Palácio Nacional de Mafra
O Palácio Nacional de Mafra, também conhecido como Convento de Mafra, é um monumento nacional português, localizado em Mafra, Portugal.
Os trabalhos da sua construção iniciaram-se em 1717 por iniciativa do rei D. João V, em virtude de uma promessa que fizera em nome da descendência que viesse a obter da rainha D. Maria Ana de Áustria. Em 22 de outubro de 1730 foi realizada a sagração da Basílica. A conclusão da totalidade do imóvel ocorreu quase uma década mais tarde. As estantes da Biblioteca foram construídas em 1771 e os livros transferidos para esse espaço em 1794. O edifício foi projetado por João Frederico Ludovice, ourives, arquiteto e engenheiro militar suábio, e edificado pelo engenheiro-mor Custódio Vieira, ocupa uma área aproximada de quatro hectares. Em conjunto com o Jardim e a Tapada, esta antiga propriedade real soma cerca de 1 200 hectares. Há autores que levantam a hipótese de o convento capucho erigido em Mafra a partir de 1717/1718 ser um edifício distinto do Real Edifício de Mafra, cuja construção se terá iniciado apenas em 1729/1730. Colocam igualmente em causa a origem da construção no cumprimento de uma promessa régia em troca de descendência, bem como a atribuição da autoria única do projecto a Ludovice, que, de resto, já havia sido contestada em 1962, por Ayres de Carvalho, Conservador do Palácio Nacional de Mafra desde 1947.
Basílica
A basílica, inspirada nas grandes igrejas de Roma, é um templo de grandes dimensões, sendo a obra de maior referência no reinado de D. João V, a partir da qual muda o paradigma da artes em Portugal e se difunde o chamado barroco joanino. O Palácio e a sua basílica é representativa da necessidade de afirmação política da monarquia portuguesa, inserindo-a no quadro das grandes monarquias europeias, em estreita relação com a Santa Sé, como forma da afirmação de Portugal restaurado, da grandeza imperial ultramarina e do poder absoluto de D. João V, poder este que lhe advinha do seu direito natural e divino. A capela-real do Palácio de Mafra detém a dignidade de basílica por aplicação da Bula de Clemente XI, de 7 de Novembro de 1716, originalmente destinada à capela do Paço da Ribeira e que confere às capelas reais de Portugal essa categoria.
Convento
Em 1711, no cumprimento de um voto de ação de graças pelo nascimento de um herdeiro, D. João V autoriza a construção de um convento destinado aos frades capuchos da Ordem de São Francisco, prevendo-se inicialmente a construção de um pequeno cenóbio para 13 frades. Com a decisão de se construir, em Mafra, o novo Palácio Real e de aí integrar a dupla função de Residência de Estado e de casa religiosa, os projetos iniciais para albergar um número cada vez maior de frades (13, 40, 80) foram abandonados e adotou-se um novo modelo construtivo, ao Modo Nostro jesuítico, permitindo albergar uma comunidade de 300 frades. Projetado por João Frederico Ludovice, que estivera ao serviço dos Jesuítas da Igreja de Jesus, em Roma, e onde estudou e conviveu com vários arquitetos de renome, dirigiu a obra (integrada no complexo do Palácio-Convento), partilhando a sua conclusão com o seu filho João Pedro Ludovice, também arquiteto, formado no estaleiro e Casa do Risco, de Mafra.
Palácio
Bibliografia coeva refere que D. João V fez a promessa de mandar edificar um convento em Mafra em agradecimento pelo nascimento do primeiro herdeiro; outras versões referem que por se ter curado de uma doença que padecia. Crê-se que o nascimento da princesa Maria Bárbara determinou o cumprimento da promessa, autorizando-se a construção de um pequeno convento em 1711. O projeto original para a construção do convento no Alto da Vela, em Mafra, foi abandonado; bem como a ideia de se edificar em Lisboa um novo Palácio Real, para o qual Filippo Juvarra havia realizado vários esboços. Cerca de 1714 D. João V concentra em Mafra a construção do novo Palácio Real, anexo ao qual existiria o Convento franciscano. Contrata Johann Friedrich Ludwig (conhecido como João Frederico Ludovice), ourives com conhecimentos de arquitetura e com experiência em Roma. Nos anos seguintes desenvolve-se a fase de projeto.
Aposentos
Algumas das principais divisões do palácio são: sala de Diana, sala do trono, torreão norte, oratório norte, galeria principal, sala das descobertas, sala dos destinos, sala da guarda, sala da bênção, sala dos camaristas, torreão sul, oratório sul, sala de D. Pedro V, sala de música, sala de jogos, sala da caça, sala de jantar, salão grande dos frades, celas fradescas e a biblioteca. Sala de Diana, a designação deve-se à pintura do teto que representa Diana, a deusa da caça, obra da autoria de Cirilo Volkmar Machado (1748-1823), no âmbito da campanha decorativa executada a partir de 1796 por encomenda do Príncipe Regente D. João, futuro rei D. João VI. Pintura inspirada num quadro de Domenichino ("Caçada de Diana"), existente na Galeria Borghese em Roma.
