Descolonialidade
Descolonialidade ou pensamento descolonial é uma escola de pensamento utilizada essencialmente por movimentos intelectuais latino-americanos, asiáticos e africanos. Tem como objetivo libertar a produção de conhecimento da epistemologia eurocêntrica, realizando uma critica à suposta universalidade atribuída ao conhecimento ocidental e ao predomínio da cultura ocidental. As perspectivas descoloniais veem essa hegemonia como a base do imperialismo ocidental nos dias de hoje. Assim, o pensamento descolonial busca não apenas questionar como também construir alternativas através do conhecimento que valorizem grupos subalternizados, na busca por uma sociedade igualitária.
O movimento descolonial abrange diversas formas de teoria crítica articuladas por várias camadas de pensamento e atravessando perspectivas de diferentes autores, tendo ganhado maior destaque no meio acadêmico a partir do século XX e derivando de persistentes lutas políticas, como a dos movimentos sociais índigenas e a de movimentos negros ao redor do globo. Entre os principais autores e textos referenciados na teoria descolonial temos Gayatri Chakravorty Spivak, crítica e teórica da literatura que escreveu o famoso ensaio "Pode o Subalterno Falar?" onde a autora denuncia a posição do intelectual ocidental, que se supondo o sujeito universal do conhecimento renega ao sujeito de Terceiro Mundo a posição de um Outro subalterno, propagando a violência colonial e epistêmica. Para Spivak, portanto, o subalterno é o sujeito que não pode falar, que não é retentor de sua própria autodeterminação intelectual. Além de Spivak, outro expoente dos estudos descoloniais é o filósofo político e psiquiatra francês Frantz Fanon, que em sua obra construiu uma teoria descolonial guiada pelos princípios da psicologia, psicanálise e marxismo, trazendo reflexões sobre a gênese do sujeito racializado e as múltiplas articulações da violência racial em um mundo marcado pelo colonialismo.
Constantemente a descolonialidade acaba por ser confundida com o pós-colonialismo, descolonização e o pós-modernismo, porém, os teóricos descoloniais traçam distinções nas definições em relação a essas vertentes correlatas. De acordo com Walter Mignolo, o pós-colonialismo é frequentemente incluído nas práticas gerais de oposição por pessoas não brancas, intelectuais do Terceiro Mundo ou grupos étnicos. A descolonialidade — tanto como uma abordagem analítica quanto programática — “se movimenta para longe e além do pós-colonial” porque “a crítica e a teoria do pós-colonialismo são um projeto de transformação acadêmica, dentro da academia”. Tal questão se mantém sujeita às discussões, em virtude de alguns estudiosos pós-coloniais que refutam a crítica e a teoria pós-colonial, apontando os atributos de serem tanto um projeto analítico (acadêmico, teórico e epistêmico), quanto uma posição programática (prática e política). Essa divergência é um exemplo da ambiguidade "às vezes perigosa, às vezes confusa e geralmente limitada e inconsciente do uso do termo" [pós-colonialismo] que tem sido aplicado à análise da expansão colonial e de sua descolonização, em contextos como a Argélia, os Estados Unidos e o Brasil do século XIX.
Descolonização
A descolonização é geralmente, no âmbito político e histórico, entendida como o fim do período de dominação territorial, principalmente no sul global, por potências europeias. Os estudiosos da descolonialidade afirmam que há distinção entre os dois termos e que o colonialismo não desapareceu com a descolonização formal. O termo descolonial pode ser compreendido como uma "contraposição à colonialidade", e "o descolonial seria uma contraposição ao colonialismo, já que o termo descolonización é utilizado para se referir ao processo histórico de ascensão dos Estados-nação, após terem fim as administrações coloniais". É importante perceber as diferenças entre os aspectos históricos, geográficos e socioeconômicos da colonização em suas diversas manifestações pelo globo. Todavia, a colonialidade — no sentido de sua composição segmentada em classes socioeconômicas e políticas, racializadas e de gênero, segundo um padrão eurocêntrico conceitual — era comum a todas as formas de colonização. A descolonialidade desafia e se opõe a essa estratificação eurocêntrica que se manifesta antes da descolonização de jure e, por decorrência do que foi mencionado acima, se mantém de várias formas, devido às influências que advém do colonialismo não terem cessado com as independências teóricas adquiridas. Gandhi na Índia, Fanon na Argélia, Mandela na África do Sul e o movimento zapatista do início do século XX no México são todos exemplos de projetos com características que estão em conformidade com a Descolonialidade, mas que ocorreram antes da Descolonização, posto que, a descolonialidade pode ser compreendida como uma "prática de oposição e intervenção, que surgiu no momento em que o primeiro sujeito colonial do sistema mundo moderno/colonial reagiu contra os desígnios imperiais que se iniciou em 1492".
Pós-modernismo
O conceito de modernidade é complementar à colonialidade. A colonialidade é chamada de “o lado mais sombrio da modernidade ocidental" . E os aspectos problemáticos da colonialidade são frequentemente negligenciados ao descrever a totalidade da sociedade ocidental, cujo advento é, em vez disso, repetidamente enquadrado como a introdução da modernidade e da racionalidade, um conceito que vem sendo criticado por pensadores contemporâneos pela perceptível incoerência. No entanto, essa crítica acontece principalmente no ambiente da história da Europa e da história das ideias da Europa. Embora pensadores contemporâneos reconheçam a natureza problemática das noções de modernidade e racionalidade, esses pensadores frequentemente se esquecem do fato de que a modernidade, como conceito, surgiu quando a Europa se definiu como o centro do mundo, e aqueles que são vistos como periféricos são tidos assim por efeito desse referencial de autodefinição. Resumindo, assim como a modernidade, a uma vez denominada pós-modernidade constantemente acaba por reproduzir a 'falácia eurocêntrica' fundamental para a construção desses conceitos. Portanto, ao contrário de criticar os terrores da modernidade, o pensamento descolonial critica a modernidade e a racionalidade eurocêntricas por causa do 'mito irracional' que elas dissimulam. As abordagens descoloniais buscam, desse modo, fazer da epistemologia uma arma política para aqueles que estão nas margens.
Quijano resume os objetivos da descolonialidade da seguinte maneira: reconhecer que a instrumentalização da ideia de razão pela matriz colonial do poder produziu paradigmas distorcidos no âmbito do conhecimento e apodreceu as promessas libertadoras da modernidade. Com esse reconhecimento, realizou e realiza a destruição da colonialidade global do poder. Outros casos de análises descoloniais contemporâneas são as práticas e conceituações em constante expansão do feminismo e da teoria queer, bem como programas de estudos étnicos (ver estudos da branquitude) em vários níveis educacionais. Desde programas de informação e educação que tratam dos temas culturais descoloniais em bibliotecas escolares, esses voltados para público infantil e/ou adolescente, até programas universitários de longa duração. Estudiosos que estão acostumados com o uso da análise e que falham em reconhecer a conexão entre política, ou descolonialidade, e a produção do conhecimento — entre programática e analítica — são aqueles com maior possibilidade de reproduzirem a aceitação da modernidade, do capitalismo, do liberalismo e do pensamento individualista.


