Criação Original
Criação Original, por vezes chamado Conhecimento de Zande (Zand-āgāhīh) é uma obra escrita em pálavi cujo conteúdo compreende uma coleção enciclopédica de cosmogonia e cosmologia zoroástrica e um pequeno relato da história da lendária dinastia caiânida e Eranxar naquele tempo. Também existe um Ṣad dar-e Bondaheš, uma obra consideravelmente tardia em persa que contém uma miscelânea de 100 capítulos sobre religião, morais, lendas e liturgia zoroastrista.
A obra está preservada em duas recensões distintas. A primeira, mais breve e potencialmente mais corrompida, é conhecida como Bundahišn Indiano ou Bundahišn Menor (IBd.). Seu nome provém da sexta palavra da primeira linha da recensão: Zand [ī] āgāh ī nazdist abar bundahišnīh ī Ohramazd ud patyārag ī gannāg mēnōg, ou seja, Conhecimento de Zande, que é primeiro sobre a Criação Original de Aúra-Masda e o ataque do Espírito Mal. O primeiro manuscrito com a melhor e mais completa recensão foi levada à Índia do Irã em cerca de 1870 e assim foi batizada Bundahišn Maior ou Bundahišn Iraniano. A introdução da recensão maior indica que nenhum dos nomes já usados para descrevê-la é seu nome original. Na íntegra a introdução diz: ān < ī> zand āgāhīh, nazdist abar *bundahišnīh ī Ohrmazd ud petyāragīh ī gannāg mēnōg, pas abar čiyōnīh ī gēhān ud dām az bundahišnīh tā frazām [IBd. aqui: ī tan ī pasēn], čiyōn az dēn ī māzdēsnān paydāg, pas abar xīr *ke *gēhān dārēd, pad wizārišn ī čēīh ud čiyōnīh, ou seja, Conhecimento de Zande; primeiro sobre a criação original de Aúra-Masda e o (contra-)ataque do Espírito Mal; então sobre a natureza do mundo e as criaturas da Criação Original até o fim [Que é o Corpo Final], como é revelado na religião dos cultuadores de Masda; então sobre as coisas que o mundo contém, com uma interpretação de sua essência e natureza. D. Neil MacKenzie sugeriu, embora afirme que é improvável, que o primeiro *bundahišnīh pode ser lido *bunyaštīh, ou seja, a fundamentalidade de Aúra-Masda.
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Os atuais manuscritos da Criação Original indiana derivam de dois códices de miscelâneas de textos pálavis, K. (Copenhague) 20 e H. (Haugue) 6, ambos do final do século XIV e começo do XV e ligeiramente incompletos, e 19 folios soltos (agora K20b) de datação mais antiga. A organização dos capítulos da versão indiana é diferente nos dois códices, e três estão completamente ausente no H6, sugerindo que pode ter sido copiado de um manuscrito já danificado. O primeiro códice a ser levado à Europa por Anquetil-Duperron foi uma copiada do K20 em Surate em 1734. Deste, Anquetil publicou sua tradução em Paris em 1771. Em 1820, K20 e K20b foram levados para Copenhague por Rask e estão agora guardados na biblioteca universitária local. Westergaard publicou uma cópia litografada do texto do K20 em 1851 e desta Haug traduziu os primeiros três capítulos em 1854 e Spiegel várias passagens em 1860. Uma tradução completa por Windischmann foi feita em 1863.
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É provável que a obra foi produzida por redatores diferentes, mas é impossível dizer inclusive a data de sua primeira compilação. Há várias referências aos conquistadores árabes muçulmanos do Império Sassânida e seu desgoverno e irreligião, o que poderia indicar uma origem pós-islâmica, mas também é incerto se essas informações foram posteriormente adicionadas ou não. Vários estudiosos presumem que os capítulos finais (XXVI até XXXVI) são póstumos, enquanto a obra como um todo era, nas palavras de W. B. Henning, "uma obra original sobre cosmologia na qual os dispersos ensinamentos do Avestá foram reunidos e colocados em sistema por um autor que, vivendo possivelmente no fim da época sassânida, possuía conhecimento enciclopédico da literatura avéstica". O autor da Criação Original também tinha conhecimento da literatura científica grega que chegou ao Irã com os sassânidas, como o conteúdo do capítulo XXVIII que apresenta grande similaridade com o tratado hipocrático Sobre os Sete Ciclos Diários (De hebdomadibus), ou o conteúdo astronômico do capítulo II, que além de possuir visões quase pre-históricas, nas palavras de D. Neil MacKenzie, também possui elementos da ciência grega e indiana. Segundo Henning, "não há dúvida de que o autor sabia perfeitamente bem que a lua é mais próxima da terra do que as estrelas fixas; para dizê-lo, no entanto, contra a autoridade das Escrituras, teria marcado ele como um herege."
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A primeira fonte da compilação, como frequentemente se declara, foi a religião (dēn), como registrado nas escrituras. Repetidamente atribui-se a um anônimo "Ele", talvez o Criador. As fontes em si não são citadas, mas algumas podem ser citadas no zande sobrevivente, ou seja, a tradicional tradução e comentário pálavi do Avestá. Por exemplo, o capítulo XXXI, sobre as terras de Eranxar (o Império do Irã), segue de perto a primeira seção do Vendidade pálavi, mas altera vários termos e topônimos de modo a conciliar a visão de mundo o Império Sassânida precoce com o texto avéstico e a realidade pós-islâmica do Irã. O capítulo IX, que lista montanhas, claramente se baseia no Iaste 19, do qual nenhum zande sobreviveu. O capítulo XI B, sobre os 17 tips de "água", é uma expansão do pálavi Iasna 38.3-5. Uma comparação do conteúdo remanescente da Criação Original iraniana com o do perdido Dāmdād nask do Avestá, como esboçado no pálavi Dencarde, livro VIII capítulo 5, também revela semelhanças. Não é mais possível distinguir inteiramente, entretanto, o material original de acréscimos póstumos, se foram glossas singulares ou seções inteiras. Esforços têm sido feitos por vários estudiosos, notavelmente Nyberg e Zaehner, para identificar passagens que evidenciam uma origem dentro da heresia zurvanita. Em um nível mais mundano, o capítulo IX fornece um bom exemplo do esforço ocasional de editores posteriores, cujas várias notas foram incorporadas ao texto, para identificar os dados tradicionais (e até mesmo míticos) da Avestá com dados geográficos reais dentro de seus próprios conhecimentos.
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Segundo estimado por West, a versão indiana da obra tinha, muito aproximadamente, 13 000 palavras: na sua versão completa possui menos da metade da extensão da versão iraniana. Dos 36 capítulos em que o último é geralmente dividido, a versão indiana contém apenas partes de 22 e estão de algum modo confusos. Justi e West deram a algumas seções de capítulos números separados, cada tradução continha trinta e quatro (diferentes) capítulos, aos quais Justi anexou um trigésimo quinto não canônico de uma transcrição de um Pazande do versão indiana. Na seguinte lista de conteúdos, os capítulos da versão indiana são numerados em algarismos e letras romanas, após a edição de B. T. Anklesaria. Os números das seções correspondentes da tradução de West da versão indiana aparecem entre parênteses em algarismos arábicos. O conteúdo dos capítulos sem títulos somente aparece traduzido: I. (1) A criação original de Aúra-Masda e o ataque do Espírito Maligno


