidente, a Polícia Federal abriu um inquérito contra Adélio Bispo, acusando-o de "atentado pessoal por inconformismo político" conforme a Lei de Segurança Nacional. Após uma audiência de custódia, a prisão em flagrante foi convertida em preventiva e, em 8 de setembro, ele foi transferido para a Penitenciária Federal de Campo Grande. O ministro extraordinário da Segurança Pública Raul Jungmann disse que três pessoas foram investigadas, mas que a PF estava trabalhando com a hipótese de que Adélio agiu sozinho. A faca usada no crime foi adquirida pela PF de um vendedor de frutas que a obteve de uma testemunha que pegou a faca ensanguentada do chão.:11–12 O Instituto Nacional de Criminalística apontou traços do DNA de Bolsonaro na arma, confirmando que foi a utilizada no ataque.:12 Adélio esteve uma vez no .38 Clube e Escola de Tiro, em São José, em julho de 2018, onde Carlos e Eduardo Bolsonaro são membros associados, treinando por menos de uma hora. A Polícia Federal considerou insuficientes os indícios para afirmar que sua ida ao clube teria sido motivada exclusivamente pela associação com os filhos de Bolsonaro e concluiu que mesmo se sua entrada pudesse ter tido a intenção de prejudicar alguém, teria se limitado ao planejamento.:43, 45

Defesa de Adélio Bispo

Adélio Bispo foi defendido por quatro advogados após o atentado contra Bolsonaro: O jornal Estado de Minas classificou como divergentes as declarações dos advogados sobre a identidade do contratante. Zanone Júnior afirmou ter sido contratado por um homem da mesma igreja de Adélio, em Montes Claros. Inicialmente o associando às Testemunhas de Jeová e depois à Igreja Quadrangular, que negaram qualquer envolvimento. O advogado declarou que foi contratado para atuar nos primeiros dias da defesa e disse ter aceitado o caso como parte de uma "estratégia de marketing". Em um depoimento à Polícia Federal, Zanone relatou que o acordo previa o pagamento de 25 mil reais mensais até o fim do julgamento, mas que, na prática, recebeu apenas 5 mil reais. Pedro Possa disse que o financiador arcou com os custos da defesa por "amor ao próximo":

06

Julgamento

Em 14 de junho de 2019, o juiz Bruno Savino decidiu que Adélio Bispo era inimputável com base em um laudo que o diagnosticou com transtorno delirante persistente e converteu sua prisão preventiva em internação provisória por tempo indeterminado. Adélio continuou detido na Penitenciária Federal de Campo Grande, pois o juiz considerou que sua internação em um hospital de custódia e tratamento psiquiátrico "não se mostra aconselhável" e que sua ida para o sistema prisional comum "lhe acarretaria concreto risco de morte". Além disso, disse que a unidade de segurança máxima em Mato Grosso do Sul oferece condições adequadas para o tratamento do réu. O juiz também observou que Adélio havia ameaçado matar Jair Bolsonaro e Michel Temer, indicando "alta periculosidade", e determinou que um novo exame fosse realizado após três anos para reavaliar esse risco; em 2022, uma nova perícia médica constatou que o agressor ainda representa perigo para a sociedade e que "permanece com diagnóstico clínico de transtorno delirante persistente, com alucinações de cunho religioso, persecutório e político que se manifestam frequentemente", agravado por Adélio se recusar a receber medicação.

07

Repercussão

No Brasil

Agressões a qualquer cidadão que expõe suas ideias são inaceitáveis, atentam contra a Democracia e a ordem constitucional. Não se pode transigir com atos que ponham em risco a liberdade, nem com a violência e a criminalidade em geral. O agressor tem de ser exemplarmente punido. No dia do atentado, o presidente Michel Temer disse que o ataque era "triste" e "lamentável para a nossa democracia", que o "episódio serve de exemplo para aqueles que pregam a intolerância em suas campanhas" e que "se Deus quiser o candidato Bolsonaro passará bem, temos certeza que não haverá nada mais grave, esperamos que não haja nada mais grave". O presidente do Senado Eunício Oliveira declarou que "agressões a qualquer cidadão que expõe suas ideias são inaceitáveis, atentam contra a Democracia e a ordem constitucional", além de defender a punição do perpetrador. O presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia classificou o ataque como lamentável e repugnante e que a sociedade não deveria tolerar esse tipo de evento. A presidente do Supremo Tribunal Federal Cármen Lúcia demonstrou preocupação "com a garantia da liberdade dos candidatos e dos eleitores, qualquer que seja a posição ou ideologia adotada por quem quer que seja".