Biblioteca
É a mais importante sala do complexo palaciano-monástico, tanto pela sua dimensão, como pelo fim a que se destina: ser um centro de conhecimento de todas as principais matérias intelectuais em voga na cultura barroca. Quando o edifício foi "inaugurado" com a sagração da basílica, em 1730, este espaço estava ainda em construção. Provisoriamente a biblioteca foi instalada em duas grandes salas do terceiro piso conventual do lado do poente e, apesar de D. João V nunca ter visto a sua instalação, grande parte do acervo foi constituído no seu reinado, fruto de uma política de incorporações consistente. Embora seja uma Biblioteca Real, fruível pelos membros da corte, dos estudos e da comunidade religiosa, a instalação ocorre sob orientação dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho. Em 1771 deu-se início à construção das estantes, desenhadas por Manuel Caetano de Sousa (1738-1802), arquiteto da Casa Real, tendo as mesmas sido executadas entre 1773 e 1776. A partir de 1792, fizeram-se alguns acabamentos e a transferência de livros, mesmo com as estantes inacabadas, sem os douramentos, marmoreados e os medalhões com os bustos de escritores, conforme adequado à sua tipologia.
O espólio do Palácio Nacional de Mafra inclui peças provenientes do Convento de Nossa Senhora e Santo António, predominantemente do século XVIII, que inclui pintura, escultura, metais, paramentos, entre outros, encomendados por D. João V aos principais centros de arte europeus e peças originárias do Paço Real que são essencialmente do século XIX e que refletem a funcionalidade do palácio como residência de lazer ligada à caça praticada pela família real. A coleção de metais inclui os utensílios religiosos de uso na basílica como relicários, castiçais, cruzes, turíbulos e navetas, caixas para hóstias, lampadários executados em Itália, tocheiros e gradeamento em ferro e bronze da capela do Santíssimo Sacramento da autoria de René Michel Slodtz (escultor) ou das banquetas de altar encomendadas por D. João VI e executadas sob a direção do escultor João José de Aguiar no Arsenal de Lisboa. Existem também objetos de uso quotidiano do convento, como castiçais e palmatórias, bacias, jarros e bilhas, braseiras, entre outros. A coleção é completa com os objetos de uso palaciano, como candeeiros, castiçais, travessas, pratos e utensílios de cozinha.
Pintura
Para os altares da Real Basílica, para as diversas capelas e áreas conventuais, como a portaria e o refeitório, dom D. João V encomendou uma coleção de pintura religiosa que se conta entre as mais significativas do século XVIII. Avultam, neste assinalável conjunto, obras dos pintores italianos Masucci, com uma “Sagrada Família”, tela preferida do rei D. João V, Giaquinto, Trevisani ou Battoni e de portugueses bolseiros em Roma como Vieira Lusitano e Inácio de Oliveira Bernardes, bolseiros do rei D. João V na Academia de Portugal em Roma. A coleção de pintura abrange Mestres da Escola Italiana da 1ª metade do século XVIII, com telas que pertenciam aos altares da basílica e às principais salas do Convento. Também Sebastiano Conca (1680-1764) com a tela “Imaculada Conceição”, tema de particular devoção da ordem franciscana. Mafra tornou-se o maior centro difusor do gosto romano da época, quer pela quantidade de obras, quer pela diversidade de artistas que para aqui trabalharam. A coleção integra ainda pintores portugueses do século XIX, como António Manuel da Fonseca (1796 – 1890), Silva Porto, Carlos Reis ou João Vaz, pertencentes à coleção pessoal de D. Fernando II, D. Luís e D. Carlos. De destacar, também as marinhas executadas pelo rei D. Carlos e um retrato de D. Manuel II, pintado por José Malhoa em 1908 quando da sua subida ao trono.
Escultura
A coleção de escultura compreende toda a estatuária da basílica, encomenda joanina a grandes mestres italianos, entre os quais se contam Lironi, Monaldi, Bracci, Maini, Corsini, Rusconi e Ludovisi, constituindo a mais significativa coleção de escultura barroca italiana fora de Itália, constituída por 58 estátuas de mármore de Carrara, a qual inclui ainda os seus estudos em terracota, bem como a produção da Escola de Escultura de Mafra, aqui criada no reinado de D. José I sob a direção do mestre italiano Alessandro Giusti, e por onde passaram importantes escultores como Machado de Castro.
Ourivesaria
A coleção inclui ourivesaria civil e religiosa muito diversificada, de origem portuguesa, italiana e também britânica, datada dos séculos XVIII e XIX. Cálices e relicários do século XVIII de mestres italianos constituem parte da coleção. No âmbito do palácio, o espólio compreende bacias, castiçais, leiteiras, escrivaninhas.
Têxteis/paramentos
Para ornamentar a Real Basílica de Mafra, D. João V fez encomenda de ornamentos e paramentos em França e em Itália (Génova e Milão). A coleção é composta por paramentos nas cinco cores litúrgicas (carmesim, branco, preto, roxo, verde). Segundo especificação do rei, os paramentos deveriam ser de “…seda, não adamascada nem lavrada, mas sim forte, e de muita dura […] bordados a seda cor de ouro a mais parecida que puder ser com o mesmo ouro". A importância desta coleção deve-se também ao grande número de peças que a compõem. Como exemplo, o paramento usado na procissão do Corpo de Deus, tem 25 casulas, 8 dalmáticas, 12 capas bordadas, 70 pluviais, para além de panos de estante, capas de missal, pano de púlpito, umbelas, entre outros. Para a maior parte dos conjuntos existiam ainda dosséis, estandartes, pavilhões de sacrário, etc. Foi ainda encomendada toda a “roupa branca” de sacristia, como alvas, roquetes, cotas, toalhas, corporais, sanguíneos, etc.
Mobiliário
Do mobiliário da época Joanina pouco resta pois a maior parte do mobiliário, tapeçarias e obras de arte foram transportadas aquando da ida da Corte para o Brasil na época das invasões francesas, nunca tendo regressado da colónia, tendo sido leiloado em 1890 e com destino incerto, após a instauração da república no Brasil em 1889. Assim, os ambientes atuais do palácio são fundamentalmente do século XIX, bastante diversificados, predominando o estilo Império e o mobiliário romântico. No palácio real, destacam-se uma cama de aparato Império, em mogno e com bronzes, as respetivas mesas de cabeceira de meados do séc. XIX, adquirida pela rainha D. Maria II, três cadeiras profusamente entalhadas em pau-santo e ainda uma credência entalhada e dourada assinada por José Aniceto Raposo (1756-1824), notável entalhador e inventor. Quanto ao mobiliário conventual, consiste essencialmente em camas, bancos, mesas e estantes pertencentes às celas fradescas, e que foram posteriormente utilizados pela Corte após a extinção das Ordens Religiosas. Destacam-se três estantes do mestre entalhador da Casa das Obras e Paços Reais António Ângelo, encomenda de D. João VI para o coro do convento da basílica e um mostrador da antiga botica, um dos poucos exemplares do século XVIII existentes em Portugal.
Cerâmica
A coleção de cerâmica divide-se no núcleo conventual, com peças em faiança branca para uso quotidiano (pratos, taças, galheteiros, púcaros, etc.), fabricadas em olarias locais, com a inscrição MAFRA. Foram encomendadas e pagas por D. João V para os 300 frades que habitaram o Real Convento de Mafra. Da antiga botica conventual, existem alguns canudos e mangas para as preparações medicinais. O outro núcleo, relativo ao palácio, compreende cerâmica utilitária e decorativa proveniente da Casa Real, destacando-se a porcelana decorativa de origem francesa e oriental dos séculos XVIII e XIX.
A água utilizada no Jardim do Cerco é proveniente de 32 captações superficiais existentes na Tapada de Mafra, as quais integravam um complexo sistema hidráulico. O transporte de água era assegurado por um encanamento em telhas de meio canal assentes em muros de alvenaria enterrados ou sobrelevados, com 5.402 metros de extensão, que permitia abastecer um tanque de pedra, designado por Lago das Omnias. A partir deste equipamento, parte da água era transferida para um poço com 13 metros de profundidade e com a capacidade de 156,5 m3. A água era elevada pelos alcatruzes de uma nora monumental, entrando numa caleira central assente sobre a arcaria, composta por 13 arcos, com cerca de 50 metros de extensão e 4 metros de altura.
Na sua globalidade o edifício está razoavelmente bem conservado devido às suas características construtivas que permitem uma grande resiliência. A última grande intervenção de conservação ocorreu pelos anos de 1999-2000, tendo as coberturas sido impermeabilizadas a cobre, as fachadas tratadas e pintadas e sido restauradas as caixilharias de portas e janelas. Destaca-se, no ano de 2018-2020 o restauro das aparelhagens sineiras de Mafra, com 119 sinos, incluindo os sinos e mecanismos de dois carrilhões do século XVIII. Contudo, desde o ano 2000 a manutenção tem sido pontual e, atualmente, o edifício apresenta diversos problemas de conservação, sobretudo nas caixilharias de madeira, e pela existência de infiltrações. Em janeiro de 2020, a Direção-Geral do Património Cultural (DGPC) divulgou a informação de que investiria cerca de 31 mil euros na reparação de janelas e na instalação de um sistema anti-pombo no Palácio Nacional de Mafra, para evitar infiltrações. No entanto, a obra não avançou.
Foi classificado como Monumento Nacional pelo Decreto de 10-01-1907, DG, n.º 14, de 17-01-1907 (classificou o Convento de Mafra); e pelo Decreto de 16-06-1910, DG, n.º 136, de 23-06-1910 (classificou a Basílica de Mafra). Foi inscrito na Lista do Património Mundial da Humanidade pela UNESCO, na 43.ª Sessão do Comité do Património Mundial, a 7 de julho de 2019, realizada em Baku, Azerbaijão. A Inscrição deste Bem Cultural na Lista UNESCO do Património Mundial equipara-o, por força da lei e para todos os efeitos, à classificação de Monumento Nacional, incluindo todo o palácio-convento, Jardim do Cerco e Tapada, com uma área classificada de 1,213.17 ha acrescidos de 693.239 ha de Zona Especial de Proteção.