Internacional

A Organização das Nações Unidas, por meio do Escritório para a América do Sul do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), condenou o esfaqueamento e notou o crescimento das tensões nas eleições na América Latina, manifestando preocupação com as ameaças a candidatos a cargos executivos e legislativos. A Human Rights Watch afirmou que as diferenças políticas e ideológicas devem ser resolvidas por meio do diálogo e que as autoridades brasileiras devem garantir que o responsável pelo crime seja punido. A imprensa internacional repercutiu o esfaqueamento de Bolsonaro. O jornal estadunidense The New York Times relatou o evento e apresentou Bolsonaro como um outsider político que é uma "figura profundamente polarizadora", que costuma fazer comentários depreciativos sobre minorias e é nostálgico da ditadura militar. O argentino Clarín destacou a comoção dos apoiadores do candidato e que a repercussão do evento excedeu a do concorrente Geraldo Alckmin, que possuía cinco minutos de propaganda gratuita na televisão. As redes de televisão CNN e BBC noticiaram o ataque em suas programações.

Na internet

O incidente teve uma grande repercussão no Twitter, onde o tópico Jair Bolsonaro esteve presente nos Trending Topics de doze países e as menções ao candidato aumentaram 2 500% nas horas após o ataque. Por volta das 16h40, o atentado foi citado 11,8 mil vezes por minuto. Entre os assuntos discutidos estavam a veracidade e a gravidade da facada, seu impacto na eleição, o apoio de Bolsonaro ao porte de armas, manifestações de solidariedade ao candidato e a responsabilização da esquerda. Também foram feitas comparações com o ataque a tiros na caravana de Lula em março de 2018, o assassinato da vereadora Marielle Franco, a série de drama político House of Cards e o assassinato do presidente dos Estados Unidos John F. Kennedy. A revista Piauí relatou que, desde o início de 2018, só a prisão de Lula gerou mais interesse no Google entre os temas relacionados às eleições. Segundo a revista, o incidente gerou mais repercussão do que as mortes de Eduardo Campos, candidato na eleição presidencial de 2014, e de Teori Zavascki, que era o relator da Lava Jato no Supremo, em janeiro de 2017. A facada também chamou mais atenção do que o impeachment de Dilma Rousseff.

08

Notícias falsas e teorias conspiratórias

O ataque contra Bolsonaro gerou desinformação e teorias da conspiração tanto pelos apoiadores e opositores do político. Essas teorias foram compartilhadas por congressistas, dirigentes partidários, influenciadores digitais de esquerda e de direita, assim como por Bolsonaro e seus filhos. Entre as alegações, estão as de que o ataque foi forjado para beneficiar Bolsonaro na eleição e de que houve envolvimento de terceiros no atentado. Segundo Isabela Kalil, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, as teorias emergiram pelo ataque ser "uma história intrincada, cheia de complicações e detalhes complexos" e porque os "inquéritos judiciais [relacionados ao ataque] necessariamente correm em sigilo."

Alegações de que o ataque foi forjado

Dúvidas sobre se o ataque de fato ocorreu ganharam popularidade rapidamente no Twitter. Uma análise da Fundação Getúlio Vargas em 7 de setembro de 2018 relatou que 40,5% dos retuítes feitos nas horas seguintes do atentado questionavam sua veracidade. As alegações falsas incluem afirmações de que o ataque foi forjado para favorecer Bolsonaro eleitoralmente, criminalizar a esquerda ou permitir que ele tratasse um câncer de estômago sem que fosse revelado. Além disso, a ausência de sangue visível nas imagens do ataque, causada pelo fato da hemorragia ser interna, alimentou essas teses. O termo "fakeada", junção das palavras fake (falso em inglês) e facada, foi adotado para referir-se a essas teorias conspiratórias e figurou nos Trending Topics do Twitter quando Bolsonaro passava por uma cirurgia decorrente do esfaqueamento.

Alegações de que houve um mandante ou ajuda de terceiros

Bolsonaristas difundiram teorias da conspiração alegando que Adélio Bispo recebeu ajuda de outras pessoas ou obedeceu a um mandante. Essas teorias buscam associar a tentativa de assassinato à esquerda e também foram disseminadas por Bolsonaro, seus filhos, políticos e influenciadores de direita. A filiação de Adélio ao PSOL até 2014 foi usada como evidência de que Bolsonaro fora alvo de uma conspiração comunista. No dia do ataque, o cantor Netinho escreveu na sua conta do Instagram que o partido teria ordenado o atentado. Diversas figuras da direita, incluindo deputados federais como Regina Villela, Eduardo Bolsonaro, Bia Kicis, Bibo Nunes, Marco Feliciano e Marcos do Val, o vereador Carlos Bolsonaro e o escritor Olavo de Carvalho, acusaram o deputado federal Jean Wyllys de contatar Adélio e tê-lo recebido em seu gabinete.

09

Representação na cultura

O filme Dark Horse (ainda sem título oficial em português), dirigido por Cyrus Nowrasteh, retratará o atentado contra o então candidato à presidência Jair Bolsonaro, interpretado pelo ator Jim Caviezel.

Vídeos recomendados

Fontes consultadas

Continue pesquisando